Escritas

Lista de Poemas

Mundo



É mesmo assim o mundo
o mesmo de ontem, mas diferente

e se faz ainda mais presente 
para quem vive para além
da loucura - não a minha, ausente.

Uma vez tudo imantado, qual força resta
diluir, que ausências redimir ?
 

👁️ 534

Um velório a cada turno


Velório diurno, na noite do enterro, cercado pelo ambiente de sempre ou de quase sempre, acordou, mas não se levantou, ficou pensando com algum esforço, ainda flutuando na noite do enterro, sem saber se réu ou vítima, amnésia total, sem saber se vítima e algoz de si,* percebeu um rosto, outro e mais outros, mas ninguém lhe preencheu os requisitos da empatia, não conhecia nenhum daqueles traços, daqueles poros nunca sentira, com certeza, nunca lhes sentira o suor e o odor, então, onde e com quem estava ? à mercê de qual embuste estava, mesmo já estando na única dimensão na qual não é possível digressão alguma, nada a cobrar, nada a postegar, nada de c'est fini, nada de pequena morte, e outras tolices grassando nos currais, hipódromos, bacanais, plantações de girassol, de beterraba, enfim, onde houver homem e mulher, e outras encruzilhadas, desvios, ingências mil.

*****

*: Alusão a um verso de Dante Milano (1889-1991)
👁️ 318

Rostos



Bendito seja eu que não tinha esse rosto de ontem
nem de trasanteontem e menos ainda o rosto do amanhã,
porque o amanhã não existe para os mortos, e tu e eu
já assim estamos: debaixo do limo, sim, há tempos
a terra nos salga, lembra: em certas aldeias ainda se é recebido
com salva de prata contendo sal e pão, mas já não somos
admitidos, nem um e nem outro, portanto, maldito seja eu
maldita sejas tu, aclimatada estejas tu também no que
te cabe neste novo infernal latifúndio.*

*****

Neste poema há alusão a Fernando Pessoa e Cecília Meireles (ambos na primeira estrofe)
e João Cabral de Melo Neto (última estrofe).
👁️ 376

Glossário de horrores



Nesta prisão psicológica, visitas acontecem. De manhã ou no fim da madrugada Frankstein vem de visita, mormente quando se está de ressaca a madrugada tem cara de Frankstein; à tarde vem Maga Patalógica, e a noite traz a espavorida Madame Min, de quem, a verdade seja dita, há fãs confessos, e assim é que a seriedade, o jargão e a libido se destramelam quando se revê tal criatura, e te perguntas: - Das situações várias, adversas ou não, o que tiraste, o que guardaste ?
👁️ 354

Adubos


Não retendo longos pensamentos que consiga desenvolvê-los e publicá-los, mesmo assim escreveu alguns romances, sendo que de fato é de criar textos pequenos, com batidas continuadas na canga social. Embora não seja um levantado do chão,* acredita que isso faz toda a diferença,* e assim repete o poema alusivo ao fato de se vender mentiras no mercado: "cheio de esperança, ponho-me na fila dos vendedores."*

***

*: Alusão a José Saramago e Robert Frost
*: Bertolt Brecht. Antologia Poética, poema Hollywood, p. 44
👁️ 363

Assim é



Uma conta pode ser sinônimo do que ela é, ou não, e muitas demandas e desentendimentos podem surgir, e os nervos incham, e as vozes clamam na arena, ninguém parece querer terras no deserto, mas querem, vendem até a mãe e matam o pai, e exilam herdeiros, quando não lhes dão outro tipo de sumiço, isso porque assim é o cotidiano no qual uma conta pode ser ou significar extermínio. Lembre-se que há muitos tipos de conta, não só as financeiras, há contas mais pesadas, explícitas ou veladas, pelas quais gerações se mataram - preto no branco, branco no preto -, mas não são nunca um jogo de damas, ou entre damas, embora as damas, donzelas e velhas também tenham e usem seus recursos, porque não há como viver sem tramar.

*****
👁️ 491

Estufas



@1.

Sem delonga, aviso ou pedido, entrou aqui um tipo estranho: retilíneo, pálido e magro, notei sua mão esquerda paralisada devido talvez a tendões seccionados, algo assim, suas feições diziam que passara por situações adversas. Entrou, de pé ficou, abriu os papéis sebentos que carregava consigo e, algo tenso, começou a ler, pareceu-me que de modo aleatório: "y pues no ha criado el cielo ni visto el infierno ninguno que me espante ni acobarde..."*

@2.

É mesmo assim a juventude em seu fervor em Buenos Aires, em seus protestos nos EUA, na Índia, na Palestina, nas profundas dos infernos, ela é mesmo assim, ciente de sua apostasia, ciente também de sua impotência, devassando os ouvidos dos senhorios, abre portas e janelas de ruas, becos, avenidas e alamedas, enfim, a decepção traz o furor, e não há nada mais paralisante, triste, do que uma infância já mostrando o que será/terá/fará na juventude.

@3.

Uma canção cubana diz "vivo en un país libre / cual solamente puede ser libre*


*****

*: Miguel de Cervantes. Don Quijote, cap. XLVI, p. 414 (ano 1605)
*: Alusão a Jorge Luis Borges. Fervor de Buenos Aires (ano 1923)
* Sílvio Rodríguez. Pequeña Serenata Diurna
👁️ 465

Gataria



Os gatos no cemitério

pardos negros ou azuis
vagueiam e se amam
afeitos a si mesmos
dormem o sono dos justos -
esse coadjuvante da saúde
todo contrário ao estresse
que aos gatos lhes toca
deitados na sombra e no limo
terem um sono diferente
de outros inquilinos.
👁️ 343

Noctívago



Lembra que nem tudo é questão de se manter

de quatro, feito rã ou pato, senão um ganso
manso de todo, lembra que quase tudo tem ais
é questão de visão dupla ou tríplice, ou de nenhuma;
enfim, questão de um ser mais e o outro ser menos pesado
que o ar, menos ou mais acessível ao social (isso traz
gastrite, insônia, pruridos morais).
👁️ 343

Cartilha



Pisar na lei para advogar

a posse a um mandato
de incógnita mais cabal,
entrar nos conluios alheios
cuidando para que
não te surpreendam

os espíritos de porco
em convescotes homologatórios,
causas já sem causa, cuida
que não se ombreiem contigo
os assalariados do medo
pagos para desossarem
o silêncio com seus mantos
de arbítrio, lembra que
ainda hoje
será outro o enredo.
👁️ 490

Comentários (4)

Iniciar sessão ToPostComment
namastibet
namastibet
2018-04-21

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo
sergioricardo
2017-12-04

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.