Escritas

Lista de Poemas

Floreta


Esse dragão que habita na saída

do mundo escuro, antro de outras feras,
se cospe fogo e a muitos intimida,
revela antigo o seu saber, pudera!

Guarda os confins da terra mais temida,
onde ninguém jamais soube quem era,
– muitos quiseram ascender à vida,
ao tempo curto de uma primavera.

O velho monstro, sempre avesso à luz,
produz as cinzas de seu próprio leito
e, nele, a sombra mais cruel reduz

à sensação de um luto insatisfeito.
No campo ao lado, ao pé de velha cruz,
a flor singela de um amor-perfeito.

Nilza Azzi
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Negação


O vento sopra baixo e faz tremer  as folhas,
o tempo está suspenso e aponta a transição,
a luz também declina, as horas lentas vão...
Procuro o teu afeto. Espero que me acolhas.

A tarde é morna, o Sol sumiu naquele vão,
o vento sopra o céu, as nuvens formam bolhas
e logo mais o quarto enluará e, então,
meu canto largo ao vento. Espero que o recolhas.

Mas não, não quero isso, a Lua me aconselha
a contemplar no céu a estrela mais vermelha,
a entender que o sonho é construído assim,

na pretensão rasteira e o meu repúdio à guerra,
porque, se a solidão, qualquer mortal desterra,
jamais  aceito a posse — é força estranha a mim!

Nilza Azzi
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Projeção


Se um dia fores só e eu for só,

logo nós que fomos sós a vida inteira,
uniremos tristezas em fileiras
e a saudade não será mais tão atroz.

Se um dia, deste mundo, o desencanto,
de tão velho, não roubar a nossa fé
e essa vida, tão antiga como é,
não trouxer o sofrer que abate tanto...

Nossos passos, seguindo a mesma estrada,
da poesia e das almas inquietas,
deixarão pelo pó as mesmas setas
rumo ao sonho, onde não nos falta nada.

Nosso olhar, procurando um bem futuro,
bem na linha em que o céu encontra o mar,
não terá outro bem para espalhar,
a não ser um poema extremo e puro.

Nilza Azzi
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Singularidade


Oh, estrela do céu! Tão distante de mim,
esse brilho que tens reverbera sem fim.
És passado, porém, és de outro universo,
paralelo a este meu, singular e perverso.

Oh, meu raio de luz! Tão perfeito és assim
como eu vejo daqui, ideal serafim.
Da matéria que és, sou grãozinho disperso,
da poeira que sou, és completo, o inverso.

Num carbono da Terra, em diverso sentido,
vislumbrei a razão de um planeta perdido,
que não teme o calor das estrelas candentes.

Dele posso  tocar o meu sol de mais perto,
sem notar um senão que me impeça. Deserto!
Desafio estas leis – luto contra as correntes.

Nilza Azzi

 

 
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Preamar


Como se fosse o mar, assim o amor,
vasto, inconstante e muito perigoso,
jamais conhece, do ir e vir, repouso,
e quando encrespa  – que avassalador!

Se brilha ao sol, reflete azul formoso,
ou bem confunde e mostra verde cor,
e sobre nós dispõe, só por dispor,
pois nos atrai ao seu deleite e gozo.

E o mar cuja canção nos delicia
– o marulhar das ondas sobre a areia,
num forte estrondo, o choque nas falésias –

revela sobre amar verdades régias,
senhor desse poder que nos alteia,
de amar­ – essa tristeza, essa alegria...

Nilza Azzi
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Ultrassensual


Numa casa de pedra, entre azuis trepadeiras,
ao abrigo do olhar indiscreto e  alheio,
nós fruímos, do amor, sem cansaço ou receio,
o prazer sensual e as delícias inteiras.

O teu beijo começa a aquecer-me. Tonteio...
Some o mundo ao redor e um espasmo se abeira:
– só desejo elevar-te ao meu nível de anseio
e deixar-me viver as paixões verdadeiras.

E no instante em que a morte me toma, um reflexo,
só percebo que a alma, indistinta do sexo,
mal percebe, do corpo, os limites externos.

Assim quando, no amar, o momento é eterno,
e um olhar cede ao outro um delírio complexo,
reconheço que a vida é real, tem um nexo.

Nilza Azzi

 
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Porto


Quando Augusto sorriu, foi o bastante...
– Armadilha de amor – fez-me  cativa!
Do seu beijo, bebi doce saliva,
sem querer me perdi. Fui mais adiante.

No frescor das manhãs de Sol radiante,
a caminho da escola, eu, sempre viva,
era a mulher fatal, a eterna diva,
era enfim sedutora, embora infante.

Quando Augusto partiu, sem mais aviso,
restou-me suportar a triste história,
sofrer, sentir a alma merencória.

Mas não vou dar a mão á palmatória.
É só saber poupar e ter juízo...
– Nas terras d’além-mar, um dia piso!

Nilza Azzi
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Belas

E repousam em paz as belas-letras,
no seu mundo quieto e sem furor,
entre as sombras escusas das mutretas,
que as vontades humanas vêm dispor.

Ao sabor do que a sorte lhes retira,
sem o prisma mais caro ao seu valor,
submetem-se ao fogo dessa pira,
desprovidas de um vate protetor.

Mas se a Deusa no átrio se admira,
é que tem seu olhar além do agora
rechaça o insustável da mentira,
que nem sempre revela onde mora.

Alma, encanto gentil, polichinelo,
entre um fundo de cartas, amarelo.

Nilza Azzi

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Alfa


Quando, da Lua, as cores se arrepiam,
como se fossem luzes da ribalta,
e quando o som do violão faz falta
para embalar as vozes da poesia,

quando as palavras não colam na pauta,
tal como a noite não cola no dia,
quando o tambor percute à revelia
para marcar a dança e a ressalta,

além dos montes, nos longes da terra,
vozes secretas urdem velhos planos,
sobre uma guerra resistente e antiga,

e  o velho alfa, que comanda a liga,
jamais emite um uivo leviano
e pelas matas, pelos campos, erra...

Nilza Azzi
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Grande amor


Amor-paixão senti pelo Diogo.
Que sentimento forte, abrasador!
Que me queimou inteira, como o fogo
queima o papel de uma carta de amor.

Que erro mais tolo, ele era demagogo
e me envolveu em erros... Sem pudor!
Levou-me à farsa. Libertei-me a rogo
e nunca mais, assim, quero dispor

dos meus afetos. Quero a alforria
e que o Diogo tenha o que merece.
Minha revolta já não se disfarça

e o meu desejo? Outro não seria
− e até por isso faço a minha prece −
Vê-lo penar de amor, só por pirraça.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!