Lista de Poemas
06/11/2023
Por vezes me sinto
como o assum preto
de Gonzaga e Teixeira.
Voando no labirinto
onde ecoa o dueto
de flor e cegueira.
Orvalho e jasmim
percorrem os dias
na razão da primavera.
Acabou-se o festim
das aves e das vias
que a dor pondera.
como o assum preto
de Gonzaga e Teixeira.
Voando no labirinto
onde ecoa o dueto
de flor e cegueira.
Orvalho e jasmim
percorrem os dias
na razão da primavera.
Acabou-se o festim
das aves e das vias
que a dor pondera.
👁️ 136
03/11/2023
Se o mundo já não fosse assim, esculpido
Para as retinas curiosas das crianças,
Sobrar-nos-ia encontrar paisagens
Na desolação dos viciados da praça.
Quanta arte há na granulometria
Dos sais que abandonam o corpo humano
No sinal da primeira inconformidade?
Tanto faz. Para o inferno com os artistas.
Tragam-me a ciência e amarrem-na
Junto à cômoda onde guardo papéis
Rabiscado com versos como este.
Para as retinas curiosas das crianças,
Sobrar-nos-ia encontrar paisagens
Na desolação dos viciados da praça.
Quanta arte há na granulometria
Dos sais que abandonam o corpo humano
No sinal da primeira inconformidade?
Tanto faz. Para o inferno com os artistas.
Tragam-me a ciência e amarrem-na
Junto à cômoda onde guardo papéis
Rabiscado com versos como este.
👁️ 183
04/11/2023
Tudo é para todos, menos para nós.
Não, os votos não são seus,
Mas egrégoras do vácuo social.
Tampouco se apaziguará o amor
Na hipótese desses mesmos votos
Não abandonarem o plano ideal.
Por que te alegras com tão pouco?
Basta um aceno das convenções
Para desabrochares teu orgulho?
Já o meu, surge de maneira autônoma.
Sem luz que impulsione o agir
Sobre as matérias mais diversas.
E nós, meu amor, estamos, então, ligados.
Verdadeiramente consubstanciados
pelas desgraças do pecado terreno.
Compartilhamos a mesma velha cicuta.
Choramos as mesmas obviedades.
Cantamos o mesmo hino de lamentos.
Unidos não por um papel, mas pelo papel
Desempenhado nas tramas irrequietas
Do presente. Sim! O presente e suas navalhas.
E para cada lâmina há um clamor pernicioso.
Uma vontade que não se contenta
Em contaminar apenas um receptáculo.
E se tomas essa vontade por sua, não deles,
Receio que eu também me contamine
Para tornar-me seu parasita preterido.
Em uma ou outra tempestade, no entanto,
O relâmpago da memória nos cegará
Para que o trovão do sentir nos atinja.
Eu sorrirei, como quem ganha uma aposta.
Você franzirá o cenho. Irredutível.
Nos juntaremos à miséria da nossa condição.
Não, os votos não são seus,
Mas egrégoras do vácuo social.
Tampouco se apaziguará o amor
Na hipótese desses mesmos votos
Não abandonarem o plano ideal.
Por que te alegras com tão pouco?
Basta um aceno das convenções
Para desabrochares teu orgulho?
Já o meu, surge de maneira autônoma.
Sem luz que impulsione o agir
Sobre as matérias mais diversas.
E nós, meu amor, estamos, então, ligados.
Verdadeiramente consubstanciados
pelas desgraças do pecado terreno.
Compartilhamos a mesma velha cicuta.
Choramos as mesmas obviedades.
Cantamos o mesmo hino de lamentos.
Unidos não por um papel, mas pelo papel
Desempenhado nas tramas irrequietas
Do presente. Sim! O presente e suas navalhas.
E para cada lâmina há um clamor pernicioso.
Uma vontade que não se contenta
Em contaminar apenas um receptáculo.
E se tomas essa vontade por sua, não deles,
Receio que eu também me contamine
Para tornar-me seu parasita preterido.
Em uma ou outra tempestade, no entanto,
O relâmpago da memória nos cegará
Para que o trovão do sentir nos atinja.
Eu sorrirei, como quem ganha uma aposta.
Você franzirá o cenho. Irredutível.
Nos juntaremos à miséria da nossa condição.
👁️ 172
31/10/2023
Minha pele tornou-se vermelha naquele local
em que me tocaste por impulso e convenção.
Manchas vermelhas e presentes da memória,
as únicas coisas que flutuam no éter do raciocínio.
Espalham-se em mim, como células cancerígenas.
Talvez realmente o sejam, mas que posso fazer?
Tudo que sei é que, até o momento, tenho sido um aracnídeo.
Escalando as muralhas de um passado inexistente
para descobrir-se preso nas teias de um futuro falso.
O que me resta é somente a mancha vermelha no braço,
estigma dos sorrisos cordiais e impróprios.
Há algo mais obsceno que a condescendência?
O olhar inocente e trôpego de quem busca conhecer
aquele fogo-fátuo no centro do bosque.
Perseguir ilusões. Nada mais que guiar-me
pelas teclas brancas do seu sorriso...
nada mais que afundar meu pé na lama espessa
ao tentar imitar a leveza em teu caminhar....
nada mais que ouvir o arfar da sua excitação
direcionado para qualquer coisa fora de mim.
Não minta. Seja completamente verdadeira.
No fundo, seu gênio ultrapassa uma mancha vermelha
crescendo na periferia do meu braço.
Mais que um objeto. Mais que paixão, doença ou tédio.
Uma pessoa. O que nos dá o direto de sermos pessoas?
Todos esses ritos de transporte e culpa.
A irregularidade do quadro em nossos quartos.
O ritmo das máquinas e das batidas do pé.
Tudo isso é apenas um ensaio,
não há plateia, diretor ou palco que o sustente.
Risco meu nome do roteiro e abandono meu corpo
para que a mancha vermelha tome o meu lugar.
Dessa vez, sendo mais que mero elemento.
em que me tocaste por impulso e convenção.
Manchas vermelhas e presentes da memória,
as únicas coisas que flutuam no éter do raciocínio.
Espalham-se em mim, como células cancerígenas.
Talvez realmente o sejam, mas que posso fazer?
Tudo que sei é que, até o momento, tenho sido um aracnídeo.
Escalando as muralhas de um passado inexistente
para descobrir-se preso nas teias de um futuro falso.
O que me resta é somente a mancha vermelha no braço,
estigma dos sorrisos cordiais e impróprios.
Há algo mais obsceno que a condescendência?
O olhar inocente e trôpego de quem busca conhecer
aquele fogo-fátuo no centro do bosque.
Perseguir ilusões. Nada mais que guiar-me
pelas teclas brancas do seu sorriso...
nada mais que afundar meu pé na lama espessa
ao tentar imitar a leveza em teu caminhar....
nada mais que ouvir o arfar da sua excitação
direcionado para qualquer coisa fora de mim.
Não minta. Seja completamente verdadeira.
No fundo, seu gênio ultrapassa uma mancha vermelha
crescendo na periferia do meu braço.
Mais que um objeto. Mais que paixão, doença ou tédio.
Uma pessoa. O que nos dá o direto de sermos pessoas?
Todos esses ritos de transporte e culpa.
A irregularidade do quadro em nossos quartos.
O ritmo das máquinas e das batidas do pé.
Tudo isso é apenas um ensaio,
não há plateia, diretor ou palco que o sustente.
Risco meu nome do roteiro e abandono meu corpo
para que a mancha vermelha tome o meu lugar.
Dessa vez, sendo mais que mero elemento.
👁️ 226
01/11/2023
Uma manhã feita de alegrias perecíveis.
Ideias que permanecem na cama
enquanto o corpo, exausto, levanta.
Uma tarde feita de razões inconcebíveis.
Esquecer-se de olhar para quem chama
e, no opróbrio, tornar-se planta.
Uma noite feita de feitos risíveis.
Invisíveis como tudo que inflama
das fantasias que o sono decanta.
Ideias que permanecem na cama
enquanto o corpo, exausto, levanta.
Uma tarde feita de razões inconcebíveis.
Esquecer-se de olhar para quem chama
e, no opróbrio, tornar-se planta.
Uma noite feita de feitos risíveis.
Invisíveis como tudo que inflama
das fantasias que o sono decanta.
👁️ 205
02/11/2023
Bocejos e começos
de algo que não sei
o que será ao certo.
Minha cabeça dói
por tentar comportar
tamanha estultice.
Desprezo-me, e o faço
em silêncio. cúmplice
do próprio engodo.
Por que amar-me
é matéria de tanto
esforço cognitivo?
Serei eternamente
a criança que busca
uma pulsão de vida?
Quem sabe à noite,
na anistia do sono,
eu descubra o porquê,
apenas para acordar
renovado pelas dores
de um novo esquecer.
O pior foi evitado
e o cárcere extinto.
Não graças a mim.
Sequer estendi a mão
para saudar a sua,
que deu-me a vida.
Não olhei tuas cartas,
mal beijei seus lábios,
encerrei sem anunciar.
Acontece que, finado,
não pude continuar
a dor do fingimento.
E o poeta, bem sabes,
é apenas uma sombra
de cada verso. Inverso.
de algo que não sei
o que será ao certo.
Minha cabeça dói
por tentar comportar
tamanha estultice.
Desprezo-me, e o faço
em silêncio. cúmplice
do próprio engodo.
Por que amar-me
é matéria de tanto
esforço cognitivo?
Serei eternamente
a criança que busca
uma pulsão de vida?
Quem sabe à noite,
na anistia do sono,
eu descubra o porquê,
apenas para acordar
renovado pelas dores
de um novo esquecer.
O pior foi evitado
e o cárcere extinto.
Não graças a mim.
Sequer estendi a mão
para saudar a sua,
que deu-me a vida.
Não olhei tuas cartas,
mal beijei seus lábios,
encerrei sem anunciar.
Acontece que, finado,
não pude continuar
a dor do fingimento.
E o poeta, bem sabes,
é apenas uma sombra
de cada verso. Inverso.
👁️ 197
Gramática
As casas.
Deixar a casa arrumada
e o mundo submerso em caos.
Os sonhos.
Esquartejar o delírio
para vivê-lo parceladamente.
As mulheres.
Amar como quem verte
o sangue da própria hemorragia.
Os homens.
Ver a infantilidade
deteriorando as bordas da gravata.
Os sábados.
Cronometrar a alegria
que nunca foi, de fato, alegria
As segundas.
Beijar a imagem santa
no templo da previsibilidade.
Os olhares.
Escolher algum desejo
no burocrático catálogo da volúpia.
Calipígia.
Grito.
Vulto.
Pedras.
Sol.
Azul.
Verde.
Culpa.
Morte.
Peito.
Tum, tum, tum.
Carros.
Tum, tum, tum.
Tiros.
Tum, tum, tum.
Aplausos.
Tum, tum...
Deixar a casa arrumada
e o mundo submerso em caos.
Os sonhos.
Esquartejar o delírio
para vivê-lo parceladamente.
As mulheres.
Amar como quem verte
o sangue da própria hemorragia.
Os homens.
Ver a infantilidade
deteriorando as bordas da gravata.
Os sábados.
Cronometrar a alegria
que nunca foi, de fato, alegria
As segundas.
Beijar a imagem santa
no templo da previsibilidade.
Os olhares.
Escolher algum desejo
no burocrático catálogo da volúpia.
Calipígia.
Grito.
Vulto.
Pedras.
Sol.
Azul.
Verde.
Culpa.
Morte.
Peito.
Tum, tum, tum.
Carros.
Tum, tum, tum.
Tiros.
Tum, tum, tum.
Aplausos.
Tum, tum...
👁️ 233
31/10/2023
Encara-me com tua presunção
e deixe-me contorná-la.
Acenos de cabeça e cordas
amarradas no cotidiano.
Sinto tudo enquanto sonho,
como a morte de um inseto
esmagado pelos dedos
de outras presunções.
Deixe-me no sarcófago,
conjecturando sobre a fumaça
que carrega toda essa gente,
apressada para sabe-se o que,
cegas para tudo que há por vir.
Devir. Deixar. Derrapar
e capotar na ribanceira.
Antes de cair e morrer, relembrar
aquelas vozes que afirmavam:
"burro, burro, burro".
Olhem para este burro, vejam se não é
um belíssimo exemplar do espécime.
Confuso, cansado, corrompido
pelas agruras do toque
entre lábios nunca desejados.
Não há mais tempo algum,
e isso é maravilhoso.
A pelugem da morte em epiderme...
espalha meus pensamentos
sobre a lataria amassada
e o diesel, serpenteado, pelo chão.
e deixe-me contorná-la.
Acenos de cabeça e cordas
amarradas no cotidiano.
Sinto tudo enquanto sonho,
como a morte de um inseto
esmagado pelos dedos
de outras presunções.
Deixe-me no sarcófago,
conjecturando sobre a fumaça
que carrega toda essa gente,
apressada para sabe-se o que,
cegas para tudo que há por vir.
Devir. Deixar. Derrapar
e capotar na ribanceira.
Antes de cair e morrer, relembrar
aquelas vozes que afirmavam:
"burro, burro, burro".
Olhem para este burro, vejam se não é
um belíssimo exemplar do espécime.
Confuso, cansado, corrompido
pelas agruras do toque
entre lábios nunca desejados.
Não há mais tempo algum,
e isso é maravilhoso.
A pelugem da morte em epiderme...
espalha meus pensamentos
sobre a lataria amassada
e o diesel, serpenteado, pelo chão.
👁️ 225
22/10/2023
Tenho acumulado tentativas
com a teimosia de um parvo.
Deixado para a última hora
o que já não podia esperar.
Gargalhado sobre as migalhas
de uma tristeza convalescente.
Decifrado todos os livros
pelo aceno vulgar da capa.
Encaram-me com confusão,
como se lessem um prefácio
e, atônitos, estimassem tratar-se
de outro livro qualquer. Outrem.
Pois saibam que nem mesmo
o bruxulear da consciência alheia
é capaz de emitir luz que encontre
a saída para o labirinto falado
em que tranquei-me, jogando fora
a chave, o mapa e a convenção.
Deem-me por morto e hasteiem
a bandeira negra do dia passado.
Encarem-me, mas suspirem,
como se experimentassem saudades.
Assustem-se com a sombra
que remete ao corpo um dia existente.
Deixem-me assim, a sete palmos
de todo esse fingimento protocolar.
Mas quando eu chego no ofício...
mas quando eu bebo o santo licor
de toda essa indiferença de nuvens opacas...
mas quando vejo-me na tela
sem ver-me além da verossimilhança...
posso jurar ser verdadeiro.
Morbidamente verdadeiro.
com a teimosia de um parvo.
Deixado para a última hora
o que já não podia esperar.
Gargalhado sobre as migalhas
de uma tristeza convalescente.
Decifrado todos os livros
pelo aceno vulgar da capa.
Encaram-me com confusão,
como se lessem um prefácio
e, atônitos, estimassem tratar-se
de outro livro qualquer. Outrem.
Pois saibam que nem mesmo
o bruxulear da consciência alheia
é capaz de emitir luz que encontre
a saída para o labirinto falado
em que tranquei-me, jogando fora
a chave, o mapa e a convenção.
Deem-me por morto e hasteiem
a bandeira negra do dia passado.
Encarem-me, mas suspirem,
como se experimentassem saudades.
Assustem-se com a sombra
que remete ao corpo um dia existente.
Deixem-me assim, a sete palmos
de todo esse fingimento protocolar.
Mas quando eu chego no ofício...
mas quando eu bebo o santo licor
de toda essa indiferença de nuvens opacas...
mas quando vejo-me na tela
sem ver-me além da verossimilhança...
posso jurar ser verdadeiro.
Morbidamente verdadeiro.
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