[dois quartos onde a poesia do silêncio mora]
ALVARO GIESTA
um quarto solitário — a cela de daniel faria, onde apenas
a luz entra quando cerrada é a noite. nem sol habita este
espaço em volta. o silêncio, como paz tardia, comunga
com o sonho: nele bebe a vida que caminha de braço dado
com a solidão. a morte, à espera de vez, habita esta cela por
dentro. nela, o homem no seu corpo naufragado anoitece.
um quarto onde reside a sombra — nele existe um corpo
sob a carapaça dum besouro, absoluto imaginário
do ser inquieto. inquietos mas sábios são os homens
que buscam na sombra e na pedra bruta o poder da água
e o sal da sabedoria. absurdo é, em redor deste corpo,
o absurdo grito que desce afoito até aos sãos ouvidos.
todo o corpo contra ele se põe em guarda, furtando-se
ao bater regular do tempo. assim era kafka em gregor:
— deitado de costas sobre o soalho frio e ao alto o alvo
tecto, simulacro da paz e da libertação; nele via o pão
ázimo como alimento na difícil transformação dos dias.
______________
Alvaro Giesta
(noite deserdada)
Português
English
Español