Escritas

Lista de Poemas

Passeio a esmo


Muitas vezes o poço seca
vai ao fundo todo sentimento
a percepção caindo no vazio
o tato perdendo-se sem idioma
dicionário incompleto - o mesmo
que se calava diante do inevitável
não dormia com o imprevisto
não doava sangue aos dias.
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Fuse (Classes with my Mom)


The hands say: Be strong and satirical
at the same time, do not be a mere user.

The feet say: Keep calm, do not rush, remember
that erection is important.

Keep calm, don't run, because nothing can be done
against your weakness.
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Ganas



Esconde a feiura franksteiniana, ciclópica, por trás da barba, do bigode, dos cílios e das largas sombrancelhas, sobretudo, pelo que leva em silêncio na bolsa.

Escondes tua fartura de que modo, com quais artifícios, manhas e artimanhas: com um extrato forjado mostrando saldo devedor ? Blimunda, Portugal é onde ? Longe ?*

Respondes à leitura dos aparelhos com qual tipo de ação ou de reação: contrito como uma beata, irado como um burro diante do mata-burro, resignado feito apóstolo

pelo sonho-avidez ejetado por ter sido esquecido no testamento, tornando-te outro abintestado, ou simplesmente andando e urinando, assobiando e chupando cana ?

Iscariotes, quanto é que a tua marca deve aos cobradores gratuitos, sem nexo, sem base para que pulem no teu cangote os de ontem e os de hoje ? Israel é onde ?

Atento esteja-se aos miúdos do dia e aos esboços feitos à noite, mas a vigília cansa e até mesmo deturpa as pessoas, que já não copulam, não almejam, não riem e

não condensam água nenhuma, já sem referência que não a de vigia-curral, carcereiro sem bodas, ele também um preso, dizendo \"diante dessa dor curvam-se os montes [...] Há dezessete meses eu grito.\" [...]*

*****

*: Blimunda é uma personagem do romance Memorial do Convento, de José Saramago (Portugal, 1922-2010)
*: Ana Akhmátova (Rússia,1889-1966), no poema Dedicatória, e poema 5, do livro Réquiem
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Curva



Prepara-te para o tempo do não posso mais,
para isso é preciso ir ao fim
saciando toda ânsia e todo rumor
preparando a estante na qual guardar
a fortuna crítica plena de aversões
segundo um urtigão urbano, roendo 
e roído, matando e sendo morto
porque todos os dias há ressalvas 
entre os iguais e seus contrastes, assim
prepara-te para o tempo do não posso mais.
 

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Salmos e Suratas



Os mentirosos falam, tu os escuta
romancear e cantar maravilhas
que nem o céu concede,
e assim os enganadores
sufocam a teimosia de alguma
liberdade que possa ter sobrado
em cada um e em cada uma.

Pois é, se esquecer é danoso,
o melhor é mover pares e ímpares
e atar nos eleitos as catapultas
e os rastilhos, sem ouvir-lhes
as nênias as lérias e outras balelas
acompanhadas por atabaques
feitos de couro humano ©.
Os mentirosos abrem-se no vento
mas já não irás de balonista com eles.
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O retorno



À reiniciação do fogo na aldeia fique-se atento
sob pena de ter lascas de mármore
sopros com vidro e corte, ciência de morte
de pé à porta, como um aviso
de que a heráldica com a sua velha prática
saiu das salas e corredores e já mostra ser a mesma.
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Mensagem



Dia após dia, viveu o desamor
sentindo os pensamentos de satanás
queimando sua boca, o destoo chutando-lhe a bunda
num canto qualquer da casa, nas brenhas do quarto
porque assim é o pudor: de evitar-se
a mensageiros.
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O entorno



Voltar a sorrir, não porque seja algo natural
mas por ter se tornado inatural, não isento
de culpa, de modo que quem o pratica
está sujeito à dissonância, pelo que se diga:
Voltar ou não voltar, eis o peso
a insustentável leveza.
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X e Y



Mal saído do aquecimento
e já em dois cantos ou cantares de azar
dividido o amor, mostrando que o areal
quente, às vezes, mente, enquanto distorcem
normas os amantes ?
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Sinais não antevistos



A vida lhes foi assim de árduo em árduo
nos atos e ausências, de fatos a fetos ela foi
de fêmeas displicentes e machos dementes
a vida lhes ocorreu assim, pelo que não veem na cruz
arremedo de luz, sentindo que a vida
não se cansa de esperar, espantam-se por isso
por não estarem sozinhos/as na trilha
vivendo apenas de esperar o fútil e o inútil -
esperar passou de verbo para realidade.
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Comentários (4)

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namastibet
namastibet
2018-04-21

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo
sergioricardo
2017-12-04

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.