Escritas

Cordel camponês da Pátria Grande

AurelioAquino
e dos campos regados
com o suor de seus homens
cresce uma nesga de fartura
pelos ombros da fome

dos frutos que engravida
compare-se à tristeza
das coisas que não se dão
tão conformes à natureza

e se um dia cansa
de gerar tanta abundância
a morte tem mais de tática
de protelar a esperança

não trai o jeito do arado
que lhe sulca todo o peito
e isenta-se das amarguras
nos leirões em que é desfeito

e quando mesmo brasil
um roçado compulsório
sustenta a força da terra
em cada palmo de ócio

e escancara para o mundo
lambida por esses mares
que lhe roem as entranhas
apesar dos seus pesares

de sua geografia
pensada em seus botões
sente-se mais uma américa
sem nenhuma divisão

e as linhas das fronteiras
nos caminhos do seu corpo
as tem como grilhões
levados com muito esforço

e não cansa de achar
uma insensatez exata
que se divida seu corpo
quando permanece intacta

se por acaso lhe ferem
na ânsia de consumi-la
mais transita combatente
nas encostas desta lida

e molha-se no suor
caído de suas trilhas
transpirando essas matas
em recorrente vigília

e da-se por contente
quando no fundo da alma
arranca um riso camponês
que se espalha pela cara

e vê o futuro geral
em que escreve sua fala
assim meio escondida
nas palavras que guarda
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