Escritas

Lista de Poemas

de tempos e tantos

assim que a vida invente

tudo que de novo se procure

nunca se tenha como isento

aquilo que o tempo inaugura

é que assim talvez a sintonia

do que tange um futuro prometido

possa restar assim como um passado

que não se derramou em vão pelos sentidos.
👁️ 85

De olhos e tempos em trânsito

olhar o tempo

sempre tange

tudo que é de nós
e que está longe

é que cabe ao homem
olhar com olhos de hoje
o que fora ontem
e descontruir os futuros
de tudo que lhe constrange
👁️ 130

De sentimentos e outros tais

há deles

de estranha geometria
que nem bem amanhecem
faltam pelo dia
 
há deles

de corpo avaro
resumo quase humano
de ossos e enfados
 
há deles

de profunda complacência
que nem tangem a idade
pela despresença
 
há deles

que se demitem da vida
como em emprego amargo
e sem saída
 
há deles

em cruenta luta

que suam pelos olhos
lágrimas e desusos
 
há deles

de latente suicídio

que trombam com a vida
em desatino
 
há deles

quão meninos

rótulas mal encaixadas
do destino
 
há deles

tão infantes
pendurados na alegria
e nos horizontes
 
há deles

desmanchados

em amores faltos

e persistentes boulevares
 
há deles

tão finalmente

que se dizem dízima
de contar a gente
👁️ 111

das ruas de mim

único

tudo me define 
outro 
 
sou,

assim alheio,

tudo de mim mesmo 
e pouco 
 
é que me sobra

a compreensão

de parecer-me em vão
quando não pulsam

no cérebro,
o coração
nas mãos, a luta.

👁️ 108

Desmedidas

desconfie dos tempos
postos em medidas
nada do que é exato
é totalmente a vida
 
sua matemática

é de estranha lida

nunca se contém números
mas em desmedidas
 
suas infinitudes

são tão restritas

que cabem quase sempre
nos bolsos da camisa
 
suas multiplicações

apenas recomeçam

as divisões que as horas
ensejam em seus tropeços
coisa de nem ser avaro
porque pleno e avesso
 
desconfie dos absolutos

e dos sempres invioláveis

por trás de cada infinito

há um susto mensurável

não com os metros do que se possa
mas com as réguas da vontade
 
desconfie dos relativos

e das vicissitudes dos espaços
tudo cabe num metro

apesar de incontrolável

é que a vida é quase absoluta
quando nela se cabe
 
desconfie da desconfiança
usada como arma

ela apenas se presta à razão
de quem se amarga
é que a vida não é dada
às incertezas de quem a traga
 
desconfie das manhãs arrazoadas
postas num tempo sem debates
nada do que é o tempo

resvala apenas em palavras
 
desconfie das amarguras
um tanto adredemente
nada que não respingue

na condição de contente

e na informalidade dos anos
que se tem como vivente
 
mas, sobretudo,

desconfie do tempo e dos verbos
em que se esteja navegando
sem os mares por perto.
👁️ 110

discurso em andante compasso

haverá manhãs

em que meu pai me faltará
e eu, jogando à vida,
inventarei as tardes

em que ele esteja
 
haverá manhãs

em que me faltarei

e caminharei pelas noites
como um falido vagalume
 
haverá manhãs

em que as manhãs faltarão

e os homens caminharão sem tempo
pelos sovacos do mundo
 
haverá espaços

em que as noites faltarão

e a estrela da manhã
adormecerá encoberta

nas dobras do teu vestido de tule
 
haverá corações
engordurados

e a estranha sensação
de vãos pecados
 
haverá razões
desencontradas

e a urgente razão
dos astronautas
 
haverá senões

em cada face

e haverá um verbo
que me baste
 
haverá um caos

em cada esforço

e o exato ângulo do peito
em que me morro
 
haverá vontades

que não se aprestem
a remoer os fatos
através dos séculos
 
haverá soluções

de problemas não postos

e uma leve fímbria de tarde
em cada nesga de remorso
 
haverá manhãs

em que meu pai me faltará
e eu amolgarei os tempos
em que ele estivesse
 
haverá desusos
frequentemente

e a leve compreensão
do que se sente
 
haverá multidões

que se farão sozinhas

e canções de mil invernos
nas esquinas dos dias
👁️ 87

Das mesuras da vida em tamanhos

é que lhe falta o tamanho

de se dizer tão pouca

como se não lhe bastasse a razão
de se dizer avante

e contradissesse qualquer número
que lhe soubesse bastante
 
a vida, quase sempre,

é um contrato recorrente
nada que lhe constranja
entorna o tempo da gente

é que lhe sobra um certo quê
de parecer diferente.
👁️ 120

Dissertação adjetiva do Sanhauá

nem por essa lassidão

que lhe devora o jeito e a forma

possa o Sanhauá desmerecer-se

de eventuais revoltas

que por ser assim pacato

enlaçando em vão a Felipéia

penda do seu ombro o gosto exato

das maravilhas de que pode a terra 
nem por essa lama avara

que lhe rega o dorso impunemente 
percam seus habitantes mais chegados 
a condição informe de presentes

que por ser assim anônimo

na revolução de suas águas

seja um sintoma tão premente

de mascarar de paz a mágoa

nem por ser regaço de Felipéia

no gesto inato de serpente 
encontre-se o mais rápido relance

de figura incompetente

que por ser assim tão plácido

no seu ofício dormente

não saiba dizer em suas águas

o gosto de sangue tão latente

nem por ter da terra a intimidade

e a consistência incauta de um grito 
saiba engolir as contradições

sem a justeza efêmera dos dissídios 
nem por ser tal condutor

de homens quase líquidos

deixe de reconhecer a lágrima

que escorre do vão do seu umbigo
 
que sabendo-se estrada 
de tanger a solidão 
invente pela memória 
um punhado de razão
 
porque rio, saiba constante 
que o baldio homem que leva

é muito mais uma distância 
que trafegar ninguém se atreve
 
nem por estar pejado 
do mais fundo sacrifício
possa não cogitar da fartura 
em que às vezes se acredita 
 
nem por ser das estrelas 
um espelho avariado

não saiba trazer nas rugas 
toda sua intimidade 
pois de tão material

lhe venha a ser conteúdo 
a estrela mais fugaz

que desabita seu futuro 
 
nem por ser do universo

uma corrente sem volta

não saiba descabelar-se a tempo 
nas lembranças que lhe tocam
 
correndo de si próprio

em maratona tão já gasta

o Sanhauá bebe a miséria

dos homens que lhe acatam 
desce no frêmito mais lânguido 
ordenhado em mãos tão avaras 
que esquece que às vezes é rio 
onde deságuam várias almas

e se nunca rompe o equilíbrio 
entre a geografia e a sua calma 
quem lhe cavalgará o dorso 
com a presteza de astronauta? 
nem por escorrer freqüente 
não tenha lapsos de memória 
quem distribuiu Felipéia

no peso de suas costas? 
 
da maciez da lama

se tire a paciência

nos caranguejos enrolados

nos cachos da consciência

e da assembléia das águas

que filtram toda manhã

o sol nunca desconfie

de que trava uma luta vã

pois por mais vapor que construa 
nas suas lanhadas costas

ele sempre volta rio

em águas que ninguém nota

e quando se alça bruto

no estômago das nuvens

ele leva além de vapor

os sonhos de quem se urge 
 
da condição humana

o Sanhauá não cogita

por que levar tanto sangue 
num feixe magro de tripas? 
antes rio gordo dessa lama 
queira-se mais comedido

pois por ser rio não lhe cobram 
sonhar mais do que é preciso. 
 
ao beber o Sanhauá

em geral não se pressente 
o gosto rico dos homens

e a dúvida de seus viventes
 
no suicídio reconhece 
uma lúdica insistência

de deixar de ser homem 
de matéria incompetente 
pra travestir-se de rio

nos sonhos-lama da gente 
não tem a filosofia 
dos suicídios mais compostos 
pois a pose é sempre a lama 
e como rio não lhe importa

a pouquidão dessas vidas 
e a certidão de qualquer norma
 
de ser cúmplice da fome

o Sanhauá se redime

nos quilos magros de peixe 
que os homens lhe retirem

e não tem a desfaçatez

das promessas mais nervosas 
pois tem de si a compreensão 
de um rio sem tantas forças
 
nem por ser interlocutor 
das fomes mais atrevidas 
deixe de engordurar-se

dos caranguejos da vida 
que em sendo forasteiros 
das águas que lhe socorrem 
possam ditar o exercício 
da crueza da revolta.

 
o Sanhauá e a inquirição da vida 
 
que tal Martim Leitão 
senhor assim da matéria 
ousou limitar o rio

na corda de muitas regras?
 quem supôs o artifício 
de decretar Felipéia

e trazer pras suas costas
o peso de muitas guerras? 
quem compôs tal partitura 
que na cabeça do futuro 
faria o Sanhauá ter homens 
pendidos de tantos muros? 
que tão Martim Leitão
forasteiro da competência 
ousou distribuir nestas terras 
os palmos de sua crença? 
quem forjou a brutalidade

de romper teu equilíbrio

e navegar tuas águas 
com a intimidade do cio?

quem ausentou do teu corpo

a carne de Piragibe

e que nunca mais a carne

no teu ofício reteve?

quem lançou sobre ti

essa algema virtual

como se não tivesses da ponte

a desnecessidade de tal?

quem comprimiu o leito

de propriedade indisfarçável

e quis esmagar teu peito

com a selvageria das traves?

quem duvidou da conseqüência

do teu ofício informe

de levar a água pro mar

misturada aos sonhos de quem não pode? 
 
que tal Martim Leitão
 amigo já de Piragibe 
matriculou Felipéia

no dorso de tua crise? 
quem te pôs acorrentado 
entre cimento e miséria 
pra iludir tuas águas 
na mágoa intensa da guerra? 
quem te forjou novo ofício 
de amarga competência

de engolir tantos homens 
esquecidos da consciência? 
quem te pôs assim restrito 
numa forma tão imensa 
e atravessou o infinito

nos palmos de tua ausência? 
quem te fez tão urbano

num foro tão agrário

quem nem soletras nas águas

a parcimônia do cansaço?

quem te fez transeunte

de uma vida regulada

em que poucos tem muito

e quase todos quase nem alma? 
quem te fez tão concreto

nessa pátria movediça

e te engravidou dessa lama
de eficácia tão triste?

quem te usou como rio 
explorando teus viventes

pra navegar no teu lombo

um magote de presenças? 
quem te pôs sem vela

num mar tão incontido

e acorrentou tuas águas

aos pés desses edifícios?

quem te ousou sadio

nessa sala tão doente

que não perceba que o sonho

é quase sempre da gente? 
quem te armou as costelas

de pedras e penas e gritos
e construiu na tua boca
palavras sem sentifo?
 
 
De Piragibe tirante a mágoa
 
corre o ano 85

de 1500 - vasta espera 
escondendo agosto na barriga 
cinco dias e outras léguas
 
quem é esse ouvidor

que Martim Leitão se engalana

como se o nome fosse patente

que pusesse medo em quem chama?
 
quem é esse ouvidor

que assim fustiga a consciência 
e que se crê marido da terra

e quer lhe por em moenda?
 
quem é esse ouvidor

que de Olinda assim desfeito 
trunca uma vontade inteira 
na franja inata do peito?
 
quem é esse ouvidor

que dos passos não se afasta 
e que palmilha sua distância 
numa parca matemática? 
 
corre o ano 85

de 1500 - quanta guerra 
cinco dias de um tão agosto 
muito chão e et ceteras 
 
quem são esses indivíduos 
parentes em vão da terra 
que espelham suas rugas 
nas rugas que já não levam? 
 
quem são esses forasteiros
que revéis da cidadania
cosem a vida com o barro 
sem lhe cobrar serventia?
 
quem são esses tabajaras
que nus da própria existência 
teimam em deitar com a vida 
nos cabides da paciência?
 
quem são esses tabajaras 
que tecem com todo alinho 
uma vida que mais medra 
com a insistência do espinho?
 
quem são esses tabajaras 
que mercê do seu aprumo 
deitam com a liberdade
na cama quase sem rumo?
 
 corre o ano 85

de 1500 - magra era 
engolido agosto já tanto 
cinco dias, muitas trevas
 
quem é esse Piragibe

que sentado no seu sorriso 
inventa a simplicidade

com a mesma força do rio?
 
quem é esse Piragibe 
que presidente das horas 
decreta o fim do dia

pela espinha da história?
 
quem é esse Piragibe

que à paz se tem afeito

e que arquiva guerras no tempo 
como as tristezas no peito?
corre o ano 85

de 1500 - nave exausta 
construído assim agosto 
em 5 dias de pauta
 
quem é essa Felipéia

das neves de tal senhora 
que cresta ao sol desse rio 
como um infante tão breve?
 
quem é essa Felipéia 
tão íntima da natureza

e que se forja com barro 
de tão estranha certeza?
 
quem é essa Felipéia

que tão dolente nem nota 
que já pertence a senhorio 
de quem nunca foi devota?
 
quem é essa Felipéia

que rebento assim de repente 
como aceiro de si mesma

se quer coisa de gente?
 
quem é essa Felipéia

que do futuro nem sabe 
dos quilos de tanta fome 
que vão encher sua face?
 
quem é essa Felipéia

que alheia a seu batismo 
perdeu-se de boca em boca 
e nas voltas do seu umbigo?
 
quem é essa Felipéia 
que da postura se cante
como uma rede ancorada 
nas paredes do horizonte? 
há de essa criança

de gente e barro urdida 
abraçar-se com o presente 
com o futuro na barriga
 
há de essa demarche

ser mais longa e prometida

que os anéis que pendem do dedo 
do ouvidor de Olinda

há de essa cidade

que agora se amamenta

criar com leite das pedras

as maltrapilhas presenças
 
há de essa estrada

ser feita em grave ofício

e que o destino lhe cubra os anos 
com a displicência de um íntimo 
 
há de essa morada 
trazer para o leito do rio

a tez macia do açúcar

e um gosto de pau-brasil 
 
 corre o ano 85

de 1500 restrito

agosto amanhã sem jeito 
5 dias comprimidos
 
em que cartório e recinto

sua posse foi lavrada

pra que dispusessem de si 
como as carnes de uma vaca?
 
quem foi tal tabelião

que em exercício truncado 
registrou que sua pele 
podia fazer-se mercado?
 
quem foi que dilacerou

a sua estada de virgem

e que a querem tão mundana 
nas carnes que ainda exibe?
 
quem foi que desabrochou 
numa tarefa fugaz

seu ventre de muitas coisas 
pra coisas que vendem mais? 
 
diz que em 85

de 1500 o tempo

agosto quis por inteiro

há cinco dias no ventre 
desfazer-se de um terreiro 
que lhe jazia urgente

e inventou Felipéia

na vida desses viventes
e assentaram como assim 
no cartório dessa gente 
que a cinco de agosto 
Felipéia era presente
 
do braço do Sanhauá

como um músculo saltimbanco 
Felipéia saltou na vida

com a presteza de um pranto
 
e desse abraço infinito 
que o rio sempre lhe dá 
molhou-se seu lábio verde 
da incoerência do mar
 
que por ser só atlântico 
não se acha tão disposto 
a abraçar Felipéia

na proporção do seu gosto
 
antes se quisesse mais rio
 de compleição menos lata
 pra abraçar Felipéia

com a prontidão de um gato
 
mas mesmo com parcimônia 
nesse exercício de andante 
esquece um gosto de África 
no ombro grave do mangue
 
e o Sanhauá com ciúmes

no leme já de si mesmo 
ostenta um ranço da história 
pelo desvão de seus dedos
 
quem foi esse ouvidor

que não previu tal desatino 
romper o verdor da terra 
com o equilíbrio do rio?
 
quem foi esse tal Martim 
que se inventou do nada 
e fez xixi nessa praça

no meio dos tabajaras?
 
esse xixi de ouvidor

tem utilidade bastante

pra te construir novo corte 
te dar um novo horizonte
 
e Felipéia alastrou
-se 
como canavial conseqüente

que mastigasse a moenda

na verdura de seus dentes

e pronto veio o costume

de ter retrato mais conforme

aos tijolos mais impingidos

que a mão do homem lhe adorna
 
e de ser mais urbana
lhe veio a vã teimosia

de lutar contra os viventes 
que no seu peito se aninham
 
veio-lhe a solicitude

da concreta solidão

de tijolos alinhados

à custa de exploração

assim cresceu a ganância 
de ser tão decomposta 
lavrada num suor mais forte 
que o rio que lhe comporta
 
e aprendeu nessa lida

que na vida a que se apresta 
é preciso ser menos um

e ser muitos et ceteras.

👁️ 73

Das necessidades e dos mercados

a necessidade

é sempre humana
nada do que contrário
 lhe reclama
 
a necessidade

não se insere

num mercado fluido
e adrede
 
a necessidade

não cogita

de locupletar-se com bits
dúvidas e dívidas
 
a necessidade

não habita o mercado
tirante os que preenche
nos humanos dividendos
onde tudo que se soma
é um senão a menos
 
a necessidade

não se atira nos produtos
como uma garça retirante
o vôo que prescreve

é sempre humano

e um riso é mais rentável
que o fato econômico
 
a necessidade

não está estampada

nos neons coloridos

das madrugadas

ela se estampa no homem
grávida de tudo

na paz que se constrói
pelos mercados do mundo
 
a necessidade

destrói o mercado

tão completamente
quanto constrói a vida
nos mercados da gente
👁️ 118

De Olinda em carnaval de tudo

até parece que o frevo
inventando a emoção
escreve assim
 pelas pernas
um infinito no chão
 
e assim descendo a Ribeira,
ladeiras no coração,

Olinda toda me chama

em cada ângulo de casa
em cada palma de mão
 
as pernas fogem pro peito
ensaiam a rebelião

dos sons que o ouvido engole
com a exata compreensão
de que olinda não é cidade
é apenas uma saudade
misturada com a razão
 
e todos pulam seus jeitos
com a mesma sofreguidão
com que o sol esperneia
nas faces de uma canção
 
até parece
 que o frevo
espreguiçando-se em vão
adormece já sonhando
as coisas da ilusão
 
e assim fingindo ser tarde
a noite mal principia

e monta toda a manhã
que meu peito consentia
 
e a hora nem se apercebe

de que o tempo é relativo

e esconde seus minutos

nas curvas dos meus sentidos
 
Olinda é quase uma guerra
de generais consentidos
soldados que sejam tantos
nas marcas de seus sorrisos
 
até parece que o frevo
despenca já lá do alto

e cai no peito da povo

com a mesma simplicidade
com que os neurônios inventam
as máscaras em que se cabe
 
Olinda assim já é tarde
pra essas coisas de cidade
antes é um grito tão tanto
barganha da liberdade
 
e ainda assim o perigo

de esquecer a própria vida
e nem pensar que amanhã
atravessado na avenida

o homem passeará sua dor
nos frevos
 que lhe consintam
 
II
 
Olinda então já chorava
Olinda enfim já sorria

e sem caber no meu peito
em carnaval se explodia
como uma nave desfeita
em mares que eu nem sabia
 
o frevo assim parecia

uma alegre matemática

que dividia todo meu medo
nas contas que eu não usava
 
e urdia nos cabelos

uma ventania inexata

que deslocava meus sonhos
no rumo infante da praça
 
Olinda então consentia
arrumar esses viventes
num jeito de alegria

a que às vezes se consente
sem perceber que a vida
é muita menos verdade
e muito mais de repente
 
o frevo descendo a praça
é quase uma liberdade

é um jeito desajeitado
de inventar a cidade
na ponta palma dos pés
na pronta face da tarde
 
o frevo medra
 solene
nos ombros na multidão
peso que nem seja tanto
tomado em comparação
aos pesos tantos da vida
que se carrega em vão  
 
III
 
a nota 
clara do frevo
não é música, é uso,
apenas publica o povo
na pauta do seu susto
 
o frevo não é tudo

mas abarca um jeito de inteiro
no prazer incontrolável
de se dizer brasileiro
 
cai pela face do povo
assim misturado à tristeza

que desce rindo nas pernas
de quem lhe cobra a certeza
o bloco é um sanguessuga

que ferve o peito de Olinda
e invade suas carnes

com a sanha
 de uma sina
 
IV
 
Olinda, morena, moreno,

senzala da liberdade
revolves no passo do frevo
um futuro
 que nem se sabe
 
e denuncias no canto

das pedras em que te cabes
os infinitos que jogas

nos ombros de tuas tardes
 
Olinda sabe a desejo

como uma força que invade
a franja incauta do peito

de quem do frevo nem há de
 
e a Sé
 repousa sem jeito

numa contrição desmedida
que arruma o canto da gente
no frevo exato da vida
 
coqueiros balançam a tarde
numa preguiça infinita

e ventam todos os barcos
com os frevos à deriva
 
como uma tristeza 
escondida,
Olinda,
nua assim na alegria,
drapeja bandeiras tantas
que nem sabe que sabia
 
Olinda, assim bailarina

de palcos e de coxias

joga o frevo no peito
com a mesma melancolia
com que arrasta o sonho
em passos que não havia
e nem se importa que a vida
contivesse o que se sentia
e que explodisse na sem razão
do que cada corpo pedia
 
Olinda, assim transeunte

de ruas que não devia
pesava em vão pelos passos
dos caminhos da alegria

ornada em mágoas e mágicas
de intransitiva serventia
e completava as curvas da dança
com a certeza da esperança

e um certo quê de agonia
 
Olinda, assim tão seu povo
cerzida às costas do frevo
inventa um carnaval
dentro de todo o medo

e nem sobra nas ladeiras
qualquer ângulo mais exato
em que não se visse da vida
uma vida em sobressalto
 
pulando assim na Ribeira
nos quatro cantos de tudo
Olinda cria  a razão
um sentimento profundo
e constrói nas suas mãos
nas pernas do coração

o sentimento e o rumo

de montar uma esperança
nos descampados do mundo
 
Olinda inventa um jeito de nave
em cosmos que nem habita

e trai um jeito de infinda
apesar de tão contida
 
Olinda contraria a tristeza
com a mesma euforia
com que o mar lhe inventa
pelos navios dos dias
 
Olinda é quase um tempo
é continente e conteúdo
e mesmo assim relativa
deixa-se estar absoluta
o coração de quem lhe vê
no frevo intenso da luta
é somente um continente
da ilha de quem lhe usa
um jeito incauto de ser nada
mesmo sabendo tudo
 
destempo e minuto,

hora desapercebida,

que flui no vão do cérebro 

nos sentidos pela avenida
 
e se vê Olinda

na textura do tato

na carência dos dedos

na sola dos meus sapatos

na timidez do medo

na intrepidez do enredo

que a gente ensaia sem palco
 
e tem-se assim Olinda

enquanto te despossuem

e ao mesmo tempo que te fazem
desfazem tanto teu uso
num carnaval diferente

que trava o peito da gente
num frevo que nem se escuta
 
descendo Olinda e ladeira
descamba a cidade avulsa
presa de passos e pesos
prenha de segredos e sustos
 
no Carmo 
chego sem medo
Olinda ainda é alegre
tarde que já é cedo

noite que é quase um dia

num tempo que é só começo
 
Olinda flutua

na mansidão dessas águas
que se dizem suor e sangue
ou mesmo baldias lágrimas
choradas pelo vão riso
como senões imatemáticos
 
Olinda não se conta

pelas casas que possua

mas pelo jeito que engendra
no íntimo de suas ruas
 
 
Olinda não descansa
de ser vária e avulsa

e pesa os tempos que alinha
na cara de todos os sustos
 
cidade nem se apercebe
que a história continua
entrançada em suas pedras
nos passos de quem lhe usa
morena, nem se acalma

com a graça de seus viventes
e se deixa desesquecida

no coração de quem sente
 
 
V
 
 
Olinda não é porto é parto
e nem é perto, quando em barco
se escreve no mar como um salto
e nem é longe mesmo
 ao largo

quando constrange a praia
com jeito de ancoradouro
de tudo que é exato
 
Olinda não é tanta 
é toda

e nem é limitada

pois existe um jeito de Olinda
nos palmos da madrugada 
em todo raio de lua
que no seu colo deságua
 
VI
 
 
nos Bultrins, quem sabe?

não se conte a alegria

que se desce assim do Amparo
rompendo o ventre do dia

pois se lhe ajeita um modo

de viver a serventia

que tem o cartório geral

dos sentimentos que alinha
 
nos Bultrins, quem sabe?
permaneça uma agonia

um tanto ou quê de provisória
que seus viventes presenciam
mas que traz uma nesga de riso
nas dobras urgentes do pranto
que escorre assim pelas ruas

com um jeito intenso de canto
 
nos Bultrins, a fantasia

é um sentimento inato
que recolhe no coração

a simplicidade do fato

de que o povo leva no peito
a a paciência e o trato
da força bruta das pedras
que lhe põem pelos sapatos
 
Nos Bultrins,

o tempo nem se apercebe
que bebe o peito do povo
numa proporção imatura

que faz um segundo ser tanto
no riso de quem lhe usa
 
nos Bultrins,

constantemente,

a vida se planta sem sementes
e sem orgulho

o povo se afirma
 no seu pulo
 
nos Bultrins

há um cheiro de cidade

que se pretende desurbana
campo que nem lhe cabe

pois trai um gesto cosmopolita
na sua ruralidade

fazenda de homens e meninos
trânsito da felicidade
 
nos Bultrins

a alegria se anuncia

nas letras do estandarte

que balança a vida do povo
numa tal intensidade

que chega a querer ser tanto
apesar do pouco que lhe cabe
 
Nos Bultrins,

há reis que nem sabem

dos reinos que ainda sentem
embutidos nas camisas

como uma máquina urgente
que pulsa o tempo e o homem
com a força do presente
 
nos Bultrins, quem sabe?
ainda existe a compreensão
da liberdade
 
 
VII
 
 
no Amparo

tudo desce

o tempo e a cidade

e a gente que lhe preenche
as veias lúdicas de pedra
que tapetes são do tempo
de quem ainda há de
 
no Amparo
a alegria se permite

habitar cada garganta

como um frevo ou uma frase
que contivesse palavras

futuros e lembranças
 
e nessa mistura

de verbos e sentimentos

o amparo se permite

afirmar o que se segue:

o Amparo é um estado

de insensatez da matéria

mas é dessa sem razão

que contém a simetria

dos gritos que a vida engendra
no cartório da alegria
 
no Amparo,

havido o carnaval,

o tempo não se conta
como um coisa precisa
é uma fração que se traz
no bolso da camisa

e que se espalha na rua
à medida que o frevo atua
e espalha o resto da vida.
 
no Amparo,

finalmente,

nunca se acaba uma alegria  
Impunemente

pois o riso é interno

ao frevo que se sente.
 
VIII
 
Ouro Preto que lhe diga

os versos que desalinha

na pauta ingente dessas ruas
por que o povo caminha.
porque de ser desmedido
caiba-lhe a contrafação

de remar contra a corrente
nos rios do coração
 
Ouro Preto nem se ilude

com a textura do som

um frevo que inventa um povo
com um jeito de ser de novo
o inventor da manhã
 
Ouro Preto nem se apercebe
nas manhãs de carnaval

que a vida tornou-se um palco
de um teatro informal
que joga os medos da vida
no meio da avenida

nos passos de um frevo tal
 
que desmente até a cidade
naquilo que não contém

pois traz uma felicidade

que não pertence a ninguém
pertence ao passo do frevo
e àquilo que lhe convém.
 
IX
 
Até parece que o frevo
tricotando a solidão
inventa assim pelas pernas
as urgências da multidão.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !