Escritas

A MINHA RUA É FLORESTA DE CASAS PARDACENTAS

ALVARO GIESTA
a minha rua é floresta de casas pardacentas
ou (o céu indescritível da minha rua)
[com passagens de Álvaro de Campos]

________

à noite
naquelas noites em que o silêncio mexe comigo,
aproximo-me da minha janela
e olho o céu...

___como Álvaro de Campos, em suas divagações,
"Olho para todo o indefinido!"

a minha rua
quase sempre depois das duas ou três da manhã
é uma rua deserta, de casas plantadas
num mar de asfalto negro; é floresta de casas
pardacentas, plantadas ao alto prontas a perfurar
o todo espaço do meu céu,

a esventrar, na sua cor pardacenta, quase negra
ao lusco-fusco da manhã quando o medo foge,
o meu indescritível céu;
em muitas destas casas ainda mora o sonho
coabitando, lado a lado, com a pobreza!

até aí, o acelerar apressado dos carros
na sua rotina apressada de chegar primeiro
a todo o lugar de lugar nenhum, 
não me deixa olhar o céu
com a tranquilidade necessária ao pensamento.

só depois das três da manhã quando os ruídos
todos adormecem, é que eu olho o céu
___olho, não, observo!
observo os céus do meu espaço porque
o céu do meu espaço visto da minha rua,
tem vários céus:

___tem o céu daqueles que vivem sonhos
alucinados, numa mistura de cores azuis
matizadas a pardo e negro:
é o céu da opiácea ilusão;
___e o daqueles que se ocultam, ilusoriamente,
dos olhos justiceiros da lei:
o céu em sobressalto;
___tem ainda o céu da luxúria que se oculta
nas sombras difusas da noite: 
o céu sem profissão;
___finalmente o céu onde a boa gente (ainda)
pensa que um dia terá paz para viver:
é o céu do imenso vazio do sonho.

e eu, vou idealizando outros tantos sonhos,
olhando estes edifícios verticais que crescem
rumo ao todo indefinido dum lugar sem nome,
apontado para lugar nenhum.

tenho que me apressar nesta observação tardia
e na minha rotina-diária-nocturna da escrita,
porque o meu espaço nocturno do silêncio
tem apenas duas horas de vida.

depois das cinco da manhã, o silêncio nocturno
da minha rua já não é silêncio:

___é um estar perturbado
pelo atropelo de passos perdidos na calçada,
de gritos, de promessas por cumprir,
de navalhas abertas usadas na noite em arrelia
desafiando o dia;

___é um estar perturbado pela azáfama que corre
nesta pressa de chegar primeiro à cidade, que
engole este mar de gente, pela manhã cedinho
na sua bocarra escancarada de coisa civilizada;

à cidade onde Álvaro de Campos tinha o
privilégio de exclusão neste seu exílio natural
ao qual naturalmente fugia, porque o seu lar
não era como os lares da minha rua
encerrados em caixotes sem medida - o seu lar
era "apenas o espaço aberto das ruas de Lisboa".

a minha rua é floresta de casas pardacentas e sós
num seio enorme de casas erguidas em multidão;

a minha rua é floresta de paredes-caixotes rumo
ao alto, ao todo infinito lugar-nenhum,
emparedadas entre o céu e o vazio
dum deus ausente.

___________
Alvaro Giesta in O Pranto dos Loucos Lúcidos, Temas Originais, Coimbra, 2017
(poema a pgs 36, 37 e 38)
ISBN: 978-989-688-285-3
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