Escritas

Do sertão e das vivências da curva de quase um rio

AurelioAquino
Primeiro havia um tempo
de parecer-se à terra

e germinar sementes

tão impunemente
que os dias atravessavam
o tempo todo da gente
 
primeiro havia um espaço
de conformar-se à amplidão
e parecer-se a infinito

que coubesse na mão

como se fora tão pouca

a consistência do não
 
primeiro havia a conveniência
de parecer-se à contradição
que joga homens à terra

com a mesma sofreguidão
com que os ares encerram
sua constância de sertão
 
primeiro havia cidades
vazias de tal lembrança
como se cactos fossem
a sua desesperança
um invólucro informal

de aguda persistência

como uma lavratura inconteste
de sua impaciência
 
primeiro havia o aval

de toda sua urdidura

de terra em quase canal

de estranha tecitura

como se alinhavasse seu vau
na complacência das ruas

vias essas que ousam
parecer-se a andaduras

de homens passos que passam
em calcanhares e figuras

que posam a vida pelo tempo
com a parcimônia das luas
 
primeiro havia a vantagem
de homens sobre a vontade
de poucos que tiram a muitos
as nesgas dessas cidades
porque em tudo era o todos
de primazia escorreita
se não pela palavra

que em verbo ainda se luta
pela persistência do braço

e a consistência tão bruta
que leva o homem a viver
de causa sempre mais justa
 
primeiro era a intenção

de se fazer tão moderno

que coubesse na razão

como um sistema exato

que consumisse sempre o riso
do tamanho do seu abraço
e contivesse ao invés

de desmedidas e distratos
a aparência dos mares

e a suficiência dos fatos
 
primeiro era a digressão

de que o verbo é tão incauto
que às vezes morre na palavra
quando não intenta o salto

de tornar-se quase discurso
das urdiduras do dia
retratando quase o mundo
num tempo de alegria
 
primeiro era o sertão

posto assim em desfastio

com a mesma complacência
das curvas de qualquer rio
que teima em se dar ao mar
apesar dos desvarios

de andar pelas cidades
banhando pedras e gente
como se fosse em engenho
de construir todo vivente
coisa de nem ser liberto
porque liberdade não se sente
ou se vive pela alma

ou se cobra pelos dentes
 
primeiro era o sertão

em urgente serventia
completando cada homem
nas regras claras do dia
como se fazenda fosse

o peito de cada vivente
de uma lavoura tenaz

das coisas todas da gente
que se planta quando fala
e se fala quando sente
 
primeiro era a certeza

de que a terra desmente
quem lhe tem como estrada
de consumir adredemente

um pouco de quem quer que seja
na condição de presente
 
primeiro era a verdade

de que seu valor não é renda
que possa desembocar

no bolso de quem convenha
só pela propriedade

de toda e qualquer moenda
pois para tirar-lhe custo

em valor que nem lhe pese
seja presente em cada palmo
de seus leirões e aceiros

a insistência do braço

e a condição de sertanejo
 
construindo o que se planta
em sua face de fazenda
retrate o homem a pertença
de tudo que lhe atenha
pois terra se dê ao luxo
d
e transformar-se em beleza
inventando seus roçados

nos peitos da natureza
 
e siga sendo do homem
sempre sertão em desafio
como se fora um mar

que coubesse em cada rio
e desembocasse amiúde
no peito de cada filho
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