Lista de Poemas
Trilha
e a vítima e algoz de si mesma*
não escapa impune:
enlouquece, suicida-se
sob tal argamassa por ela mesma
feita, misturada ao revés da razão,
e assim a culpa (arrependimento
vem tarde, muito se diz)
medra de modo sutil, de maio a abril.
*****
* verso de Dante Milano, poeta (RJ, 1899-1991)
Tua Vez
ao dia, e isso é mais do que um espanto
grassando pela grande esfera
é mais do que pode o fogo
no imaginário
de arcanos e decanos em dúvida, o redemoinho
puxando o barco água abaixo
nenhum sossego à vista
para quem se vê condenado à crista
da onda, ciente talvez de que morrer
é estar vivo, esperneando
na hora extrema de já nunca mais se ver.
Azáfama e lassidão
como devem ser, não como são,
o implícito e o explícito no mesmo
vaso medrando seu verde, céleres
mas não entrançando suas raízes,
e assim a mesma cantilena
é a correria entre cegos e pernetas
no sul, a mesma idiossincrasia
no leste há uma investidura igual
à do oeste - todos os lados cientes
de que uma escravidão plagia outra
e assim a eternidade o infinito
existe. Renovação das águas sujas.
Noite chegou outra vez...*
Labirinto
mais asco do que atração
assim o rastro de algum senão
na memória de casas e ruas
pois não há como se livrar
de nenhuma história - fel ou glória
tudo vai conosco de encontro
ao mármore, e sem demora
nova querela dominará
a roda de sempre, onde serás
tão beócio quanto leal e desapegado
terás sido artista inconfesso
com mais luz do que sombra
serás na roda de depoentes
o que não se ajoelhou
e até verteu mijo nas pernas
da sociedade, vértigo ou lépido
caçoavas dos manequins da fé
dos descontos de 40% de pé
enfim, mais glosa e mais danação
debaixo do mármore há o Tártaro
onde os eleitos se espojam
pois a cada um e a cada uma
de acordo com o que tomam e forjam.
"Sabia que seria deixado para trás
em alguma aldeia",* que são assim os dias
para tantos: mão vazia e cabeça cheia.
*****
*: Jerzy Kosinski (Polônia, 1933-1991). O Pássaro Pintado
De Avalovara a Sagarana, perdeu as chaves
porque é do fugitivo olhar à frente, revivendo
a cada passo o destino ao qual estivera
condenado, e apressa o passo
e assim afrouxa o laço quando corre pelo campo
onde exércitos antigos dormem, e cobras e lagartixas
se vigiam, assim como os homens se vigiam
crendo que tudo é possível, que irão a outro nível
de onde domarem o imprevisto, e nunca mais dizerem
"que tragédia é essa que cai sobre todos nós ?"*
***
*: Milton Nascimento. Promessas do sol
Casa dos (g)ritos
vive assim atado ao incerto
tanto que várias vezes ao dia
a casa dos gritos que ele é
perde o rumo mas retoma o passo
fazendo-se passar por caminho
que tudo recebe e tudo dá, de entender
cada lance da escala proposta,
de saber diferença entre água e vinho.
Na praça, o herege e sua visão do todo:
"Cheguei antes de mim ao mundo,
e quanto mais sabia, menos cria
em pódios e sermões, nas aventuras
políticas e nas desventuras da fé,
no conjugal e nas sociedades anônimas,
nos anônimos e nos medalhões;
e quanto mais me vi entre a mímese
e a simbiose, entre a premissa e a catarse
o ser e o não ser, mais acedi ao murmúrio
dos desencantos e à grita
dos desacatos, à sanha das dragas
roendo o que o tutano guardasse.
Cheguei antes de mim ao mundo,
e nenhum espanto me conjuga ou conjura,
valas não me quebram a vontade consciente,
para agir, e nenhuma promessa deita-se comigo
ao ar livre, em nenhum abrigo."
Um de janeiro
O fotógrafo aplica-se às vastidões
dentro do outro e de outra roda-viva
sabendo de si muito pouco
das convulsões nos lábios
das rochas e nas entranhas das águas
o repórter de inúteis paisagens
abrindo, enfim, acordos com trevos e tocas
passa ao largo do breu das florestas
e do silêncio das terras calvas
vastidões que todo homem carrega.
Vulto
O exercício de esperar na alça de mira
dias a fio é o que convém ao caçador
aflito pelo vulto que não se dá
à lupa, ciente de que rochas e árvores
têm ouvidos, mas
caçar tem refrão - menos o sim do que o não -
e assim, às vezes, o obsessivo mirar
não serve a quem, por trás da árvore ou da neblina
das palavras (caçar exige silêncio), se perde
na selva de memórias nas quais os tiros
saíram pela culatra, puro exercício de inquietação.
Hesíodo
Os dias custam caro
os olhos da cara
o dorso do leão e da leoa
a paleta da sépia
o ânimo dos hemisférios
tudo sob peso aumentado
os trabalhos e os dias
nunca livres do bolso
os dias custam os tubos
ao coração e ao cérebro
nada lhes resta senão azedarem-se
criando corvos e outros estorvos
nenhum riso nos cantos
da boca nem nos poros
cheios cada vez mais
de água salobra e seus ais.
Diamantina
Onde ouvires gemidos e súplicas sob tenazes em riste
não te vás de chofre: ouvir é preciso, navegar
é secundário, aqui onde os brilhos da terra - foscos
ou lascivos - atraíram venturas e desventuras amarelas
pedras verdes ou de um branco translúcido, amargo
pelas contas que só as carapinhas podiam contar
essa história eivada de sobe-e-desce.
Eis Diamantina, a dos garotos músicos, onde parei
nos acordes dissonantes de um mamute de nome História,
que assim é o que sob pedras se esconde: dura de muito durar.
Comentários (4)
Bopa poesia Darlan (continua)
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.
Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.
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