Escritas

memória

AurelioAquino
A memória

não preside

apenas auxilia

as dores que não tive
é que vivê-la
pode ser um jeito

de trazer o fato

pra dentro do peito

e tê-la como assente
no cartório da vida
coisa de ser quase falsa
mesmo objetiva
pois tange a franja da alma
como uma tristeza

que apenas deixou de ser alegre
por desnatureza.
 
A memória

não existe

é apenas um navio

que teima em trafegar no fato
dos mares que nem vivo.

É que em suas ondas

não navegam propriamente
antes inventam águas

em que nem se está presente.
 
A memória

é um cabide

em que toda a paciência
está em riste

cabe apenas trazê-la
muito amiúde

e consumi-la adredemente
naquilo tudo que eu pude.

A memória

não se anuncia

antes é propaganda

do que não vigia

e esse seu jeito de fato
é apenas alegoria

que as sinapses jogam
pelo vão dos dias.
 
A memória

é sempre intacta
basta não tê-la
como matemática
é preciso cabê-la
sempre avulsa

e em números
em que se caiba.
 
A memória

é uma gestão pacata

nada lhe gerencia

mais que a alma

porque é de tê-la própria

assim aos borbotões

que se distingue quando em paz
que se atinge quando não

é maneira de viver morrendo
inventando vivas as razões.
 
A memória enfim

é quase um não

que nem chega a ser exata
quando próxima da razão.
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