Escritas

Lista de Poemas

Banalidades


Um fantasma rondava no escuro,
com seu hálito fétido, impuro.
Desviei dessa sombra e me pus
ao resguardo, debaixo da luz.

No momento, vencidos apuros,
tenho o lápis nas mãos, bem seguro,
e procuro afinal fazer jus!
Aos teus pés a promessa depus:

– Editar um poema elevado,
cujas rimas se põem lado a lado.
Meu estilo parece propício,

mas a verve não tem tal finesse.
A verdade depressa aparece:
– O soneto é uma arte de ofício.

Nilza Azzi
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Ausências


Era uma vez um trem, já de partida,

e a jovem que corria pra embarcar,
adeus flutuando pelo ar
— a lágrima escorrendo uma dor líquida.

E sempre uma estação para lembrar,
um rosto, uma figura esmaecida.
A força para a glória de uma vida
ficara entre as paredes de outro lar.

Era uma crise fatal, sem solução
— impossibilidade natural
de ter o que quisera ter então...

Restava um gesto antigo contra o mal,
manter sob controle o coração,
que os trens chegam e partem, sempre igual.

Nilza Azzi

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Até

Quando eu falar de amor, não acredita em mim
e as juras que eu fizer, jamais confia nelas,
mas posso prometer, não restarão sequelas,
se um dia esta ilusão chegar a ter um fim.

As minhas emoções tranquilas e singelas
não são nada demais, são flores num jardim,
bem simples e banais, as hastes de um jasmim,
tecendo a sua rama, em torno da janela.

Quando eu beijar teu corpo, apenas por desejo,
não crê em mim também, supondo ser  afeto
e então vou me curvar,  serás meu predileto.

Porém se conseguir, tão claro como almejo,
mostrar-te, meu amor,  que não mereço fé,
mais forte eu te amarei e por mais tempo, até.

Nilza Azzi
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A pedra


Nas manhãs que descem pelo espaço nuas,
com as vestes claras, cada dia uma,
a neblina some, leve como espuma.
– Na tragédia cósmica, o princípio atua.

Se nada é eterno, nada resta, em suma,
tudo chega ao fim e ali se desvirtua,
quanta insipidez expõe a forma crua!
A verdade dói! – Dói como nenhuma...

É nos vãos da noite que o mau sonho medra.
É da inquietude, feita de suspense,
essa coalisão de tais palavras tolas.

Pobres das ideias, de quem ousa expô-las!
Bem melhor fugir das teses em que pense
essa massa inútil, próxima da pedra.

Nilza Azzi
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A poesia borralheira


Não tenho quem aqueça as minhas mãos geladas;
nem mesmo quem me abrace e seque os olhos meus.
Não mora em meu borralho, a dádiva das fadas;
sapatos de cristal só servem pra museus...

Nilza Azzi
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Apuro

Sumir-se enfim, se não existe em nós
mais esperanças de seguir adiante,
mas entender que, por um breve instante,
de um sonho, pôde revelar-se a voz.

Seguir a luz, a esfera  delirante,
tocar o céu, perdê-lo logo após
– reconhecer que a dor é mais veloz
e a alegria, o tempo de  um flagrante.

Depois saber que nada do que passa
pode alterar a nossa irrelevância,
ou afastar de nós a velha sina...

À ilusão, roubar-lhe a eterna graça,
por relegar ao limbo, o sonho e a ânsia...
Elevar a tristeza à dor mais fina.

Nilza Azzi

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Atrás daquela nuvem

Atrás daquela nuvem vai meu sonho,
tão longe quanto pode o meu afeto
e deste meu amor vai tão repleto
− são doces esperanças que transponho.

Se a nuvem leva o sonho que projeto,
a terra me parece um céu risonho
e mais e mais na luz do amor me enfronho,
e assim tento alcançar-te, meu dileto.

Porém se sonho e nuvem são alados,
o sonho que carrega meus cuidados
não é, como essa nuvem, passageiro.

Aquilo que encontrei em ti tão forte
é mais do que sonhei por minha sorte,
é nuvem, sonho, céu de que me abeiro.

Nilza Azzi
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Barragem

Não foi do teu amor que eu me salvei,
também não foi da pena que deixaste...
O amor quando aparece quer ser lei,
mas flor não se sustenta sem ter haste.

O porto dessa ilha, à qual cheguei,
é abrigo que me poupa do desgaste.
Aqui já não há trono nem há rei,
não há qualquer corrente que me arraste.

As águas são mais calmas. Enseadas
permitem desfrutar de um mar seguro,
repleto de piscinas naturais.

Lembranças permanecem represadas,
contidas com firmeza atrás do muro
e a dor calou, à força, quaisquer ais.

Nilza Azzi

 
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Bambu


Essa forma que existe e que é de fato
um ato impreciso e coerente
confirma que paguei, foi bem barato
o preço pela graça do presente.

O centro do episódio, esse eu relato,
nas formas de um evento delinquente,
chegou de mim bem perto e pago o pato,
enquanto essa poeira não se assente.

Suzana abusou da confiança
que nela sempre tive, e da amizade...
Soprou aos quatro ventos que sou má.

Porém, não há verdade e se é que a há,
na certa, nova dúvida me invade:
− Bambu, se sopra o vento, ele balança?

Nilza Azzi

 

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Divagar


Da matéria inconsistente e vaga
de que são feitos os sonhos
guardei num vidro, uma ínfima parte.
Quando alguém a quem se ama parte
a alma triste e solitária vaga
desiludida, sem mais crer em sonhos.
Mas, quem outrora navegou nos sonhos,
pode recuperar a esperança... (em parte)
abrindo o coração, vencendo a vaga.

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!