A Áspera Gramática da Angústia
Na pesada fratura entre o que
O homem deseja e o mundo, indiferente,
Oferece como campo insosso de realidade,
Não se escapa da incompletude, do sofrimento.
A angústia aprende-se a conviver com o tempo,
A soletrar sua linguagem, o idioma áspero
Da existência, a gramática dos confrontos
Das ações, o dicionário da vertigem das escolhas.
É preciso, então — com inteira lucidez,
Sem respostas fáceis, atalhos, promessas
Divinas, sem os remendos frágeis da ilusão,
Aceitar essa sentença e, com próprias escolhas, superar, adaptar.
Sentir plenamente, em todo o seu curso,
A dor das perdas, do luto, da tristeza.
Tudo o que se tenta abafar, esconder, depois reclama presença.
Nada de um ideal pueril de felicidade,
Que nos quer poupar da indiferença do cosmos,
Que esconde o ferro quente que marca a ruína.
Somos toda hora levados ao abismo,
Feitos de estilhaços, de nadas, de ausências,
De peças de difícil ajuste.
E o homem, aprendiz nos desejos
Irrealizados, vai, rumo ao próximo dia,
Montando a contingência,
Tentando remontar a realidade,
Errando, se enganando, tentando,
Como errante aluno, na difícil arte
De permanecer no mundo, obter delícias,
Mesmo quando tudo falta.
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