Escritas

Lista de Poemas

Loucura




Desespero ansioso,
Desânimo sepulcral,
Espectro num abismo,
De olhar fixo e vazio,
De coração selado,
Quebrado.

Alma arreada fugida,
Os gritos de terror,
Contínuos e lancinantes,
Ecoam em arrepios,
Alma presa na masmorra,
Da vã intolerância.

Os pesadelos reais,
Fantasmas de preto,
A deambularem,
Na escuridão estéril,
Onde a luz se esvaiu,
Há muito tempo.

O labirinto onde jaz,
Perdida a consciência,
Numa viagem de ida sem volta,
Ao avesso da humanidade,
Agora desvendado,
Desencarnado.

Os segredos escondidos,
Agora violados, esventrados,
Aviltados pela demência,
Engolidos de vez pelo todo,
Diluídos no esquecimento dos elementos,
No caos telúrico existencial,
Mergulhados na matéria negra,
Da metafísica sensorial.

Lx, 10-11-2007
👁️ 609

Aflição Outonal



O frio chegou,
E a chama apagou.

A luz esbatida,
E a alma dorida.

O vento exaltou,
E o lobo uivou.

A lareira apagada,
E a voz magoada.

A chuva caiu,
E a mulher pariu.

Um olhar sofrido,
E o desejo cumprido.

Mais um infeliz,
Um pobre petiz.

Enxugado de luz,
Já cheio de pus.

Sempre tão ébrio,
Imolado pelo tédio.

Tão escuro ficou,
Nada contemplou.

Tudo desabou,
E pouco restou.

Lx, 12-11-2008
👁️ 589

Anseio Primaveril




O frenesim dos pardais,
Perfeito.
O desabrochar das flores,
Perfeito.
As andorinhas ao alto,
Perfeito.
O bafo quente do Sol,
Perfeito.
Os odores exalados do campo,
Perfeito.
O vestir das árvores tão verde,
Perfeito.
A brisa fresca ao fim do dia,
Perfeito.
A Primavera chegou uma vez mais,
Perfeita, desejada e bela.
Tocou indelével no meu coração,
E ele chorou de alegria,
Ao abrir a janela à vida,
Inundando de aura luz,
A alma perdida,
De comoção.

Lx, 23-3-2009

👁️ 647

A Doença Do Corpo – A Morte



Quando a força se esvai,
Aos poucos e poucos,
Lentamente, devagar.
Quando ainda ontem podia andar,
Enérgico, esbelto e assaz,
Egocêntrico, egoísta e jovem,
Inteligente, equilibrado e mordaz,
Atlético, imortal e feliz.
Hoje jaz deitado e entrevado,
Impotente, enfezado e sujo,
Indesejado, insalubre e dorido,
Introvertido, Infeliz e mortal.
Desiste ingloriamente resignado,
Desmiolado, rejeitado e esquecido,
Desonrado, desconhecido e cansado,
Autómato não autónomo,
Monótono de olhar estarrecido,
Vazio, baço e sem claridade.
A carne já em chaga,
Purulenta e decomposta,
Exposta aos elementos finais,
Putrefacta,
Pela terra a arfar,
E o cheiro Deus meu,
E o cheiro que exala!

Lx, 8-9-2009
👁️ 700

Simplicidades Minimalistas



Onde se encontra o subtil?
Na subtileza do desabrochar.
Onde mora a beleza?
No coração carente.
Onde fica o Paraíso?
No tempo pendente.
Onde está a omnisciência?
No âmago do ser.
Onde nasce o amor?
No cuidar sentido.
Onde brota a razão?
No nosso ressentimento.
Onde para o bom senso?
No correr do tempo.
Onde anda a luz?
Na gota do orvalho.
Onde ensina o mestre?
No cume da montanha.
Onde se fixa o olhar?
No infinito do mar.
Onde paira a música?
No sopro do vento.
Onde estávamos todos?
Nas estrelas a brilhar.

Lx, 6-12-2009
👁️ 604

Áurea Solar




O Sol brilha quente,
Lisonjeador e afortunado,
Aquece as almas doridas,
Afaga-nos o corpo desnudado.

Ente querido criador,
Dás esperanças esperançado,
Às vidas que permitiste gerar,
Deambulando sob alçado.

Pela Terra a quem poupaste,
Ser teu regaço de chamas,
Agora esventrada à dor atroz,
Lancinante em voraz agonia.

Decalcada de almas sós,
Embriagadas com mil quimeras,
Voláteis sentimentalistas,
Vagueiam proscritas e infames.

Rogamos-te ó Sol,
Carrasco de primogénitos,
Tal como outrora precioso,
Ergamos as mãos ao alto.

Em uníssono suplicamos,
A luz da tua indulgência,
Apaziguadora e terna,
Sobre os nossos corações.

Frios e cansados,
Há muito quebrados,
Ansiosos pela fulgura,
De estrela mãe tão pura.

Lx, 3-10-2008
👁️ 645

Insignificâncias



Incógnitas insignificâncias,
Pululam perdidas por aí,
Nascem e morrem todos os dias,
Com egos inconscientes,
Cegos à falta de razão,
Na sua singela existência.
Falsos demagogos hipócritas,
Escondidos no medo,
Da sua mortalidade,
Aprendizes ignotos,
Da essência natural,
Letargia moral e de carácter,
A rodos no seu bestial pensar.
Eles e elas, grandes e pequenos,
Novos e velhos, sábios e idiotas,
Todos prisioneiros cativos,
Da metafísica da boçalidade.
Se é esse o preço para vencer,
Deixai-me na minha parca indigência,
Se é esse o preço para ser feliz,
Deixai-me na minha doce tristeza taciturna,
Deixai-me na melancolia nostálgica,
Da minha própria insignificância.

Lx, 16-6-2009
👁️ 647

És tu



Onde estás?
Onde moras?
O que me tens para dizer?
Quando irás aparecer para me afagar, com o teu corpo quente, perfumado a mel, tão doce e gracioso a latejar cheio de vida.
Pousada numa nuvem branca, surgirás jovial, preenchendo de contentamento o deserto do meu ser, varrido pelo vento norte.
Cairás como chuva fecunda, no meu tapete de pétalas de malmequeres amarelos, ansioso pela tua chegada na bruma da madrugada.
A cor do sol nos teus cabelos dourados e raiosos, ondulados onde me afogaria no azul-marinho do teu olhar carinhoso e cristalino.
Senil e inebriado nos teus braços prostrado, seria para sempre o teu cúmplice apaixonadamente angustiado.
Quando será minha flor?
Quando virás minha amada?
Minha amiga olvidada,
Meu amor.

Lx, 15-4-2010
👁️ 707

Contraditório




A humildade dum Poeta,
A arrogância dum tolo.

Uma paisagem natural,
Um subúrbio engavetado.

Um belo corpo nu,
Um doente acabado.

Um dia primaveril,
Outro de estio doentio.

A elegância sensual,
O mau-gosto vulgar.

A cultura eloquente,
A ignorância latente.

A leveza do ser,
O pesar da alma.

Gente feliz,
Outra maltratada.

Silêncio dourado,
Retórica presidiária.

Linhas direitas,
Caos existencial.

Jardins suspensos,
Muros de pedra.

Canções de embalar,
Beijos de traição.

Amor desprotegido,
Liberdade condicional.

O lugar perdido,
Sorte avarenta.

Alma a divagar,
Corpo subserviente.

Contemplação,
Linha de montagem.

Verdade,
Encenação.

Dia febril,
Noite calma.

A tua vida,
A minha morte.

Lx, 25-11-2006
👁️ 606

Até Quando




Quando o corpo arrefecer,
Quando não conseguir correr,
Quando só houver dor,
E já nenhum louvor.


Quando os sentidos desvanecerem,
Quando os sonhos se perderem,
Quando só houver mar,
E mais beijo nenhum a dar.


Quando a memória falhar,
Quando já não pensar,
Quando no fim me calar,
E só houver a brisa no ar.


Que pena vou ter,
Não ter ido, por não poder,
Que pena vou ter,
Não ter conseguido ser,
Que pena vou ter,
De tudo um dia esquecer,
Que pena vou ter,
Ter recusado viver,
Que pena vou ter,
Quando morrer,
Sem valer.

Lx, 20-6-2007

👁️ 701

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António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde
2024-05-28

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.