Lista de Poemas
do amor como avença e norma
o amor
é avença desregrada
tudo do que é tudo
é quase nada
e é boiar-se no sólido
como se fora bólide
de atingir as luas
de quem ame
e de faltar às tardes
de quem tarde
o amor
é avença desregrada
é um consumir-se sobrando
é um expandir-se na falta
é como se fora um oceano
que coubesse em todas as almas
e que restasse pelos dias
nas noites em que se declara
o amor
é uma avença incauta
nada do que é cautela
o desata
antes é imprevisto
como um intenso salto
que se dá às pernas
com ganas de astronauta
o amor
é uma avença sutil
como a felicidade
nada do que lhe tange
inventa-se pública
ou como concessão
de quem lhe invade
o amor
é uma avença avulsa
de veias e de vias
é convergência inata
de cada alegria
e um desandar de ruas
nas desoras do dia
o amor
é uma avença cogente
tudo que tange os olhos
atiça a alma tão sempre
que nada do que é humano
se desencarna da gente
o amor
é uma avença tardia
tudo que lhe chega a cedo
é de um tempo tão difuso
que chega até a ser noite
nas serventias do uso
o amor
é uma avença plástica
tudo que seja forma
o declara
na urdidura das normas
na ditadura da prática
o amor
é uma avença drástica
guardada a desproporção
de todas as almas
nada do que não seja todos
poderá sê-lo na prática.
do exercício da ida
a morte é nada
de repente
e a um tempo é tudo
quando se deixa de si
como ausente
é como construir a ponte
entre um futuro
que nem se sente
e um passado que pulou
no coração da gente.
morrer é um viver
de tempo diferente.
dos 70 Maria em anos
nenhuma catarata
embotará o rumo
que o riso marca
assim Maria
quis o exercício
que dela não fosse o caos
mas um grande armistício
porque de sê-la tanto
não possa o vão vivente
aguentar a química exata
de tê-la como presente
Dizeres do sentinte
divise-se um tempo
que não se apreste
a dizer-se menos horas
do que merece
ao sentinte
não é dada a culpa
de usar o tempo
como desculpa
primeiro
escreva-se nas veias
uma líquida moção
de que todo o sangue
está à mão
ao sentinte
é dada apenas a estrada
que nunca inventa
a retirada
primeiro
guarde-se a vida
como invólucro de tudo
que no outro
contradiz o ódio
ao sentinte
não é dada a ilação
de sofrer a vida
em solidão
primeiro
registre-se como possibilidade
a profissão de se morrer avulso
em benefício da verdade
ao sentinte
não é dada a perda
de se sentir menor
que suas quedas
por fim
diga-se a custo
que ao sentinte é sempre dada
a possibilidade de viver
a longo curso
Dizeres em conflituosa rima
quando a pátria exige
verdade que nem tanta
esteja sempre em riste
pois é melhor dizer-me vário
em pauta de tudo que me puno
na moenda inteira do que devo
na consciência exata do que uno
viver sem pátria
é tanger o mundo.
do mister da vida
tecer um dia fecundo
e boiar frequente em cada abraço
e entranhar-se nas coisas
e perder-se no mundo
diz que era preciso
truncar cada soluço
e beber os sais e as lágrimas
e espantar da face cada susto
diz que era preciso
engravidar a noite
e parir-se de lua
e beber os beijos que pulam
perdidos em cada rua
diz que era preciso
amanhar o corpo
e trançar no peito a saudade
e engolir no vão dos sentimentos
a textura bruta da vontade
diz que era preciso
empalmar o horizonte
com a nesga infinita
do olhar da tarde
diz que era preciso
consumir o dia
e dividir a boca
da largura da alegria
diz que era preciso
enfunar a vela dos cabelos
e partir-se do mar
e fugir-se do mêdo
diz que era preciso
amansar a incoerência
e afagar a vida
com a solicitude exata
com que se constrói a consciência
diz que era preciso
empregar o mundo
na placidez inconstante
dos sentidos
diz que era preciso
consumir o sonho
com a sofreguidão e a tática
dos grandes oceanos
diz que era preciso
nutrir-se do verso
e se achar palavra
e se nutrir do verbo
diz que era preciso
rasgar-se o peito
nos arames humanos
da grande incompreensão
diz que era preciso
amar-se o irmão
com a força do abraço
e o jeito do coração
diz que era preciso
suportar os fardos
e engolir as culpas
e inventar pecados
diz que era preciso
batalhar o pão
e compartir a fome
e fartar-se de não;
diz que era preciso
conclamar o povo
e fundir-se na praça
e fazer-se novo;
diz que era preciso, enfim
julgar o carrossel da vida
com a exatidão da anatomia
de quem se joga no mundo
com a força da alegria.
Do luar de Puno com o mar subentendido
dói como a saudade
na consciência de quem sabe
do luar de Puno
quase se avista
o mar subentendido
que a cidade administra
o mar
tem a brutalidade
como uma herança
que restou nas tardes frias
como uma necessidade de esperança
o mar
dói pelo avesso
e - quem sabe?
no vão de sua espuma
há sempre um recomeço
de todos os luares de Puno
e as memórias em que me esqueço
Dizeres em torno do amor
de ser assim tão de repente
que não lhe sobra a feição
de matéria inconseqüente
pois por mais desavisado
nos verbos em que se assente
diga-se de tal constância
que palavras lhe acrescentem
apenas o invólucro
de parecer diferente
ao amor é dada a concisão
de parecer-se infinito
mesmo que se tenha à meias
nalgum desvão dos sentidos
é que lhe atesta a distância
a temperança do rito
quando descamba pelas mãos
num gesto mais irrestrito.
ao amor é dada a confluência
dos rios em que se navega
e mesmo sendo líquido
é tão parente à pedra
que resta quase montanha
no peito de quem lhe perde
ao amor é dada a economia
de parecer-se adimplemento
de tudo que se agregue
no peito da consciência
é que lhe falta a razão
de ser assim comedido
e bastar-se em medidas
em que se tenha contrito
ao amor é dado o desplante
de ser um carnaval invertido
onde nada do seu avesso
habita simples indício
de que é uma festa renhida
da plenitude do siso
nada do que lhe é próprio
é propriamente sentido
pois sempre escapa à razão
de ser quase um grito
ao amor é dada a diversidade
de ser um um divisível
por todas as abscissas
de qualquer algarismo
pois sua matemática
é de escorreita decisão
nunca se tem em números
mas em unívoca contração
que trama a franja do peito
nos traços de qualquer não
ao amor é dada
a estranha similitude
de parecer-se a si mesmo
embora tanto se cuide
de mostrar-se diverso
numa mesma latitude
em que o coração transita
do tamanho de sua luta
ao amor é dada, enfim,
em todas as medidas
a plena concepção do trânsito
que sempre acelera a vida
do que transito
dou-me à liberdade
da compreensão exata
do que é tarde
transeunte da morte
não vejo em mim como tanto
a invenção do que é cedo
nas palavras em que me planto
transeunte do nada
melhor seria
ser um pouco do trânsito da terra
nos ombros da alegria.
Do futuro e suas medições
é do meu tamanho
tudo que lhe mede
são as réguas do meu sonho.
nada lhe traz assim
tão perdulário e conciso
quanto as vezes em que mede
todos meus infinitos
meu horizonte quase sempre
são os rumos que consigo.
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
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Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.