Escritas

Lista de Poemas

Varanda de prece

Emoldurada varanda verde além da porta, 

Aberta para o perfumado jardim ao poente,

Uma mulher tinha uma ideia premente. 

Os seus caracóis ruivos brilhavam ao Sol

A sua Pele de marfim e olhos de azul sem fim. 


Jolin, jolin, jolin, jolin, 

S. João dá cá um balão e olha essa Jolin, 

Protege o meu homem dessa lindeza. 

João por favor não o deixe arrastar por seu poder,

A voz dela é como a briza que vem de Espanha, 

E não há varão que resista ao chamado.

S. João ò padroeiro por favor te peço agora, 

Não a deixes levar o homem que me enamora. 


Ele chama e grita o nome dela de noite 

Enquanto, agarrado à almofada eu murcho e choro;

O sorriso dela é como o sol da matina

E no seu corpo manso tudo desatina. 

Por favor jolin não mo leves a mal

Por favor não mo leves só por levar, 

Jolin, contigo eu não posso lutar para ganhar. 


S. João, S. João, S. João, S. João!

S. João, vou lançar um balão,  brincar e sonhar, 

E ai de mim, jolin deixa tudo assim. 

Tu tens qualquer homem que viva, 

Não leves o meu que é meu, só por levar. 

Jolin, estou a pedir, deixa, que amor só tenho este, 

Ninguém mais me resta para consagrar o amar. 

Jolin, quando ele te olha assim, para mim, isso é o fim. 


Jolin, Jolin, Jolin, Jolin, 

O Douro antigo desagua fecundo no oceano profundo., 

S. João, não a deixes levar o meu homem, hoje começa o verão. 

Neste balcão de prece o rio é testemunha, estou nua na emoção. 


Jolin é verão, não o leves mais não!

Jolin não me deixes sem os meus ruivos caracóis flamejantes. 

Tira estas rugas sem fim da minha pele marfim!

Jolin, Jolin, Jolin, Jolin, 

Leva todas estas coisas alheias que agora surgem em mim...

Jolin, Jolin, Jolin, Jolin... 


(adptação a rever) 2017-06-23
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Ditos de incompleto

A fala de fulano que encontrou no café
E como depois disso não vai mais lá por pé.
B refere o prazer de abraçar o amigo que acaba de chegar de longe
C não entende como um mulherengo da Bohemia é hoje respeitado monge
D descreve o Sábado em que decidiram parir a Maria num belo futuro dia.
Eu tenho uma mangueira no terraço parada como serpente cansada
Que a última vez que engoliu uma ratazana bacana faz mais de um ano.
Rodeada de ervas e receosa de sofrer dano.
Eu tenho ideias que ninguém quer ouvir e está claro para mim
Que isso não acontecerá
Nem que a vaca tussa e tussa
Nem que a herbívora seja russa.
Não que haja toxicidade envolvida
Alguma cariátide chocante, caída,
Ou um presunto não defumado
Que se sinta intimamente prejudicado.
F é uma elegia da Salsa que se dança
G conta da marota da gatinha da vizinha.
Hoje não se liga mais a Hollywood nem a Mafamude,
Conta-se do som calmante junto ao açude.
Indo mais além há quem derrube catedrais para fazer mais.
Junte-se tudo isso, seja escrita uma ode ao chouriço bem tostado
Literalmente tostado, em álcool a arder, e chegou a hora.
Mal mal, maravilha ou maldição de usar este alfabeto,
Maldito modo de destratar o danado, pobre coitado.



(este idioma que permite esta vergonha tem dado a gente distinta a oportunidade de o ver elevado e louvado).
(para quem sofre de ideias persecutórias note-se que me refiro ao sr precioso tempo quando digo maldito modo de ser ocioso)
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Longe

Longe, longínquo, afastado, remoto,
O longe não é um lugar por relação a outra localização, 
Longe é ter partido  e não ser encontrado. 
Longe é um claro inequívoco estado. 
Sem constituição sem emoção sem noção 
Longe é uma monsão confundida a soprar sobre uma superfície perdida. 

Longe é onde olvidado, um olhar vago, 
Um lugar desocupado, 
Um senhorio arredio, 
Nem sempre um toque de frio
Nem sempre longe é distante 

Longe é um ataque de tédio
 
Um espaço de ausente 

Uma indecisão sem remédio 

Longe é estar-se presente

Ausente sem estar doente

Sem negros nenhures nem agruras 

Longe é pairar nas alturas 

E ver com olhar clínico

 Aquele estado cínico negado
Que não se quer ver encarado 

Longe é uma clareza que cai como a geada
Numa revoada de inegáveis pedras 
E um minuto passado já pode ser questionada 
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Poema de um minuto



Poema de um minuto feito por mim
Quem se irrita de ser lento assim
Dando razão ao ritmo de Shenzhen
Pois nunca direi amém com ninguém
Que não respeite a produção do espírito
A ideação da razão de viver
Uma produção do muito querer
E admire os deuses como protuberância
Produto da voluntas da nossa ânsia
De transcendência, de sentido,
De um ser mais sofrido
Do irmão sempre ter rido.

De não encontrar carteiras na rua,
Da fundamental incoerência natural
Que começa por criar o bem e o mal
Eventualmente a genealogia da moral,
Uma razão para obedecer ao sem sentido
Do erigir de qualquer complexo normativo
Lex humana, Lex divina, antes da afronta.

Ateu coerente que vê a utilidade dum deus presente,
Não se esconde atrás da sua certeza,
Cego para a realidade de que o ateísmo
É menos útil do que um reinventar de deus,
E que o fundamentalismo deriva duma carência
Exacerbada pela raiva de se saber na crença errada. 

O pior deus é o materialismo post moderno
A insidiosa ideia colaborativa é monetarização
Exploração da natureza competitiva
Que trazemos insita no codex da vida
Nessa hélice helicoidal que se tem por banal

Na venda da nossa essência às ulteriores
Obrigações face às futuras gerações
Da passagem do testemunho, S João em Junho,
Tradição restaurada, identidade renovada, a mão em punho,
Andar em frente é progresso, a chave do sucesso,
Pendência é abusar da nossa paciência na indolência,
Que todavia quer comprar agora e fruir dentro de uma hora,
Logística, codificar ao microsegundo, modificar o mundo.

Então da escravidão paralela, uns perdidos,
Outros numa vida bela, passamos para a sucessiva
Todos somos escravos duma para outra vida
Filhos, netos, responsabilidade social., infernal não banal...

Recompensa é viver a vida numa incessante corrida.
Aumentar o rendimento em nosso próprio provento.
O vento do rendimento o desprezo da Indolência,
A vergonha da insolvência, da resistência, uma presciência...

À verdade da vidente sociedade,
Aprovada demonstrada testada.

As sociedades ocidentais infiltram o oriente,
While os think tanks cogitam o pensamento.
Enquanto a taxa do bem estar é um valor ascendente

Mesmo admitindo tudo o que está errado
O globo continua amarrado a uma crença
Cada vez mais subliminal e menos natural
E patentemente bem, bem sucedida,
Como prova a nossa vida nem divertida.

Invocamos os caçadores da savana para capitalizar o Gana,
Construímos a estrada da seda e nasce o Make Use Of,
Como em Portugal se investe em capital intelectual ,
Capitalização da instrução condition sine qua non.

O Benelux é um portento de saúde em rendimento.

A força irresistível da totalidade,
A beleza é a fé na verdade
A crença na humanidade
A ribalta cosmopolita da cidade,
Evolução sem poluição, sustentabilidade.

Desmaterializado o vil metal
Não se sabe qual a causa do mal
A prova de esforço ou de envolvimento,

Perpétua a inevitabilidade do movimento,
Porque parar é morrer, andar para falecer.

Pergunto muito humildemente;
É só por estar doente de solidão
Sem ninguém que me dê a mão
Que uma profunda emoção de inquietude
Se instala em mim como uma certitude? 

Por ter derrubado a parede e poder ver para fora,
Para além deste perfeito conforto agora,
E saber que a tal descontinuidade é só meia verdade...

Assim calmo e confiante de que realmente,
Nunca tanta gente esteve tão pouco doente,
Na certeza de uma incerteza insita na natureza.

Não aceito responsabilidade pelo futuro da humanidade 

E acredito que essa é a condição essencial da minha utilidade.

Aceitar tudo, compreender, incapaz de fazer
Há-de haver uma razão de ser,
Que evidente pode ser apenas nada
E, assim sendo, ser o motor da manada

Enquanto isso vivo as vidas ficcionadas
Habito realidades alteradas
Visito mundos paralelos
Impávido face ao legado de folículos que crescem
Atento aqui, alheio em geral,
Ausente da natureza natural.

E suspiro ao saber que este minuto de relatividade

Durou para outros toda uma eternidade.
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Larghetto


Rostos, partidos e presentes, que me fitam

Pessoas que me olham e me mostram

A simples verdade de ter algo para dizer e fazer


Essa era uma bênção que me prezaria ter


Nós atados, dados viciados, passos calados

Como tanto pode ser quase nada 

Como uma pessoa que está isolada

Apesar de lamentar, se sente abençoada?
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Neuroplascividade vadia

Agora, que faço eu do abraço dos meus braços 

Vazios 

Neste momento onde paira o lamento, 

O sentimento que terá causado estes suores

Frios

Muito otimista para um misantropo pessimista

Rios

De alteridade, trompetes da revolução tocam em unisom?

Desvarios


Vambora toca no Chromecast da televisão 

Aquele podcast cativante discute neuroplasticidade

A cidade lá fora vive sem demora a charada do hoje é sábado 

Ouço que ter sido Einstein a aconselhar música para crianças 

Concordo

É igual a tocar insistentemente para estimular a semente

Discordo



Em qualquer ponto, qualquer quando, cruzar onde se puder estar

Gente são pessoas complicadas, paradoxais, conformadas,

Educadas, 

Suicidadas, mortas matadas, tout court passadas,

revoltadas, felizes, petizes, anciãos, líderes, peões 

Sem direcção, focadas e esforçadas, adversas à análise estatistica

Divergentes na visão futurística pessoal, existencial,

Se eu não amasse tanto assim o que seria de mim? 


Tenho o céu pousado no peito erodido

O restolhar dos coqueiros do meu lado direito

A imagem daquela mangueira sempre à beira

Recordo o sabor da espada oleosa tão gostosa, 

E, falando sério, é bom vc parar com essas coisas, 

Não quero ser mais um na sua cama, cama de ferro

Onde vivo, crio, vegeto, projeto, e raramente berro

Falando sério, eu não queria ser vc nem por uma semana. 


Mas sei que vou-te amar, 

Por toda a minha vida e mais 

Vou querer lamber a minha mama

Que a língua não chega ao mamilo

Ser contorcionista que a boca não chega àquilo

Mas sei que assim mesmo vou-te amar, 

Aceitar-te assim, deixar desenrolar

A ver no que vai dar

A ver no que vai dar


Que não tem sido coisa boa

A não ser andar à toa

Script esquecido de finalizar


Existo inapelavelmente aquém do sexo solitário 

Escrevo por entre ácaros sem fim, amor vem de nós e demora, 

E ocasionalmente fito a entropia, 

Que devolve o estilhaçado olhar do espelho do armário 

Há quão pouco tempo a não via, 

Pois roda e roda no meu lugar,

Crente de me vergar, certa de me derrubar


Me larga, não enche, me deixa enganar, 

Sai do meu sangue, vadia, ideia vazia!
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Pequenez

Sou tão pouco que não consigo ser nada
Outros são nulidades assumidas, erroneidades,
Eu sou tão pouco que não chego a ser
Nada que toque a beleza, capacidade
Perspicácia, pertinácia, abrangência

E todas as qualidades das mulheres, mães.

No entanto absurdamente uma me terá dado à luz,
Pois reza a lenda, o costume, determina o paradigma,
Que o aglomerado como serei chamado assim se produz.

Sou uma emergência de um ventre atormentado,
E quem sabe terei sido reduzido a muito pouco,
Um muito pouco pequenino e soluçante, alguma coisa,
Pois aqui ainda estou, embora pouco, errado e isolado.

Sou muito pouco capaz de acabar com esta vida de bolso que me leva
Sempre para trás, contra a corrente, ofendendo a gente que presta.
Nem mau ou perverso uma vez terei sido considerado, qualidades
De trabalhador tão longe como grande e digno é o trabalho,
Eu ignobilmente irrisório.
Sou triste de uma tristeza pequenina que é ridícula para a mãezinha,
Procrastinador assumido em baixinhos tons de manipulador e aproveitador,
Sem ter precisado de seguir do ventre para qualquer lixeira ou ambiente
Que desse toque a esta pequenez, incompletude,

Deve ser divina.

Nasci pequeno e fútil a iludir os outros como trágica piada cósmica.







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Instante

Num instante se diz para além do devido
Ou num momento se repete o que veio no vento.
Numa rajada se dispersa a vontade 
Retida no peito em falar a verdade

Verdade da mentira movida na vida
Como instrumento de lucro, investimento
Para desacreditar o próximo, estacas,
Que se podem tornar murros 
Em pontas de faca, errar o alvo
Com a perfídia, dar coração
Ao alvo da injúria e difamação.

Legitimar a profunda emoção
Cantar uma bela canção.
Isto posto levanta-se do banco 
Olha os prédios refletidos na lagoa
O vermelho e negro na água.
O nosso Rio.
De Janeiro.
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Felices cumpleaños

Cumpleaños, que nos hace recordar? 
 
Os anos que se não vão cumprir
 
Aqueles que se não acabam ou não iniciam
 
Os dois, os que estão envolvidos nos inícios 
 
E naqueles interrompidos aqueles não cumpridos
 
A vida começa no momento da geração na comum concepção
 
É o nado vivo, o aparecer para o perigo que aguarda cá fora
 
O romper da placenta a primeira tormenta, isso sim torna a gente atenta 
 
O nascimento o cumprimento da gestação o dealbar da razão 
 
O nevoeiro de um ano incompleto excepto para uma extrema minoria
 
Nascidos às zero horas do primeiro dia, os quais se podem excluir do inquérito por advir
 
Que dessa consideração se não exclui a condição do nevoeiro do indeterminado
 
Dos dois anos onde o medo o imprevisto e o ignorado são tão sonantes 
 
Onde as campainhas não se podem unring, onde os terrores, Ping, são enfim escorridos
Nos medos do mar sem fim, 
 
Na quadra soneto ou grito antes do fim ou aquele mais fino e fraco donde eu vim.
 
A certeza da maioria de dizer com um grito eu vi o dia, mesmo que fosse de noite
 
Uns precisam de açoite, vão à incubadora, aspiram as secreções 
 
Que diferem em muito daquelas retiradas na hora acabada da coisa finada
 
Daquela biología parada, da cara enrugada, a respiração desligada, da vida enfim acabada
 
Num ano que se não cumple, sin cumpleaños mesmo que os tenha celebrado embora 
 
A verdade das convenções, não das monções que são mais certas que as comédias, estações ou comezinhas oscilações 
 
Uma verdade que ainda é Gregoriana, um ano que se determina pelo que se congemina e concorda
 
Como chamar enforcamento à corda que conclui o momento e consagra o detrimento. 
 
O ano dos finados não é um ciclo acabado
 
O ciclo do vivo nado não é um ciclo completo
 
E tudo o que lhe medeia cabe na nossa ideia 
 
Que começa e acaba num momento de instante, num grito rampante num nevoeiro indistinto 
 
Numa fundamental ignorância de ignorar, de estar e faltar
 
Como uma aula assistida mas de falta marcada
 
As mãos assentes no plano e um olhar de ansiedade no pano
 
Naquele ano de cumpleaños onde os anos se não cumprem
 
Como injustamente se quedam as queridas da nossa vida
 
As nossas coisas sonhadas, as pessoas amadas, os consumos não consumados, 
 
Os feitos adiados, os projetos relegados, os jardins abandonados 
 
Todas as ervas daninhas que se vão desenvolvendo, 
 
Uma comum teoria que fala da entropia, 
 
Todas as reflexões sobre os sistemas tenderem à imutabilidade, 
 
À extinção da energia, ao anoitecer do dia
 
A dizer you had your day, now you must make way. 
 
Esse day que celebramos em felices cumpleaños. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Àquela que passa, senti nela.

O intersetar dos micromundos pela audácia do gesto.

O movimento da mão que corta o ar, e sentinela

O afastar da atenção com a emoção de saber

Que a esbelta, potente, mulher está grávida,

Prenha de sentimentos que nunca conhecerei

Por mais emprestados que os tenha tido, lágrima

Que me escorre pela barba branca, mulher, me enamorei

Por quem, subavaliada, teve marido que lhe desmereceu,

Pelo que a união dos merecidos amantes, expressa em beijos

E suspiros desiguais, e apertos de felicidade que se teme

Tudo debaixo do Plátano, na margem que nunca alcancei.


Podes ter errado em mães de lindos filhos, e acertar no virar

Daquela esquina cujo prumo era distraidamente fora de curso.

Ou tenha eu sido tão feliz que a normal diaridade das luzes,

E da falta delas, o bater dos calcanhares que tu, mulher bela,

Mulher, o que trazes de entrevistos beijos e abraços suspeitados!


Ancas ondulantemente próximas, costas esculturais, quando viras


O queixo que leva o resto da face que já amo, eu, sem fôlego,


Penso, sinto-te, desconheço quem és, só não me deixes agora.


Não abandones quem te merece, te deseja, te respeita, 


Quem não te conhece e ora, ante ti, estremece

Senão onde estaremos, nós que nos perdemos?

Versão gorada de probabilidade

Não posso aceitar isso!


Já somos!


És o meu horizonte infindo!



Para lá de ti as águas escorrem do mundo,

Os monstros marinhos não atacam caravelas

Calaram-se num grito as canções de amor

E as crianças no oblívio nada reconhecem.

Precisamos de ti, ó musa que passas, acontece!

És o hidrogénio do oxigénio na garganta da gente,

Cada um o mútuo recíproco no século nascente

Passa neste instante em que o amor entretece!

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Comentários (1)

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nilza_azzi
2019-08-17

Contra plágio também é uma maneira de dizer e não dizer. Muito obrigada pelo comentário em meu poema.