Escritas

Lista de Poemas

dos limites da certeza

a vida
 
nunca é pouca

quando o futuro nos olhos 
e a palavra na boca
 
sonhar é só um jeito 
de guardar a vida
o espaço e o tempo 
dentro do peito. 
 

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dos meus tempos e das minhas desmedidas

A manhã

me contradita

tudo que me amanhece

é uma noite irrestrita

todas as horas do meu sono
olham um tempo

em que me amanheço

em contradita
 
a razão de ser um modo
humano em sua dita
sempre deixa meu tempo
numa cota resumida
eu sempre sou o que digo
apesar da desmedida
 
homem é sempre um tempo
de todas as medidas
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dos direitos e modos

de qualquer modo

a vida é sempre um jeito
de construir o novo
dentro do peito

basta dar ao coração

a liberdade e o direito
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do desejo e seus circunlóquios

o desejo

não é um jeito
de querer

o que não devo
 
o desejo

é apenas caminho
de espantar o mêdo
 
o desejo

não é um jeito
de desdizer

o que não creio
 
o desejo

é transeunte

de muitos mares
nas avenidas

e tudo que tange
meus olhares
 
o desejo

não transige

com a parcimônia
do que se vive
 
o desejo, enfim,

é quase um sobressalto

de quem mergulha humano
na certeza do que acha.
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do tempo e mais dizentes

o tempo

é um disfarce da alma

tanto mais agora

tanto mais acalma

não que fuja da lógica

dos números e dos nadas

mas que tenha a compreensão
de que não tarda
 
o tempo é ofício
de tanger a calma
e descobrir o vau
dos rios da alma.
 
o tempo

é invólucro do espaço
e toda hora e lugar
em que me abraço
 
não tem do rio
qualquer semelhança
pois o rio nunca para
na lembrança
 
não tem da rua

a mesma simetria

pois passos não lhe andam
apesar de via
 
o tempo

rói a intenção

como um rato

que quisesse roer

o seu retrato

pois falta-lhe a concisão
de parecer-se uno
quando imagem não seja
o que degluta

mas a própria carne

que desusa.
👁️ 66

Dom Quixote

língua de seda
lança de angústia
lavra Dom Quixote
sua luta
 
bóiam no campo
ávidos misteres
estraçalhados vãos
dos seus prazeres
 
rola na barba

uma frescura inata
de sua alma precoce
de astronauta
 
amanha no riso
lavoura adequada

aos afazeres que a paz
escreve em arma.
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do sonho e sua imanência

o sonho

é sempre coletivo
tudo que lhe tange
é infinito
 
e mesmo particular
dá-se ao desplante

de parecer viés

de todos os horizontes
 
é que lhe sobra uma nesga
de matéria itinerante

que passeia coletiva

nos sonhos de quem cante
 
sonhar é ver no outro
seu próprio horizonte.
 
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Do sertão e das vivências da curva de quase um rio

Primeiro havia um tempo
de parecer-se à terra

e germinar sementes

tão impunemente
que os dias atravessavam
o tempo todo da gente
 
primeiro havia um espaço
de conformar-se à amplidão
e parecer-se a infinito

que coubesse na mão

como se fora tão pouca

a consistência do não
 
primeiro havia a conveniência
de parecer-se à contradição
que joga homens à terra

com a mesma sofreguidão
com que os ares encerram
sua constância de sertão
 
primeiro havia cidades
vazias de tal lembrança
como se cactos fossem
a sua desesperança
um invólucro informal

de aguda persistência

como uma lavratura inconteste
de sua impaciência
 
primeiro havia o aval

de toda sua urdidura

de terra em quase canal

de estranha tecitura

como se alinhavasse seu vau
na complacência das ruas

vias essas que ousam
parecer-se a andaduras

de homens passos que passam
em calcanhares e figuras

que posam a vida pelo tempo
com a parcimônia das luas
 
primeiro havia a vantagem
de homens sobre a vontade
de poucos que tiram a muitos
as nesgas dessas cidades
porque em tudo era o todos
de primazia escorreita
se não pela palavra

que em verbo ainda se luta
pela persistência do braço

e a consistência tão bruta
que leva o homem a viver
de causa sempre mais justa
 
primeiro era a intenção

de se fazer tão moderno

que coubesse na razão

como um sistema exato

que consumisse sempre o riso
do tamanho do seu abraço
e contivesse ao invés

de desmedidas e distratos
a aparência dos mares

e a suficiência dos fatos
 
primeiro era a digressão

de que o verbo é tão incauto
que às vezes morre na palavra
quando não intenta o salto

de tornar-se quase discurso
das urdiduras do dia
retratando quase o mundo
num tempo de alegria
 
primeiro era o sertão

posto assim em desfastio

com a mesma complacência
das curvas de qualquer rio
que teima em se dar ao mar
apesar dos desvarios

de andar pelas cidades
banhando pedras e gente
como se fosse em engenho
de construir todo vivente
coisa de nem ser liberto
porque liberdade não se sente
ou se vive pela alma

ou se cobra pelos dentes
 
primeiro era o sertão

em urgente serventia
completando cada homem
nas regras claras do dia
como se fazenda fosse

o peito de cada vivente
de uma lavoura tenaz

das coisas todas da gente
que se planta quando fala
e se fala quando sente
 
primeiro era a certeza

de que a terra desmente
quem lhe tem como estrada
de consumir adredemente

um pouco de quem quer que seja
na condição de presente
 
primeiro era a verdade

de que seu valor não é renda
que possa desembocar

no bolso de quem convenha
só pela propriedade

de toda e qualquer moenda
pois para tirar-lhe custo

em valor que nem lhe pese
seja presente em cada palmo
de seus leirões e aceiros

a insistência do braço

e a condição de sertanejo
 
construindo o que se planta
em sua face de fazenda
retrate o homem a pertença
de tudo que lhe atenha
pois terra se dê ao luxo
d
e transformar-se em beleza
inventando seus roçados

nos peitos da natureza
 
e siga sendo do homem
sempre sertão em desafio
como se fora um mar

que coubesse em cada rio
e desembocasse amiúde
no peito de cada filho
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dos 62 em anos

Aos 62

tanjo a vida

na mesma direção

das desmedidas

tudo é tanto

e tão restrito

que me resto na contradição
do que morro e vivo
 
aos 62

meço-me menino

nas léguas de mim

que adivinho

e o riso

é uma bandeira escancarada
nas portas do que digo
 
aos 62

invento a tarde

na manhã

em que me invado
e vivo tudo de mim
desenfreado.
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do desenrolar das horas

o futuro

não é só um jeito

que o passado teima em dar
no pensamento

antes é viagem
descompassada

entre o que já foi

de tudos e de nadas
 
e mesmo futuro

ainda é passado

um presente grávido

de todos os passos

pois nunca é apenas um
é sempre vários
 
futuro

não lhe serve a carapuça
de retratar-se vazio

de qualquer luta
 
e mesmo tempo

é uma hora avessa
que vige apenas lúdica
no vão da cabeça
 
e no entanto

é razão inteira

de quem tem a vida
como certeza.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !