Lista de Poemas
Os nove buracos do corpo
Atenta ao que se há de se mesclar com o fracasso,
e não com o acaso, que este é diferente, embora
possa ceder a um e outro espectro ou
anamorfose, verdade, a lei foi feita para o desacato
continuado, sendo a sina maior que move o humano
demasiado humano, a lei tornou-se genética e psicologismo,
mas eis o vinhedo visto do terraço de onde alguém jogou desafios que alguém na sacada desenhou
há filhos e filhas dispersando-se como dunas, valores na bolsa
desconcentrando-se, sinta como é que tanto nos servem os nove buracos do corpo, solícitos diante de tantos agravos,
eis a latência dos ofícios. Atenta, pois, aos nós
das bravatas rumo ao rés do chão, já sem escolha
entre o sim e o não, nada existindo entre a nascente e a foz.
Gesta, gasta-se em ti a inenarrável alegria das somas
bem como um livre exercício de inquietação.*
***
*: Friedrich Wilhelm Nietzsche. Humano demasiado humano
*: Osias Ribeiro Neves. Livre Exercício de Inquietação
O Diabo e Deus na terra do gol *
Os crentes fustigam as nuvens
negras, seu foco se apruma
e arremete contra as brumas
como aríetes, exigem os crentes
dissolver os nichos dos incréus
pois o amor não pode esperar
divino maravilhoso,* o amor gera
guerras, rói os tigres, abafa
o Outro, e os crentes se sentem
graduados pelo seu mestre,
mas não comungo tal trigo no meu
imaginário, e os crédulos ameaçam.
*: O título alude ao filme Deus e o Diabo na terra do sol, de Glauber Rocha.
*: Título de música de Gilberto Gil.
O prenome do veneno
A primeira das perguntas voltou
com a sutileza deixada ao largo
talvez devido à ida a portões bíblicos
quem sabe após canecas de vinho
com Jesus, pedreiro de profissão ?
A primeira em meus tormentos vingou
pois aqui está com o caule renovado
e um veneno desconhecido por mim.
Mistério caseiro
No meio das costas, reluzente
que nem esqueleto ao relento,
um pé para o norte voltado, e o outro
longe de onde fôra deixado
pelo vento nas dunas, tentado
por cães e ratos do deserto.
Em todo lugar do mundo gasto mundo
sempre há quem imagine vozes
cotações, premissas e promessas
sem agiotas, mas aqui outra realidade
mostra a marca do sutiã e, ativada
entre as omoplatas, uma faca só lâmina.*
*: Poema de João Cabral de Melo Neto
O peso, a saída
A memória do sádico abraça
sempre o mesmo tronco
diz que é uma dama a quem
muito quis até não mais querer
e por via das dúvidas
em madeira para carvão - de lei -
a transformou
devido ao que à boca pequena
entre ovos gorados se dizia.
Mistério
Sempre há quem compre cotações
premissas e promessas de agiotas
praias, imóveis, contornos de um violão,
enfim, móveis futuros de algum crime
porque na outra conta da realidade
bem visível num peito nu
eis a marca do sutiã e, ativada
entre as omoplatas, uma faca só lâmina.*
*: Alusão ao poema de João Cabral de Melo Neto (1920-1999)
Rumo
Partido, o avião aterrisa
no horror, nenhum vácuo
pôde envolver a história
de sua última razia,
talvez alguma esperança
não, nenhum açúcar ardeu
na boca dos imolados.
Café com gengibre
Dia sim, dia não, os tipos alternáveis revidam com os pés
ou com as mãos, e se em nenhum dos pares encontram pulso,
aprendem que correr atrás do vento, também isto, é vaidade*
e assim me pergunto para onde levar ou o que fazer com o cadáver
que recolho dia após dia, que me encomendam day by day
em um regime de estrita confiança, um contrato de mútua esperança
de que essa fonte se faça de mais e mais-valia
e que depois de tudo, de tanto me alternar em vão, de janeiro
a janeiro, tornem a voltar as nuvens, depois do aguaceiro.*
***
*: Eclesiastes
No ar
Que rapaz é esse, de onde
o peso que às suas costas se prende
feito um quisto, um nariz
arqueado ou adunco
já na hora mais clara do dia ?
Que ragazzo é este às portas
de cidades invisíveis com seus segredos
um por um imaginados (pode haver busca
mais excitante do que a que se faz
sobre o que é invisível ?)
Que boyfriend é aquele pelas ruas
zanzando, alheio a tudo mas não ao mundo
que o mantém sob febre e cegueira
quiçá para a vida inteira ?
Que cantor é este de estranho pranto*
que nem é rock e não é nênia
que não se dá à cama ( a rua tem força)
e vive assim como que viúvo de um drama
senão melhor dizer "de uma chama" ?
*: Alusão a Pois é, pra quê, música de Sidney Miller (1945-1980)
360º
À espera de março, abril
não cabe em si, rueiro
flutua e derrua, seu transe
parece vir de raízes profundas
com as quais mantém-se
à espera de março, ciente
do encontro com a solução.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.
Português
English
Español