Lista de Poemas
Dizeres fantasmagóricos
as almas
não discursam
faltam-lhes o verbo
e a culpa
almas são assim
transeuntes
nada do que não seja
lhes assume
porque em vê-las
assim avulsas e em pânico
a ninguém é dado
o seu trânsito
as almas
não matam
faltam-lhes a parcimônia
e a vigência da prática
almas dizem-se assim
de distantes e de baldias
e nem as rezas lhes cobram
alguma serventia
por não tê-las acesas
nas desoras dos dias
almas são só trejeitos
de quem entorna energia
no quadrilátero estreito
dos inexistentes da vida
não discursam
faltam-lhes o verbo
e a culpa
almas são assim
transeuntes
nada do que não seja
lhes assume
porque em vê-las
assim avulsas e em pânico
a ninguém é dado
o seu trânsito
as almas
não matam
faltam-lhes a parcimônia
e a vigência da prática
almas dizem-se assim
de distantes e de baldias
e nem as rezas lhes cobram
alguma serventia
por não tê-las acesas
nas desoras dos dias
almas são só trejeitos
de quem entorna energia
no quadrilátero estreito
dos inexistentes da vida
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Dizeres a Ângela Maria
ainda assim, Abelim
terás do tempo
a compreensão verbal
de quem ousa gritar o mundo
pelos dentes
porque se cantas
não admites
que anjos tramitam pela garganta
nas notas em que insistes
e é de vê-los insones
nos bemóis mais destacados
inventando dizeres
cheios de pecados
quando cantas
nem adivinhas
que teu povo em tua voz caminha
como uma canção que tenta
construir um canto
de tudo que se lamenta.
terás do tempo
a compreensão verbal
de quem ousa gritar o mundo
pelos dentes
porque se cantas
não admites
que anjos tramitam pela garganta
nas notas em que insistes
e é de vê-los insones
nos bemóis mais destacados
inventando dizeres
cheios de pecados
quando cantas
nem adivinhas
que teu povo em tua voz caminha
como uma canção que tenta
construir um canto
de tudo que se lamenta.
👁️ 104
Dissertação de espanto sobre a América Latina
desde os seios da Patagônia
que se estendem, assim, em andes desatados
montanhas que se queiram gritos
pedras que se digam tão cansadas
e que perdurem pela vida
como anseios e recados
que a terra dá aos homens
nos seus tempos de enfado
desde as costas de Guaiaquil
deitada em vã geografia
de casas e homens reunidos
na praça geral que não se quis
veleje por mares incontestes
a saúde dos desejos a que se apreste
aos que nunca a morte discutiu
desde os ombros do serrado
trançados a muque pelos ventos
desfaça-se o gosto do pecado
dos erros que se tem nas gentes
porque em vão desconsolado
o coração arquitete grave plano
de bater-se pelas ruas como soldado
de uma guerra havida impunemente
desde o colo da Argentina
gravado nos olhos dos infantes
que nunca se dizem retaguarda
como sempre se disseram avante
pendurados assim adredemente
nos sonhos que desfazem mansamente
como se fora a prontidão
de uma passeata quase urgente
desde os ombros de Cuzco
lavrado em pedra e pranto
um choro assim descontrolado
um riso sempre transeunte
e nem se disseram da cor
das dobras do horizonte
apenas cerziram à tua face
esse desenho ilógico de inca
que nem precisa amanhecer
para que a madrugada se pressinta
desde os sonhos de Bogotá
aranha tecida de fuligem
que sobe os morros em teu sono
e que em noites seu coração exige
nem bem trançaram suas veias
e te pusestes com gosto de menino
desde o raso da Catarina
que te tem serpente sem dizê-lo
e que já me diz das cores
que nunca trarás nos teus cabelos
porque morena
nem mulher se limite
com os sonhos que ouse pousar
em todos os seus cabides
desde Quebrada del Yuro
uma Bolívia entristecida
jogadas em camas que não queira
do tamanho de toda tua vida
desde Medellin
imóvel em seu paradigma
de parecer-se uma rosa
mesmo que não se diga
desde Brasília
adormecida em ângulos
na certeza de que o tempo
é sempre mais um tanto
desde o Titicaca
com seu jeito de mar arrependido
e a certeza de que a água
é mais um sonho indefinido
porque se se espalha
pelo vão do peito melhor
morrer-se sonhando
da largura exata do teu medo
desde, enfim, essa América
abraçada em vão à natureza
permaneçam teus olhos como dela
como de si te venha tal delicadeza
que se estendem, assim, em andes desatados
montanhas que se queiram gritos
pedras que se digam tão cansadas
e que perdurem pela vida
como anseios e recados
que a terra dá aos homens
nos seus tempos de enfado
desde as costas de Guaiaquil
deitada em vã geografia
de casas e homens reunidos
na praça geral que não se quis
veleje por mares incontestes
a saúde dos desejos a que se apreste
aos que nunca a morte discutiu
desde os ombros do serrado
trançados a muque pelos ventos
desfaça-se o gosto do pecado
dos erros que se tem nas gentes
porque em vão desconsolado
o coração arquitete grave plano
de bater-se pelas ruas como soldado
de uma guerra havida impunemente
desde o colo da Argentina
gravado nos olhos dos infantes
que nunca se dizem retaguarda
como sempre se disseram avante
pendurados assim adredemente
nos sonhos que desfazem mansamente
como se fora a prontidão
de uma passeata quase urgente
desde os ombros de Cuzco
lavrado em pedra e pranto
um choro assim descontrolado
um riso sempre transeunte
e nem se disseram da cor
das dobras do horizonte
apenas cerziram à tua face
esse desenho ilógico de inca
que nem precisa amanhecer
para que a madrugada se pressinta
desde os sonhos de Bogotá
aranha tecida de fuligem
que sobe os morros em teu sono
e que em noites seu coração exige
nem bem trançaram suas veias
e te pusestes com gosto de menino
desde o raso da Catarina
que te tem serpente sem dizê-lo
e que já me diz das cores
que nunca trarás nos teus cabelos
porque morena
nem mulher se limite
com os sonhos que ouse pousar
em todos os seus cabides
desde Quebrada del Yuro
uma Bolívia entristecida
jogadas em camas que não queira
do tamanho de toda tua vida
desde Medellin
imóvel em seu paradigma
de parecer-se uma rosa
mesmo que não se diga
desde Brasília
adormecida em ângulos
na certeza de que o tempo
é sempre mais um tanto
desde o Titicaca
com seu jeito de mar arrependido
e a certeza de que a água
é mais um sonho indefinido
porque se se espalha
pelo vão do peito melhor
morrer-se sonhando
da largura exata do teu medo
desde, enfim, essa América
abraçada em vão à natureza
permaneçam teus olhos como dela
como de si te venha tal delicadeza
👁️ 149
Distrato da fome
a fome não prescreve.
como rasurar a vida
se nem tanto e pouco
é o que se deve?
a fome é intacta
nada que não seja tanto
lhe desarma.
a fome é avara,
tudo que lhe seja nada escancara
a vergonha de ser humana
na cara de quem cala.
a fome presta-se ao poema
como um quê intransitivo
que nem transige, nem constrange
o que se dera por arte sendo sangue.
É que a palavra
sempre se permite
a dizer-se esperança
mesmo quando em riste
é que os homens anoitecem
quando a manhã é pouca
e não se tenha do pão
como amanhar a desculpa
função que nem seja quanta
de quantas inda há
pra se inventar a luta.
a fome é invólucro
de uma carne inóqua e transitória
que tanto mais exista
tanto menos importa
a fome é uma instância
de um tempo inumano
de consumir os homens e a esperança
a fome não se contrata
seu projeto nem de longe se arquiteta
como um vão exeqüível de curvas e retas
antes é um aviso urgente
de quanto tudo não houve
a fome é bandeira
de escancarar o homem pela vida
e nunca é só desejo
apesar da desmedida
como rasurar a vida
se nem tanto e pouco
é o que se deve?
a fome é intacta
nada que não seja tanto
lhe desarma.
a fome é avara,
tudo que lhe seja nada escancara
a vergonha de ser humana
na cara de quem cala.
a fome presta-se ao poema
como um quê intransitivo
que nem transige, nem constrange
o que se dera por arte sendo sangue.
É que a palavra
sempre se permite
a dizer-se esperança
mesmo quando em riste
é que os homens anoitecem
quando a manhã é pouca
e não se tenha do pão
como amanhar a desculpa
função que nem seja quanta
de quantas inda há
pra se inventar a luta.
a fome é invólucro
de uma carne inóqua e transitória
que tanto mais exista
tanto menos importa
a fome é uma instância
de um tempo inumano
de consumir os homens e a esperança
a fome não se contrata
seu projeto nem de longe se arquiteta
como um vão exeqüível de curvas e retas
antes é um aviso urgente
de quanto tudo não houve
a fome é bandeira
de escancarar o homem pela vida
e nunca é só desejo
apesar da desmedida
👁️ 89
Do caminhar murado do futuro
os muros da pátria
fogem da alvenaria
nos gritos insones
que lançam nos dias
assim como um discurso
das pedras que alinha
a pátria murada
na sanha fascista
regurgita o povo
pelas avenidas
até que o futuro entorne
suas léguas de vida.
fogem da alvenaria
nos gritos insones
que lançam nos dias
assim como um discurso
das pedras que alinha
a pátria murada
na sanha fascista
regurgita o povo
pelas avenidas
até que o futuro entorne
suas léguas de vida.
👁️ 107
Dissertação pronominal à liberdade
não vá de hoje a liberdade
como pássara em vão do desatino
construir andaimes pela alma
como se fora posta em desalinho
mas é de tê-la assim constante
nessa latência de fato do destino
que nunca se arvora em substância
sem que para tanto flua o raciocínio
pois de engenho tal é tanto feita
que pulsa escondida em cada veia
e nunca está à mão quando se apresta
em ser fibra de cada descaminho
é preciso pois compreendê-la
na latitude exata da manhã
e resumi-la à fração do peito
adequado à pulso em cada vão
que se mais não tem que vê-la
é cometê-la assim impunemente
e consumi-la quase tanta
como se fora quase uma razão
consumida em adrede esperança
e é querê-la vasta
quando mínima
e é querê-la justa
quando indigna
e é de querê-la aos sábados
quando em terças
e é querê-la manhã
quando adormeça
que se mais não tem que havê-la
é esperança-la nas esquinas
e construir-lhe andaime vasto
que lhe caiba em todo desatino
e que se queira assim tão franca
com esse jeito infante de estrada
por onde caminham todos os homens
construindo a infinita madrugada.
como pássara em vão do desatino
construir andaimes pela alma
como se fora posta em desalinho
mas é de tê-la assim constante
nessa latência de fato do destino
que nunca se arvora em substância
sem que para tanto flua o raciocínio
pois de engenho tal é tanto feita
que pulsa escondida em cada veia
e nunca está à mão quando se apresta
em ser fibra de cada descaminho
é preciso pois compreendê-la
na latitude exata da manhã
e resumi-la à fração do peito
adequado à pulso em cada vão
que se mais não tem que vê-la
é cometê-la assim impunemente
e consumi-la quase tanta
como se fora quase uma razão
consumida em adrede esperança
e é querê-la vasta
quando mínima
e é querê-la justa
quando indigna
e é de querê-la aos sábados
quando em terças
e é querê-la manhã
quando adormeça
que se mais não tem que havê-la
é esperança-la nas esquinas
e construir-lhe andaime vasto
que lhe caiba em todo desatino
e que se queira assim tão franca
com esse jeito infante de estrada
por onde caminham todos os homens
construindo a infinita madrugada.
👁️ 127
ditos da paisagem
A Lane Pordeus
ao te dares infinita
alonjas a eternidade
como quem se inventa com o ilimite
de consumir-se tarde
é que te cabe um espaço
de um tempo inconsumido
em que brincas com a vida
na proporção exata de todos teus sentidos
ao te dares infinita
alonjas a eternidade
como quem se inventa com o ilimite
de consumir-se tarde
é que te cabe um espaço
de um tempo inconsumido
em que brincas com a vida
na proporção exata de todos teus sentidos
👁️ 79
das vertentes democráticas e outros desígnios
ao homem
dê-se a impressão
da controvérsia do fato
e da inconstância do não
ao homem
dê-se a completude
de que se subtraia
cada atitude
ao homem
dê-se a ilusão
de que habita a si
em todos os desvãos
ao homem
dê-se o comprimento
das léguas todas de si
e da andadura dos ventos
ao homem
dê-se a contradição
de parecer-se um sim
mesmo não
ao homem
dê-se o descaso
de perder-se pelo tempo
em cada passo
ao homem
dê-se a andadura
de um bólide avesso
a desventuras
ao homem
dê-se a constância
de parecer-se líquido
em cada esperança
ao homem
dê-se o fim
de construir todos os inícios
em todos os confins
e que a tanto
se diga mais pacato
tanto mais medre a paz
em sobressaltos
ainda que sobrem passos
nas solas dos sapatos
dê-se a impressão
da controvérsia do fato
e da inconstância do não
ao homem
dê-se a completude
de que se subtraia
cada atitude
ao homem
dê-se a ilusão
de que habita a si
em todos os desvãos
ao homem
dê-se o comprimento
das léguas todas de si
e da andadura dos ventos
ao homem
dê-se a contradição
de parecer-se um sim
mesmo não
ao homem
dê-se o descaso
de perder-se pelo tempo
em cada passo
ao homem
dê-se a andadura
de um bólide avesso
a desventuras
ao homem
dê-se a constância
de parecer-se líquido
em cada esperança
ao homem
dê-se o fim
de construir todos os inícios
em todos os confins
e que a tanto
se diga mais pacato
tanto mais medre a paz
em sobressaltos
ainda que sobrem passos
nas solas dos sapatos
👁️ 117
de águas e almas e outros tantos
mares são planícies
de líquida andadura
não se prestam aos passos
e à rapidez dessas ruas
antes caminham lentos
nas rédeas desses seus barcos
resguardada a violência
de todos seus descompassos
é como se fora uma paz
lavada nesses abraços
que a água dá nos viventes
como um recado do nada
e nas velas que o vento penteia
como bandeiras desatadas
tremulam todas as ondas
da condição dessas almas.
de líquida andadura
não se prestam aos passos
e à rapidez dessas ruas
antes caminham lentos
nas rédeas desses seus barcos
resguardada a violência
de todos seus descompassos
é como se fora uma paz
lavada nesses abraços
que a água dá nos viventes
como um recado do nada
e nas velas que o vento penteia
como bandeiras desatadas
tremulam todas as ondas
da condição dessas almas.
👁️ 122
discurso da morte
o morto
navega quase impunemente
na balsa dos olhos
de quem sente
e trai um tempo
com jeito de arma
molhados passos e prantos
que se amontoam na alma
a carne
de dureza tanta
rasga o vão da vida
como uma lâmina
as mãos
dormem lânguidas
como pássaros inúteis
e sem dramas
o morto navega
ainda impunemente
a balsa do seu corpo
nos olhos dos presentes
rasga objetivo
a íris mais urgente
num rio de saudade
que se comprime nos dentes
sem vau
o morto bóia
os quilos de passado
nos ombros da memória
e do transeunte
portador da vida
salta um cheiro de dó
informalmente reprimido
a morte sempre esquece
de esquecer a vida
navega quase impunemente
na balsa dos olhos
de quem sente
e trai um tempo
com jeito de arma
molhados passos e prantos
que se amontoam na alma
a carne
de dureza tanta
rasga o vão da vida
como uma lâmina
as mãos
dormem lânguidas
como pássaros inúteis
e sem dramas
o morto navega
ainda impunemente
a balsa do seu corpo
nos olhos dos presentes
rasga objetivo
a íris mais urgente
num rio de saudade
que se comprime nos dentes
sem vau
o morto bóia
os quilos de passado
nos ombros da memória
e do transeunte
portador da vida
salta um cheiro de dó
informalmente reprimido
a morte sempre esquece
de esquecer a vida
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Comentários (10)
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Ademir D.Zanotelli *Poeta*
2026-01-31
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
AurelioAquino
2026-01-17
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Carlos Marques
2025-12-04
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Pinto
2025-02-27
Abração !
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.
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Español
Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.