Escritas

Lista de Poemas

do amor como avença e norma

o amor

é avença desregrada 
tudo do que é tudo

é quase nada

e é boiar-se no sólido 
como se fora bólide 
de atingir as luas

de quem ame

e de faltar às tardes 
de quem tarde
 
o amor

é avença desregrada

é um consumir-se sobrando

é um expandir-se na falta

é como se fora um oceano

que coubesse em todas as almas 
e que restasse pelos dias

nas noites em que se declara
 
o amor

é uma avença incauta 
nada do que é cautela 
o desata

antes é imprevisto

como um intenso salto 
que se dá às pernas 
com ganas de astronauta 
 
o amor

é uma avença sutil 
como a felicidade 
nada do que lhe tange 
inventa-se pública

ou como concessão 
de quem lhe invade
 
o amor

é uma avença avulsa 
de veias e de vias

é convergência inata 
de cada alegria

e um desandar de ruas 
nas desoras do dia
 
o amor

é uma avença cogente 
tudo que tange os olhos 
atiça a alma tão sempre 
que nada do que é humano 
se desencarna da gente
 
o amor

é uma avença tardia

tudo que lhe chega a cedo

é de um tempo tão difuso 
que chega até a ser noite 
nas serventias do uso
 
o amor

é uma avença plástica 
tudo que seja forma 
o declara

na urdidura das normas 
na ditadura da prática
 
o amor

é uma avença drástica 
guardada a desproporção 
de todas as almas

nada do que não seja todos 
poderá sê-lo na prática.

👁️ 56

do exercício da ida

a morte é nada

de repente

e a um tempo é tudo 
quando se deixa de si 
como ausente

é como construir a ponte 
entre um futuro

que nem se sente

e um passado que pulou 
no coração da gente.
 
morrer é um viver 
de tempo diferente.
 

👁️ 117

dos 70 Maria em anos

aos setenta

nenhuma catarata
embotará o rumo

que o riso marca

assim Maria

quis o exercício

que dela não fosse o caos
mas um grande armistício
 
porque de sê-la tanto
não possa o vão vivente
aguentar a química exata
de tê-la como presente
 
👁️ 83

Dizeres do sentinte

primeiro

divise-se um tempo
que não se apreste

a dizer-se menos horas
do que merece
 
ao sentinte

não é dada a culpa
de usar o tempo
como desculpa
 
primeiro

escreva-se nas veias
uma líquida moção
de que todo o sangue
está à mão
 
ao sentinte

é dada apenas a estrada
que nunca inventa

a retirada
 
primeiro

guarde-se a vida
como invólucro
 de tudo
que no outro
contradiz o ódio
 
ao sentinte

não é dada a ilação
de sofrer a vida
em solidão
 
primeiro

registre-se como possibilidade
a profissão de se morrer avulso
em benefício da verdade
 
ao sentinte

não é dada a perda
de se sentir menor
que suas quedas
 
por fim

diga-se a custo

que ao sentinte
 é sempre dada

a possibilidade
 de viver
a longo curso
👁️ 85

Dizeres em conflituosa rima

averbo-me de triste
quando a pátria exige
verdade que nem tanta
esteja sempre em riste
pois é melhor dizer-me vário

em pauta de tudo que me puno
na moenda inteira do que devo
na consciência exata do que uno
 
viver sem pátria
é tanger o mundo.
👁️ 97

do mister da vida

diz que era preciso

tecer um dia fecundo

e boiar frequente em cada abraço
e entranhar-se nas coisas

e perder-se no mundo

diz que era preciso

truncar cada soluço

e beber os sais e as lágrimas

e espantar da face cada susto

diz que era preciso

engravidar a noite

e parir-se de lua

e beber os beijos que pulam
perdidos em cada rua

diz que era preciso

amanhar o corpo

e trançar no peito a saudade

e engolir no vão dos sentimentos
a textura bruta da vontade

diz que era preciso

empalmar o horizonte

com a nesga infinita

do olhar da tarde

diz que era preciso

consumir o dia

e dividir a boca

da largura da alegria
diz que era preciso

enfunar a vela dos cabelos

e partir-se do mar

e fugir-se do mêdo

diz que era preciso

amansar a incoerência

e afagar a vida

com a solicitude exata

com que se constrói a consciência
diz que era preciso

empregar o mundo

na placidez inconstante

dos sentidos

diz que era preciso

consumir o sonho

com a sofreguidão e a tática

dos grandes oceanos
diz que era preciso
nutrir-se do verso

e se achar palavra

e se nutrir do verbo

diz que era preciso

rasgar-se o peito

nos arames humanos

da grande incompreensão
diz que era preciso
amar-se o irmão

com a força do abraço

e o jeito do coração

diz que era preciso
suportar os fardos

e engolir as culpas

e inventar pecados
 
diz que era preciso
batalhar o pão

e compartir a fome
e fartar-se de não;
diz que era preciso
conclamar o povo

e fundir-se na praça
e fazer-se novo;
 
diz que era preciso, enfim
julgar o carrossel da vida
com a exatidão da anatomia
de quem se joga no mundo
com a força da alegria.
👁️ 113

Do luar de Puno com o mar subentendido

o mar

dói como a saudade

na consciência de quem sabe
do luar de Puno

quase se avista

o mar subentendido

que a cidade administra
 
o mar

tem a brutalidade

como uma herança

que restou nas tardes frias

como uma necessidade de esperança
 
o mar
dói pelo avesso

e - quem sabe? 

no vão de sua espuma
há sempre um recomeço
de todos os luares de Puno
e as memórias em que me esqueço
👁️ 84

Dizeres em torno do amor

ao amor é dada a vazão

de ser assim tão de repente
que não lhe sobra a feição

de matéria inconseqüente
pois por mais desavisado

nos verbos em que se assente
diga-se de tal constância

que palavras lhe acrescentem
apenas o invólucro

de parecer diferente
 
ao amor é dada a concisão
de parecer-se infinito

mesmo que se tenha à meias
nalgum desvão dos sentidos
é que lhe atesta a distância
a temperança do rito

quando descamba pelas mãos
num gesto mais irrestrito.
 
ao amor é dada a confluência
dos rios em que se navega

e mesmo sendo líquido

é tão parente à pedra
que resta quase montanha
no peito de quem lhe perde
 
ao amor é dada a economia
de parecer-se adimplemento
de tudo que se agregue

no peito da consciência
é que lhe falta a razão
de ser assim comedido

e bastar-se em medidas
em que se tenha contrito
 
ao amor é dado o desplante
de ser um carnaval invertido
onde nada do seu avesso
habita simples indício
de que é uma festa renhida
da plenitude do siso

nada do que lhe é próprio

é propriamente sentido
pois sempre escapa à razão
de ser quase um grito
 
ao amor é dada a diversidade
de ser um um divisível

por todas as abscissas

de qualquer algarismo
pois sua matemática

é de escorreita decisão
nunca se tem em números
mas em unívoca contração
que trama a franja do peito
nos traços de qualquer não
 
ao amor é dada

a estranha similitude

de parecer-se a si mesmo
embora tanto se cuide

de mostrar-se diverso
numa mesma latitude

em que o coração transita
do tamanho de sua luta
 
ao amor é dada, enfim,

em todas as medidas

a plena concepção do trânsito
que sempre acelera a vida  
👁️ 94

do que transito

transeunte da vida
dou-me à liberdade
da compreensão 
exata
do que é tarde
 
transeunte da morte

não vejo em mim como tanto
a invenção do que é cedo
nas palavras em que me planto
 
transeunte do nada
melhor seria
ser um pouco do trânsito da terra
nos ombros da alegria.
👁️ 128

Do futuro e suas medições

meu horizonte

é do meu tamanho

tudo que lhe mede

são as réguas do meu sonho.
 
nada lhe traz assim

tão perdulário e conciso
quanto as vezes em que mede
todos meus infinitos
 
meu horizonte quase sempre
são os rumos que consigo.
👁️ 99

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !