Lista de Poemas
O Flâneur tropical
Vou decompondo pela rua.
Rogando a beleza do verbo,
deixando no corpo a feiura.
Rasgando a ametista do verso,
extraindo uma rima inconclusa.
Safira nos olhos da moça,
brilho opaco de quem comunga.
Topázio nas mechas da rosa,
bela boêmia da alma imunda.
Caminho, sem jeito ou remorso.
Apoiando-me na face alva
do pássaro bicando o asfalto.
Descobrindo que a tarde assalta
o gosto de qualquer assunto.
Extirparam o aço da lua,
revestindo o fio do machado,
suspendendo o desejo humano
no corte limpo de algum carrasco.
E eu? Vou compondo ao declínio.
Colocando o ouvido no peito,
na parede da controvérsia.
Será que a vida me deu tato
para entender o que tanto dissertam?
Rogando a beleza do verbo,
deixando no corpo a feiura.
Rasgando a ametista do verso,
extraindo uma rima inconclusa.
Safira nos olhos da moça,
brilho opaco de quem comunga.
Topázio nas mechas da rosa,
bela boêmia da alma imunda.
Caminho, sem jeito ou remorso.
Apoiando-me na face alva
do pássaro bicando o asfalto.
Descobrindo que a tarde assalta
o gosto de qualquer assunto.
Extirparam o aço da lua,
revestindo o fio do machado,
suspendendo o desejo humano
no corte limpo de algum carrasco.
E eu? Vou compondo ao declínio.
Colocando o ouvido no peito,
na parede da controvérsia.
Será que a vida me deu tato
para entender o que tanto dissertam?
👁️ 145
Um animal com dor no peito
Algo se ascende, inquebrantável,
no fundo das minhas pálpebras.
É uma luz opaca de coisa alguma,
um ventre nutrindo o ápeiron
em pleno parto de recordações
que não são minhas. O que será?
O que será que causa a dor
que ordena as nuvens do peito
em uma escala tão vespertina,
apenas para que aquele avião
siga rasgando um véu de sonhos
ainda não desvelados? O que será?
Talvez mero princípio do estouro
direcionado para a aorta,
detalhe objetivo da existência
que sopra, em um segundo, aquilo
que sobra quando insistimos
em dividir o que nos resta.
E esse algo permanece, irredutível,
no fundo de todo horizonte.
Eclodindo tal qual uma tempestade
cujos ventos ameaçam edifícios
em uma intenção de Bastilha
- Ainda que inócua, meramente visual.
E eu, que encaro de dentro, fujo.
Percorro o cansaço como um cão
que lambe a mão do dono que o agrediu.
Perco-me naquilo que surge do vácuo
e produzo cinismo e apatia
entre o abrir e fechar das pálpebras.
no fundo das minhas pálpebras.
É uma luz opaca de coisa alguma,
um ventre nutrindo o ápeiron
em pleno parto de recordações
que não são minhas. O que será?
O que será que causa a dor
que ordena as nuvens do peito
em uma escala tão vespertina,
apenas para que aquele avião
siga rasgando um véu de sonhos
ainda não desvelados? O que será?
Talvez mero princípio do estouro
direcionado para a aorta,
detalhe objetivo da existência
que sopra, em um segundo, aquilo
que sobra quando insistimos
em dividir o que nos resta.
E esse algo permanece, irredutível,
no fundo de todo horizonte.
Eclodindo tal qual uma tempestade
cujos ventos ameaçam edifícios
em uma intenção de Bastilha
- Ainda que inócua, meramente visual.
E eu, que encaro de dentro, fujo.
Percorro o cansaço como um cão
que lambe a mão do dono que o agrediu.
Perco-me naquilo que surge do vácuo
e produzo cinismo e apatia
entre o abrir e fechar das pálpebras.
👁️ 112
Oito de janeiro, 2024
No branco do azulejo
desfiro um soco
para ver no punho oco
qual osso desloca
com maior facilidade.
Na fenda do mesmo osso
encontro quimeras
feitas de sangue e coágulo.
Sou eu, corpo frágil,
invólucro do abstrato.
desfiro um soco
para ver no punho oco
qual osso desloca
com maior facilidade.
Na fenda do mesmo osso
encontro quimeras
feitas de sangue e coágulo.
Sou eu, corpo frágil,
invólucro do abstrato.
👁️ 129
Selvagens
Pólvora em cada gotícula,
em cada fala explosiva
onde a mente perfurada
sangra emoção desejosa.
E os seus lábios contraídos
tangem o contrariado,
enrijecem poesia
e beijam o às da prosa.
Sua mão estendida ao léu,
estátua da revolta,
agarra a fera incontida
como a chispa que se empolga
e ruge, tão absoluta
quanto o ágil palpitar
de um coração corrompido
pelo aceno da lascívia.
Quero-te assim, volumétrica
em qualquer desvelamento
daquilo que somos: bichos
em um cárcere de asfalto.
em cada fala explosiva
onde a mente perfurada
sangra emoção desejosa.
E os seus lábios contraídos
tangem o contrariado,
enrijecem poesia
e beijam o às da prosa.
Sua mão estendida ao léu,
estátua da revolta,
agarra a fera incontida
como a chispa que se empolga
e ruge, tão absoluta
quanto o ágil palpitar
de um coração corrompido
pelo aceno da lascívia.
Quero-te assim, volumétrica
em qualquer desvelamento
daquilo que somos: bichos
em um cárcere de asfalto.
👁️ 132
Tempo e Clima
As gotas da chuva
calam o sal da lágrima.
Quando o sol da sua doçura
evaporará o silêncio?
Não há problema, céu.
Suporto qualquer clima
desde que eu permaneça
sob a sua atmosfera.
calam o sal da lágrima.
Quando o sol da sua doçura
evaporará o silêncio?
Não há problema, céu.
Suporto qualquer clima
desde que eu permaneça
sob a sua atmosfera.
👁️ 17
Lapso existencial
Perto.
Perto de tudo,
mas nunca próximo
o bastante para
estar dentro.
O que é?
Eu não sei.
Não poderia saber.
Só o que resta
é dançar a valsa
da santa ignorância.
E se é santa,
sinto-me abençoado:
anistiado do beijo
- mas também do bafo,
expulso da festa
- mas também do fim,
sem quem me ame
- mas também invicto,
sem quem veja
- mas também infiltrado,
sem existir
- mas também eterno.
Perto de ser poeta,
mas longe do ritmo.
Perto da bicicleta,
mas longe do pedal.
Perto da alma abjeta,
mas longe da espécie.
Do que é que estou
perto, afinal?
Da figura no espelho
é que estou
mais distante.
Estou no estar da estante?
No andar em Andaluzia?
No sol do mirante?
No fundo do oceano?
Uma linha no plano?
O rosto ameno?
O casal fumegante?
O cinza da quadra
quando a bola passa
na luz do poste?
A viga da ponte?
Mentir é mais fácil:
Sou pai de fulano,
filho de ciclano
e um trabalhador
amante do sucesso
e da família.
Alheio ao protesto
incessante
da consciência,
do absurdo
rastejando no neocórtex
da cabeça animal.
Gânglios basais?
Hábitos transversais?
É tudo cérebro
e eu não tenho
a mais ínfima noção
do que é
essa massa
cinzenta
chamada
esperança
- que resiste
ao constatar
que estamos
perto.
De que?
Eu não sei.
Mas sigo.
Perto de tudo,
mas nunca próximo
o bastante para
estar dentro.
O que é?
Eu não sei.
Não poderia saber.
Só o que resta
é dançar a valsa
da santa ignorância.
E se é santa,
sinto-me abençoado:
anistiado do beijo
- mas também do bafo,
expulso da festa
- mas também do fim,
sem quem me ame
- mas também invicto,
sem quem veja
- mas também infiltrado,
sem existir
- mas também eterno.
Perto de ser poeta,
mas longe do ritmo.
Perto da bicicleta,
mas longe do pedal.
Perto da alma abjeta,
mas longe da espécie.
Do que é que estou
perto, afinal?
Da figura no espelho
é que estou
mais distante.
Estou no estar da estante?
No andar em Andaluzia?
No sol do mirante?
No fundo do oceano?
Uma linha no plano?
O rosto ameno?
O casal fumegante?
O cinza da quadra
quando a bola passa
na luz do poste?
A viga da ponte?
Mentir é mais fácil:
Sou pai de fulano,
filho de ciclano
e um trabalhador
amante do sucesso
e da família.
Alheio ao protesto
incessante
da consciência,
do absurdo
rastejando no neocórtex
da cabeça animal.
Gânglios basais?
Hábitos transversais?
É tudo cérebro
e eu não tenho
a mais ínfima noção
do que é
essa massa
cinzenta
chamada
esperança
- que resiste
ao constatar
que estamos
perto.
De que?
Eu não sei.
Mas sigo.
👁️ 28
Treze de janeiro, 2024
E você, que amei por tanto tempo,
aparece para lembrar dos acordos
que quebrei por insuficiência,
por covardia nua e vergonha vestida.
Me encara e vê nos dentes tortos
uma razão para a partida,
um motivo para tentar uma última vez
reanimar o coração que palpita
através de gestos mimetizados.
Foi embora, conforme sugeri no início.
Não me deu mais sequer a calma
de saber que está em casa, triste
comigo e nada mais. Apenas comigo.
Chorou um choro distante, rítmico.
Um grito que não é de garganta,
mas de tambor na marcha da culpa,
atingindo o canto mais inaudível
das vielas numa tarde de sábado.
E eu, criatura hedionda e apática,
reservo minha angústia ao verso.
Balbucio em metáforas e abstrações
o que é concreto, claro e retilíneo:
estragastes o que te era imprescindível.
E olhe para ti, aliviado ao confirmar
que ela está em casa, ainda que lânguida.
Respirastes ao saber que não foste
causa de um desastre de marca maior,
mas de um pequeno acidente desses
que matam uma ou duas pessoas
ao invés de dizimar um grupo vasto.
Expulsa, expulsa essa mulher para
um lugar que não reserve um melancólico,
covarde, esquisito, egoísta, cínico
e desmerecedor de tudo. Afasta-me
de qualquer vida que não seja
a que findará no reflexo do espelho.
aparece para lembrar dos acordos
que quebrei por insuficiência,
por covardia nua e vergonha vestida.
Me encara e vê nos dentes tortos
uma razão para a partida,
um motivo para tentar uma última vez
reanimar o coração que palpita
através de gestos mimetizados.
Foi embora, conforme sugeri no início.
Não me deu mais sequer a calma
de saber que está em casa, triste
comigo e nada mais. Apenas comigo.
Chorou um choro distante, rítmico.
Um grito que não é de garganta,
mas de tambor na marcha da culpa,
atingindo o canto mais inaudível
das vielas numa tarde de sábado.
E eu, criatura hedionda e apática,
reservo minha angústia ao verso.
Balbucio em metáforas e abstrações
o que é concreto, claro e retilíneo:
estragastes o que te era imprescindível.
E olhe para ti, aliviado ao confirmar
que ela está em casa, ainda que lânguida.
Respirastes ao saber que não foste
causa de um desastre de marca maior,
mas de um pequeno acidente desses
que matam uma ou duas pessoas
ao invés de dizimar um grupo vasto.
Expulsa, expulsa essa mulher para
um lugar que não reserve um melancólico,
covarde, esquisito, egoísta, cínico
e desmerecedor de tudo. Afasta-me
de qualquer vida que não seja
a que findará no reflexo do espelho.
👁️ 135
Procura-se
Me olhas como se estivesses
tão perdida quanto eu,
acontece que no labirinto
és meu fio de Ariadne
e eu fortuitamente encontro
a saída em teu gesto,
guiando-me pela bússola
das tuas ruminações.
Acontece que também estás
tão perdida quanto eu,
fui eu quem matei a lógica
e enterrei-a em nosso caos,
deixando-lhe somente dúvida,
corroendo toda a magia
que há na vontade súbita
de encontrar-se na certeza.
Em mim, não há nada certo.
Mimetizo e tropeço,
como um velho decrépito,
nas verdades do peito.
(quantas confissões cabem
entre os lábios daqueles
que pisaram em falso
no dia do pleito?)
Em ti, sinto algo vital,
transbordando ciência,
aniquilando poesia
sob o veto dos afetos,
enfileirados e avulsos
em um códice só teu,
nunca inteiramente livre
do que pulsa no mundo.
Sei que te deixei perdida,
mas é porque sou perdido,
por mais que me encontre
exatamente ao seu lado.
Por mais que me procures
por trás dos dentes tortos,
estarei em outro lugar
entre morte e fábula.
E se me achares, por aí,
saiba que o fio foi cortado
e estaremos isolados
no cartaz de procura-se.
tão perdida quanto eu,
acontece que no labirinto
és meu fio de Ariadne
e eu fortuitamente encontro
a saída em teu gesto,
guiando-me pela bússola
das tuas ruminações.
Acontece que também estás
tão perdida quanto eu,
fui eu quem matei a lógica
e enterrei-a em nosso caos,
deixando-lhe somente dúvida,
corroendo toda a magia
que há na vontade súbita
de encontrar-se na certeza.
Em mim, não há nada certo.
Mimetizo e tropeço,
como um velho decrépito,
nas verdades do peito.
(quantas confissões cabem
entre os lábios daqueles
que pisaram em falso
no dia do pleito?)
Em ti, sinto algo vital,
transbordando ciência,
aniquilando poesia
sob o veto dos afetos,
enfileirados e avulsos
em um códice só teu,
nunca inteiramente livre
do que pulsa no mundo.
Sei que te deixei perdida,
mas é porque sou perdido,
por mais que me encontre
exatamente ao seu lado.
Por mais que me procures
por trás dos dentes tortos,
estarei em outro lugar
entre morte e fábula.
E se me achares, por aí,
saiba que o fio foi cortado
e estaremos isolados
no cartaz de procura-se.
👁️ 25
Biarticulado
O ônibus vai
e eles ficam.
Por onde anda
quem não vi
mais passar aqui?
Por onde anda
a noite cálida,
sombra da vida?
Por onde anda
o verso triste,
imagens de mim?
O ônibus vai
e leva junto
toda a cidade.
Curitiba foi diluída
no vestido preto
de uma passageira.
O que há
além de ônibus
correndo na veia
da alegria anêmica?
Sinceramente, não sei.
Ouço tudo lá
fora. Aqui dentro
é um silêncio.
O coração bate
no compasso do
ônibus que vai,
mas nós ficamos.
e eles ficam.
Por onde anda
quem não vi
mais passar aqui?
Por onde anda
a noite cálida,
sombra da vida?
Por onde anda
o verso triste,
imagens de mim?
O ônibus vai
e leva junto
toda a cidade.
Curitiba foi diluída
no vestido preto
de uma passageira.
O que há
além de ônibus
correndo na veia
da alegria anêmica?
Sinceramente, não sei.
Ouço tudo lá
fora. Aqui dentro
é um silêncio.
O coração bate
no compasso do
ônibus que vai,
mas nós ficamos.
👁️ 167
Um dia e um sol
Manhã, apanho o sol invicto
até que a luz escorra fraca
pelas planícies do fracasso,
onde não existe quem desfaça
essa ilusão de cristal sujo,
essa marca de sol algum,
a festa de pássaro branco
onde porto o assum preto.
E por andar no fim do fio,
despenco em alucinações,
tão frágeis quanto o sol anil
que colore minha visão.
Antes de findar a inércia,
a tarde acossa os resultados,
vai buscando extrair da pedra
uma certeza que não seja
fruto de um dia calcinado,
expressão aguda do calcário
jogado no solo-crepúsculo
onde irrompe a flor minguante
da noite. O breu celestial
esconde outra futilidade
sob o lado escuro da lua:
seja concreto, nada mais.
De nada vale a poesia,
retrato no último quarto
que figura no amplo salão
da cabeça volúvel humana,
olha bem o que fazes agora...
quebra de ritmo, verso abaulado
e fugas da realidade
que não se importa se vives
ou se apodreces em teu quarto
-poesia. Uma lua cheia
esperando que a luz cansada
ceife o rufião das palavras.
Tendes coragem para ver
que tudo se encerra na pálpebra,
na certeza incerta de um dia
e um sol a ser apanhado.
até que a luz escorra fraca
pelas planícies do fracasso,
onde não existe quem desfaça
essa ilusão de cristal sujo,
essa marca de sol algum,
a festa de pássaro branco
onde porto o assum preto.
E por andar no fim do fio,
despenco em alucinações,
tão frágeis quanto o sol anil
que colore minha visão.
Antes de findar a inércia,
a tarde acossa os resultados,
vai buscando extrair da pedra
uma certeza que não seja
fruto de um dia calcinado,
expressão aguda do calcário
jogado no solo-crepúsculo
onde irrompe a flor minguante
da noite. O breu celestial
esconde outra futilidade
sob o lado escuro da lua:
seja concreto, nada mais.
De nada vale a poesia,
retrato no último quarto
que figura no amplo salão
da cabeça volúvel humana,
olha bem o que fazes agora...
quebra de ritmo, verso abaulado
e fugas da realidade
que não se importa se vives
ou se apodreces em teu quarto
-poesia. Uma lua cheia
esperando que a luz cansada
ceife o rufião das palavras.
Tendes coragem para ver
que tudo se encerra na pálpebra,
na certeza incerta de um dia
e um sol a ser apanhado.
👁️ 165
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