Escritas

Lista de Poemas

Elegia


Canto I
Essa que chora ante o caixão aberto,
Por quem dizias ter amor, eu sei,
Sofre por ti, um pouco, mas decerto
Seu coração lavrou a própria lei,
Na solidão sem tempo do deserto,
Sem abrir mão da liberdade ao rei.
– Sob esse véu que cobre a tal tristeza,
Resiste a alma límpida e coesa.

Canto II
Bem vês agora que escapou inteira
Da servidão que lhe quiseste impor
E na conversa muda e derradeira,
Em teu respeito, um mínimo de dor
Expressa agora, à sua maneira,
Ainda presa ao súbito estupor.
– E nessa lágrima tímida que verte,
Reverencia o teu corpo inerte.

Canto III
Caminha sempre adiante com firmeza,
Embora saiba dar um passo atrás,
Para ajustar-se às leis da natureza
E avançar de forma mais vivaz...
Mantém, consigo, a esperança acesa,
E não espera pelos outros, mais...
– A vida é roda e pelo tempo gira;
O que é verdade, nunca foi mentira.

Nilza Azzi 

 
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Tristeza II


Alegre-se, Tristeza! Não reclame.
Não é que um mar de fatos é confuso?
Decerto cada terra tem seu uso,
e às vezes ele pode ser infame.

Há falsos ideais! Fuja do abuso.
Quem sabe pode haver algum liame
e a vida de outro modo se amalgame,
e o riso surja, mesmo que difuso...

Verdade é que, Tristeza, chega o dia
que a casa vai ficando mais vazia,
porque ninguém se importa e as coisas tristes

afastam o melhor que a vida traz...
Abafe a sua dor, não chore mais;
descubra o picaresco e faça chistes!

Nilza Azzi
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Fuga


Já não ponho meus pés nesta rua
Numa aguda tristeza resvalo
O meu leito de painas é ralo
Na cortina uma estrela flutua
 
No meu pé, atormenta este calo
E no mar minha lágrima estua
O cavalo que arrasta a charrua
Abre o sulco e só resta fechá-lo
 
Não bifurca uma encruzilhada
Mas amplia essa estrada tão vasta
Deixa em cruz uma escolha difícil
 
Subo ao céu na rabeira de um míssil
A fumaça é um sinal que se arrasta
Vejo ao longe outra lágrima alada.


Nilza Azzi
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Fúria


Relâmpagos no céu e as explosões
ruidosas, ecoando além na serra,
sugerem que os eventos temporões
concentram mais poder. A luz descerra

a vasta paisagem... Borbotões,
o céu despeja a água numa guerra.
As gotas, sem cessar vêm aos milhões;
encharcam extensões por toda a Terra...

Na alma, há tempestades arredias:
provêm das emoções que, represadas,
concentram sua força, pouco a pouco.

Um dia, desrespeitam quaisquer guias;
explodem como a chuva extravasada,
na fúria de um tufão insano, louco.

Nilza Azzi
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Falácia


Falam de mim as folhas mortas,
tão distraídas, sem pudor,
dançam ao vento, fazem roda,
num burburinho animador:

não tenho medo ou fujo delas,
das folhas secas, amarelas,

já não me importa o que se diz,
se muito bem ou muito mal,
se envelheci, se sou feliz;

mesmo que as lágrimas desabem,
quem diz que as folhas de mim sabem?

Nilza Azzi
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Eclipse


Então o sol se pôs e a Poesia
foi encontrar a Lua do outro lado,
a lua cheia em gêmeos nesse dia,
em que terá seu brilho eclipsado.

E lhe diz a Poesia: – Tem cuidado
e  dá valor à luz que te alumia,
pois antes que tivesse, o sol, brilhado,
eras escura em céu sem harmonia.

Responde a Lua: – Ah, Poesia, és doce
e é por isso que eu gosto de inspirar-te,
de somar meu lirismo à tua arte.

... Retoma ainda, quase em um sussurro:
– Os vates pelo céu à noite empurro,
antes mesmo que o sol, estrela fosse...

Nilza Azzi
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No salgado desses verdes


Entre abismos de pureza, o mar esconde

um tesouro,  no resguardo das crateras,
desde o tempo das palavras das quimeras,
que,  ai de mim,  se aproximaram não sei donde...

Gentis heróis, bravos homens de outras eras:
estendei além de mim as flores, ponde
as coroas estreladas sobre a fronde
e tomai parcas e moiras por sinceras!

No salgado desses verdes celebrai
o que a vida ainda permite – um sonho efêmero!
D’além-mar, onde esse engenho gera o sal,

entre as ondas de um liame, não banal,
ó senhores, que comandam grau e gênero,
recolhei, desse legado, os cabedais!

Nilza Azzi
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Finjo que não ouço


Se finjo não ouvir aquela voz,
algoz que faz de mim o teu refém,
já vem a culpa, pois eu sei que após
a dor, talvez ouvir-te não convém.

Tentado a procurar-te, estar a sós,
há nós por desfazer, tu sabes bem.
Quisera só pensar que existem prós,
querida, e, para nós, que houvesse amém.

Mas finjo que não ouço o coração,
dizendo para que eu não seja louco
e esqueça do teu nome e do teu cheiro.

Procuro, mas não sei se quero, ou não...
Talvez, por isso faça ouvido mouco,
distante do que sei ser verdadeiro.

Nilza Azzi
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Correntes


A tua quietude é pausa,
camada aparente, é superfície
armadilha a atrair loucos e parvos

Nas profundezas das águas
revoluciona e não cessa
o movimento das ondas...

A voz calada alheia ao meu encanto
pressente as correntezas subterrâneas
por onde viajam todos os pensamentos
... e o mar se agita
o sal por fim afoga a minha sede

Longe de alcance vagam à deriva
os focos que me levam à voragem
então confesso
estranha e companheira
possuir esse tesouro será sempre
minha quimera

Nilza Azzi 
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Vazio


Hoje acordei com saudade de ti
do tempo que nunca tivemos juntos
esse intervalo vago, inexplicável

Investiguei minhas entranhas
e no vazio abri mais chagas
as dores amargas recrudesceram
e te busquei como se foras pedaço meu

Hoje senti falta dos beijos que não dei
do passado que nunca foi presente
de não saber se me amas, se me amaste

Encontrei-me abandonada em meu desterro
como se o amado habitasse minha alma
e validasse para sempre o meu sentir
sem razão e sem consentimento

Nilza Azzi
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Comentários (4)

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petrillipoesia
2020-03-23

Belos sonetos!

sergios
2020-01-23

Obra maravilhosa! Madura, plena e rica!

filipemalaia
2019-12-31

Parabéns Nilza, lê-la foi um privilégio.

Maria Lima
Maria Lima
2019-08-02

Me perdi em seus poemas, quase não consigo sair. Encantadíssima! Parabéns!