Escritas

Lista de Poemas

Cultivares

Quando, da sutilíssima assertiva,
os raios espalhados forem claros
e assim da nossa alma o desamparo,
menor, após a luz que a faz mais viva.

Quando for revelado o fato raro
de que a fé traz a força conclusiva
e assim,  já não houver a recidiva
do mal, porque deixou de ter amparo.

Talvez, ao ver a linha, o homem cruze-a
e chegue a conhecer outras paragens,
cultive um bom jardim e, com cuidado,

prepare o coração para a parúsia.
Talvez reaja à luz... Assim reagem,
os girassóis, num campo cultivado.

Nilza Azzi

 
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Clímax


Como se, em mim,  já não coubesse mais,

de bem querer, pedaço mais nenhum
e o coração guardasse desiguais
um eu e um outro, em formas incomuns,

ressinto assim que, às vezes, é demais
o tanto amar...  E busco algum jejum,
para encontrar do amor alguma paz,
sem anular meu ser, de jeito algum...

Mas é na calma que me explode a falta
e já não sei além de mim, além
do meu sentir, o espaço que detém

nessa minh’alma, a estima tão em alta,
sem que me importe a justa sobra em mim
e que me acabe justo nesse fim...

Nilza Azzi
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Campo limpo


Levanta —  meu senhor! — O dia brilha intenso,

nas terras logo além,  germinam as sementes,
assume o teu papel, não sejas indolente;
se tudo é sempre igual, a língua perde senso.
Nem todos são os grãos que vingam,  entrementes,
ganhar a luz do dia envolve uma disputa!
— O  verso não quer mais uma palavra enxuta,
procura pela voz  versátil das vertentes.
Senhora dos vergéis, estranha ao vil concreto,
de nível superior, os modos imponentes,
(o som escapa forte, é sopro contra os dentes)
desmonta de uma vez o berço analfabeto.

        No fundo do crisol, mistura delirante
        espalha pelo ar as luzes do levante.

Nilza Azzi
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Ultrarromântico


A Lua segue a noite... A luz depura
e aclara a solidão  – fel dos meus dias.
Busquei-te em todo canto e, com candura,
clamava só por ti, mas não me ouvias.

Deixaste,  sem aviso,  a noite escura...
Amor, não entendeste o que eu queria?
Sufoco, tenho a febre que não curas,
e morro: – Vem juntar minhas mãos frias!

Distante, o meu amado segue a aurora
e deixo, aos borbotões, fluir meu pranto,
convulso, pela dor que me devora.

Tão só, na vastidão deste meu canto,
não sei o que será de mim agora,
porque te disse não, mas te amo tanto...

Nilza Azzi
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Senhora dos meus sonhos


Duas da tarde: – O céu tornou-se escuro,
manteve acima a cor do seu recado,
depois verteu o cinza concentrado
e derramou-se para além do muro.

Às três e meia, tudo já mudado,
brilhava o sol um brilho prematuro,
a esticar seus raios com apuro,
por entre o ar chovido, o seu traçado.


Às quatro horas, quase ao fim da tarde,
a brisa leve seca o mundo em volta.
O tempo pausa, em súbito sossêgo...

A cor azul, lembrança de um mar grego,
despega um tom e surge em viravolta:
– Senhora dos meus sonhos, tempestades.

Nilza Azzi
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Rescaldo


As palavras, que riscam
meu tormento estranho,
não falam mais de mim
que um sorriso torto...
Sem mais expressar
que um verbo tacanho,
deixo a ilusão
de um poeta morto.
Desde aquela aurora
não me sobra ganho,
embora não me culpe
estou longe do porto.
Mar de tristezas?
Algo sem tamanho,
inútil buscar
de um leve conforto...

Houvera uma verdade
e a alma a saberia?
Ou mesmo uma certeza,
além da morte, mera
ruptura com o elo
inútil da quimera?

Restou da tua voz,
o som daquele dia...
Pertence ao chão o fato,
ao céu, o voo livre.
Perdeu-se a minha espera
no filho que não tive.

Nilza Azzi
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Embrulho


Coloco meu segredo numa caixa,

embrulho com papel lindo, floral.
Escondo num armário – ninguém acha –
e vou tomar um ar noutro local.

Ocorre que a velhice me despacha
o senso... esqueço tudo... esse é meu mal.
A minha lucidez está em baixa,
periga de alcançar mais alto grau.

Assim, ninguém,  jamais, vai descobrir
o embrulho em que decerto estou metida,
segredo bem guardado e esquecido.

Estranho... nunca tive um apelido
e o nome, recebido nesta vida,
será pouco lembrado no porvir.

Nilza Azzi
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Ciúme


Quando afastou também a última certeza

e descobriu do amor, que não sabia nada,
sem calço na ilusão da mente atordoada,
cedeu ao coração, sem forças, indefesa.

Porém  para sentir, quem sabe, aliviada,
a alma que buscava os rastros da beleza,
deixou atrás de si, as gélidas pegadas
e atravessou a ponte, uma esperança acesa.

Mas quando descobriu, num mundo quase escuro,
a dor que vem causar a nossa estupidez,
para entender um pouco acerca desse evento,

reconheceu que pode, o amor ser  ciumento,
pois faz crescer em nós, e toda de uma vez,
a sede de sabê-lo em todo seu apuro.

Nilza Azzi
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Perguntas


– Vovô, se toda noite o céu se acende

e as luzes já começam a brilhar,
existe algum anjinho ou um duende,
que junta cada estrela com seu par?

– Quando era tão pequeno como eu sou,
vovô, você sabia de onde vinha
o brilho desse céu que Deus criou
e lá, sabia achar sua estrelinha?

– Depois que tudo já foi apagado,
onde é que o anjo guarda aquelas luzes?
O armário é bem grandão e bem escuro?

– E quando a Terra vira pro outro lado,
as estrelinhas, já com seus capuzes,
estão dormindo num lugar seguro?

Nilza Azzi
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Visões


A borboleta que vemos entre as flores,

a pousar, aqui e ali, com ar gentil,
ela sói provar também de outros humores,
de outro tipo menos nobre, bem mais vil.

Quando os cadáveres, meros condutores,
deixam escapar o sumo que os nutriu
essas rainhas, das mais diversas cores,
pousam sobre a morte, bebem desse fio.

A vida lembra esse rio indiferente,
cujo desejo, seguir até o mar,
força um caminho, sem nunca se deter.

O rio, das águas, esquece de saber;
bem como a vida, de nós, de se lembrar:
ela só quer perdurar, seguir em frente.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!