Lista de Poemas
Doçuras
Final de outono, neste quase inverno!
O tempo triste finge ser eterno,
como se eterno o tempo sempre fosse,
quando a visão da luz se faz mais doce.
Na tarde, quando chega a hora escura,
descobrem-se as estrelas lá na altura
e a voz do coração, mais cautelosa,
desfolha-se em mil pétalas de rosas.
Na noite, a tal quietude nos liberta...
Se a solidão é tida como certa,
saudemos o perfume dos lilases.
De mim, serei então, o que assim fazes,
– já pronto pra colheita, assim tomara! –
Um campo de cultivo, uma seara.
Nilza Azzi
👁️ 160
Dissolução
Sinto saudade de um bem que nunca tive;
a nostalgia da ausência é sempre forte
e esse vazio, denso e calmo, é mais terrível,
porque não há solução na minha sorte.
Se nas esquinas do tempo, eterna, vive,
à minha espreita, essa sombra, a minha morte,
para flagrá-la, escorrego nesse aclive
e não mais quero a verdade que conforte.
Se na passagem que está no meu caminho,
tudo que existe são formas de incerteza
e, neste mundo, a matéria segue presa,
o bem perdido é um desejo comezinho
– a ceifadeira nos diz que tudo finda –
que esse vazio pode ser maior ainda.
Nilza Azzi
👁️ 186
Depois do carnaval
Tirei uma tampinha do meu dedo,
ele sangrou e não parava mais...
O mundo entonteceu, ficou azedo,
mas recebi socorro de um rapaz.
Olhei pro sangue e senti tanto medo,
que aquelas gotas me fossem mortais
e, assim, da terra, fosse eu tão cedo.
– Alguém iria aos meus funerais?
Mas minha alma não fugiu em gotas,
o esvair-se não aconteceu
– esse meu medo estúpido, ancestral .
O esparadrapo, com as bordas rotas,
esconde o corte que o dedo sofreu:
só vou olhar depois do carnaval...
Nilza Azzi
👁️ 187
Sem medidas
Ah, se eu tivesse, em vez dessa certeza
um desquerer qualquer que me valesse,
razão que não me fosse igual, nem esse,
um vasto amor, com fúria que se apresa.
Mar revoltado, em ondas revertesse,
em luz que se dá brilho, antes de acesa,
em chama que nos arde a natureza
e a força que nos mora fosse haver-se...
E o mar engole e cospe − é ou não é
o mundo de nós mesmos feito avesso,
de um outro que nos vive, por tão forte.
Se é, se pode alguém manter a fé,
por mim já está tão certo, ou estremeço,
só de pensar que amor desvale o norte.
Nilza Azzi
👁️ 202
Dança
A lua brilha cheia e assim me acorda
e faz dançarem sombras no meu quarto,
e vara as venezianas pela borda:
– com ela, meu sonhar, então reparto.
Disperso o indesejável dessa horda,
enquanto os anjos, num sorriso farto,
ajudam-me a escolher o que descarto,
e brincam ao luar que ali transborda.
E quando as sombras dançam na parede,
minh'alma me confessa que tem sede
de tudo que de ti não sabe ainda...
O amor é sentimento que não finda,
profundo como a noite em que, sozinha,
entre essas sombras, só encontro a minha.
Nilza Azzi
e faz dançarem sombras no meu quarto,
e vara as venezianas pela borda:
– com ela, meu sonhar, então reparto.
Disperso o indesejável dessa horda,
enquanto os anjos, num sorriso farto,
ajudam-me a escolher o que descarto,
e brincam ao luar que ali transborda.
E quando as sombras dançam na parede,
minh'alma me confessa que tem sede
de tudo que de ti não sabe ainda...
O amor é sentimento que não finda,
profundo como a noite em que, sozinha,
entre essas sombras, só encontro a minha.
Nilza Azzi
👁️ 32
Chave
Quero novos caminhos para mim;
terra selvagem, bruta, primordial,
um verde que não deixe ver seu fim,
um mundo, onde nada é tal e qual...
As flores de perfume sem igual,
o canto celestial dos serafins,
o cheiro familiar do meu quintal,
detalhes sobre a fonte de onde vim.
Num bosque onde jamais vão me encontrar
habita a solidão... A paz ofusca
e faz do meu saber o meu fracasso.
Porém, se abro a trilha com meu braço,
quero cobrir de véus o céu da busca,
guardar algum mistério no que faço.
Nilza Azzi
terra selvagem, bruta, primordial,
um verde que não deixe ver seu fim,
um mundo, onde nada é tal e qual...
As flores de perfume sem igual,
o canto celestial dos serafins,
o cheiro familiar do meu quintal,
detalhes sobre a fonte de onde vim.
Num bosque onde jamais vão me encontrar
habita a solidão... A paz ofusca
e faz do meu saber o meu fracasso.
Porém, se abro a trilha com meu braço,
quero cobrir de véus o céu da busca,
guardar algum mistério no que faço.
Nilza Azzi
👁️ 32
Na vã desilusão
Na vã desilusão, na dura pena,
o mundo nem me acena e a dor invade
o vão onde me escondo, onde se encena...
Num palco sem plateia, sou metade.
Perfeita ribanceira: – Eis a falena!
Crimeia, onde ficaste? Qual maldade
disfarça o torpe mal, em luz serena;
subir nesse telhado, pois, quem há de?
Noviça em corredores estendidos,
caminha e vai deixando seus ruídos,
manchando esse silêncio necessário.
Partículas ou ondas, corolário...
A vida e as alternâncias! Vá! Encare-o!
– É seu fantasma! E o medo, assim, serena.
Nilza Azzi
👁️ 29
Tempo-será
Tão breve o tempo de ilusões pueris
e forte o alento que é da juventude!
Somente um vento, porém nos ilude,
na forma vaga, um mero pingo em giz,
nos foge o tempo e morre num palude.
O que nos falta, o que é viver feliz,
parece um bem que escapa por um triz,
mas quem resolve essa questão tão rude?
Se estoura a bolha e nada mais espio,
é claro então que essa ilusão não rende
e um novo mundo emerge do vazio.
Solto no vácuo, como fora um rio,
vai meu passado, ao longe ele se estende,
e apenas sigo a ponta desse fio.
Nilza Azzi
👁️ 140
Conotações
Essa palavra fácil, sempre astuta,
que não posso deter no meu palato,
fala por mim, porém nunca me escuta;
essa palavra, com seu ar barato,
com seus vícios, desvios de conduta,
a enorme força nela, eu desacato.
Que venha a mim na arena, absoluta,
para saber quem vai vencer, de fato.
Hei de arrancar-lhe máscaras e vestes,
hei de deixá-la nua, hei de expô-la,
para que nunca mais me faça tola...
Hei de entregá-la às órbitas celestes
e quando enfim tornar a encontrá-la,
que ela me seja clara em qualquer fala.
Nilza Azzi
👁️ 169
Cruela
Assim ao acaso, pousei noutros ninhos,
esperto chupim, deles fiz o meu lar.
Criei meus filhotes, sem nenhum trabalho;
quebrei o meu galho, fiz crescer a prole.
Não é nada mole criar filho alheio,
mas nunca receio e consigo meu tento.
E vão meus rebentos crescendo saudáveis,
sou sábia coruja; olho os meus filhotinhos...
Nasci passarinho, mas vivo folgada
e até dou risada do tal tico-tico,
pois o pobrezinho tem parca visão.
Seu bom coração me socorre no apuro,
mantendo seguro meu ovo estrangeiro,
que marca presença nesse ninho raso.
Nilza Azzi
esperto chupim, deles fiz o meu lar.
Criei meus filhotes, sem nenhum trabalho;
quebrei o meu galho, fiz crescer a prole.
Não é nada mole criar filho alheio,
mas nunca receio e consigo meu tento.
E vão meus rebentos crescendo saudáveis,
sou sábia coruja; olho os meus filhotinhos...
Nasci passarinho, mas vivo folgada
e até dou risada do tal tico-tico,
pois o pobrezinho tem parca visão.
Seu bom coração me socorre no apuro,
mantendo seguro meu ovo estrangeiro,
que marca presença nesse ninho raso.
Nilza Azzi
👁️ 49
Comentários (4)
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petrillipoesia
2020-03-23
Belos sonetos!
sergios
2020-01-23
Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!
filipemalaia
2019-12-31
Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.
Maria Lima
2019-08-02
Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!
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