Lista de Poemas

Sentimentos de um bobo

No mais, me sinto sozinho.
Sinto a falta de um abraço
não dado, por desalinho.
Sei que perfaço o palhaço.

Sei que esta feição não ajuda
e que o reclame enfastia,
mas tu estavas sempre muda,
fingindo que eu não existia.

Se fingir é natural,
comprazo-me à natureza.
Deixo a vida como tal
e parto, junto à tristeza.
👁️ 180

Soneto em brasa

Se for apenas seus dedos sinceros
tamborilando na mesa e em minha alma,
assino o armistício, advogo pela calma.
Acontece é que os olhos são severos.

Para mim, sua boca guarda esmeros
que só o desejo irrestrito espalma,
capaz de fazer-me suar a palma
e sussurrar-te o nome em exageros.

E ao olhar-me, busca flechas na algibeira,
varando-me com tua face doce,
ainda que Ártemis, forte e estonteante.

Assim, fazes meu peito de fogueira
e não há, em mim, fumaça que não esboce
a vontade de possuir-te a todo instante.
👁️ 234

Lancinante

Olhe nossa vida fatiada, meu amor. 
A cadência desses traumas
dilaceraram nosso sorriso sincero?
As fendas em nossas almas
verteram o sonho da alegria inocente?
São os olhos que deflagram 
o quanto desconfiamos de tudo e todos,
crianças ininterruptas
encarando a ausência dos pais na cama fria,
quando surgem pesadelos.

Olhe com que força me abraças, minha vida.
Como se eu fosse essa ponte
sobre o lago da sua própria ansiedade.
Acontece que me afogo
e ninguém me escuta convulsionar.
Sei bem que tu escutarias
se não fosses como eu, uma colcha retalhada
pelo tempo e pelo mundo.
E agora, meu amor, o que haverá de nós?
Pássaros sem canto algum.

Olhe para os meus olhos, doce andorinha.
A fratura em nossas asas
não apaga o traço dessa estranha verdade:
permaneces tão sozinha
quanto eu permaneço inseguro e covarde.





👁️ 167

O mensageiro da alegria

Há dias em que imagino
a terra colidindo com Jupiter.
Prédios, livros, mentes,
corações, mortos, vivos,
oceanos, céus, poesia,
trânsito, trabalho, ciência,
filosofia, camiseta, raios,
eu, você e nossos egos.
Toda a arrogância despedaçando-se
em uma tempestade vermelha
centenas de vezes maior
do que tudo que conhecemos. 
Veja se há qualquer subjetividade
em compor o óleo sobre tela
de uma atmosfera intransponível.
Jupiter... extinguiste a mansarda
por onde olhava-se o topo do átomo
e dizia-se: ali está o universo.
E o pior de tudo, nada mudou.
"Sem ti correrá tudo sem ti".
Há outros, ainda maiores.
Há infinitas insignificâncias 
em um mar de bactérias confusas.
Óh, Álvaro de Campos. Acuda-me.
Já não posso suportar Jupiter
cada vez mais perto. Espante-o.
👁️ 254

Desejo racional

Beijar-te
até que o inefável
torne-se tão lógico
quanto um sonho
decifrado nas linhas
de um plano cartesiano:
limites no infinito.
👁️ 36

Trasnsmutação

Seu suspiro leve
flutua ao ouvido
e repousa em mim,
trocando por chumbo
as plumas irrequietas
de mais um engano.
👁️ 11

De passagem

Por praças vazias
ela percorria
duas luzes opostas.

Movia as pupilas
como duas ilhas
carregadas na noite. 

Olhava o relógio
e abria o estojo
com dedos tão finos,

esguios a ponto
de viver encontros
com átomos, partículas. 

Tocava o pescoço
enquanto trocava
de rua, andando.

Entrando na sombra,
luzindo distante
e sumindo de tudo.

As praças lotaram
e as noites ficaram
um pouco mais longas.
👁️ 37

Vida adulta

As mãos do maestro
seguram a semana
em cadências polifônicas,
guardando os metais
para outros carnavais
e o conjunto de cordas
para outras insônias.

Primeiro, invoca os fagotes
soprando o ar pesado,
de rancor e de enfado,
que surge entre as nuvens,
cinzas e dispépticas
no prelúdio operário.

Depois, dissipa a tensão
com o suspiro espaçado
de um piano adulado
pelas mãos delgadas
daquela esperança vazia,
que vai sendo preenchida
e se juntando aos ruídos
no mesmo diapasão.

Depois, desponta a violência
no encontro eufórico
dos tambores do futuro
com aquele contrabaixo
que por vezes é dedilhado
pela alegria, emotivo,
e por vezes é rasgado
pelo arco, sem motivo.

Depois, as cordas vibram
atentas ao movimento
enfático do tempo regente,
vertendo sons deprimentes
em uma ópera, um réquiem
de quem se espera a morte
com satisfação oculta.

Por fim, o ar se condensa
e o silêncio se instaura
no momento apoteótico
em que as mãos agarram
a partícula de sentido
em um oceano de moléculas
entrelaçadas na camada
chamada "vida adulta".
👁️ 38

Secura lacrimal

Os sonhos perfuram
uma realidade transposta,
um engordar-se cúmplice
das lágrimas secas
no sertão do fim previsto.

O que eu posso fazer,
além de sonhar e comer,
na falta de um encanto
que embale aquele canto
espaçado e lânguido
que julguei ser do colibri,
mas que era meu. Saía de mim.

Agora, o pesar evade
por todos os poros,
por todas as oportunidades
que nunca existiram,
mas que passaram a existir
no momento em que a angústia
ajustou nosso ponteiro.

Mais um verso desconexo.
Mais uma vida cronometrada.
Mais um chão a ser pisado.
Mais um sonho assassinado
antes mesmo de eclodir
no desespero do despertar.

Para que levantar,
se a gravidade ainda insiste
em pressionar a cefaleia,
prostrar as minhas ideais
e enrugar a ousadia
sem baixar-me uma gota
de lágrima?
👁️ 13

Caminhada

Vou cruzando aquela esquina
por onde o vento pondera
flores níveas, amarelas,
ônix, cobalto e granada.

Qual pétala iridescente
brilha assim, auspiciosa,
quando a náusea se instaura?

Sigo encarando a campina,
onde a geada prospera
em brumas baixas e mazelas
apoiadas na alvorada.

Qual cristal, impiamente,
faz do gelo uma vistosa
imagem do que a dor restaura?

Vou seguindo pela dúvida,
ciente de que a resposta
talvez esteja em outra rota.
👁️ 51

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments