Das Utopias
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!
Mário Quintana foi um poeta, jornalista e tradutor brasileiro, conhecido pela sua poesia lírica, acessível e cheia de ternura. A sua obra, frequentemente marcada pela simplicidade aparente e por um olhar melancólico e irónico sobre o cotidiano, aborda temas como o tempo, a memória, a infância e as pequenas alegrias e tristezas da vida. A sua poesia convida à reflexão sobre a condição humana com um tom gentil e acessível.
n. 1906-07-30, Alegrete · m. 1994-05-05, Porto Alegre
Não venci todas as vezes que lutei. Mas perdi todas as vezes que deixei de lutar.
O proletariado é um sujeito explorado financeiramente pelos patrões e literalmente pelos poetas engajados
A poesia é uma loucura lúcida
O destino é o acaso atacado de mania de grandeza
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas.
Maravilhas nunca faltaram ao mundo; o que sempre falta é a capacidade de senti-las e admirá-las.
Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer.
Quando alguém pergunta a um autor o que ele quis dizer, um dos dois é burro. (1906-1994)
A imaginação é a memória que enlouqueceu
Não importa saber se a gente acredita em Deus. O que importa é saber se Deus acredita na gente
O despertador é um acidente de tráfego do sono. Mas é um só. Ao passo que durante o dia somos a toda hora sinistrados pelos telefones.
O que tem de bom uma galinha assada é que ela não cacareja.
O progresso é a insidiosa substituição da harmonia pela cacofonia.
O relógio de parede numa velha fotografia — está parado?
Se eu fosse um iluminado, com que habilitações poderia eu distribuir a minha carne e o meu sangue? Apenas diria aos discípulos famintos: — Eis aqui os meus ossos.
O fantasma é um exibicionista póstumo.
Esse leão da Metro — quase áfono e que parece ter perdido toda a sua leonidade — é o maior exemplo contra o uso das boletas.
O mundo do sonho é silencioso como o mundo submarino. Por isso é que faz bem sonhar.
Aquele astronauta americano que anunciou ter encontrado Deus na lua é no fim de contas menos simplório do que os primeiros astronautas russos, os quais declararam, ao voltar, não terem visto Deus no céu. Porque, se Deus é paz e paz é silêncio afinal, deve Ele estar mesmo muito mais na lua do que nas metrópoles terrenas. E, pelo que me toca, a verdade é que nunca pude esquecer estas palavras de um personagem de Balzac: “O deserto é Deus sem os homens.”
Os cisnes, de tão elegantes, de tão heráldicos e serenos e decorativos, a gente acaba achando-os chatos como patos...
Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.
No princípio era o Verbo. O verbo Ser. Conjugava-se apenas no infinito. Ser, e nada mais. Intransitivo absoluto. Isto foi no princípio. Depois transigiu, e muito. Em vários modos, tempos e pessoas. Ah, nem queiras saber o que são as pessoas: eu, tu, ele, nós, vós, eles. Principalmente eles! E, ante essa dispersão lamentável, essa verdadeira explosão do SER em seres, até hoje os anjos ingenuamente se interrogam por que motivo as referidas pessoas chamam a isso de CRIAÇÃO ...
A nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer.
Competiria aos pais dessas crianças, não a nós, incutir-lhes o hábito das boas leituras. Ora essa! Mas se eles também não leem... Vivem eternamente barbinirizados pelas novelas da Televisão.
O silêncio é um espião.
As árvores podadas parecem mãos de enterrados vivos.
Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem.
Sempre me pareceu que as antigas gramáticas complicavam muito as coisas. Lá diziam elas, por exemplo: “Coloca-se o pronome oblíquo depois do verbo.” Muito bem! O diabo é que se seguia uma lista de 15 ou 16 exceções. Ora, ficaria muito mais fácil se dissessem: “o pronome oblíquo é colocado antes do verbo, exceto quando este inicia uma frase”. E olhe lá!
Há anos venho procurando esta raridade bibliográfica: uma edição da Divina Comédia sem comentários. Raridade? Creio que nem existe maravilha assim.
Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou de José de Alencar. Que ideia foi essa do teu professor? Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu ser, para sempre. Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.
O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.
Sempre fui metafísico. Só penso na morte, em Deus e em como passar uma velhice confortável.
O espaço é cheio de buracos: nós, as coisas, os mundos. A perfeição seria o espaço puro, fica ele a pensar com os seus buracos... Mas isso, Sr. Espaço, é uma coisa tão impossível como a poesia pura.
E eis que, tendo Deus descansado no sétimo dia, os poetas continuaram a obra da Criação.
Os espelhos partidos têm muito mais luas.
Não há maior euforia, numa orquestra, como a dos pratos — tlin! tlin! tlan!!! — quando se vingam, enfim, do seu longo, do seu forçado silêncio.
O conforto, a higiene, sim... No entanto, um ranchinho de barro e sapé vai muito melhor com a paisagem. Um ranchinho de barro e sapé parece brotado da terra, faz parte da natureza, não contradiz as árvores e o céu. E é, também, tão humano...
Já se queixava São Paulo de que os atenienses só queriam razões. Bem sabia ele que as almas são ávidas de alimento muito menos dessangrado que um simples raciocínio. Mas nós, os gregos, continuamos em jejum...
Apenas, aqui e ali, uma janelinha de arranha-céu... Perdida... Enquanto, do fundo do único terreno baldio, um grilo insiste em transmitir, na sua frágil Morse de vidro, não se sabe que misteriosa mensagem às estrelas ausentes.
Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas.
As persianas, entrefechadas, deixam passar uma réstia de sol, onde zumbe uma mosca. Silêncio. Somente, na última prateleira, há um velho boião que diz: “Viva Dom Pedro Segundo!” — única nota exclamativa neste silêncio tecido (e não interrompido) pelo zum-zum da mosca em seu vaivém. Tudo é definitivo, tudo é tão agora que até o relógio, o velho bruxo, está parado.
Decifrar palavras cruzadas é uma forma tranquila de desespero.
Eles erram sempre de maneira tão complicada que eu não atino como ainda não descobriram que seria muito mais fácil escreverem certo.
Na verdade, a coisa mais pornográfica que existe é a palavra “pornografia”.
A linha casimiriana da poesia brasileira começou antes, em Tomás Antônio Gonzaga. É um regato límpido, por vezes interrompido aparentemente, mas que reponta sempre, quando tudo parecia perdido.
E eis que ressurge agora o novo homem das Cruzadas, isto é, das palavras cruzadas.
O mais trágico dessas reuniões sociais é que elas são compostas unicamente de terceiros.
As palavras de gíria, isso não tem grande importância, meu caro professor: tão logo aparecem, desaparecem. O pior são essas ideias de gíria...
As ilusões perdidas é o título de um romance de Balzac. Um belo título. Luciano, o herói da história, as foi perdendo pouco a pouco. Por quê? Ele queria a glória... E, no fim de muitas páginas, não lhe sobrou coisa alguma. Bem feito! Quem pretende apenas a glória não a merece.
Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa — e que só num poema estão no seu lugar. Deve ser por esse motivo que alguns de nós começaram, um dia, a fazer versos. Um modo muito curioso de falar sozinho, como se vê, mas o único modo de certas coisas caírem no ouvido certo.
Ele chegou ao bar, pálido e trêmulo. Sentou-se. — Por enquanto, nada — desculpou-se ao garçom. — Estou esperando uma amiga. Dali a dois minutos, estava morto. Quanto ao garçom que o atendeu, esse adorava repetir a história, mas sempre acrescentava ingenuamente: — E, até hoje, a “grande amiga” não chegou!
E há também esses lugares-comuns do paradoxo, que fazem a gente suspirar por uma honesta, uma repousante banalidade...
Datilografia: escrita por batuque.
Para algo existir mesmo — um deus, um bicho, um universo, um anjo... — é preciso que alguém tenha consciência dele. Ou simplesmente que o tenha inventado.
A Bem-Amada queria devorar o coração do Poeta. — Não — disse ele —, só terás um pedacinho. Porque noventa por cento pertence aos Editores.
Na volta da esquina encontrei a Esfinge. Petrifiquei-me. Ela me disse então, olhando-me nos olhos: — Devora-me ou decifro-te!
O que eles jamais perdoaram a Oscar Wilde é que ele era profundo sem ser chato.
Dizem que a História é a mestra da vida. Mas como é que os seus protagonistas incorrem sempre nos mesmos erros? Não lhes aproveitou em nada o exemplo das reprovações anteriores. Ou talvez lhes aconteça o mesmo que com os leitores de novelas policiais: cada qual sonha com o crime perfeito. O crime que compensa.
Mas que haverá com a Lua, que, sempre que a gente a olha, é com um novo espanto?
A esperança é um urubu pintado de verde.
Outono: essas folhas que tombam na água parada dos tanques e não podem sair viajando pelas correntezas do mundo...
Um trouxe a mirra, o outro o incenso, o terceiro o ouro. Incenso e mirra evaporaram-se... Mas e o ouro? Os textos nada dizem quanto à aplicação do ouro!
Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da antiga arte pela arte.
Na volta da esquina encontrei um dragão. — Que belas escamas, senhor dragão! Que luminoso laquê! E as chamas que deitais por vossa goela têm o colorido e o movimento de um balé! E que padrão heráldico, Excelência, que... O dragão saiu se reboleando.
O que mais enfurece o vento são esses poetas inveterados que o fazem rimar com lamento.
Os velhos espelhos adoram ficar no escuro das salas desertas. Porque todo o seu problema, que até parece humano, é apenas o seguinte: — reflexos? ou reflexões?
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.
Uma alma sem mistério nem seria alma... Da mesma forma que um Deus compreensível não seria Deus.
A taça do Rei de Tule Dorme no fundo das ondas. Ele agora tem um bule: Lisinho, quente, redondo.
Certa vez abalancei-me a um trabalho intitulado “Preguiça”. Constava do título e duas belas colunas em branco, com a minha assinatura no fim. Infelizmente não foi aceito pelo supercilioso coordenador da página literária. Já viram desconfiança igual? Censurar uma página em branco é o cúmulo da censura.
Resmungam os velhos: — “Não há nada de novo debaixo do sol” — e nem se lembram dos que, neste momento, estão recriando o mundo: os poetas, os artistas, os recém-nascidos.
Ah! jamais ter necessidade de pronunciar essa interjeição...
Naquele seu ímpeto ascendente e embora retombe a cada instante, ninguém, nem ele mesmo o sabe: o repuxo é o eterno recém-nascido.
“Diz isso cantando!” Lembram-se desse ditado? A Ópera levou esse ditado a sério.
Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua.
Que importa a seca? Para o artista, o que importa é esse desenho belíssimo do solo gretado; é, agora, essa pausa das águas na paisagem morta, onde não fluem sequer as lágrimas... O artista é duro que nem Deus.
Tenho pena da morte — cadela faminta — a que deixamos a carne doente e finalmente os ossos, miseráveis que somos... O resto é indevorável.
Se eu amo a meu semelhante? Sim. Mas onde encontrar o meu semelhante?
A vida brota. E é toda olhos. Cada gota contém a luz do mundo. E cada cálice é uma boca ávida. A tua mão — fechada em maldição — abre-se em concha, agora...
Vamos compor, amada, um Cântico dos Cânticos: o verdadeiro Cântico dos Cânticos: — tu Te louvarás unicamente a Ti e eu Me louvarei unicamente a Mim.
O que eles chamam de nossos defeitos é o que nós temos de diferente deles. Cultivemo-los pois, com o maior carinho — esses nossos benditos defeitos.
Suavidade do musgo nos muros gretados.
Essas distâncias astronômicas não são tão grandes assim: basta estenderes o braço e tocar no ombro do teu vizinho.
Mera ilusão auditiva graças à qual a gente ouve sempre “tic-tac” e nunca “tac-tic”... Depois disso, como acreditar nos relógios? Ou na gente?
Mas só Deus — que é único, que não tem par — poderia dizer o que é a solidão.
— Mas por que tu não fazes um poema de amor? — Todos os poemas são de amor.
Amigo é a criatura que escuta todas as nossas coisas sem aquela cara que parece estar dizendo: — E eu com isso?
— Mas por que falas tanto da infância em teus poemas? — Porque eu nunca tive infância.
Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama: “Olha uma borboleta!” O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante de vida, murmura: — Ah! sim, um lepidóptero.
Conversa de velho é cheia de parênteses e esses parênteses são cheios de parentes.
Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.
Os filhos são um subproduto do amor.
Todos esses que aí estão Atravancando o meu caminho, Eles passarão... Eu passarinho!
Ah, meu pobre Coronel Emerenciano, quem sois vós? Quem sois vós, Dona Maurília, Fernando Ivo? Altamirando Barbosa da Silva? Quem sois vós, com todos esses inúteis cartões de visita deixados teimosamente em cada esquina? Que vergonha, velhinhos... Essa coisa de a gente virar rua é uma forma pública de anonimato.
— Mas há as compreensivas. — Ah! essas são muito piores!
Francis Carco escreveu, em Paris, um livro a que denominou Nostalgia de Paris...
O nome de Nabucodonosor é belo como um cortejo religioso. O triste é que os seus súditos, para abreviar, chamavam-no simplesmente de Bubu.
Desconfio que essas frases históricas foram inventadas pelos historiadores, pois como poderiam os grandes homens ter tido, todos eles, aquele mesmo estilo de dramalhão?
O cristianismo acabou com o sofrimento transformando o sofrimento em prazer, como o atesta a alegre legião dos mártires e essa gente que, a cada golpe, exclama: “Seja o que Deus quiser!”
E essas que enxugam as lágrimas em nossos poemas como defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!
... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira. E por isso é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, com toda a sinceridade, as coisas mais opostas. Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.
O que nos atrai no 007 é que ele é o tipo do herói anti-shakespeariano. Nada de casos de consciência. Não é como esse pobre príncipe Hamlet que, para cometer meia dúzia de crimes, passa todo o tempo falando sozinho...
Dona Glorinha estava que não podia! Aquele homem que rodava no espaço, cada vez mais rápido, e preso apenas pelos dentes a uma roldana... Dona Glorinha sentia doerem-lhe os dentes, não os de agora, os outros... Dona Glorinha não pôde mais. E bradou, em meio do suspense geral: “Basta, cruel!”
Lili teve conhecimento dos antípodas, na escola. Logo que chegou em casa, começou a deitar sabença pra cima da cozinheira. Falou, falou, e, como visse que Sia Hortênsia não estava manjando nada, ergueu no ar o dedinho explicativo: — Imagine só que quando aqui é meio-dia lá na China é meia-noite! — Credo! Eu é que não morava numa terra assim... — Mas por que, Sia Hortênsia? — Uma terra onde o dia é de noite... Cruzes!
Depois de ler, por cima de meu ombro, as linhas precedentes, observou-me o João Sabiá: — Mas tu já não falaste na incompreendida beleza dos sapos, na beleza transcendental de um matungo de inverno? Isso é a alma deles?! — Não, é a minha alma...
Não gosto de estar dormindo nem de estar morto perto de ninguém.
“Ah, os egípcios! Ah, os etruscos! Ah, os gregos!” Mas essa nossa atitude ante os que nos precederam de milênios é, no fundo, um tanto protetora, não acham? É como se disséssemos: “Meu Deus, como eles eram precoces!”
Mas há uma beleza interior, de dentro para fora, a transluzir de certas avozinhas trêmulas, de certos velhos nodosos e graves como troncos. De que será ela feita, que nem notamos como a erosão dos anos os terá deformado. Deviam ser caricaturas mas não fazem rir, uns aleijões mas não causam pena. O mesmo não nos acontece ante o penoso espetáculo de um animal velho. Eu gostaria de acreditar que essa inexplicável beleza dos velhos talvez fosse uma prova da existência da alma.
Eles confundem homem famoso com tipo popular.
Dizem os comunistas que a religião é o ópio do povo; outros dizem que o ópio do povo é precisamente o comunismo; se pedissem a minha opinião, eu diria que o ópio do povo é o trabalho.
... eu te amo a perder de vista.
O primeiro sinal da incompreensão é o riso; o segundo, a seriedade.
O leão é um animal tão belo que ser devorado por ele é melhor do que ser devorado por um crocodilo... Diante da sua arremetida, bem sei que se pode morrer de puro medo... porém nunca de horror.
Os que se empenham em provar que as obras de Shakespeare só podem ter sido escritas por outro, estes, por sua vez, só podem ser uns invejosos póstumos. O caso desses críticos não é um caso apenas divertido, como se vê. E grave, e triste, e patológico... São os parentes ambiciosos desses, que vivem catando “influências” na obra de seus contemporâneos.
Dentro das atuais coordenadas do espaço e do tempo, aqui nos vamos equilibrando sobre este fio de vida... Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de esperança e medo, que rede de segurança nos aparará?
Quando o homem desaparecer, que será das coisas? Morrerão da mesmice de ser. De serem apenas aquele poste ali na esquina, a fonte sorrateira, a bela tabuleta inutilmente colorida, os pacientes relógios sobreviventes. Morrerão da mesmice de serem e não mais parecerem. Quando o homem desaparecer, que será das coisas, que será de Deus?
Por que será que as pessoas virtuosas parece que estão sempre representando?
Pobre-diabo marginal entre dois mundos. Não usa sapatos.
Os versos de Casimiro são tão nossos que gostar deles é um sinal de autenticidade — ... e, mesmo, como beber água da fonte na concha das mãos... E como ele ainda está entre nós — tão vivo — nos melhores e nos piores momentos da poesia popular!
Ser celestial metediço na vida terrena, uma espécie de Relações-Públicas de Nosso Senhor.
Método Prático de Geografia.
Catulo não morreu: luarizou-se.
Quando me encontrei com o Conde Drácula, por uma destas noites de inverno, na Esquina dos Ventos Uivantes, tinha ele o aspecto de um grande guarda-chuva de varetas quebradas. Foi o que eu lhe disse. Ele deu meia-volta e partiu revoando, aos solavancos, decerto para quebrar a cara do diretor do filme... Esses pobres monstros ainda não compreenderam toda a grandeza da sua verdadeira tragédia, que é a tragédia do ridículo.
Já repararam? A má reputação sempre fez parte da fama...
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.
Quando o silêncio a dois não se torna incômodo.
Nada de maior; simples passagem de um estado para outro — assim como quem se muda do estado do Rio Grande do Sul para o estado de Santa Catarina...
Velha governanta do filósofo Descartes; avarenta e pechincheira, desconfia de tudo e de todos, menos dela.
Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos?
Desconfia da tristeza de certos poetas. É uma tristeza profissional e tão suspeita como a exuberante alegria das coristas.
Certa vez escrevi uma história árabe. Só me lembro que terminava assim: “E Mohammed, entre aqueles dois conselhos, escolheu o que lhe soava melhor.”
... as teias de aranha do sono...
... e eu imagino uma velhinha por trás da vidraça, jogando paciência com esta chuva tão sem pressa...
Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto e vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida...
— Mas como você está bem conservado!
Tão belo como um edifício em construção contra um céu azul, só mesmo um edifício em ruínas contra o mesmo céu. O que importa é o céu azul.
Nunca digas que um verso está de pé quebrado: ele está é de asa quebrada.
Espetáculo predileto dos ricos.
Sim, o mais triste das dedicatórias são as datas.
Triste de quem não teve um cachorro na infância! Para uma criança, criatura tão necessitada de todos, tão frágil e sozinha, um cachorro é um teste de amor desinteressado da parte dela... é ter uma outra criatura que dependa, enfim, dos seus cuidados.
Baudelaire sempre me deu a impressão de que forçava o tom de voz. Antes do poema, empertigava-se, compunha a garganta... e a turma se embasbacava. Exatamente como acontecia com o nosso Augusto dos Anjos, que era o Baudelaire em último estado de putrefação.
Ah! Aquela confiança que tem uma criança rezando... Inocente confiança. Alegria. Quem é de nós que reza com alegria? Parece que só existe mesmo o Deus das crianças... Deus é impróprio para adultos.
Hoje ganhei o meu dia. Porque uma meninazinha me perguntou: “O senhor pode me botar uma dedicação neste livro?” Escrevi, então, sinceramente: “Para a Heloisa Maria, com toda a minha dedicação.” E assinei. E datei, com tristeza.
Não gosto do Carnaval porque parece filme histórico italiano.
O preto tem a vantagem de realçar as cores que o cercam sem nada perder no entanto da sua própria e grave afirmação.
... até onde irá a procissão dos postes, unidos, pelos fios, à mesma solidão?
A psicanálise? Uma das mais fascinantes modalidades do gênero policial, em que o detetive procura desvendar um crime que o próprio criminoso ignora.
E o que há de mais triste nesses poetas de equipe é que eles naufragam todos ao mesmo tempo.
A minha escola poética? Não frequento nenhuma. Fui sempre um gazeador de todas as escolas. Desde assinzinho... Tão bom!
Pôncio Pilatos apenas representou uma pontinha na História... Mas que pontinha!
A vida era muito mais intensa quando não passava, na média, de quarenta anos. Agora é um longo, um interminável arrastar de correntes: nós somos as almas penadas deste mundo.
Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.
Os personagens de Machado de Assis eram tão medíocres que, enquanto outros loucos do mundo bancavam Napoleão, o Grande, o de Machado de Assis contentava-se em ser Napoleão III.
Uma página em branco é a virgindade mais desamparada que existe. Só por isso é que abusam tanto dela, que fazem tudo dela...
Um dia, por dever de ofício, fui a um desses concursos de Robustez Infantil. Havia cada mãezinha.
Nunca me releio... Tenho um medo enorme de me influenciar. É verdadeiramente catastrófico quando um autor se transforma no seu discípulo.
Às vezes eu pesco um leitor. Outras vezes o leitor me pesca. Entre uma coisa e outra, as águas vão passando.
— De repente, ele não pôde mais e rebentou de riso em plena missa de corpo presente. — Ele quem? — Ora, o defunto...
Escreveu Buffon que o cavalo é um nobre animal. Bobagem... Nobre animal é o poeta!
Nem ao menos a morte iguala tudo. Se é verdade que todos terminamos cadáveres, uns são os cadáveres de Einstein, de Aga Khan ou de Marilyn Monroe, e outros os de José Fagundes ou Joaquininha da Silva...
Descobri na Meditação contemplativa do Padre Júlio Maria esta frase, que daria uma bela epígrafe para um livro de poemas: “E a visão não aproveitou nem a Balaão nem à besta.” Aconselharam-me que desistisse, porque Balaão é meio desconfiado.
Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...
Todos temos a mesma chance? Mas ainda me lembro que, pela década de 20, eu sonhava viver em Paris... e havia gente que já tinha nascido lá mesmo.
Senhor! Que buscas Tu pescar com a rede das estrelas?
A alegria dos mendigos de Murillo... Também, com toda aquela riqueza de colorido!
Democracia? É dar, a todos, o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, isso depende de cada um.
A última novidade é sempre uma rosa.
As tantas horas vividas, lindas horas minhas viúvas, dizem, de riso perdidas: “Tira o cavalo da chuva!” Da chuva tirei-o, pois, e, como o bom-senso manda, ficamos a sós, os dois, vendo a chuva da varanda. Ai cavalo ai cavalinho, não me comas essa flor que abria nesse vasinho onde estava escrito AMOR.
E o que mais me encantava em Gabriela é que ela usava o meu nome como ponto e vírgula.
Seremos fatalistas? Não sei, há uma coisa no entanto que dá para desconfiar... Tenho lido notícias, e até verbetes de dicionários biográficos, impregnados do mais puro fatalismo. Com frases assim: “no dia 31 de julho, tomou um avião para morrer em...” Talvez não passe de mero cacoete de estilo. E quero crer que o próprio S. F., se acaso se desse a esse trabalho, emendaria abespinhado: — Eu não tomei o avião para morrer; eu tomei o avião e morri!
Em todos os aeródromos, em todos os estádios, no ponto principal de todas as metrópoles, existe — quem é que não viu? — aquele cartaz... De modo que, se esta civilização desaparecer e seus dispersos e bárbaros sobreviventes tiverem de recomeçar tudo desde o princípio — até que um dia também tenham os seus próprios arqueólogos — estes hão de sempre encontrar, nos mais diversos pontos do mundo inteiro, aquela mesma palavra. E pensarão eles que Coca-Cola era o nome do nosso Deus!
Os eremitas deixavam apenas as más companhias pela má companhia.
A noite dorme um sono entrecortado, alfinetado de grilos.
“negras flores que se abrem sob a chuva...”
Primavera?! A primavera, entre nós, é uma licença poética.
Cinco minutos depois que todas as nações do mundo decretaram mobilização geral, houve a imobilização geral.
O que eu mais adoro, depois da precisão, são os expletivos.
— Eu queria propor-lhe uma troca de ideias. — Deus me livre!
Há enredo e enredo. O enredo puramente anedótico e um outro mais sutil, feito de não sabemos o que, mas que nos prende com uma rede invisível. Nos contos de Tchekov, às vezes parece que não aconteceu nada... Aconteceu apenas a vida!
No fim a gente acaba descobrindo que até a imaginação tem um teto. E muito baixo até. Agora, só me contentaria um livro de ficção científica escrito por um habitante de Sírius.
A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.
Palavra! Não sei qual a vantagem daquele guri que descobriu que o rei estava nu. Faltava-lhe imaginação — dom exclusivo da criatura humana e signo da sua realeza. Os animais não progridem por falta de imaginação. E eu só perdi minha indiferença congênita às ciências exatas no dia em que ouvi falar nas geometrias não euclidianas.
Dizes que a beleza não é nada? Imagina um hipopótamo com alma de anjo... Sim, ele poderá convencer alguém da sua angelitude — mas que trabalheira!
— O mais triste do vento do deserto é que é um vento analfabeto — dizia um vento da cidade a uma tabuleta oscilante. — Não — rinchava a tabuleta —, o mais triste do vento do deserto é que ele não tem recordações. — Sempre sentimental, essa velha pintada... — pensou consigo o vento da cidade, passando adiante. O vento da cidade era um pedante. O lampião da esquina não dizia nada: ardia de febre.
Empapuçado, balofo, os olhos fixos de preocupação, ele mais parece um velho burguês que passou a noite na farra.
Esses que se debruçam no parapeito de uma ponte têm vocação suicida. Apenas vocação. São uns suicidas crônicos.
É uma borboleta amarela? Ou uma folha que se desprendeu e que não quer tombar?
Há sempre, afastada das outras, uma nuvenzinha preguiçosa que ficou sesteando no azul.
O que há de mais tocante nesses infindáveis carreiros de formigas é que elas parecem umas formiguinhas...
O nariz grego, hoje, nos parece um nariz postiço. Não pega.
E um dia os homens descobriram que esses discos voadores estavam observando apenas a vida dos insetos.
Para as nossas cidades metálicas, que melhor ornamentação que os cactos? Se não por outros motivos, já bastava o seu próprio nome — cacto — tão adequadamente cacofônico.
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
A admirável arte poética de Paul Geraldy e Guilherme de Almeida... Mas, pelo visto, a arte da poesia para eles era uma arte de cantar mulher.
A presunção — tão desculpável e divertida nos moços — é o mais certo sinal de burrice nos velhos. O verdadeiro fruto da árvore do conhecimento é a simplicidade.
Pobre se engasga com cuspe.
Não, não foi por humor negro que pus no que leste acima o título de Conto Azul. Costumamos pintar sempre de azul tudo o que se passou nos nossos quinze anos — talvez por um instinto de compensação. Mas a infância, ó poetas, não é mesmo azul? Quanto a mim, eu venho há muito desconfiando de que a infância é uma invenção do adulto. E o passado uma invenção do presente. Por isso é tão bonito sempre, ainda quando foi uma lástima... A memória tem uma bela caixa de lápis de cor.
— Os monstros têm olhos azuis...
Certa vez, tinha eu quinze anos, inventei uma história que principiava assim: “A primeira coisa que fazem os defuntos, depois de enterrados, é abrirem novamente os olhos.” Mas fiquei tão horrorizado com essa espantosa revelação que não me animei a seguir avante e a história gorou no berço, isto é, no túmulo.
O público ledor é tímido: confunde altissonância com gênio: a imensa voga que teve na América um Vargas Villa e, na Europa, um D’Annunzio... Ninguém mais escuta esses megafones. E por aquela mesma época, pelo menos no Brasil, o público adorava quem escrevia difícil. Ninguém mais lê Coelho Netto, é verdade. Mas para quê? Surgiram outros...
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
No meu quebra-cabeça de hoje acabo de descobrir este admirável conceito: “Intervalo quadrado entre os triglifos de um friso dórico.” Paciência!, não te direi o que seja... E é melhor assim. O mistério faz parte da beleza.
E eis que, de todo aquele espantoso terremoto de Nicarágua, sobrou, como sempre, o poeta Rubén Darío.
Adeus, ó gentes da comunicação em quadrinhos! Adeus... eu voltarei ao mundo quando vocês tiverem redescoberto a escrita.
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco por aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.
“Ah! que la vie est quotidienne!” — ainda se queixa às vezes, debaixo da minha cama, o poeta Jules Laforgue. Digo debaixo da minha cama porque ele já foi outrora meu poeta de cabeceira... e é ali mesmo que ele está morando com outros fantasmas — agora que as casas não têm mais porões. Nem queiras, velho poeta esquecido, vir dar uma olhada a este nosso mundo. Como sempre, novidades, mesmo, não existem: só existem modas.
O mal dos que estudam as superstições é não acreditarem nelas. Isso os torna tão suspeitos para tratar do assunto como um biologista que não acreditasse em micróbios.
— Você se casou? — Não tiveram tempo...
A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder encantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica.
A Art poétique de Boileau, sim... mas que extraordinária Arte da Prosa.
Uma associação de rimas é tão legítima como uma associação de ideias. E mais imprevista, sim. Nem me venham com essa de que não há nada mais previsível do que uma rima. Deem-se as mesmas rimas a diferentes poetas e de cada poeta brotará um poema diferente. Agora, se o rio do poeta não for lá muito piscoso — que culpa tem o anzol?
Venezianas que não sejam verdes são um revoltante crime contra a natureza.
O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.
Inexplicavelmente, uma lagartixa na parede do banheiro. Deixá-la! Como não poupar aquele bicharoco que, ao nos pressentirmos um ao outro, ali ficou subitamente imóvel, com a elegância decorativa de um broche?
Não sei se alguém já descobriu que a sutilíssima arte desses palhaços de circo está justamente na graça que eles não têm.
Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.
O tema é um ponto de partida para um poema e não um ponto de chegada, da mesma forma que a bem-amada é um pretexto para o amor.
Jamais deves buscar a coisa em si, a qual depende tão somente dos espelhos. A coisa em si, nunca: a coisa em ti. Um pintor, por exemplo, não pinta uma árvore: ele pinta-se uma árvore. E um grande poeta — espécie de rei Midas à sua maneira —, um grande poeta, bem que ele poderia dizer: — Tudo o que eu toco se transforma em mim.
Conhecer o mistério de um corpo é talvez mais importante do que conhecer o mistério de uma alma.
Bem que eu desejaria entender tanto de poesia como certos críticos, mas aí, então, não conseguiria fazer um único verso...
Amor, quantos crimes se cometem em teu nome!
O poema é um objeto súbito: Os outros objetos já existiam.
Também me lembro que quando eu era gurizote e briguei mais uma vez para sempre com a Gabriela, deixei-a ali na praça (era domingo, depois da missa) e fui passar pela sua casa, pela sua calçada, pela sua rua.
Como todos os indivíduos profundamente sentimentais, acontece que tenho verdadeiro horror ao sentimentalismo verbal. Daí, certos toques de “humour” nos meus poemas. Uns toques de impureza, pois. E na verdade te digo que poeta puro, mesmo, “na santidade da sua nudez”, só mesmo a Cecília Meireles. A nossa Cecília que, a 9 do mês de novembro em que escrevo estas linhas, faz exatamente cinco anos que não morreu.
Dizeis que tudo é amor e eu vos direi que a fome é tudo; tanto assim que o verbo comer, na insondável sabedoria do povo, também significa possuir carnalmente.
Desconfio muito que, nos dias de nevoeiro, os fantasmas aproveitam para passear incógnitos pelas ruas...
O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.
Havia um tempo em que o céu mirava-se nos meus olhos e não meus olhos no azul do céu, o que não é nenhuma novidade, porque todo o mundo já passou por essa fase: só tem que nem todos se lembram.
Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.
Qual a essência do cômico? Um homem de perna de pau nos deixa indiferentes, polidamente indiferentes. Mas três homens de perna de pau andando juntos na rua... Essa não! Por que estás rindo?
Vi uma guriazinha vindo pela calçada, de pé no chão, e arrastando, preso a uns cordéis, o seu par de sapatos. Eles a seguiam que nem dois cachorrinhos. Uma verdadeira “hippie” — mas ainda em estado de puro lirismo.
Quando guri, eu tinha de me calar, à mesa: só as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem.
Com a adição de mais um dia nos anos bissextos — esse indesejado 29 de fevereiro — a gente sempre desconfia que na verdade foi vítima de uma subtração.
— Manuela é nome de mulher de sapo — sentencia Lili. E não adianta perguntar por quê. — Todo o mundo sabe...
A coisa mais solitária que existe é um solo de flauta.
Esse tic-tac dos relógios é a máquina de costura do Tempo a fabricar mortalhas.
Esse olhar sonhador com que as mulheres saem do cinema onde a heroína do filme sofreu uma curra.
Ainda há gente que, por preço nenhum, se animaria a entrar num cemitério à noite. Bobagem. Somente no Dia de Finados é que exsurge dentre aqueles mármores um que outro fantasma. E mesmo esses poucos não prestam a mínima atenção a qualquer vivente — tão ocupados se acham eles em limpar do limo suas próprias lápides, em roubar de outros defuntos algumas flores para as dispor artisticamente ao pé de seus túmulos esquecidos.
As reticências são os três primeiros passos do pensamento que continua por conta própria o seu caminho.
A sensação póstuma com que folheamos essas revistas atrasadas na sala de espera dos consultórios médicos.
São Tomé — que, como todo o mundo sabe, foi o precursor da dúvida cartesiana — jamais perdeu a obsessão das verdades palpáveis e por isso foi parar no Inferno. Ora, os mais infelizes dentre os infernados são os arrependidos e um destes censurou tristemente a Tomé: — Viste? Só de teimoso tu perdeste o Céu. E Tomé: — O Céu? Não sejas doido... Só existe o Inferno!
Um autor, primeiro, é assunto. Mas a glória, mesmo, é quando ele vira falta de assunto.
Ah! esses vizinhos habilidosos que estão sempre consertando coisas, martelando coisas, nas horas mais insólitas, enquanto eu me acho entregue apenas a este silencioso vício: a leitura.
As épocas de transição nunca foram idades de ouro, séculos de ouro. São apenas épocas de arame. Que a gente tem de atravessar como o bamboleante fio estendido de um lado a outro do circo. E isto, note-se bem, sem rede de segurança. (Lá embaixo, na arena, estão rugindo as feras.)
A verdadeira couve-flor é a hortência.
— Os Anjos existem? — Devem existir, por certo, em vista da insistência com que aparecem em meus poemas.
Cruzeiros, Carros, até a Ursa, a maior e a menor, a Cabeleira de Berenice, a Lira, a Balança, o Cão... quanta bobagem descobriram no Céu esses astrônomos birutas! Eu, de ignorante, quando olho o Céu, não vejo nada disso. Apenas vou traçando o teu nome com as estrelas.
Eu só te poderia dar uma noção do nada se não tivéssemos nascido. Agora é tarde, é muito tarde, minha filha... Ah, deliciosamente tarde!
Essa fúria de limpeza que ataca periodicamente as donas de casa não será por acaso uma lavagem de consciência culpada?
Conheci uma moça meio biruta, que era um encanto. Dizia coisas. Certa vez saiu-me com esta: “O cristal é mais frágil porém muito mais sincero que o bisquit.” Foi assim mesmo que ela disse, sem pausa e sem pontuação: tinha uma frase cantante e ininterrupta como conversa de vento. Um encanto, repito. Seria biruta, mesmo?
O meu amor é belo como um barco!
Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!
“O que se há de fazer com um país onde mãe é nome feio?” Creio que foi Rubem Braga que disse isso um dia. Não disse tudo. Se ele fosse eu, com certeza diria: “O que se há de fazer com um país onde mãe é nome feio e poeta é apelido?”
O verão é um senhor gordo sentado na varanda e reclamando cerveja. O inverno é o vovozinho tiritante. O outono, um tio solteirão. A primavera, em compensação, é uma menina pulando na corda.
Os cirurgiões têm olhos de odaliscas...
Na mala que nem o Anjo da Guarda, nem o Delegado do Distrito, nem eu mesmo consigo encontrar, está a minha imagem única, fechada a chave — e a chave caída no fundo do mar! Não adianta chamar escafandro, nem homens-rãs, nem a sereia mais querida, nem os atenciosos hipocampos, nada adianta. E, por falar em querida, jamais se viu um crime tão perfeito: — Não existem vestígios de mim.
Por que será que a gente vive chorando os amigos mortos e não aguenta os que continuam vivos?
A vida está cheia de interferências indébitas, de acasos estúpidos, de personagens errados que travam conosco desencontrados diálogos de surdos, a vida está atravancada de pormenores inúteis, a vida parece um romance malfeito!
Não há quem não reconheça como a voz faz parte de uma personalidade. Imagine-se que horror a Greta Garbo falando com uma voz de falsa grã-fina carioca.
A primeira esquina, encontro uma cara oca, uma cara sem cara... O melhor, o melhor é voltar, o quanto antes, para o quarto. Com o máximo cuidado de não olhar, acaso, para o espelho.
Não, não tenhas escrúpulos: se, alta noite, meteres uma bala no ouvido, os vizinhos pensarão — polidamente — que foi apenas um pneu que estourou.
Foi no meio da rua. Uma parada. Um abraço. O outro perguntou-lhe: — Para onde vai o senhor? — Para o outro lado.
Confesso que até hoje só conheci dois sinônimos perfeitos: “nunca” e “sempre”.
O verdadeiro inventor da leitura dinâmica é esse numeroso público acostumado a ler os letreiros nas telas cinematográficas. Eis um dos motivos por que sou contra a dublagem dos filmes. Tirar aos aficionados do cinema a sua costumeira leitura relâmpago é fazer sabotagem à campanha do Mobral — pois abriríamos as salas de projeção exatamente a esses a quem se deveria convencer, antes de tudo, de que o analfabetismo é uma porta fechada.
Uma das coisas que não consigo absolutamente compreender são os que se convertem a outras religiões. Para que mudar de dúvidas?
Os quadros são janelas abertas para o outro mundo deste mundo.
O estilo é uma dificuldade de expressão.
Os verdadeiros crimes passionais são os sonetos de amor.
A dor de ver esses pobres Cristos tão maltratados. Principalmente pelos escultores!
As dentaduras expostas nas montras de artigos protéticos parecem dentaduras de antropófagos.
Li apenas duas vezes a obra de Cesário Verde. Dele me ficaram dois versos, duas suaves assombrações que, de longe em longe, atravessam, por um momento, minha memória distraída: “os querubins do lar flutuam nas varandas...” “enleva-me a quimera azul de transmigrar...” Dois versos, direis que é pouco para uma obra inteira, de toda uma vida! Há poetas que se contentam com um busto em praça pública.
Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.
Numa destas minhas tábuas, falei há tempos de como nos assemelhávamos, os robôs e nós. Eles, com as suas inevitáveis conexões de sinais; nós com as nossas (inevitáveis) associações de ideias. Exemplo: sempre tive horror a lentilhas. Pelo seu gosto? Qual! Só por causa daquele malfadado texto bíblico...
Se dependesse das mães, não haveria guerras! Mas as filhas preferem os soldados.
Nosso Senhor não tem o mínimo senso de humor: leva tudo a sério... Com ele não se brinca.
Não é só no homicídio que o problema consiste em ocultar ou sonegar o cadáver; sempre nos vemos em igual contingência diante da morte natural. Vivo a sonhar o dia em que os necrológios comecem assim: “Evaporou-se o Sr. desembargador Dioclécio Fagundes.” Ou então: “Volatilizou-se, na madrugada de hoje, a gentil senhorita Celeste Pereira Pinto.” Sim, porque um dia se hão de inventar umas pílulas por assim dizer eterizantes, que nos tornarão de súbito inteiramente solúveis no ar...
E eis que, depois de longos, longos anos, encontrei o Amigo. E vi que ele, com esse mesmo material dos anos, havia construído a sua vida... No entanto, através daquele muro caiado e sólido, como descobrir agora a voz antiga, o sorriso bom do Emparedado? Dele, só restava o nome como numa lápide.
Essa mania de ler sobre autores fez com que, no último centenário de Shakespeare, se travasse entre uma professorinha do interior e este escriba o seguinte diálogo: Que devo ler para conhecer Shakespeare? — Shakespeare.
E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: “A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância.”
Assim devia ser a relação de autor para leitor: uma face nua num espelho límpido. Mas é tão difícil... Ou a face está mascarada ou o espelho embaciado.
Essa pancada que bate isolada em plena insônia e que interrogativamente alonga a sua sílaba única — ahn — é como se o próprio relógio, no escuro, estivesse indagando que horas são...
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.
Nem todos podem estar na flor da idade, é claro! Mas cada um está na flor da sua idade.
Livrar o povo dos demagogos, sim... Mas como livrar Deus dos teogogos?
Vício solitário.
Os espíritos verdadeiramente religiosos são os que andam e desandam pelas encruzilhadas da Dúvida. Os que atingem a certeza param, satisfeitos. E a certeza, como lá diz o mestre Augusto Meyer no seu Tratado de Metapatafísica, a certeza faz engordar. Exemplo: Santo Tomás de Aquino.
Maneira exagerada de apreciar o seu semelhante.
Repara como o poeta humaniza as coisas: dá hesitações às folhas, anseios ao vento. Talvez seja assim que Deus dá alma aos homens.
A recordação é uma cadeira de balanço embalando sozinha.
Há leitores que acham bom tudo o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.
“Mas, meu caro, isso de partir para o Rio é que é provincianismo!”
Não deves acreditar nas respostas. As respostas são muitas e a tua pergunta é única e insubstituível.
Toda a noite os grilos fritam não sei quê. A madrugada chega, destampa o panelão... a coisa esfria.
Filosofia forçada.
— What is a name? — já indagava o Poeta. Um nome serve, em última instância, para uma lápide. Ou para uma estátua, geralmente equestre. E a melhor fase da vida — a mais natural — é quando os pais ainda não escolheram um nome para a gente.
E quando um acidentado acorda, perplexo, no Outro Mundo, e indaga dos Anjos que horas são, muito mais perplexos ficam os Anjos.
A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta.
O velho mendigo que neste momento acaba de encontrar num monte de sucata a lâmpada de Aladino — tão amassada, tão enferrujada e de feitio tão esquisito — eis que ele a abandona e leva em vez dela uma útil chaleira. Uma chaleira sem tampa, digo eu, para os que gostam de pormenores. E não é esta a primeira vez que o acaso, inocentemente, assim estraga uma bela história.
Quando, enfim, apareceu o Abominável Homem das Neves montado no Monstro de Lochness, já era tarde para eles. Bem feito! Quem lhes mandou serem tão misteriosos assim? Eles pensavam que ainda eram notícia. Nem isso: eram apenas famosos.
A teologia é o caminho mais longo para chegar a Deus.
É tal a sua pressa de comunicação que eles se esquecem de aprender primeiro a expressar-se.
Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.
Famoso precursor da Thalidomida.
— Você ainda não leu O significado do significado ? Não? Assim você nunca fica em dia. — Mas eu estou só esperando que apareça O significado do significado do significado .
Basta havermos lido Dostoiévski e Tolstoi (como fizeram todos os da minha geração) para não duvidar de que o povo russo é profundamente religioso. Nós, não. E por isso mesmo jamais poderíamos cair, como eles, por transferência, na implacável mística do ateísmo. Eles são fanaticamente ateus. Nós não somos fanaticamente religiosos. Moral da História: o trunfo é nosso.
Sempre achei que a semente de onde germina todo verdadeiro poema é uma interjeição. Isto é, um sentimento muito elementar, instintivo. Mas um sentimento, sempre. O eterno romantismo! E depois disto, minha filha, hás de sair dizendo por aí que o nome feio é a forma mais espontânea da poesia.
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.
Bombom rançoso.
Prefiro ser alvo de um atentado a ser alvo de uma homenagem: um atentado é mais expedito e não tem discurso.
Eis que descubro um retrato meu, aos dez anos. Escondo, súbito, o retrato. Sei lá o que estará pensando de mim aquele guri!
Não sou desses que um dia pensam uma coisa e no outro dia pensam outra coisa muito diferente. Eu penso as duas coisas ao mesmo tempo. Duas ou mais. Não tenho culpa de ser ecumênico.
Atenção! O luar está filmando.
Os “burgueses” desprezam o pobre e o pária social, sentimento esse que Chaplin levou longe demais ao transformá-lo num palhaço — o Carlitos.
Esses que vivem religiosamente se embasbacando ante o espetáculo das inatingíveis estrelas — nunca lhes terá ocorrido acaso que também fazem parte da Via Láctea?
Essas duas tresloucadas, a Saudade e a Esperança, vivem ambas na casa do Presente, quando deviam estar, é lógico, uma na casa do Passado e a outra na do Futuro. Quanto ao Presente — ah! — esse nunca está em casa.
Um dueto de Ópera não te dá a impressão de namoro de gato?...
O trabalho é a farra dos velhos.
Os extrovertidos são julgados normais. Quanto aos introvertidos, chegam a submetê-los a tratamento. Mas para curá-los de quê? De não poderem ser chatos, como os outros?
Mas você ainda não pensou como seriam esplêndidos os filmes de Chaplin se interpretados por outro?
Naquele dia fazia um azul tão límpido, meu Deus, que eu me sentia perdoado para sempre não sei de quê.
O bom dessas grandes civilizações é que um dia elas se acabam e tudo começa novamente.
Uma definição apenas define os definidores.
Todas as amadas chamam-se Maria.
A saudade que dói mais fundo — e irremediavelmente — é a saudade que temos de nós.
Certo dia me disse um chinês: — Há gente que procura fazer as coisas da maneira mais complicada possível. Cristóvão Colombo, por exemplo. Até hoje não atino por que seria que ele pôs um ovo de pé.
A indiferença é a mais refinada forma da polidez.
Contra o céu de chumbo, aquelas árvores desesperadamente verdes!
Não, esta luz não me engana. É como se houvessem acendido de repente um fósforo no escuro: a chama arde, bruxuleia, morre... Chama que pode durar uns poucos anos, como nós. Ou milhões e milhões de anos, como o mundo. Mas sempre chama, sempre uma pobre chama efêmera.
— Mas por que falar em poesia concretista? Diga-se “concretismo”, apenas, e estará ressalvada a poesia.
Um ruído assusta o cheiro do jasmineiro.
O estilo muito ornado lembra aqueles antigos altares barrocos, tão cheios de anjinhos que a gente mal conseguia enxergar o santo.
Ó céus de Porto Alegre, como farei para levar-vos para o Céu?
Mas esses letreiros luminosos não seriam muito mais belos se fossem escritos em chinês?
As pulgas saltam tanto porque também têm pulgas.
Um poema que, ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
No verão dá cupim na cabeça da gente. Cupim ou caruncho? Será a mesma coisa? Não sei. Nem vou saber agora. Verão é isso mesmo: preguiça de procurar palavras no dicionário.
Oh! todo o sossego e lucidez das madrugadas, quando o último grilo já parou seu canto e ainda não se ouviu o canto do primeiro pássaro.
A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.
Não sei pensar a máquina. Escrevo, isto é, faço o meu trabalho criativo primeiramente a lápis. Depois, com o queixo apoiado na mão esquerda, repasso tudo a máquina com um dedo só. — Mas isto não custa muito? — Custar custa, mas dura mais.
Cuidado! deves tocar a campainha tão suavemente como se tocasses o umbigo da dona da casa.
Nas cidades de puro cimento, onde a palavra “folha” é menos que um fantasma, só o vento nos resta... Meu Deus! e se tu fizesses agora mais uma das tuas mágicas — ao menos para colorir o vento!
A maior conquista do pensamento ocidental foi o emprego das reticências...
A vista de um veleiro em alto-mar remoça a gente no mínimo uns cento e cinquenta anos.
... esse gosto ao mesmo tempo resignado e desesperado que tem o vinho com rolha afundada.
A memória é um sótão atravancado de objetos inúteis, onde tanto desejaríamos encontrar aquelas coisas perdidas que — de tão perdidas — já nem sabemos mais. O que sejam...
As que ocultam o rosto quando choram é para disfarçarem que estão rindo.
Conviver toda a existência com alguém sem nunca lhe dar a entender que ele perdeu há anos uma perna ou que perdeu um dia a cabeça.
Não era a maçã que estava a cair de madura, mas a lei da gravitação.
O mais triste nas praias de verão é que nos assemelhamos a um bando de focas tropicais.
Um dos motivos que me fazem acreditar em nossa origem extraterrestre é que o homem é o único animal que aprecia olhar os incêndios.
O que há de irritante numa goteira é que ela parece sempre estar dizendo: me conta, me conta... assim como quem diz como uma louca: me penteia, me penteia, me penteia os meus cabelos.
Um cachorro serve para a gente falar sozinho. Que o digam esses errantes vagabundos, a quem pode faltar tudo, menos um cachorro. E essas velhinhas que ficaram sem família. E os meninos que nunca tiveram infância.
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necrópsia.
São muitos os que morrem antes, outros depois; o difícil é acertar a hora.
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.
Costumava-se distinguir entre creação e criação. Exemplo: a creação de um poema, a criação de galinhas. Era limpo e nítido. Nada de confusões. Mas agora que tudo é um, como diziam os clássicos, ficou irremediavelmente perdido o que escrevi, um dia: “Deus creou o mundo e o diabo criou o mundo.” E agora? Para explicar tudo isso em mais palavras o que seria um verdadeiro crime — imaginem os circunlóquios que eu teria de fazer... Não faço!
Os clássicos escreviam tão bem porque não tinham os clássicos para atrapalhar.
E esses que evitam cuidadosamente os “quês” (parece que o toque de caixa foi dado pelo velho Castilho) o que estão, afinal, é desossando este nosso rude e doloroso idioma... Um idioma durão!
Le Penseur de Rodin... coitado... nunca se viu ninguém fazendo tanta força para pensar!
Tudo pode sair muito mais bonito nas fotografias, mas sai muito mais verdadeiro nas pinturas.
Um elefante caiu do teto.
A curva é o caminho mais agradável entre dois pontos.
Não é por me gabar, mas nunca pude rir das situações ridículas. Nem há nada mais triste neste mundo. Porque o ridículo é a tragédia sem grandeza. Esses maridos que saem a passear os lulus das patroas.
Falam muito no Sono Eterno. Sempre falaram, aliás... E daí? Daí, só uma coisa me impressiona, e muito: a ameaça de uma Insônia Eterna.
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.
A gente deve atravessar a vida como quem está gazeando a escola e não como quem vai para a escola.
O mais espantoso nos velhos é a sua falta de pressa, como se eles dispusessem de todo o tempo que teriam os moços se não tivessem tanta pressa.
Boates, toaletes, quitinetes, ateliês, e assim por diante... E como essas palavras, universalmente usadas, ficam difíceis de reconhecer... E trotoar, como é possível fazer trotoar? Ah, trottoir... agora sim! E depois, se vamos aportuguesar desse modo todas as palavras estrangeiras, a gente acaba perdendo o pouco de cultura que ainda tem.
Pílulas das mais variadas cores, cada uma para as diversas horas do dia. Isso não quer dizer que os curasse, não. Mas sempre dava algum colorido às vidas desses pobres velhotes.
Às vezes, nos dias calmos, apenas se nota uma leve ondulação na relva: são os cavalos do vento que estão pastando.
O que há de mais espantoso na moda é que até os filósofos ela faz desfilarem pela sua oscilante passarela. Primeiro foi o Sartre, depois o Marcuse — lembram-se? — e agora — quem é que não sabe? — é o MacLuhan. Pobres filósofos... Qual será a próxima vítima? Até parece que cair nas garras da moda é o primeiro passo para o esquecimento. Mas não exageremos: às vezes essa velha entremetteuse engana-se e acerta por acaso.
O gato é preguiçoso como uma segunda-feira.
As múmias são indigestas, mas em compensação os recém-nascidos não têm o mínimo teor alimentício.
Mas felizes, felizes esses peixinhos de aquário: pensam que o seu universo é infinito.
— Mas que quer dizer “interlocutor”? Eu só conheço os locutores...
A gente adoece, mesmo, é de nome feio recolhido.
Fui ver o Satiricon , de Fellini. Uma coisa espantosa! Aqueles antigos romanos estavam quase como nós...
Dizem que a época das vedetes já passou... Será? Mas quando nos livraremos desses filmes que estão sempre levando em todos os cinemas e cuja personagem principal é a cama?
O dia passa, a vida continua. E os que pensam que a vida muda com o gosto devem pensar também que o corpo se transforma com as modas.
Ultrapassar-se? Mas como?! A gente só se ultrapassa, mesmo, quando vai para o outro mundo.
Mover-se com a máxima amplitude dentro dos próprios limites.
Teus silêncios são pausas musicais.
Somente nunca sai da moda quem está nu.
Digam o que disserem, mas a Lua continua sendo o LSD dos poetas.
O que têm de bom as nossas mais caras recordações é que elas geralmente são falsas.
Chocante, o caso da minha geração: é, em geral, a história de um menino que nasceu e foi criado numa casa de intolerância.
Havia um tempo de cadeiras na calçada. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a claraboia da lua. E o cachorro da casa era um grande personagem. E também o relógio de parede! Ele não media o tempo simplesmente: ele meditava o tempo.
A “boa ação do dia” predileta dos Anjos da Guarda é fazer os gambás atravessarem o tráfego maluco: quando estes se dão conta, já estão do outro lado...
Nada tão fácil como assassinar hoje em dia uma mulher. Pode ela gritar que nem uma heroína de telenovela. Os vizinhos pensarão que é isso mesmo.
Com a intensificação incessante da poluição sonora — revelou-me a Sibila de Delfos — não está longe o dia em que aparecerão nos jornais anúncios como este: “Dr. Praxedes, especialista em surdificação, compromete-se dentro em seis meses a deixá-lo imune às descargas automobilísticas, aos ruídos infernais do doce lar, à música pop, a determinados programas de TV.”
O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser o nosso futuro.
O que estraga as viagens, agora, é o seu rápido destino: de repente já estás em Pequim... Benditos, mil vezes benditos aqueles carrosséis que ensinaram aos meninos de meu tempo a pura alegria de viajar!
As damas gordas não devem usar vestidos estampados, para não se repetir o que aconteceu certa vez, quando um senhor sentou no colo de uma delas, pensando que fosse uma poltrona.
E chegará um tempo em que os militares inventarão um projétil tão perfeito, mas tão perfeito mesmo, que dará volta ao mundo e os pegará por trás.
Sempre que o homem conquista a certeza de alguma coisa: redondeza da terra, heliocentrismo, etc., ele acaba por se chatear soberanamente e, passando por cima das esfinges mortas, parte em busca de novos enigmas, de novas dúvidas, ante a indiferença das pedras, das velhas comadres e das estrelas.
Os sonhos têm luz própria, uma luz que não vem de nenhum sol, de nenhuma lua, de nenhum foco. Está em toda parte. Na próxima vez que sonhares, procura ver se o teu vulto projeta alguma sombra. E se a tua imagem se reflete nalgum espelho. Tolice minha! Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Nós vivemos a temer o futuro; mas é o passado quem nos atropela e mata.
... mas por que também não são multados esses motociclos policiais que, nas rodovias, perseguem os motoristas por excesso de velocidade?
Não pode haver a menor dúvida a respeito. O ovo é a mais perfeita forma da Criação. Mas como dói!
Não há que exagerar, nem na beleza. Há mulheres que, de tão belas, parecem que têm cara postiça. Serão robôs? Ou talvez visitantes de outro mundo? A sua perfeição lhes tira a humanidade. Jelena Trubova, mulher aliás nada difícil e que morreu no bombardeio do Hotel Shangai pelos anos 30, queixava-se de que a sua beleza afugentava os homens. Os quais preferiam sair tranquilamente com as outras, cujo encanto não ultrapassava o trivial.
Um orador deveria limitar-se ao essencial. Especialmente nesses discursos de banquete — os quais teriam, todos eles, o texto seguinte: “Minhas senhoras e meus senhores. Tenho dito.”
Sempre que o convidavam a uma casa, perguntava-lhes se podia ir com outra pessoa. Combinado! Deixava então os outros conversarem à vontade, enquanto ele fingia que estava escutando.
Ah! essas eternas rosas de Malherbe.
Naquele tempo não sabíamos, mas se a gente se sentia tão bem lá dentro do circo era porque o seu amplo toldo formava um universo fechado — só para nós.
Depois que fez a máquina dos mundos, Nosso Senhor espantou-se muito: “Ué! Será que eu consegui descobrir o moto contínuo?”
Nada se perde; tudo muda de dono.
A incessante inauguração do mundo era sempre aos sábados, à tarde — quando se abria o pesado portão dos internatos antigos.
Cineastas, romancistas, psicólogos e outros psis — como se preocupam eles com o problema da solidão! Por quê? O único problema da solidão consiste em como preservá-la.
Un sonnet sans défaut, c’est le crime parfait. [Boileau — Art Poétique
Havia na minha terra um orador popular que terminava assim os seus discursos: “Pois, como disse Ruy Barbosa...” — e lá vinha para cima da gente com uma frase que ele tirava do próprio bestunto. É claro que todo o mundo aplaudia.
A vida? Pode ser que seja um sonho. A poesia, não. A “possessão poética” não tem sentido passivo. É o mesmo que no palco: um ator, para bem desempenhar o papel de ébrio, deve estar inteiramente sóbrio.
Creio que foi Nietzsche que disse que o homem foi feito para guerrear e a mulher para dançar para o guerreiro. Ora! É muito mais humano este meu, este nosso ideal burguês: o homem foi feito para comer e a mulher para servi-lo à mesa.
Clair de lune , chiaro de luna , claro de luna ... mas os franceses, os italianos e os espanhóis saberão mesmo o que seja o luar, que nós bebemos de um trago numa palavra só?
As rimas ricas acabaram morrendo por falta de recursos. Havia algumas que só eram quatro, o estritamente necessário para os dois quartetos do sonetista. Outras, nem isso... pobre do Emílio de Menezes! Creio que foi a mesma rimatite que esfrangalhou irremediavelmente os nervos de Edmond Rostand. Mas esse, ao menos, conseguiu executar soberbamente os seus números. E — acreditem — não morreu de entorse. Veio a morrer de tanto tour-de-force. Sob o aplauso entusiástico das arquibancadas.
Será do tempo? Será do quê? Os meus sapatos rincham, os meus sapatos cantam de alegria. E eu vou andando e aguardando cá de cima — que o seu oculto motivo chegue afinal até meu coração.
Não te assustes com a cafonice do título. Eu também não acredito que tenham jamais existido as vendedoras de violetas. É dessas coisas falsamente poéticas, pura invencionice para idealizar a miséria misturando-a com flores — ainda mais a violeta, famosa pela sua humildade e modéstia — ôrre!
Ontem, quando procurava recordar qual a sequência dos Dez Mandamentos, não consegui ao menos lembrar-me de todos eles. O Diabo sorriu amarelo. Estava garantido o meu lugar no Céu.
... um anjo depenado...
Ah, nem queiras saber... A vida é preciosa como um pão roubado!
Os homens que se dedicam ao golfe são os que não jogaram bolita quando meninos.
Nós todos levamos o anel da morte e um dia temos de o trocar com ela.
Com essa leitura dinâmica, decerto nem chegarão a me enxergar... Que sobrará de mim eu que só escrevo para os que gostam de ler nas entrelinhas? Que escrevo, como bem sabem os meus fregueses, apenas para os gulosos, e jamais para os glutões.
Estranho animal, o escriba, que lhe não basta ver, sentir... mas é-lhe preciso escrever isso tudo e outras coisas, para só então mais intensamente viver. Daí, o seu ar de sobrevivente. De quem ao mesmo tempo está e não está aqui. E, ao encontrar-te, ele sempre te estende a mão como em despedida, já com saudades de agora.
É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.
Não deveria caber a um poeta o extrovertido e saltitante encargo de Relações-Públicas. E sim de Relações íntimas. Isto é, comunicação... a sós.
Viajar é mudar o cenário da solidão.
A natureza é barroca. O sonho é barroco. Portanto, que teriam vindo fazer neste mundo as colunas gregas?
Durante as belas noites de tempestade os relâmpagos tiram radiografias da paisagem.
A única estátua equestre admissível seria a de Lady Godiva.
Não se devia permitir nos relógios de parede esses ponteiros que marcam os segundos: eles nos envelhecem muito mais que o ponteiro das horas.
Os macróbios são macróbios porque não acreditam em micróbios.
O mais revoltante nas touradas é que os touros não são aplaudidos quando saem vencedores.
O crítico é um camarada que contorna uma tapeçaria e vai olhá-la pelo lado avesso.
Não sabias? As nossas mortes são noticiadas como nascimentos pela imprensa do Outro Mundo.
Como seriam belas as estátuas equestres se constassem apenas dos cavalos!
Herodes ordenou a matança dos inocentes e no entanto o único culpado escapou.
Nasci no ano da descoberta do gás neon. Alguns leitores, diante disto, compreenderão a inocuidade de mais esclarecimentos.
O Doutor Dogmático ajeitou os nasóculos. E decretou: “Meus senhores e minhas senhoras, ilustrados agentes da Censura e demais entidades aqui representadas — como acabei de vos provar, a fantasia está morta.” E fez um gesto definitivo. Porém com tamanha infelicidade o fez que, da ponta de cada dedo espetado no silêncio do ar poluído, brotaram-lhe inesperadamente flores súbitas. E nenhuma parecia deste mundo. (Faltam pormenores.)
Um dia o Diabo viu uma criança fazendo com o dedo um buraco na areia e perguntou-lhe que diabo de coisa estaria fazendo. — Ué! não vês? Estou fazendo com o dedo um buraco na areia! — espantou-se a criança. Pobre Diabo! O seu mal é que ele jamais compreenderá que uma coisa possa ser feita sem segundas intenções.
Pensar nos leitores — ou num determinado leitor prejudica a naturalidade, de sorte que a única maneira de um autor não fazer pose é escrever para ninguém. E muito menos para si mesmo.
Senhoras gordas e funcionários magros.
Os versos, em geral, são versos de embalar, como eu às vezes os tenho feito, não sei se por simples complacência... ou pura piedade. Contudo, os verdadeiros versos não são para embalar — mas para abalar. Mesmo a mais simples canção, quando a canta um Garcia Lorca, desperta-te a alma para um mundo de espanto.
No Tempo da Era usava-se esta gostosa expressão pra cima do interlocutor: “Diz isso cantando!” Quando alguém resolve musicar alguma coisa que a gente escreveu, não será mais ou menos isso o que acontece?
Ah, essas pequenas coisas, tão quotidianas, tão prosaicas às vezes, de que se compõe meticulosamente a tecitura de um poema... talvez a poesia não passe de um gênero de crônica, apenas: uma espécie de crônica da eternidade.
As lagartas não podem acreditar na lenda das borboletas — tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo... mas sua felicidade consiste em relembrar, às vezes, o absurdo e maravilha desse velho sonho: o de se transformarem, um dia, em borboletas.
“O curioso é que, nessa mesma época, desapareceram, súbita e misteriosamente, os vestidos de cauda, os iguanodontes e as sobrecasacas.”
O fato é um aspecto secundário da realidade.
Acabaram-se os bondes amarelos... A frase me saiu em decassílabo, viste? E o metro clássico já faz adivinhar um soneto. Ficou neste verso único. E deixo o bonde depositado em meu ferro-velho sentimental. Aqui. Parado. Sonhando. Quem sabe se um dia...
Quando a gente aperta o umbigo das crianças mortas, suas alminhas se espremem de riso lá no Céu.
Os lugares-comuns são cômodos como sapatos velhos. Facilitam a vida, estreitam relações, evitam desconfianças e desentendimentos. E depois, se não fossem os lugares-comuns, o que seria dos oradores de banquetes, dos oradores de palanques comemorativos?
Da influência do estilo Cantinflas em nossa crítica doutrinária.
Os anjos não dão de ombros, não; quando querem mostrar indiferença, os anjos dão de asas.
Shakespeare. Nunca lhe passou pela cabeça o receio do ridículo. Em contrapartida, Racine, com a sua infalível mésure é que nos parece às vezes afetado. O que jamais acontece com Shakespeare, apesar de todos os pesares. Como os grandes homens da História estão acima do bem e do mal, os grandes poetas estão acima do bom e do mau gosto.
Os poetas morrem de parto.
Sento-me à mesa. Quem sabe? Quem se senta, se tenta... 60, 70, escrevo, arredondando caprichosamente os zeros. E o burro do papel me fica incompreensivelmente olhando, na espera inútil dos 80. O papel está hoje com uma abominável falta de imaginação. Continua, apenas, olhando-me: vazio, mais quadrado do que nunca. Porque o papel é uma janela que, em vez de a gente espiar por ela, ela é que espia para a gente.
Falam em decadência da arte de escrever. Mas isso que por aí se vê, essa imprecisão, essa desconexão, é tudo um simples gráfico do espírito do autor. Não me venham, porém, dizer que ele não tem estilo. Tem-no, e muito seu. O estilo continua sendo o homem. Crise de estilo não existe. O que existe é crise de pensamento.
Copio e assino esta frase encontrada no velho Schopenhauer: “A soma de barulho que uma pessoa pode suportar está na razão inversa da sua capacidade mental.”
O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face...
As águas riem como raparigas à sombra verde-azul das samambaias.
Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco... Não há nada que substitua o sabor da comunicação direta.
O hipopótamo é um bruto sapatão afogado.
Um santo homem que, na sua humildade, se fez pecador, porque achava que não merecia o Céu.
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
— Como vai você aí, vizinho? — Oh! em excelente estado de putrefação.
Ainda me lembro do susto que levei (“É o fim! Estamos perdidos, Maurício...”) quando os japoneses atacaram Pearl Harbour. Só no dia seguinte vim a saber, por um mapa publicado na imprensa, que Pearl Harbour não ficava no Atlântico, e sim no Pacífico... Uft! Têm aí os srs. professores um exemplo quase letal dos inconvenientes da incultura. Mas, no meu caso, o grande consolo é que toda essa ignorância geográfica devia provir, pelo contrário, da minha vasta cultura francesa.
Ah, nunca vi ninguém esconder-se tanto, como os bichinhos-de-conta, quando os roubávamos, de baixo dos vasos, à terra cheirosa e úmida: eles enrolavam-se e rolavam, nas palmas de nossas mãos — limpinhos; isentos, ilesos — até que a gente os depusesse, novamente, no chão, com um meticuloso carinho.
As velhinhas bonitas são passas de uva.
Cansado da sua beleza angélica, o Anjo vivia ensaiando caretas diante do espelho, Até que conseguiu a obra-prima do horror. Veio, assim, dar uma volta pela Terra. E Lili, a primeira meninazinha que o avistou, põe-se a gritar da porta para dentro de casa: “Mamãe! Mamãe! Vem ver como o Frankenstein está bonito hoje!”
Sonhar é acordar-se para dentro.
Eles consideram a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade e o Cristo do Corcovado entre as Sete Maravilhas do Mundo Moderno — sem a mínima desconfiança de que poderia ser o contrário.
O mais difícil na morte é acomodar-se a gente aos novos hábitos.
Conhecer o mundo não adianta nada: as viagens apenas complicam a ignorância.
— Mas aquelas mocinhas lá embaixo, naquela sala grande, não estão rezando? — Não, meu santo, estão mastigando chiclete.
Dizem eles, os pintores, que o assunto não passa de uma falta de assunto: tudo é apenas um jogo de cores e volumes. Mas eu, humanamente, continuo desconfiando que deve haver alguma diferença entre uma mulher nua e uma abóbora.
Toda cheia de bandeirolas e lanternas chinesas, Dona Briolanja atravessa o grupo amorfo dos transeuntes; parado na esquina, eu lhe ofereço a metade de uma laranja.
A bomba abriu um belo buraco no teto, por onde o céu azul sorri para os sobreviventes.
Nunca me senti bem nas salas de estar, Salas de estar... Mas de estar o quê?
A falta de imaginação, a mesmice, é uma coisa tão cômoda, afinal... Como faz bem certificarmo-nos mais uma vez de que o cachorrinho de cada velhota sempre se chama Joli e que em toda cidadezinha desconhecida em que desembarcamos há sempre um Grande Hotel.
Meu Deus, por que será que nos sentimos tão culposos diante desse olhar interrogativo que nos lançam, às vezes, os cães? Mas culposos de quê?
Os ônibus anunciam dentifrícios, depilatórios, tônicos, etc. As lojas anunciam liquidações. Os muros anunciam candidatos. Os letreiros luminosos anunciam refrigerantes, pneus, o diabo... E quando, enfim, numa última tentativa de fuga, a gente ergue os olhos para o céu sereno, os Céus anunciam a Glória do Senhor.
No princípio, era a Poesia. No cérebro do homem só havia imagens... Depois, vieram os pensamentos... E, por fim, a Filosofia, que é, em última análise, a triste arte de ficar do lado de fora das coisas.
Quem bebe por desgosto é um cretino: só se deve beber por gosto.
Não, o provérbio não está bem certo. O raio é que enquanto há esperança, há vida. Jamais foi encontrado no bolso de um suicida um bilhete de loteria que estivesse para correr no dia seguinte.
A vantagem das japonesas é que, quando se tornam mães, continuam a brincar com bonecas.
Uma rãzinha verde no gris da manhã... Um sorriso na face de um ceguinho... Uma nota aguda como uma pergunta de criança... Um cheiro agradecido de terra molhada... Um olhar que nos enche subitamente de azul...
As biografias dos grandes homens são feitas de absurdos, estão cheias de acontecimentos incômodos, que atravancam tudo. A vida deles lhes acontece de fora para dentro. Muito mais interior, mais natural, mais humana é a tua vidoca, anônimo leitor, que és o herói sem história do quotidiano. Se pudesses, se soubesses contar-me a tua vida, eu tiraria dela muito mais proveito do que da vida de Napoleão.
Por que será que “com certeza” tem o sentido de “talvez”? E por que chamam de duvidosas as mulheres de que todo o mundo tem certeza?
O maior desmemoriado que existe é o crente. Ele jamais se cansa de ouvir a mesma história. E sempre esquece os mesmos mandamentos.
Ah! os versos das línguas — pouco lidas como a nossa — pouco lidas por nós mesmos e desconhecidas pelo resto do mundo... Sua incomunicabilidade os torna de uma beleza única e irreparável. Quando descubro um belo verso nosso, sempre me dá vontade de chorar, porque é escrito em português.
O bom das filas é nos convencerem de que afinal esta pobre vida não é tão curta como dizem.
Fazia tanto calor que as sombras se ocultavam debaixo da barriga dos cavalos e da copa das árvores.
Esse verso de pé quebrado que atravessa a página de um lado a outro, como um pobre cachorro estropiado...
O verdadeiro epicurista embriaga-se com um copo d’água. O verdadeiro poeta faz poesia com as coisas mais simples e corriqueiras deste e dos outros mundos.
— Não te lembras dos bons velhos tempos em que a gente lia os cardápios da esquerda para a direita? Agora, somos todos árabes, uns verdadeiros árabes, minha filha!
Os girassóis parecem flores de retórica.
O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.
A verdade é que os bichos, quando imitam pessoas, perdem toda a dignidade.
O mais sugestivo é que esses países afro-asiáticos sempre nos parecem afrodisíacos.
O mais triste, naqueles filmes de antigamente, era que o mocinho escapava de tudo, menos do happy end...
O mais triste de um passarinho engaiolado é que ele se sente bem...
Eva era mulher para principiantes?
Ter a idade da pessoa com quem se fala.
O azul-celeste só fica bem no céu, e o cor-de-rosa na rosa.
Camarada impulsivo que morre cedo.
Leitor ideal, mesmo, é o que, quanto menos entende, mais admira. Se não fora essa claque providencial, o que seria dos autores herméticos? Não seria... Não porque sejam uns farsantes, uns e outros. Eles são assim. Já nasceram assim. Uns para os outros.
Pousou agora mesmo — precisamente sobre a velha caneta que eu havia erguido um momento à cata de um adjetivo — um insetozinho verde que tem a forma exata de um escudo. Veio da noite, atraído pela luz da minha janela. Sua gentil visita me compensa não sei de quê. Fico a examiná-lo em silêncio: nada posso nem sei dizer-lhe. E assim nos quedamos por um breve instante, frementes, incomunicáveis e juntos... Dois universos dentro do mesmo mundo.
O mais desconcertante da morte é quando a gente descobre que alma não tem sexo.
De cada dois gambás que a gente encontra, um é porque não tem mulher e o outro porque tem.
Eu não sou eu, sou o momento: passo.
A expressão mais idiota que existe é “adeusinho”.
O mais triste que existe na memória são essas marchinhas dos carnavais distantes...
Há gente que tem raiva dos clássicos, por terem sido obrigados a conhecê-los. Eu tenho pena deles, porque não nos conhecem.
Ouço, num primitivo espanto, os gritos mais insólitos. Não sei o nome de nenhum desses pássaros, de nenhuma dessas árvores. Olho, agora, esta flor: apenas sei que é amarela. Meu pensamento, ou seja lá o que for, é simplesmente composto de adjetivos, como nos primeiros dias da Criação.
Todas as antigas civilizações — por mais isoladas umas das outras, no tempo e no espaço — sempre começaram descobrindo três coisas: a poesia, a bebida e a religião.
Deus nos promete a vida eterna, mesmo porque, se não fôssemos nós, o que seria dele? Um Deus dos hipopótamos, das aranhas, das lagartixas?
Os poetas são os únicos que não podem falar contra os absurdos da religião. Mesmo aqueles que se julgam materialistas devem estar ingenuamente iludidos: a poesia é um sintoma do sobrenatural.
Teus olhos são duas joias! — disse o Conde Drácula para a meninazinha. Eram mesmo duas joias: de um azul-inocência, até parecia que o céu estava olhando neles para a gente... O Conde suspirou e despediu-se da linda menina com uma palmadinha amigável. — Pois como seria possível — desculpava-se ele naquela mesma noite com o seu amigo Frankenstein —, como seria possível, com dois olhinhos só, fazer um par de abotoaduras?!
O tempo é um ponto de vista dos relógios.
Antes de escrever, eu olho, assustado, para a página branca de susto.
No fundo, não há bons nem maus. Há apenas os que sentem prazer em fazer o bem e os que sentem prazer em fazer o mal. Tudo é volúpia...
Preocupar-se com a salvação da própria alma é indigno de um verdadeiro gentleman.
— Meu Deus — disse uma vez o meu velho e querido amigo, ao ler os convites de enterro no jornal —, eu não conheço mais nem os defuntos!
O mais difícil, quando se escreve em prosa, é evitar as rimas e, quando se escreve em verso, achar uma rima.
Os chinelos são um par de gêmeos obedientes, sempre juntinhos ao pé da cama, pacientemente à espera do papai, que às vezes custa tanto a chegar.
Mas o mais infiel dos animais domésticos é o guarda-chuva.
Quem se aventura a fazer um poema é como se atirasse uma pedra n’água. Tudo depende da formação dos círculos concêntricos. Salvo se o leitor for como o Lago Asfaltite, também chamado Mar Morto. Com este não há jeito nenhum.
De há muito venho desconfiando que a justaposição de imagens usada por Guillaume Apollinaire deveria provir, sendo ele polaco, de seu pouco traquejo da construção francesa e consequente dificuldade no emprego de certas partículas, locuções e demais parafusos e rebites que constituem a armação da prosa. Com o que, acabou renovando e rejuvenescendo a linguagem da poesia.
Nós seremos almas quando nos despojarmos de tudo, dizem... Mas que seremos nós sem os nossos pertences, os nossos achaques, todos os nossos inclusives? Nós somos o que temos e o que sofremos. E a coisa mais melancólica deste e do outro mundo é um cachorro sem pulgas.
Existe um mundo para cada espécie de bicho. Mas, para cada bicho da espécie humana, existe um mundo diferente.
Só a Deus é possível criar as coisas: o Diabo as inventa. A mais diabólica das suas invenções foi o rádio portátil.
O bom da chuva é que parece que não tem fim... Nenhuma das outras coisas me dá essa resignada, tranquilizadora sensação de fatalidade.
Casimiro de Abreu chorava tanto que não cabia em si de descontente. Suas lágrimas escorrem até agora pelas vidraças pelas calçadas pelas sarjetas e só vão deter-se ante o coreto da praça pública, onde, sob os mais inconfessáveis disfarces, Castro Alves ainda discursa!
Com o narizinho achatado contra a vidraça, a meninazinha olha a chuva que cai. Olha agora o vagabundo que vai passando sob a chuva. E como se olhasse um estranho peixe num aquário. E ele lhe sorri sem dente nenhum. Que bonito! Os sorrisos mais sinceros são os sorrisos desdentados.
Nós — o pronome do rebanho.
Por vezes, quando estou escrevendo estes cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio...
Tudo já está nas enciclopédias e todas dizem as mesmas coisas. Nenhuma delas nos pode dar uma visão inédita do mundo. Por isso é que leio os poetas. Só com os poetas se pode aprender algo novo.
Sim, uma vaca — uma abençoada vaca — muge... O seu mugido é um rio de veludo morno.
E haverá uma época em que se fabricarão bombas atômicas especializadas, especializadíssimas, meu caro senhor, e tão sutis que no princípio não se notará coisa nenhuma... até que um dia alguém descobrirá que se acabaram, por exemplo, todos os tenores de banheiro, todas as imitadoras de Berta Singerman, todos os poetas comemorativos, todas as oleografias do marechal Deodoro proclamando a República!
O Amigo do Homem, dizem... Tanto que, para contentar a seu amo, chega a perseguir os outros animais. Em suma: um puxa-saco. Não o confundir com cachorro.
O mais confortador das viagens são esses burrinhos pensativos que vemos à beira da estrada e nos poupam assim o trabalho de pensar.
Espécie de passarinho estrangulado em público pelas declamadoras.
O último boêmio.
Eu penso em ti. Sabias que isso é uma coisa maravilhosa? A primeira criatura que pensou numa outra criatura ausente, como deve ter-se espantado! Não sabia que se tratava do seu primeiro pensamento humano.
Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos.
Se eu acredito em Deus? Mas que valor poderia ter minha resposta, afirmativa ou não? O que importa é saber se Deus acredita em mim.
Diálogo feminino.
A única coisa que nos diferencia de peixes num aquário é que temos consciência dos limites de nosso mundo...
Cria da casa, bom confidente e complemento das crianças.
As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas... Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada.
Quando dês opinião, nunca deixes de escrever a data...
A coisa começou desde os dias já remotos da invenção do telégrafo. Depois foi o TSF, o rádio, a TV, etc. E o Tempo, atônito, engulindo o Espaço. E esse vasto mundo diminuindo, diminuindo, diminuindo... até se vir esconder covardemente dentro do nosso quarto.
... e se eles te apertarem muito sobre o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhes apenas o que Deus quis dizer com este nosso mundo.
Esses alemães se metem de quando em quando numa guerra devido à incrível chatice de seus espetáculos de variedades.
O que mais me revolta nas matemáticas são as suas aplicações práticas.
Na linguagem corrente não se encontra a palavra “cântaro”. Mas é uma palavra que jamais poderá sair dos poemas. Há palavras assim. São como esses nobres animais heráldicos, que só existem nos brasões.
O mau gosto e irremediável fealdade dos cabides deve ter sido uma das causas da vertiginosa e já histórica emigração dos chapéus para os anéis de Saturno.
Rezar é uma falta de fé: Nosso Senhor bem sabe o que está fazendo...
Todo esse apego do homem ao cachorro é porque o cachorro considera o seu dono o primeiro homem do mundo...
Era tão burro que estava sempre com a cara atrasada cinco minutos. Mas os outros, que a traziam na hora, via-se logo que se achavam diante do pelotão de fuzilamento. E, quando o capitão gritou: — Fogo! — só ele não tombou — porque não estava atualizado.
Inspiração? Sim... Mas convém não esquecer que a poesia, como todo verdadeiro jogo, é uma luta da astúcia contra o acaso.
Se a tua vida não puder ser uma tragédia grega — por amor de Deus! — não a faças um tango argentino...
“Aterroriza-me o silêncio eterno desses espaços infinitos...” — escreveu Pascal. Será por isso que fazemos tanto barulho?
As barbas do Doutor Fausto estão longas e brancas como as do Padre Eterno. A mão repousa sobre a esfera armilar. Mas a sua fronte sulca-se de inextrincáveis hieróglifos,
A morte é um abrir de todas as porteiras; um desabalado tropel de cavalos.
O espanador é o mais belo dos animais domésticos: dá colorido e vida à rotina da casa.
Os romanos tinham pouca vida interior porque não usavam botões.
Essas horrendas coroas de biscuit que dizem: DESCANSA EM PAZ ... Como descansar em paz com um troço desses?!
No Céu é sempre domingo. E a gente não tem outra coisa a fazer senão ouvir os chatos. E lá ainda é pior do que aqui, pois se trata dos chatos, de todas as épocas do mundo.
Disse um filósofo cigano: “Nós não podemos morder o cotovelo nem alcançar o horizonte.”
Dona Maroca, à porta comigo, vendo o filhinho lá dela seguir para a escola: — Ele é a cara do finado por trás.
A última de Lili, que me apresso a anotar, para o meu Tratado de Liligrafia: — Não gosto de laranjas de umbigo porque são muito pretensiosas.
O preto velho João me fala comovido da sua netinha que morreu: — Não era uma negrinha como as outras, era uma negrinha criada em apartamento, uma negrinha com cheiro de pasta de dente...
Os que gostam de papagaio e macacos não devem ter a mínima autocrítica.
O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família.
Um macaco que falasse com voz de papagaio...
A morte não iguala ninguém: há caveiras que possuem todos os dentes.
Amai-vos uns aos outros é muito forte para nós: o mais que podemos fazer, dentro da imperfeição humana, é suportarmo-nos uns aos outros.
Esse estranho que mora no espelho (e é tão mais velho do que eu) olha-me de um jeito de quem procura adivinhar quem sou.
A poesia não se entrega a quem a define.
Não sou mais que um poeta lírico, Nada sei do vasto mundo... Viva o amor que eu te dedico, Viva Dom Pedro Segundo!
Se antes era o Nada, como já poderia haver Alguém para tirar dele o mundo?
Por favor, deixa o Outro Mundo em paz! O mistério está aqui.
A borboleta mais difícil de caçar é o adjetivo.
Mas por que motivo os nossos barcos já não têm mais as belas figuras de proa, ou a proa em forma de figura, como os dos vikings? E não seria também melhor que os nossos aviões encantassem os ares com as suas configurações de aves ou peixes ou maravilhosos animais de sonho? Hoje apenas irritam-nos com o seu rumor e as suas formas exatas. Queremos um mundo estritamente funcional. Tudo muito lógico, sim, mas será humano? Conviria não esquecer que o adorno veio antes do vestuário.
O velho Roi Soleil que me perdoe... não vou lá, não: à simples vista dos seus amados jardins de Le Nôtre, me dá cada bocejo que ele nem queira saber!
Zero igual a zero: a única evidência. As outras sempre se prestam a discussões.
A arte de escrever é, por essência, irreverente e tem sempre um quê de proibido: algo assim como essa tentação irresistível que leva os garotos a riscar a brancura dos muros.
O Onofre está tão bem de vida que passa a pão e laranja!
O tempo é a insônia da eternidade.
Quando fazemos tombar a cinza do cigarro sentimo-nos ainda no tempo do cinema silencioso.
Os fantasmas também sofrem de visões: somos nós...
Qual ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas .
De um autor inglês do saudoso século XIX: “O verdadeiro gentleman compra sempre três exemplares de cada livro: um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente.”
O que há de mais admirável nas democracias é a facilidade com que qualquer pessoa pode passar da crônica policial para a crônica social.
O que prejudica a minha preguiça prejudica o meu trabalho.
Antes, se alguém começava a ouvir vozes, era adorado como um santo ou queimado como um bruxo. Agora, é simplesmente encaminhado ao psiquiatra.
O comum dos homens só se interessa pela sua própria pessoa, mas o poeta só se interessa pelo seu próprio eu.
Coisinha deficiente, inconsciente, inerme, inválida, trabalhosa, querida.
Deficiência que faz com que um autor só consiga escrever como pode.
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É o que seria de nós os humanos ... se não fossem as estrelas .... e como alcançar tal virtude, se não for pela esperança de um dia velas tão de perto. Que somente o sonho de dias melhores , poderemos venera-las e termos a sabedoria de que o mundo para todos nós ; será mais calmo.
Mario Quintana é da terra dos AZAMBUJAS !!! familiares do meu marido. Thales Osório de Azambuja pai do Trajano Antônio Morteo de Azambuja, infelizmente...faleceu mto.cedo.
rapaiz se tu não encontrou rima, como poderia entender o que não encontrou, primeiro precisa algo existir pra depois ser analisada, inclusive as ideias
Não há pecado em sonhar; e o sonho alegra a vida; nos ajuda a viver!
Era pra ser palmas, mas Siu interrogações, me desculpe, mas a frase é perfeita!