Lista de Poemas
de tempos e tantos
tudo que de novo se procure
nunca se tenha como isento
aquilo que o tempo inaugura
é que assim talvez a sintonia
do que tange um futuro prometido
possa restar assim como um passado
que não se derramou em vão pelos sentidos.
De olhos e tempos em trânsito
sempre tange
tudo que é de nós
e que está longe
é que cabe ao homem
olhar com olhos de hoje
o que fora ontem
e descontruir os futuros
de tudo que lhe constrange
De sentimentos e outros tais
de estranha geometria
que nem bem amanhecem
faltam pelo dia
há deles
de corpo avaro
resumo quase humano
de ossos e enfados
há deles
de profunda complacência
que nem tangem a idade
pela despresença
há deles
que se demitem da vida
como em emprego amargo
e sem saída
há deles
em cruenta luta
que suam pelos olhos
lágrimas e desusos
há deles
de latente suicídio
que trombam com a vida
em desatino
há deles
quão meninos
rótulas mal encaixadas
do destino
há deles
tão infantes
pendurados na alegria
e nos horizontes
há deles
desmanchados
em amores faltos
e persistentes boulevares
há deles
tão finalmente
que se dizem dízima
de contar a gente
das ruas de mim
único
tudo me define
outro
sou,
assim alheio,
tudo de mim mesmo
e pouco
é que me sobra
a compreensão
de parecer-me em vão
quando não pulsam
no cérebro,
o coração
nas mãos, a luta.
Desmedidas
postos em medidas
nada do que é exato
é totalmente a vida
sua matemática
é de estranha lida
nunca se contém números
mas em desmedidas
suas infinitudes
são tão restritas
que cabem quase sempre
nos bolsos da camisa
suas multiplicações
apenas recomeçam
as divisões que as horas
ensejam em seus tropeços
coisa de nem ser avaro
porque pleno e avesso
desconfie dos absolutos
e dos sempres invioláveis
por trás de cada infinito
há um susto mensurável
não com os metros do que se possa
mas com as réguas da vontade
desconfie dos relativos
e das vicissitudes dos espaços
tudo cabe num metro
apesar de incontrolável
é que a vida é quase absoluta
quando nela se cabe
desconfie da desconfiança
usada como arma
ela apenas se presta à razão
de quem se amarga
é que a vida não é dada
às incertezas de quem a traga
desconfie das manhãs arrazoadas
postas num tempo sem debates
nada do que é o tempo
resvala apenas em palavras
desconfie das amarguras
um tanto adredemente
nada que não respingue
na condição de contente
e na informalidade dos anos
que se tem como vivente
mas, sobretudo,
desconfie do tempo e dos verbos
em que se esteja navegando
sem os mares por perto.
discurso em andante compasso
em que meu pai me faltará
e eu, jogando à vida,
inventarei as tardes
em que ele esteja
haverá manhãs
em que me faltarei
e caminharei pelas noites
como um falido vagalume
haverá manhãs
em que as manhãs faltarão
e os homens caminharão sem tempo
pelos sovacos do mundo
haverá espaços
em que as noites faltarão
e a estrela da manhã
adormecerá encoberta
nas dobras do teu vestido de tule
haverá corações
engordurados
e a estranha sensação
de vãos pecados
haverá razões
desencontradas
e a urgente razão
dos astronautas
haverá senões
em cada face
e haverá um verbo
que me baste
haverá um caos
em cada esforço
e o exato ângulo do peito
em que me morro
haverá vontades
que não se aprestem
a remoer os fatos
através dos séculos
haverá soluções
de problemas não postos
e uma leve fímbria de tarde
em cada nesga de remorso
haverá manhãs
em que meu pai me faltará
e eu amolgarei os tempos
em que ele estivesse
haverá desusos
frequentemente
e a leve compreensão
do que se sente
haverá multidões
que se farão sozinhas
e canções de mil invernos
nas esquinas dos dias
Das mesuras da vida em tamanhos
de se dizer tão pouca
como se não lhe bastasse a razão
de se dizer avante
e contradissesse qualquer número
que lhe soubesse bastante
a vida, quase sempre,
é um contrato recorrente
nada que lhe constranja
entorna o tempo da gente
é que lhe sobra um certo quê
de parecer diferente.
Dissertação adjetiva do Sanhauá
nem por essa lassidão
que lhe devora o jeito e a forma
possa o Sanhauá desmerecer-se
de eventuais revoltas
que por ser assim pacato
enlaçando em vão a Felipéia
penda do seu ombro o gosto exato
das maravilhas de que pode a terra
nem por essa lama avara
que lhe rega o dorso impunemente
percam seus habitantes mais chegados
a condição informe de presentes
que por ser assim anônimo
na revolução de suas águas
seja um sintoma tão premente
de mascarar de paz a mágoa
nem por ser regaço de Felipéia
no gesto inato de serpente
encontre-se o mais rápido relance
de figura incompetente
que por ser assim tão plácido
no seu ofício dormente
não saiba dizer em suas águas
o gosto de sangue tão latente
nem por ter da terra a intimidade
e a consistência incauta de um grito
saiba engolir as contradições
sem a justeza efêmera dos dissídios
nem por ser tal condutor
de homens quase líquidos
deixe de reconhecer a lágrima
que escorre do vão do seu umbigo
que sabendo-se estrada
de tanger a solidão
invente pela memória
um punhado de razão
porque rio, saiba constante
que o baldio homem que leva
é muito mais uma distância
que trafegar ninguém se atreve
nem por estar pejado
do mais fundo sacrifício
possa não cogitar da fartura
em que às vezes se acredita
nem por ser das estrelas
um espelho avariado
não saiba trazer nas rugas
toda sua intimidade
pois de tão material
lhe venha a ser conteúdo
a estrela mais fugaz
que desabita seu futuro
nem por ser do universo
uma corrente sem volta
não saiba descabelar-se a tempo
nas lembranças que lhe tocam
correndo de si próprio
em maratona tão já gasta
o Sanhauá bebe a miséria
dos homens que lhe acatam
desce no frêmito mais lânguido
ordenhado em mãos tão avaras
que esquece que às vezes é rio
onde deságuam várias almas
e se nunca rompe o equilíbrio
entre a geografia e a sua calma
quem lhe cavalgará o dorso
com a presteza de astronauta?
nem por escorrer freqüente
não tenha lapsos de memória
quem distribuiu Felipéia
no peso de suas costas?
da maciez da lama
se tire a paciência
nos caranguejos enrolados
nos cachos da consciência
e da assembléia das águas
que filtram toda manhã
o sol nunca desconfie
de que trava uma luta vã
pois por mais vapor que construa
nas suas lanhadas costas
ele sempre volta rio
em águas que ninguém nota
e quando se alça bruto
no estômago das nuvens
ele leva além de vapor
os sonhos de quem se urge
da condição humana
o Sanhauá não cogita
por que levar tanto sangue
num feixe magro de tripas?
antes rio gordo dessa lama
queira-se mais comedido
pois por ser rio não lhe cobram
sonhar mais do que é preciso.
ao beber o Sanhauá
em geral não se pressente
o gosto rico dos homens
e a dúvida de seus viventes
no suicídio reconhece
uma lúdica insistência
de deixar de ser homem
de matéria incompetente
pra travestir-se de rio
nos sonhos-lama da gente
não tem a filosofia
dos suicídios mais compostos
pois a pose é sempre a lama
e como rio não lhe importa
a pouquidão dessas vidas
e a certidão de qualquer norma
de ser cúmplice da fome
o Sanhauá se redime
nos quilos magros de peixe
que os homens lhe retirem
e não tem a desfaçatez
das promessas mais nervosas
pois tem de si a compreensão
de um rio sem tantas forças
nem por ser interlocutor
das fomes mais atrevidas
deixe de engordurar-se
dos caranguejos da vida
que em sendo forasteiros
das águas que lhe socorrem
possam ditar o exercício
da crueza da revolta.
o Sanhauá e a inquirição da vida
que tal Martim Leitão
senhor assim da matéria
ousou limitar o rio
na corda de muitas regras?
quem supôs o artifício
de decretar Felipéia
e trazer pras suas costas
o peso de muitas guerras?
quem compôs tal partitura
que na cabeça do futuro
faria o Sanhauá ter homens
pendidos de tantos muros?
que tão Martim Leitão
forasteiro da competência
ousou distribuir nestas terras
os palmos de sua crença?
quem forjou a brutalidade
de romper teu equilíbrio
e navegar tuas águas
com a intimidade do cio?
quem ausentou do teu corpo
a carne de Piragibe
e que nunca mais a carne
no teu ofício reteve?
quem lançou sobre ti
essa algema virtual
como se não tivesses da ponte
a desnecessidade de tal?
quem comprimiu o leito
de propriedade indisfarçável
e quis esmagar teu peito
com a selvageria das traves?
quem duvidou da conseqüência
do teu ofício informe
de levar a água pro mar
misturada aos sonhos de quem não pode?
que tal Martim Leitão
amigo já de Piragibe
matriculou Felipéia
no dorso de tua crise?
quem te pôs acorrentado
entre cimento e miséria
pra iludir tuas águas
na mágoa intensa da guerra?
quem te forjou novo ofício
de amarga competência
de engolir tantos homens
esquecidos da consciência?
quem te pôs assim restrito
numa forma tão imensa
e atravessou o infinito
nos palmos de tua ausência?
quem te fez tão urbano
num foro tão agrário
quem nem soletras nas águas
a parcimônia do cansaço?
quem te fez transeunte
de uma vida regulada
em que poucos tem muito
e quase todos quase nem alma?
quem te fez tão concreto
nessa pátria movediça
e te engravidou dessa lama
de eficácia tão triste?
quem te usou como rio
explorando teus viventes
pra navegar no teu lombo
um magote de presenças?
quem te pôs sem vela
num mar tão incontido
e acorrentou tuas águas
aos pés desses edifícios?
quem te ousou sadio
nessa sala tão doente
que não perceba que o sonho
é quase sempre da gente?
quem te armou as costelas
de pedras e penas e gritos
e construiu na tua boca
palavras sem sentifo?
De Piragibe tirante a mágoa
corre o ano 85
de 1500 - vasta espera
escondendo agosto na barriga
cinco dias e outras léguas
quem é esse ouvidor
que Martim Leitão se engalana
como se o nome fosse patente
que pusesse medo em quem chama?
quem é esse ouvidor
que assim fustiga a consciência
e que se crê marido da terra
e quer lhe por em moenda?
quem é esse ouvidor
que de Olinda assim desfeito
trunca uma vontade inteira
na franja inata do peito?
quem é esse ouvidor
que dos passos não se afasta
e que palmilha sua distância
numa parca matemática?
corre o ano 85
de 1500 - quanta guerra
cinco dias de um tão agosto
muito chão e et ceteras
quem são esses indivíduos
parentes em vão da terra
que espelham suas rugas
nas rugas que já não levam?
quem são esses forasteiros
que revéis da cidadania
cosem a vida com o barro
sem lhe cobrar serventia?
quem são esses tabajaras
que nus da própria existência
teimam em deitar com a vida
nos cabides da paciência?
quem são esses tabajaras
que tecem com todo alinho
uma vida que mais medra
com a insistência do espinho?
quem são esses tabajaras
que mercê do seu aprumo
deitam com a liberdade
na cama quase sem rumo?
corre o ano 85
de 1500 - magra era
engolido agosto já tanto
cinco dias, muitas trevas
quem é esse Piragibe
que sentado no seu sorriso
inventa a simplicidade
com a mesma força do rio?
quem é esse Piragibe
que presidente das horas
decreta o fim do dia
pela espinha da história?
quem é esse Piragibe
que à paz se tem afeito
e que arquiva guerras no tempo
como as tristezas no peito?
corre o ano 85
de 1500 - nave exausta
construído assim agosto
em 5 dias de pauta
quem é essa Felipéia
das neves de tal senhora
que cresta ao sol desse rio
como um infante tão breve?
quem é essa Felipéia
tão íntima da natureza
e que se forja com barro
de tão estranha certeza?
quem é essa Felipéia
que tão dolente nem nota
que já pertence a senhorio
de quem nunca foi devota?
quem é essa Felipéia
que rebento assim de repente
como aceiro de si mesma
se quer coisa de gente?
quem é essa Felipéia
que do futuro nem sabe
dos quilos de tanta fome
que vão encher sua face?
quem é essa Felipéia
que alheia a seu batismo
perdeu-se de boca em boca
e nas voltas do seu umbigo?
quem é essa Felipéia
que da postura se cante
como uma rede ancorada
nas paredes do horizonte?
há de essa criança
de gente e barro urdida
abraçar-se com o presente
com o futuro na barriga
há de essa demarche
ser mais longa e prometida
que os anéis que pendem do dedo
do ouvidor de Olinda
há de essa cidade
que agora se amamenta
criar com leite das pedras
as maltrapilhas presenças
há de essa estrada
ser feita em grave ofício
e que o destino lhe cubra os anos
com a displicência de um íntimo
há de essa morada
trazer para o leito do rio
a tez macia do açúcar
e um gosto de pau-brasil
corre o ano 85
de 1500 restrito
agosto amanhã sem jeito
5 dias comprimidos
em que cartório e recinto
sua posse foi lavrada
pra que dispusessem de si
como as carnes de uma vaca?
quem foi tal tabelião
que em exercício truncado
registrou que sua pele
podia fazer-se mercado?
quem foi que dilacerou
a sua estada de virgem
e que a querem tão mundana
nas carnes que ainda exibe?
quem foi que desabrochou
numa tarefa fugaz
seu ventre de muitas coisas
pra coisas que vendem mais?
diz que em 85
de 1500 o tempo
agosto quis por inteiro
há cinco dias no ventre
desfazer-se de um terreiro
que lhe jazia urgente
e inventou Felipéia
na vida desses viventes
e assentaram como assim
no cartório dessa gente
que a cinco de agosto
Felipéia era presente
do braço do Sanhauá
como um músculo saltimbanco
Felipéia saltou na vida
com a presteza de um pranto
e desse abraço infinito
que o rio sempre lhe dá
molhou-se seu lábio verde
da incoerência do mar
que por ser só atlântico
não se acha tão disposto
a abraçar Felipéia
na proporção do seu gosto
antes se quisesse mais rio
de compleição menos lata
pra abraçar Felipéia
com a prontidão de um gato
mas mesmo com parcimônia
nesse exercício de andante
esquece um gosto de África
no ombro grave do mangue
e o Sanhauá com ciúmes
no leme já de si mesmo
ostenta um ranço da história
pelo desvão de seus dedos
quem foi esse ouvidor
que não previu tal desatino
romper o verdor da terra
com o equilíbrio do rio?
quem foi esse tal Martim
que se inventou do nada
e fez xixi nessa praça
no meio dos tabajaras?
esse xixi de ouvidor
tem utilidade bastante
pra te construir novo corte
te dar um novo horizonte
e Felipéia alastrou
-se
como canavial conseqüente
que mastigasse a moenda
na verdura de seus dentes
e pronto veio o costume
de ter retrato mais conforme
aos tijolos mais impingidos
que a mão do homem lhe adorna
e de ser mais urbana
lhe veio a vã teimosia
de lutar contra os viventes
que no seu peito se aninham
veio-lhe a solicitude
da concreta solidão
de tijolos alinhados
à custa de exploração
assim cresceu a ganância
de ser tão decomposta
lavrada num suor mais forte
que o rio que lhe comporta
e aprendeu nessa lida
que na vida a que se apresta
é preciso ser menos um
e ser muitos et ceteras.
Das necessidades e dos mercados
é sempre humana
nada do que contrário
lhe reclama
a necessidade
não se insere
num mercado fluido
e adrede
a necessidade
não cogita
de locupletar-se com bits
dúvidas e dívidas
a necessidade
não habita o mercado
tirante os que preenche
nos humanos dividendos
onde tudo que se soma
é um senão a menos
a necessidade
não se atira nos produtos
como uma garça retirante
o vôo que prescreve
é sempre humano
e um riso é mais rentável
que o fato econômico
a necessidade
não está estampada
nos neons coloridos
das madrugadas
ela se estampa no homem
grávida de tudo
na paz que se constrói
pelos mercados do mundo
a necessidade
destrói o mercado
tão completamente
quanto constrói a vida
nos mercados da gente
De Olinda em carnaval de tudo
inventando a emoção
escreve assim pelas pernas
um infinito no chão
e assim descendo a Ribeira,
ladeiras no coração,
Olinda toda me chama
em cada ângulo de casa
em cada palma de mão
as pernas fogem pro peito
ensaiam a rebelião
dos sons que o ouvido engole
com a exata compreensão
de que olinda não é cidade
é apenas uma saudade
misturada com a razão
e todos pulam seus jeitos
com a mesma sofreguidão
com que o sol esperneia
nas faces de uma canção
até parece que o frevo
espreguiçando-se em vão
adormece já sonhando
as coisas da ilusão
e assim fingindo ser tarde
a noite mal principia
e monta toda a manhã
que meu peito consentia
e a hora nem se apercebe
de que o tempo é relativo
e esconde seus minutos
nas curvas dos meus sentidos
Olinda é quase uma guerra
de generais consentidos
soldados que sejam tantos
nas marcas de seus sorrisos
até parece que o frevo
despenca já lá do alto
e cai no peito da povo
com a mesma simplicidade
com que os neurônios inventam
as máscaras em que se cabe
Olinda assim já é tarde
pra essas coisas de cidade
antes é um grito tão tanto
barganha da liberdade
e ainda assim o perigo
de esquecer a própria vida
e nem pensar que amanhã
atravessado na avenida
o homem passeará sua dor
nos frevos que lhe consintam
II
Olinda então já chorava
Olinda enfim já sorria
e sem caber no meu peito
em carnaval se explodia
como uma nave desfeita
em mares que eu nem sabia
o frevo assim parecia
uma alegre matemática
que dividia todo meu medo
nas contas que eu não usava
e urdia nos cabelos
uma ventania inexata
que deslocava meus sonhos
no rumo infante da praça
Olinda então consentia
arrumar esses viventes
num jeito de alegria
a que às vezes se consente
sem perceber que a vida
é muita menos verdade
e muito mais de repente
o frevo descendo a praça
é quase uma liberdade
é um jeito desajeitado
de inventar a cidade
na ponta palma dos pés
na pronta face da tarde
o frevo medra solene
nos ombros na multidão
peso que nem seja tanto
tomado em comparação
aos pesos tantos da vida
que se carrega em vão
III
a nota clara do frevo
não é música, é uso,
apenas publica o povo
na pauta do seu susto
o frevo não é tudo
mas abarca um jeito de inteiro
no prazer incontrolável
de se dizer brasileiro
cai pela face do povo
assim misturado à tristeza
que desce rindo nas pernas
de quem lhe cobra a certeza
o bloco é um sanguessuga
que ferve o peito de Olinda
e invade suas carnes
com a sanha de uma sina
IV
Olinda, morena, moreno,
senzala da liberdade
revolves no passo do frevo
um futuro que nem se sabe
e denuncias no canto
das pedras em que te cabes
os infinitos que jogas
nos ombros de tuas tardes
Olinda sabe a desejo
como uma força que invade
a franja incauta do peito
de quem do frevo nem há de
e a Sé repousa sem jeito
numa contrição desmedida
que arruma o canto da gente
no frevo exato da vida
coqueiros balançam a tarde
numa preguiça infinita
e ventam todos os barcos
com os frevos à deriva
como uma tristeza escondida,
Olinda, nua assim na alegria,
drapeja bandeiras tantas
que nem sabe que sabia
Olinda, assim bailarina
de palcos e de coxias
joga o frevo no peito
com a mesma melancolia
com que arrasta o sonho
em passos que não havia
e nem se importa que a vida
contivesse o que se sentia
e que explodisse na sem razão
do que cada corpo pedia
Olinda, assim transeunte
de ruas que não devia
pesava em vão pelos passos
dos caminhos da alegria
ornada em mágoas e mágicas
de intransitiva serventia
e completava as curvas da dança
com a certeza da esperança
e um certo quê de agonia
Olinda, assim tão seu povo
cerzida às costas do frevo
inventa um carnaval
dentro de todo o medo
e nem sobra nas ladeiras
qualquer ângulo mais exato
em que não se visse da vida
uma vida em sobressalto
pulando assim na Ribeira
nos quatro cantos de tudo
Olinda cria a razão
um sentimento profundo
e constrói nas suas mãos
nas pernas do coração
o sentimento e o rumo
de montar uma esperança
nos descampados do mundo
Olinda inventa um jeito de nave
em cosmos que nem habita
e trai um jeito de infinda
apesar de tão contida
Olinda contraria a tristeza
com a mesma euforia
com que o mar lhe inventa
pelos navios dos dias
Olinda é quase um tempo
é continente e conteúdo
e mesmo assim relativa
deixa-se estar absoluta
o coração de quem lhe vê
no frevo intenso da luta
é somente um continente
da ilha de quem lhe usa
um jeito incauto de ser nada
mesmo sabendo tudo
destempo e minuto,
hora desapercebida,
que flui no vão do cérebro
nos sentidos pela avenida
e se vê Olinda
na textura do tato
na carência dos dedos
na sola dos meus sapatos
na timidez do medo
na intrepidez do enredo
que a gente ensaia sem palco
e tem-se assim Olinda
enquanto te despossuem
e ao mesmo tempo que te fazem
desfazem tanto teu uso
num carnaval diferente
que trava o peito da gente
num frevo que nem se escuta
descendo Olinda e ladeira
descamba a cidade avulsa
presa de passos e pesos
prenha de segredos e sustos
no Carmo chego sem medo
Olinda ainda é alegre
tarde que já é cedo
noite que é quase um dia
num tempo que é só começo
Olinda flutua
na mansidão dessas águas
que se dizem suor e sangue
ou mesmo baldias lágrimas
choradas pelo vão riso
como senões imatemáticos
Olinda não se conta
pelas casas que possua
mas pelo jeito que engendra
no íntimo de suas ruas
Olinda não descansa
de ser vária e avulsa
e pesa os tempos que alinha
na cara de todos os sustos
cidade nem se apercebe
que a história continua
entrançada em suas pedras
nos passos de quem lhe usa
morena, nem se acalma
com a graça de seus viventes
e se deixa desesquecida
no coração de quem sente
V
Olinda não é porto é parto
e nem é perto, quando em barco
se escreve no mar como um salto
e nem é longe mesmo ao largo
quando constrange a praia
com jeito de ancoradouro
de tudo que é exato
Olinda não é tanta é toda
e nem é limitada
pois existe um jeito de Olinda
nos palmos da madrugada
em todo raio de lua
que no seu colo deságua
VI
nos Bultrins, quem sabe?
não se conte a alegria
que se desce assim do Amparo
rompendo o ventre do dia
pois se lhe ajeita um modo
de viver a serventia
que tem o cartório geral
dos sentimentos que alinha
nos Bultrins, quem sabe?
permaneça uma agonia
um tanto ou quê de provisória
que seus viventes presenciam
mas que traz uma nesga de riso
nas dobras urgentes do pranto
que escorre assim pelas ruas
com um jeito intenso de canto
nos Bultrins, a fantasia
é um sentimento inato
que recolhe no coração
a simplicidade do fato
de que o povo leva no peito
a a paciência e o trato
da força bruta das pedras
que lhe põem pelos sapatos
Nos Bultrins,
o tempo nem se apercebe
que bebe o peito do povo
numa proporção imatura
que faz um segundo ser tanto
no riso de quem lhe usa
nos Bultrins,
constantemente,
a vida se planta sem sementes
e sem orgulho
o povo se afirma no seu pulo
nos Bultrins
há um cheiro de cidade
que se pretende desurbana
campo que nem lhe cabe
pois trai um gesto cosmopolita
na sua ruralidade
fazenda de homens e meninos
trânsito da felicidade
nos Bultrins
a alegria se anuncia
nas letras do estandarte
que balança a vida do povo
numa tal intensidade
que chega a querer ser tanto
apesar do pouco que lhe cabe
Nos Bultrins,
há reis que nem sabem
dos reinos que ainda sentem
embutidos nas camisas
como uma máquina urgente
que pulsa o tempo e o homem
com a força do presente
nos Bultrins, quem sabe?
ainda existe a compreensão
da liberdade
VII
no Amparo
tudo desce
o tempo e a cidade
e a gente que lhe preenche
as veias lúdicas de pedra
que tapetes são do tempo
de quem ainda há de
no Amparo
a alegria se permite
habitar cada garganta
como um frevo ou uma frase
que contivesse palavras
futuros e lembranças
e nessa mistura
de verbos e sentimentos
o amparo se permite
afirmar o que se segue:
o Amparo é um estado
de insensatez da matéria
mas é dessa sem razão
que contém a simetria
dos gritos que a vida engendra
no cartório da alegria
no Amparo,
havido o carnaval,
o tempo não se conta
como um coisa precisa
é uma fração que se traz
no bolso da camisa
e que se espalha na rua
à medida que o frevo atua
e espalha o resto da vida.
no Amparo,
finalmente,
nunca se acaba uma alegria
Impunemente
pois o riso é interno
ao frevo que se sente.
VIII
Ouro Preto que lhe diga
os versos que desalinha
na pauta ingente dessas ruas
por que o povo caminha.
porque de ser desmedido
caiba-lhe a contrafação
de remar contra a corrente
nos rios do coração
Ouro Preto nem se ilude
com a textura do som
um frevo que inventa um povo
com um jeito de ser de novo
o inventor da manhã
Ouro Preto nem se apercebe
nas manhãs de carnaval
que a vida tornou-se um palco
de um teatro informal
que joga os medos da vida
no meio da avenida
nos passos de um frevo tal
que desmente até a cidade
naquilo que não contém
pois traz uma felicidade
que não pertence a ninguém
pertence ao passo do frevo
e àquilo que lhe convém.
IX
Até parece que o frevo
tricotando a solidão
inventa assim pelas pernas
as urgências da multidão.
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
Português
English
Español
Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.