Escritas

Lista de Poemas

Do beijo em gramatical enlace

o beijo
é um verbo mudo
sua gramática displicente
é conjugar o tudo
e entorná-lo grávido
nas encostas do mundo
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Para quando a manhã surgir

de quando as manhãs
não trouxerem sustos
possam raia-las meus olhos
e arquitetá-las em tanto
que sobre luz nas retinas
para desenhar novos horizontes

de quando as manhãs
não tiverem uso
diverso dos da noite
em que se beba todo seu discurso

de quando as manhãs
não se souberem crônicas
e que tussam o dia
com a simplicidade da esperança

de quando as manhãs
não se fizerem palco
de um punhado de lágrimas
itinerantes de teatros

de quando as manhãs
não se disserem horas
mas um colchão de aventuras
onde durma a história

e se assim raiarem
nem que seja e quando
possa despencar outra noite
na cabeça ávida dos insones
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Tempos natais em terras de luta

I

as tardes de minha terra
nunca estão distantes
pois se tardes elas ousam
muito mais cedo encontram
com o dia que se descobre
das profundezas do homem

II

e se descansam o tempo
com suas tardes circunstâncias
não escondem dos homens
a necessidade da esperança

III

e se ainda dia parecem noite
o tempo não se descuida
pois arranja sempre um jeito
de forjar o homem na luta
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Das origens em profundo vão com ligeiros arroubos


2000000 de anos
entre mim
e meu macaco
marco
da idade
do meu parto
há aeroplanos
entre meu olho
e meu engano
e asas de pterodáctilos
a somar retinas
nos meus vasos

3000000 de metros
de veias
e estradas
entre o grito do medo
e o grito das harpas
há vozes
encalhadas nos portos
e vezes
encalhadas nos braços
há futuros
em pedras e pontes
e avisos plantados
sobre minha fronte
há vermes
funcionando
destarte a burocracia
do luto
há horas
e momentos
escondidos nas rugas
do pensamento
há miséria e fartura
no campo e nas barrigas
dos irmãos
e das lombrigas
há morte e vida
e facas e feridas
entre o morto
e a sanha do corpo
há distâncias
e, perto, o encontro
há discrepâncias
e a certeza de estar
cada vez sempre
em mudança
há luto
no peito dos finados
pela revolução
em seus gargalos
há susto
nas barrigas gerais
das crianças da pátria
há custos
para que a curva
suba mais nas paredes pintadas
dos edifícios centrais
há cédulas e medulas
sangrando nas marginais
de povoados em escuta
e de morticínios tais
há defloramentos e amores
escorrendo nas vielas
espalhando dores e flores
pelas cancelas
há verdades
espalhadas nas praças
nos olhos da história
nos gritos do povo
há indústrias paradas
e suores trabalhando
há a festa das máquinas
e dos parasitas
na desgraça humana
há tumores e humores
nas mãos da multidão
há versos e música
nos olhos do povo
nas curvas da luta
há milagres
na constância
da humanidade sorrindo
em busca de sua substância.
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Aos meninos da pátria

Sossega menino!
Do dentro deste teu país
crescerá uma infância vasta
embrulhada na  paz
e resolverás a tua prática.
Não importa que agora
a vida seja um nó no teu juízo
no centro dessa podridão
no seu vão mais infindo
haverá dela tamanha
nos ombros de suas curvas 
que sonhos dir-se-ão inúteis
porque, vivos, estarão nas ruas. 

Não importa que hoje ainda não sejas
trançado no meio dessa sanha
cuspida nas esquinas desse canto
cerzido a amargura líquida do teu pranto

Não importa, menino!
Os homens já constroem o teu sono
escondidos nas noites mais de luto
forjando as novas pecas do teu sonho.

E da imensidão dos camaradas
tecendo fortemente a alegria
borbulha um afeto imenso
nos vincos violentos do dia 
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caminhante de mim e do povo

nem porque tarde
eu traga o coração ao povo
e a garganta finja ser astronave
órbita humana do corpo

e nesse discurso
eu me semeie pela praça
como uma nave desgarrada
à procura de estradas 

e assim caminhante
com tal rompante de gente
eu caiba nas ruas do povo
e me abrace naturalmente

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Concerto preferencial à vida

haverá bemóis
tranquilamente resgatados
e uma profusão de notas
nos ouvidos arrumadas

o som encherá as ruas
de claves e compassos
e uma tênue impressão
de que o tempo é um abraço

e os homens cantarão
seus gritos mais ousados
e inventarão o novo mundo
com a música nos braços
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Dos amores itinerantes do tempo

e quando em vez
e já não tarde
resvala meu discurso
pelas estradas da carne
que teu corpo ousa colocar
de encontro ao meu abraço
e que abraço lutando
e nunca me desfaço
do jeito manso de fera
que labuta pelos campos
e que nos lençóis é estrada
com o amor sobre os ombros
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1º de Maio

a massa
era um coice exato
e grávido, de repente,
o trabalho deu um salto

não que, tão urgente,
forjasse em tal aprumo
e saísse da barriga do dia
para o vão do mundo

mas que se jogasse
no singelo esforço
de trazer a força na mão
e o grito no bolso

eram tantos
e de uma paz tremenda
que roíam as mágoas da vida
agora feitos em moendas

não instrumento mecânico
de bruta consistência
que rasgasse o véu da história
em tão humana moenda

mas que fossem soldados
perfilados nesse mister
de tornarem-se moendas
da classe por que se é

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palavras a Bebeto e Miriam Verbena, heróis do povo

o futuro
atrás do muro
espreita as razões
dos seus discursos

o futuro
em suas veias e sustos
entornam a vida
pelos viadutos

o futuro
grávido das ausências
enche de verdade
tudo que se sente

o futuro
simplesmente
é um pedaço de vocês
dentro da gente.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !