Lista de Poemas
Pátria locução em transe e esperança
não!
as manhãs não se cerraram
o povo ainda é o norte
mesmo quando as vozes calam
não!
os sorrisos não murcharam
ao contrário, vigem
é que se fazem tímidos
é que se fazem tristes
na pouquidão humana
dessa noite em riste
não!
os amores não marcharam
de dentro do peito
como uma catapulta
voam pelos soluços, à espreita,
e brotam enormes
na grande aurora brasileira
as manhãs não se cerraram
o povo ainda é o norte
mesmo quando as vozes calam
não!
os sorrisos não murcharam
ao contrário, vigem
é que se fazem tímidos
é que se fazem tristes
na pouquidão humana
dessa noite em riste
não!
os amores não marcharam
de dentro do peito
como uma catapulta
voam pelos soluços, à espreita,
e brotam enormes
na grande aurora brasileira
👁️ 85
Famélica introspecção com ligeiros traços de fuga
quem me tirará da boca
o gosto amargo da miséria?
e essa cabeça
que boia no juízo
como uma balsa incompleta?
quem mastigará o pão
que cresce nas esquinas do tempo
e que nas mãos soluçam
como aves fartas?
quem balançará nas redes
que a alegria arma
no peito das inconsequências?
quem chorará os risos
que do mais fundo surgem
como palmeiras debruçadas
nos ombros do mundo?
quem amolgará tanta matéria
nas pontas de rosas desses dedos
que desabrocham as manhãs
com a obesidade das circunstâncias?
quem porá rédeas nas carnes
para que elas não sufoquem
os quilos mais tangidos da felicidade?
em que horas mastigaremos
as peças mais exaustas da angústia?
quem soluçará por nós
as horas passadas em desespero
quando o riso escorre da boca
com a mesma intimidade do medo?
quem suspirará de saudade
quando não mais restarem
todas as chagas da cidade?
quem, por fim,
soletrará o meu discurso
quando os pães soterrarem minha boca
e a vida tornar-se um valor-de-uso?
o gosto amargo da miséria?
e essa cabeça
que boia no juízo
como uma balsa incompleta?
quem mastigará o pão
que cresce nas esquinas do tempo
e que nas mãos soluçam
como aves fartas?
quem balançará nas redes
que a alegria arma
no peito das inconsequências?
quem chorará os risos
que do mais fundo surgem
como palmeiras debruçadas
nos ombros do mundo?
quem amolgará tanta matéria
nas pontas de rosas desses dedos
que desabrocham as manhãs
com a obesidade das circunstâncias?
quem porá rédeas nas carnes
para que elas não sufoquem
os quilos mais tangidos da felicidade?
em que horas mastigaremos
as peças mais exaustas da angústia?
quem soluçará por nós
as horas passadas em desespero
quando o riso escorre da boca
com a mesma intimidade do medo?
quem suspirará de saudade
quando não mais restarem
todas as chagas da cidade?
quem, por fim,
soletrará o meu discurso
quando os pães soterrarem minha boca
e a vida tornar-se um valor-de-uso?
👁️ 128
Poema à máquina datilográfica
a tecla
tem a postura
a mecânica e a forma
das ditaduras
cada toque
estrutura
apenas o que máquina
atura
urde a palavra
invólucro de carne
das sensações mais sentidas
que o homem arme
e foge dos dedos
às palavras mais cruas
ungidas no medo
dentro da máquina geral dessas ruas
tem a postura
a mecânica e a forma
das ditaduras
cada toque
estrutura
apenas o que máquina
atura
urde a palavra
invólucro de carne
das sensações mais sentidas
que o homem arme
e foge dos dedos
às palavras mais cruas
ungidas no medo
dentro da máquina geral dessas ruas
👁️ 90
Do poema em militância
que o poema
se permita
derramar-se farto
na politica
e não se proste
só nas formas
num gotejar esnobe
isento da história
é que a arte
abarca o mundo
e todas quantas peças
debrucem sobre tudo
se permita
derramar-se farto
na politica
e não se proste
só nas formas
num gotejar esnobe
isento da história
é que a arte
abarca o mundo
e todas quantas peças
debrucem sobre tudo
👁️ 107
Pequena história do meu país
burros de carga, cangas
cio do futuro
vermelhos mandacarus, réguas de prumo
e a noite alinhando-se lenta
na esquina transitória da tarde.
Quem guardou o tempo no bolso?
Dizei, camponês,
para que não ardas
nessa saudade intensa
daquilo que não sabes.
Era um dia um menino curvo
turvo como sua fome
e que tinha num desvão do peito
uma semente curva de homem.
Brancos acenos, velas de cera
e o Amazonas debruçado
chora essa noite brasileira.
Quem regou os olhos dessas marias
para que se desfizessem mansamente
nessas léguas de pranto?
Dizei, mulher,
para que não caibas,
assim impunemente,
nessa lagoa rígida
de sentimento.
Travaram o dia
com uma noite dentro.
cio do futuro
vermelhos mandacarus, réguas de prumo
e a noite alinhando-se lenta
na esquina transitória da tarde.
Quem guardou o tempo no bolso?
Dizei, camponês,
para que não ardas
nessa saudade intensa
daquilo que não sabes.
Era um dia um menino curvo
turvo como sua fome
e que tinha num desvão do peito
uma semente curva de homem.
Brancos acenos, velas de cera
e o Amazonas debruçado
chora essa noite brasileira.
Quem regou os olhos dessas marias
para que se desfizessem mansamente
nessas léguas de pranto?
Dizei, mulher,
para que não caibas,
assim impunemente,
nessa lagoa rígida
de sentimento.
Travaram o dia
com uma noite dentro.
👁️ 52
Ode à mulher das esquinas
neste teu mercado
de tão viva tecitura
trazes o amor à tiracolo
como te trazem à mão
nas noites nuas
e não te dizes tão noturna
quando assim na cama despetalas
as últimas frações de gente
com que a vida te declara
e neste químico mister
de tecer o amor em cada esquina
coletivizas um prazer exato
distribuindo em vão tuas albuminas
é assim como um parto fictício
das profundezas de tua sina
de tão viva tecitura
trazes o amor à tiracolo
como te trazem à mão
nas noites nuas
e não te dizes tão noturna
quando assim na cama despetalas
as últimas frações de gente
com que a vida te declara
e neste químico mister
de tecer o amor em cada esquina
coletivizas um prazer exato
distribuindo em vão tuas albuminas
é assim como um parto fictício
das profundezas de tua sina
👁️ 75
Paisagem , Bahia e outros movimentos
Na Ladeira do Quebra Bunda
a vida não esmorece
pois quanto mais diz-se rua
mais descaminho parece
e se guarda algum resquício
dos passos de sua gente
a fome logo atrapalha
as coisas que sempre sentem
e as passadas que engole
logo são confiscadas
pela vida que engole os passos
dos homens e das madrugadas
um dia a Bahia arrebenta
as rédeas dessa jornada
a vida não esmorece
pois quanto mais diz-se rua
mais descaminho parece
e se guarda algum resquício
dos passos de sua gente
a fome logo atrapalha
as coisas que sempre sentem
e as passadas que engole
logo são confiscadas
pela vida que engole os passos
dos homens e das madrugadas
um dia a Bahia arrebenta
as rédeas dessa jornada
👁️ 79
Batalhas ensimesmadas com ligeiras fugas
quando estou
já me sinto
matéria e norma
meus instintos
e digo-me repente
na dor e na fuga
e nas formas mais gerais
dessa ditadura
e sou,
com a faca nos dentes,
a revolta do homem
contra esses repentes
já me sinto
matéria e norma
meus instintos
e digo-me repente
na dor e na fuga
e nas formas mais gerais
dessa ditadura
e sou,
com a faca nos dentes,
a revolta do homem
contra esses repentes
👁️ 69
Cordel camponês da Pátria Grande
e dos campos regados
com o suor de seus homens
cresce uma nesga de fartura
pelos ombros da fome
dos frutos que engravida
compare-se à tristeza
das coisas que não se dão
tão conformes à natureza
e se um dia cansa
de gerar tanta abundância
a morte tem mais de tática
de protelar a esperança
não trai o jeito do arado
que lhe sulca todo o peito
e isenta-se das amarguras
nos leirões em que é desfeito
e quando mesmo brasil
um roçado compulsório
sustenta a força da terra
em cada palmo de ócio
e escancara para o mundo
lambida por esses mares
que lhe roem as entranhas
apesar dos seus pesares
de sua geografia
pensada em seus botões
sente-se mais uma américa
sem nenhuma divisão
e as linhas das fronteiras
nos caminhos do seu corpo
as tem como grilhões
levados com muito esforço
e não cansa de achar
uma insensatez exata
que se divida seu corpo
quando permanece intacta
se por acaso lhe ferem
na ânsia de consumi-la
mais transita combatente
nas encostas desta lida
e molha-se no suor
caído de suas trilhas
transpirando essas matas
em recorrente vigília
e da-se por contente
quando no fundo da alma
arranca um riso camponês
que se espalha pela cara
e vê o futuro geral
em que escreve sua fala
assim meio escondida
nas palavras que guarda
com o suor de seus homens
cresce uma nesga de fartura
pelos ombros da fome
dos frutos que engravida
compare-se à tristeza
das coisas que não se dão
tão conformes à natureza
e se um dia cansa
de gerar tanta abundância
a morte tem mais de tática
de protelar a esperança
não trai o jeito do arado
que lhe sulca todo o peito
e isenta-se das amarguras
nos leirões em que é desfeito
e quando mesmo brasil
um roçado compulsório
sustenta a força da terra
em cada palmo de ócio
e escancara para o mundo
lambida por esses mares
que lhe roem as entranhas
apesar dos seus pesares
de sua geografia
pensada em seus botões
sente-se mais uma américa
sem nenhuma divisão
e as linhas das fronteiras
nos caminhos do seu corpo
as tem como grilhões
levados com muito esforço
e não cansa de achar
uma insensatez exata
que se divida seu corpo
quando permanece intacta
se por acaso lhe ferem
na ânsia de consumi-la
mais transita combatente
nas encostas desta lida
e molha-se no suor
caído de suas trilhas
transpirando essas matas
em recorrente vigília
e da-se por contente
quando no fundo da alma
arranca um riso camponês
que se espalha pela cara
e vê o futuro geral
em que escreve sua fala
assim meio escondida
nas palavras que guarda
👁️ 90
palavras à morte no cosmos
a ciência
pulsa a nave
nos gritos humanos
do astronauta
seu enorme braço
de mecânica e fogo
seu medo escondido
no segredo do corpo
eis o espaço
pênis atômico
de quanta certeza
de parir ciência
pela natureza
a construção
morre no vão
todo braço podre
cava o chão
e funde-se e resolve-se
na composição urgente
de sua negação
e nega-se
envolve-se
de miasmas e pó
um cadáver de astronauta
cada vez maior
e quanta morte
no peso da inércia
o nervo líquido
achando-se matéria
e átomos
e antônimos
e antes
e anônimo
a máquina
revolve a mágoa
do astronauta líquido
na praça
e mágoa
na máquina
o botão calcado
pelo astronauta
e manhã
nos boulevares
nas barrigas urgentes
de fome e de luz
e o astronauta
morto na cápsula
comprimido no espaço
das léguas da alma
a morte enfim
na noite quântica e cósmica
o eletron da vida
fugindo das revoltas
pulsa a nave
nos gritos humanos
do astronauta
seu enorme braço
de mecânica e fogo
seu medo escondido
no segredo do corpo
eis o espaço
pênis atômico
de quanta certeza
de parir ciência
pela natureza
a construção
morre no vão
todo braço podre
cava o chão
e funde-se e resolve-se
na composição urgente
de sua negação
e nega-se
envolve-se
de miasmas e pó
um cadáver de astronauta
cada vez maior
e quanta morte
no peso da inércia
o nervo líquido
achando-se matéria
e átomos
e antônimos
e antes
e anônimo
a máquina
revolve a mágoa
do astronauta líquido
na praça
e mágoa
na máquina
o botão calcado
pelo astronauta
e manhã
nos boulevares
nas barrigas urgentes
de fome e de luz
e o astronauta
morto na cápsula
comprimido no espaço
das léguas da alma
a morte enfim
na noite quântica e cósmica
o eletron da vida
fugindo das revoltas
👁️ 99
Comentários (10)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
Ademir D.Zanotelli *Poeta*
2026-01-31
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
AurelioAquino
2026-01-17
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Carlos Marques
2025-12-04
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Pinto
2025-02-27
Abração !
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.
Português
English
Español
Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.