Escritas

Lista de Poemas

De mim no cosmos em trânsito

sou-me urgente
neste espaço limitado
de matéria e razão
em que me instalo

sinto-me urdido
por uma certeza
das forças mais gerais
nos ombros da natureza

e sou do cosmos
de uma forma inacabada
da concepção universal
da matéria organizada
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Procissão da vida em torno do futuro

e eis o futuro
a comer-nos
com seus olhos

e eis o amanhã
germinando nas calçadas
nos esgotos
e nas portas

e de ti, parado,
não seja mais que tumba
no deserto dos ossos
no ruído do esforço
de todos os lumumbas

e eis-nos
céleres humanos
a roer a nossa carne
cheia de anos

e de ti a idade
eis-nos aproximados
pelo muito de morte
que levamos nos braços

mais eis-nos vida
mesmo com a morte
a vencer a partida
quando se é mais ao norte

e eis-nos fracos
vencedores da idade
pelo muito de futuro
que existe na liberdade

e eis-nos gente
grávidos de vontade
a febre infinita
de toda liberdade

e eis-nos martelos
de pregar a história
no quadro mais geral
de nossos olhos
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Da morte em circunlóquio

no cadáver
a paz existe
antes da matéria
posta em cabides
que fez-se assim velha
que cansou de ser triste

não dessas tristezas
que se jogam no lixo
mas a tristeza construída
dos ossos do ofício

uma pedra jogada
com rumo inconsciente
e que de paz somente guarda
um ato já ausente
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Ode ao paralelepípedo

simplesmente construção
de pedra, cal e calma
o paralelepípedo não discursa
mas arma

e gesto e face
de mineral postura
o paralelepípedo nem sente
sua ditadura

e nem foge dos passos
quando posto nas ruas
para dirigir os pés
de quem em si flutua

o paralelepípedo nem sabe
da pretensa modernidade a que se curva
👁️ 68

Jornada itinerante em ondas

raso de mim
mergulho
as ondas que, por fim,
construo

a onda
como uma espada
indica líquida
minha estrada

é que navegante
de mares controversos
transito retirante
os caminhos que meço
👁️ 56

Desencontro em marcha compassada II

em cada morto
há sorrisos
em cada porto 
há desencontros
em cada adeus
há a chegada
em cada deus
o nada
em cada pranto
há o desconto
do salário geral
de cada fome
e cada posse
é restrita
a cada posse
coletiva
e cada dedo
é preciso
a quantos dedos
no gatilho
👁️ 59

desencontro em marcha compassada

em cada ponto
em cada canto
em cada morto
em cada pranto
em cada triste
em cada negro
em cada risco
em cada preso
e cada ponto
e cada canto
e cada morto
e cada pranto
e cada triste
e cada negro
e cada risco
e cada preso
cada ponto
cada canto
cada morto
cada dedo
da triste
do canto
da morte
do medo
há triste
há canto
há morto
há cedos

ao homem cabe inventar
todos os seus enredos
👁️ 50

Arquitetura do morto

sente-se a carência
neste gesto filantrópico
de dar-se à inconsciência
apesar de todos os ilimites
da paciência

e nessa pose imóvel
deitado ainda em células
sabendo-se desobrigado
de todas as idéias

vives a morte inaugural
de tua complacência
em deixar-se levar, assim imune, 
da existência
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das urgências de ser

no útero
eis-me futuro
no dizer-me feto
inconcluso

íntimo
eis-me insurgente
ávido de parto
e de repentes

e digo-me gente
simplesmente
com o riso nas faces
e verbos nos dentes

👁️ 119

do óbito visto das palavras

agora
de animal a mineral
passas na lembrança
de quem levou a vida
na mudança

agora 
não hora, apenas pó
e na face gravado
o último suor

agora
não tuas e não suas
as conceituações
das ruas

agora
apenas óbito
és a não circulação
de teus leucócitos

e habitas 
tua morte
como usucapião
de tua sorte

e reclamas
agora estrume
um gesto das plantas
um quê de verdume

de caminhante
a estrada
contas apenas os passos
da massa

tua mão
é anti-arma
um osso plástico
e sem plasma

enfim
és poesia
irmão, agora, do vento
a liberdade tardia.


 

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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !