Lista de Poemas
A Dignidade do Justo em Terra de Lama
Abalados estão os fundamentos valorativos
Desta podre terra, tudo sem leme moral.
A dignidade é artigo decorativo na publicidade.
Os que vencem, que dominam tudo?
Os crápulas engordando vantagens.
Os que estão com a boca suja de petróleo,
Com os dentes amarelos nos big techs.
Os que lucram com a dor ao tercerizarem
O trabalho alheio, brincam de cortar direitos.
Vencem os que diminuem os salários mínimos,
As empresas multinacionais trituram pessoas,
Máquina que gira em nome do capital.
Perdura o sistema, com seus decretos
Carcomidos do Estado democrático de Direito.
O neo fascismo veste terno slim, uma falsa
Nova roupagem que conquista o povo.
O judiciário pune quem tem cor e bairro específicos.
E o tal divino, as instituições da cristandade?
Úteis ferramentas para domar vontades,
Controlar corpos, silenciar liberdades
Em nome de uma tosca moralidade
E de espúrios interesses políticos.
Mas, apesar de tudo, do mundo maltrapilho,
É preciso continuar. Continuar a ser bom.
Porque a bondade é um pouco que nos resta.
Hoje, o canalha é que domina,
Mas o justo é que consegue dormir em paz.
Ter bom caráter quando abusam da nossa cara.
Continuar por respeito próprio, por decência.
Continuar apesar da lama do mundo
lá fora.
Onde Se Tenta Fazer a Vida Plena
Um novo fim do mundo chega toda semana,
Redes sociais alargam a solidão,
A fome global mantém sua infinitude.
Países imperialistas colidem por domínio global,
E a violência é uma rotina bastante trivial.
E o homem nisso tudo? Afunda nos destroços da civilização.
O presente é um soco diário dado nos neurônios,
Onde a humanidade, tosca, egoísta, está perdida.
Mas há um fio, um laço de contentamento:
O amor, não uma mera paixão,
Mas aquele que resiste, que se tece em dias de penumbra.
Mãe, amigos de longa data, presenteiam com
Palavras e atos que aquecem dias frios.
Cada encontro é um momento raro,
Pois tudo um dia vira saudade.
Ninguém avisa, nada apara, ideia não prepara
Para a dor que fica quando eles se vão.
Só resta o eco das risadas antigas,
O espírito que sangra, que arde, que lamenta.
A vida se ergue, se faz plena nos afetos,
No ombro ofertado, nas longas conversas,
O sentido é pedra lapidada no gesto humano:
Quem amamos, quem precisamos.
Nas trocas, nas reuniões, a existência se torna mais nobre.
Neste mundo estéril, cemitério de utopias,
Cada gesto contra é um ato de revolta.
Subir este Everest de tédio e derrota,
E no peito, bombear alguma vontade avulsa.
Lapidar o mundo, esculpir toda dor,
Viver em voz ativa, rebelar-se contra o apodrecido.
No fim, resta o que foi vivido,
O abraço, a atenção, o carinho, o pão repartido.
E se o planeta insiste em desmoronar,
Que venha abaixo. Mas que eu caia de pé,
Com memórias, amores e punhos cerrados.
A Glória Ordinária de um Fim de Domingo
Fria noite e o mundo grita lá fora,
Em várias festas e repetitivos trânsitos.
Mas aqui, na sala pouco iluminada,
Nenhuma ação além do constante silêncio.
Coberta antiga no corpo, leite gelado na boca.
Na tela, Cidade de Deus retoma memórias.
Nada de aparente glória barulhenta das avenidas.
Ela é esse gosto simples de leite no frio.
Era isso que precisava no fim do domingo:
Nenhuma aglomeração, nem ambições,
Só o prazer calmo, a gerar delícias no escuro.
Sem paixões perturbadoras, sem misticismo,
Apenas o tecido, um filme e o leite para
Manter o corpo sem fome, o espírito sem tempestade.
A felicidade moldada em coisas miúdas.
A Áspera Gramática da Angústia
Na pesada fratura entre o que
O homem deseja e o mundo, indiferente,
Oferece como campo insosso de realidade,
Não se escapa da incompletude, do sofrimento.
A angústia aprende-se a conviver com o tempo,
A soletrar sua linguagem, o idioma áspero
Da existência, a gramática dos confrontos
Das ações, o dicionário da vertigem das escolhas.
É preciso, então — com inteira lucidez,
Sem respostas fáceis, atalhos, promessas
Divinas, sem os remendos frágeis da ilusão,
Aceitar essa sentença e, com próprias escolhas, superar, adaptar.
Sentir plenamente, em todo o seu curso,
A dor das perdas, do luto, da tristeza.
Tudo o que se tenta abafar, esconder, depois reclama presença.
Nada de um ideal pueril de felicidade,
Que nos quer poupar da indiferença do cosmos,
Que esconde o ferro quente que marca a ruína.
Somos toda hora levados ao abismo,
Feitos de estilhaços, de nadas, de ausências,
De peças de difícil ajuste.
E o homem, aprendiz nos desejos
Irrealizados, vai, rumo ao próximo dia,
Montando a contingência,
Tentando remontar a realidade,
Errando, se enganando, tentando,
Como errante aluno, na difícil arte
De permanecer no mundo, obter delícias,
Mesmo quando tudo falta.
O Equilíbrio Único do Amar
As paixões são vinhos novos
Que até apetecem o paladar.
Mas amar e ser amado é vinho raro,
Há tempos, curtido, com aroma expressivo,
Mistura perfeita, equilíbrio único.
Amar alguém que também te ama é a melhor
Seiva que penetra no centro da vida,
Acontece em uma ardente noite,
Após goles de um vinho ou gin.
Perdura por meses, anos, toda a vida.
E mata com as melhores uvas,
As melhores sensações, intensos gozos,
A fome que há em nós!
O Museu das Derrotas
O museu das derrotas abre suas portas
E eu entro sem querer, sem ter pago ingresso.
Nele, os dias acinzentados trituram os prazeres atuais,
Tiram o brilho de todo tesouro,
Transformam fino vinho em cachaça vagabunda.
O ânimo que animava as horas
Agora é um urubu magricelo que se arrasta.
E os sólidos valores que seguravam-me
Tremem sob o peso das dúvidas.
Olho para uma direção longe da coragem,
E o calor das paixões recebe água fria.
Nestes momentos, nesses quadros sem vivacidade,
Sinto-me um macaco entre grandes intelectuais,
Um barco perdido, distante de faróis renovadores.
Sou um triste crítico dos grandes feitos humanos,
Não encontro conhecimento que salva dos desanimados corredores.
Cumpro o jogo imposto pelos poderosos, sigo as obrigações
Protocolares, sirvo às vontades do ingrato tempo
E percebo que nada ganhei em toda a corrida.
São instantes que parecem banir-me do teatro das alegrias,
E me jogam no estádio do pessimismo intenso.
As fezes matinais custam em meu rosto um desencanto,
E as tardes entediantes enforcam meus desejos.
A cantiga perene do perdedor ecoa em meus ouvidos,
Uma música que não cessa, riffs da impaciência.
Mas mesmo aqui, nas salas nada animadoras,
No meio desta exposição de perdas e desânimos,
É necessário encontrar outro destino para passeio,
Um lugar que tente me tirar desta barriga
Prenhe de tristezas, que me devolva ao brilho,
À coragem, ao calor do toque humano, ao vinho distinto.
Porque o museu das derrotas pode ganhar minhas horas,
Mas não será eterno, não consumirá todos os meus dias.
O Encontro com o Mar
Coloco os pés na areia, respiro o ar puro.
Esse ar que desconhece asfalto, trânsito, alarmes,
Mandos de patrões, toques de celular, sufoco das horas.
Os dias acinzentados ficam para trás.
Abro a janela da visão, o frescor toca a pele,
A brisa, sem pedir licença, entra na mente,
Areja as ideias, desfaz os nós do cotidiano.
O fardo do mundo? Fica a quilômetros de distância.
Pés descalços na areia, o sol dourando a pele.
No mergulho, a mente se renova, refrigério.
O silêncio, poesia das marés, o forte cheiro é
Perfume de sal marinho, aroma de vida.
À beira-mar, contemplo a simplicidade,
A praia é antídoto para o cansaço, oásis
Que vence a monotonia cotidiana.
O mal, por horas, não me alcança.
Na duna do pôr do sol, em Jericoacoara,
A mente é suavizada de incômodos.
A paz das águas de Moreré, diante de
Coqueiros incontáveis, é renovo para as atribulações.
Nas dunas de Genipabu, visões únicas
Do horizonte dissolvem raivas diárias.
Na Mata Atlântica, nas pequenas ilhas
De Ubatumirim, conforto e vida em plenitude.
O mar devolve leveza ao corpo cansado,
É remédio para a pressa e a dor.
Encontro o tempo suspenso,
O mar canta uma melodia que acalma.
Aqui, sou apenas um corpo banhado por
Sal e sol que se desliga do barulho urbano.
Acalmo-me, renovo-me, estou no paraíso terral.
O Menino Rebelde e as Curvas da Vida
Ainda na infância, olhava o nada, parado, e ali se perdia.
Pensava, num conflito interior,
Desejos confrontados com a dura realidade.
O que fazia ali, nesse imenso palco?
Interrogações silenciadas dentro de si,
Caminhava em desertos, oásis inalcançável de bonanças.
Questionava dores, desigualdades, incessantemente,
A falta de respostas incendiava a mente.
O mundo sem sentido, ao seu redor,
Se via um ator sem direção na vastidão das cidades.
Chegando à adolescência, rompeu com tradições religiosas,
Rejeitou hipocrisias, trilhou caminhos diferentes da família.
Aceitava ser a ovelha negra, o herege, entre muitos.
Arquiteto de seu destino, seus próprios dias, traçou.
Recusou as ilusões coletivas, o senso comum ignorou,
Coragem em contínuo ato, seus valores construiu.
Sem dogmas, misticismos, cruel realidade,
Extraiu o melhor do presente, futuro assim alcançava.
Absorveu o absurdo da vida, o ato da rebeldia era diário.
Criticava comportamentos, tentava amar, criar
E alterar as coisas em um mudo universo.
O absurdo como fardo, sobre os ombros,
Preenchia com sentidos, com alternativos valores.
No palco da existência, revoltava-se e recriava,
Com paixão, abraçava as curvas da vida e assim aproveitava,
Enquanto a fatalidade certeira da morte não o alcançava.
A febril realidade pintava com cores de sentido,
Amor e atividades prazerosas, a vida assim gozava.
O Sobrevivente do Holocausto
Eu vi o arame farpado cortar o céu em pedaços,
E as nuvens, impossíveis de serem alcançadas,
Miragens da liberdade distantes da minha prisão.
Vi os corpos que eram números,
Centenas deles se tornaram carne queimada,
Inúmeras cabeças que se tornaram cinzas,
Pós que não eram nada na câmara de gás.
Nada, senão o vento levando memórias
De pais e filhos, diversas famílias
Que ninguém irá lembrar.
Eu vi mães abraçando filhos pela última vez,
Enquanto as botas batiam no chão,
Os gritos entravam pelos ossos
E a fome era uma faca ferindo estômagos.
Vi homens que eram lobos sanguinários,
Sem humanidade, arrastando pés que já não sentiam,
Carregando corpos caquéticos que já não viviam.
Vi olhos que já não choravam,
Porque até as lágrimas secaram
Perante a banalização de tanta dor e violência,
Um diário dantesco do apocalipse terral.
Eu vi a câmara fechar-se sobre eles,
E o gás subir como uma névoa venenosa.
Os gritos que não eram mais humanos,
Pareciam bichos, bois no matadouro.
E o silêncio reinava ao cheirar morte.
Eu vi os cadáveres empilhados como lenha
E o céu indiferente diante da montanha de carne podre.
Vi bebês arrancados dos braços,
Velhos jogados como trapos e jovens que já não tinham futuro.
Vi a humanidade despedaçada e eu, por sorte, sobrevivi.
Tudo isso eu vi e não posso calar.
Não posso deixar que o mundo se esqueça,
Que o tempo apague, que se reconstrua a banalidade do mal,
Que a indiferença cubra como cegueira mais uma vez o mundo.
Não, nunca mais, não permitam a crueldade que destrói.
O Amor é a Raiz da Boa Vida
O amor é raiz da boa vida, ato essencial,
Resposta sã à existência incerta e tumultuada,
Batalha em busca de contentamento,
Na solidão da vida e na finitude do ser.
Ele constrói pontes, unindo corpos a florescer alegrias.
Humildade e verdade são suas pedras fundamentais,
Coragem e disciplina, suas vigas monumentais.
No incômodo da morte, na penumbra de problemas,
O amor é bálsamo, um colo frente às imperfeições.
Energia pulsante, força que nunca cessa,
Cultivado no coração, sentimento que não se dispersa.
Desafio constante, requer trabalho e zelo,
Compromisso diário, precisa sempre ser regado.
Mesmo ante a mortalidade, sua força irradia,
Dando sentido à vida, ante os vales sombrios.
Amar é atitude, prática contínua, necessária,
Aprendizado diário, uma viagem que deixou
De ser um viajante para ser dois, juntos.
Na sociedade moderna, nas relações líquidas,
Ele vira mercadoria, falso status social.
O amor verdadeiro é dar e receber,
Ser vulnerável, ser forte, na reciprocidade a crescer.
É cura em forma humana,
Tranquilidade, sólido alimento,
Reluzente cristal que ilumina as horas,
Ponte para um dia mais feliz.
Seja nas ardentes manhãs
Ou em acinzentados momentos,
Após uma semana separado de quem se ama
Ou uma chuvosa e caliente noite de prazer
Após um dia repleto de aflições.
É o estado de sensações que proporciona completude,
Um festivo sol que irradia felicidades.
É pungente o mundo que se abre ao teu lado.
Os dias são mais felizes na companhia do amor.
Conexão humana, superando a solidão,
Em meio às lutas, o amor é redenção.
Raro, exige esforço, dedicação constante,
É essencial à vida, à saúde, à realização.
É completa união de pessoas que antes eram
Totais desconhecidos, mas agora alteram
Suas rotinas, cidades, casas, compromissos,
Trabalhos, famílias e tudo mais porque
São conscientes que a vida é melhor juntos.
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Meu nome é Dennis de Oliveira Santos. Nasci no ano de 1985, numa pacata cidade do interior goiano chamada Ceres. Sou oriundo de uma família humilde e um dos dois filhos que muito ama seus pais. De lá pra cá fiz muitas andanças pelo mundo através de viagens e mudanças de lares ao morar em várias localidades.
Na adolescência tive um intenso contato com obras clássicas da filosofia e literatura de forma autodidata. Escritores e pensadores foram importantes na formação de minha cosmovisão, além dos valiosos ensinamentos e valores cultivados pelos pais e avós. Desde essa época aos dias atuais o meu olhar sobre o mundo é moldado principalmente por perspectivas filosóficas, como o existencialismo e o materialismo. Já na fase adulta segui os estudos universitários me graduando nas áreas de Sociologia e Pedagogia. Hoje sou educador e pesquisador. Minha atuação abrange os campos de pesquisa, ensino e projetos sociais. Além de publicar artigos científicos na área da sociologia.
Do existencialismo ficou na mente a ideia da busca da liberdade, a responsabilidade pessoal e a busca incessante por significado na existência humana. E extraído do materialismo filosófico, a perspectiva de que a compreensão da realidade se dá na matéria e nas leis naturais, buscando explicar fenômenos e experiências humanas através de bases físicas e tangíveis. Politicamente, me situo à esquerda, com inclinações marxistas, buscando constantemente a justiça social e a crítica do sistema capitalista. Tento contribuir para a realização desses ideais através do ensino, pesquisa e engajamento em movimentos sociais.
Sou um sujeito de poucas amizades, com prazeres simples, que valoriza muito a companhia da família, um amador na arte da enologia, ávido por viagens, e, nos raros momentos de inspiração, arrisco a escrita literária. Sou, em prática, um realista com uma pitada de pessimismo, um materialista que vê o mundo através das lentes do concreto (sem misticismo). E por ser um amante da literatura, escrevo poesias e crônicas com foco nas questões sociais e filosóficas.
Na minha escrita, mergulho em temáticas para expor as injustiças geradas pela desigualdade social que permeia nosso mundo. Muitos dos meus textos são ressoantes manifestações de insatisfação, narrativas que se levantam contra os fundamentos do poder e desafiam os contornos cruéis do sistema capitalista. Além disso, busco constantemente refletir sobre a existência humana. Ao escrever, tento compreender e expressar o peculiar sentimento de "estar no mundo", abordando inquietações sobre o sentido da vida, dilemas éticos, o impacto da morte e o confronto do ser com sua realidade.
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