Escritas

Lista de Poemas

Dizeres fantasmagóricos

as almas
não discursam
faltam-lhes o verbo
e a culpa
 
almas são assim
transeuntes

nada do que não seja
lhes assume
 
porque em vê-las
assim avulsas e em pânico

a ninguém é dado
o seu trânsito
 
as almas

não matam
faltam-lhes a parcimônia
e a vigência da prática
 
almas dizem-se assim

de distantes e de baldias

e nem as rezas lhes cobram
alguma serventia

por não tê-las acesas

nas desoras dos dias
 
almas são só trejeitos
de quem entorna energia
no quadrilátero estreito
dos inexistentes da vida
👁️ 66

Dizeres a Ângela Maria

ainda assim, Abelim

terás do tempo

a compreensão verbal

de quem ousa gritar o mundo
pelos dentes

porque se cantas

não admites

que anjos tramitam pela garganta
nas notas em que insistes

e é de vê-los insones

nos bemóis mais destacados
 inventando dizeres

cheios de pecados
 
quando cantas

nem adivinhas

que teu povo em tua voz caminha

 
como uma canção que tenta
construir um canto

de tudo que se lamenta.
👁️ 104

Dissertação de espanto sobre a América Latina

desde os seios da Patagônia

que se estendem, assim, em andes desatados
montanhas que se queiram gritos

pedras que se digam tão cansadas

e que perdurem pela vida

como anseios e recados

que a terra dá aos homens

nos seus tempos de enfado
 
desde as costas de Guaiaquil
deitada em vã geografia

de casas e homens reunidos
na praça geral que não se quis
veleje por mares incontestes
a saúde dos desejos a que se apreste
aos que nunca a morte discutiu
 
desde os ombros do serrado
trançados a muque pelos ventos
desfaça-se o gosto do pecado
dos erros que se tem nas gentes
porque em vão desconsolado
o coração arquitete grave plano

de bater-se pelas ruas como soldado
de uma guerra havida impunemente
 
desde o colo da Argentina

gravado nos olhos dos infantes

que nunca se dizem retaguarda

como sempre se disseram avante
pendurados assim adredemente

nos sonhos que desfazem mansamente
como se fora a prontidão

de uma passeata quase urgente
 
desde os ombros de Cuzco
lavrado em pedra e pranto

um choro assim descontrolado
um riso sempre transeunte
e nem se disseram da cor

das dobras do horizonte

apenas cerziram à tua face

esse desenho ilógico de inca

que nem precisa amanhecer

para que a madrugada se pressinta
 
desde os sonhos de Bogotá

aranha tecida de fuligem

que sobe os morros em teu sono

e que em noites seu coração exige
nem bem trançaram suas veias

e te pusestes com gosto de menino
 
desde o raso da Catarina

que te tem serpente sem dizê-lo
e que já me diz das cores

que nunca trarás nos teus cabelos
porque morena

nem mulher se limite

com os sonhos que ouse pousar
em todos os seus cabides
 
desde Quebrada del Yuro

uma Bolívia entristecida

jogadas em camas que não queira
do tamanho de toda tua vida
 
desde Medellin

imóvel em seu paradigma
de parecer-se uma rosa
mesmo que não se diga
 
desde Brasília

adormecida em ângulos
na certeza de que o tempo
é sempre mais um tanto
 
desde o Titicaca

com seu jeito de mar arrependido
e a certeza de que a água

é mais um sonho indefinido
porque se se espalha

pelo vão do peito
melhor
morrer-se sonhando

da largura exata do teu medo
 
desde, enfim, essa América
abraçada em vão à natureza
permaneçam teus olhos como dela
como de si te venha tal delicadeza
👁️ 149

Distrato da fome

a fome não prescreve.
como rasurar a vida
se nem tanto e pouco
é o que se deve?
a fome é intacta

nada que não seja tanto

lhe desarma.

a fome é avara,

tudo que lhe seja nada escancara

a vergonha de ser humana

na cara de quem cala.

a fome presta-se ao poema

como um quê intransitivo

que nem transige, nem constrange

o que se dera por arte sendo sangue.
É que a palavra

sempre se permite

a dizer-se esperança

mesmo quando em riste

é que os homens anoitecem

quando a manhã é pouca

e não se tenha do pão

como amanhar a desculpa

função que nem seja quanta

de quantas inda há

pra se inventar a luta.
 
a fome é invólucro

de uma carne inóqua e transitória

que tanto mais exista

tanto menos importa

a fome é uma instância

de um tempo inumano

de consumir os homens e a esperança

a fome não se contrata

seu projeto nem de longe se arquiteta
como um vão exeqüível de curvas e retas
antes é um aviso urgente

de quanto tudo não houve

a fome é bandeira

de escancarar o homem pela vida

e nunca é só desejo

apesar da desmedida  
👁️ 89

Do caminhar murado do futuro

os muros da pátria
fogem da alvenaria
nos gritos insones
que lançam nos dias
assim como um discurso
das pedras que alinha

a pátria murada
na sanha fascista
regurgita o povo
pelas avenidas
até que o futuro entorne
suas léguas de vida.
👁️ 107

Dissertação pronominal à liberdade

não vá de hoje a liberdade

como pássara em vão do desatino
construir andaimes pela alma
como se fora posta em desalinho
 
mas é de tê-la assim constante
nessa latência de fato do destino
que nunca se arvora em substância
sem que para tanto flua o raciocínio
 
pois de engenho tal é tanto feita

que pulsa escondida em cada veia

e nunca está à mão quando se apresta
em ser fibra de cada descaminho
 
é preciso pois compreendê-la
na latitude exata da manhã

e resumi-la à fração do peito
adequado à pulso em cada vão
 
que se mais não tem que vê-la

é cometê-la assim impunemente
e consumi-la quase tanta

como se fora quase uma razão
consumida em adrede esperança
 
e é querê-la vasta
quando mínima

e é querê-la justa
quando indigna
 
e é de querê-la aos sábados
quando em terças

e é querê-la manhã

quando adormeça
 
que se mais não tem que havê-la
é esperança-la nas esquinas

e construir-lhe andaime vasto
que lhe caiba em todo desatino
e que se queira assim tão franca

com esse jeito infante de estrada

por onde caminham todos os homens
construindo a infinita madrugada.
 
👁️ 127

ditos da paisagem

                     A Lane Pordeus 
 
 
ao te dares infinita

alonjas a eternidade

como quem se inventa com o ilimite
de consumir-se tarde
 
é que te cabe um espaço

de um tempo inconsumido
em que brincas com a vida
na proporção exata de todos teus sentidos
👁️ 79

das vertentes democráticas e outros desígnios

ao homem

dê-se a impressão

da controvérsia do fato
e da inconstância do não
 
ao homem

dê-se a completude
de que se subtraia
cada atitude
 
ao homem

dê-se a ilusão

de que habita a si
em todos os desvãos
 
ao homem

dê-se o comprimento

das léguas todas de si

e da andadura dos ventos
 
ao homem

dê-se a contradição
de parecer-se um sim
mesmo não
 
ao homem

dê-se o descaso

de perder-se pelo tempo
em cada passo
 
ao homem

dê-se a andadura
de um bólide avesso
a desventuras
 
ao homem

dê-se a constância
de parecer-se líquido
em cada esperança
 
ao homem

dê-se o fim

de construir todos os inícios
em todos os confins

e que a tanto
se diga mais pacato
tanto mais medre a paz
em sobressaltos

ainda que sobrem passos
nas solas dos sapatos
 
👁️ 117

de águas e almas e outros tantos

mares são planícies

de líquida andadura

não se prestam aos passos

e à rapidez dessas ruas

antes caminham lentos

nas rédeas desses seus barcos
resguardada a violência

de todos seus descompassos
é como se fora uma paz
lavada nesses abraços

que a água dá nos viventes
como um recado do nada
e nas velas que o vento penteia
como bandeiras desatadas
tremulam todas as ondas

da condição dessas almas.
👁️ 122

discurso da morte

o morto

navega quase impunemente
na balsa dos olhos

de quem sente
 
e trai um tempo

com jeito de arma
molhados passos e prantos
que se amontoam na alma
 
a carne

de dureza tanta
rasga o vão da vida
como uma lâmina
 
as mãos

dormem lânguidas
como pássaros inúteis
e sem dramas
 
o morto navega

ainda impunemente

a balsa do seu corpo
nos olhos dos presentes
 
rasga objetivo

a íris mais urgente

num rio de saudade

que se comprime nos dentes
 
sem vau

o morto bóia

os quilos de passado
nos ombros da memória
 
e do transeunte
portador da vida

salta um cheiro de dó
informalmente reprimido
 
a morte sempre esquece
de esquecer a vida
👁️ 110

Comentários (10)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !