Escritas

Lista de Poemas

Octávio Paz não disse



Antes e depois, a mesma coisa entre os dois
as mesmas costas entre os dois; depois
um graveto de entendimento fez crível
o fogo na conta dos dias, la piedra caliente
da fala - suas raízes embebidas não em narcose
mas em mímese e simbiose, com alguma jura
quase de todo esquecida entre silêncios sabendo a cal.
Assim, depois de tanto, crescendo sutil, novo afã
entre os dois - pedras calientes, flores de sal.
👁️ 453

Novo



Entender-se com algo maior
do que um rastilho de pólvora
nos calcanhares e cotovelos,
cogumelos e injúrias no café
da manhã, enfim
algo mais do que febre terçã
é colar o braço ao do instrumento
melhorando o prumo da casa
para que o oco não cresça
mais do que o lance de sol
na parede do fundo (é a cabeça, irmão)
e que o ano vá como possa.
👁️ 385

Reverbera



A luz descendo escadarias
abrindo porões e abismos
muito se parece contigo
abrindo a porta a desconhecidos
ventos marés réplicas tréplicas
enfim, para ti e para muitos 
o amanhã é aqui e agora
porque a luz viaja rápido.

👁️ 651

Cravo e canela



Lembra o que o político falou,
o que jesus calou, o que a megera gritou 
numa reunião do comitê, lembra que
o cansaço exige pernas e braços, exige
que se requente o assunto abortado 
o tema da salvação
quando não o da solução final. Lembra.

👁️ 437

Aeiouar*



Comigo-ninguém-pode é o nome
de uma planta tóxica, um nome,
e se há muitos nomes e sobrenomes
há também quem não tenha um
ou o tenha sujo de tudo, lembranças
de trastes - fezes cuspo urina mênstruo e desprezo
mas a vida é minuto, e o suicídio é generoso.
Aningapara me chamam.
👁️ 429

Barco



Se o barco se perde em meio à névoa,
e se os homens se afligem pelo aviso
das ondas tocadas pelo furor do vento,
resta-lhes - se tempo houver - a lembrança
de mímeses e simbioses, jogos de azar
no bar do cais, as pernas e os braços
do domingo sabendo a peixe ensopado,
resta-lhes ainda - se tempo houver -
ouvir o rumor de um sorriso distante.

👁️ 629

Tudo



O trono da palavra se faz
de matéria vária, de cortes
sem sutura, língua solta
tanto do bem-posto quanto do pária

o tronco da palavra rejeita
prisão domiciliar, o pulso
em desalinho, a língua de lapsos
menos afeita ao sim do que ao não

mas não se sabe o que impede
a palavra de encher os pulmões
do silêncio, clivagem
abrindo a minha e a tua bagagem.
👁️ 725

Aningapara



A caminho do esquecimento, deve-se operar como sempre e como nunca se fez, isto é: ir aos meandros de uma fala, ou sair deles, é complicado, por exemplo, por exigir que mais humanos entrem na jogada, só os humanos sabem o que fazem, só eles entendem de gravetos; mas só quando a queimada baixa e as penúltimas lascas de dúvidas sobem, é que alguém se lembra daquilo que por tanto tempo estivera sob desleixo. Só então percebe-se como é que se vai a caminho do esquecimento.


***

Darlan M Cunha. Umma. Editora Virtual Books, Pará de Minas. 2011, p. 146

👁️ 786

As mudas



Atar ao mamilo esquerdo
a dúvida, ao direito a tempestade ?

O que fazer, afinal, com o sinal
de unidade na testa

de ambos ?

***

Do meu livro de poemas: Esboços e Reveses: o silêncio. Editora CBJE, RJ, 2008, p. 40
👁️ 762

Comentários (4)

Iniciar sessão ToPostComment
namastibet
namastibet
2018-04-21

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo
sergioricardo
2017-12-04

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.