Lista de Poemas
No Elemento Único Global
sóbria soberana
em assomos planos de dorso
o elemento único global
a alegria nova e luminosa
Entre ver e respirar
praia ao cessar das sílabas
recente clareira
despojada lâmina de brancura
de plana tranquilidade imediata
Sem perfil entrevista entre ramos acesos
ligeira imóvel dança de sinais
coroada em todo o lado pelo seu suporte branco
Alta e rasa sem figura interposta
a mesa real de todo o ver possível
na aérea luz de um sim que se respira
Renovada madeira do corpo comunicada
Lâmina liberta ao nível do ar
Desmancha-Se o Cavalo? Jamais.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira,
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
Nenhum Obstáculo Ao Dia
As crianças jogam o jogo ilimitado
do Presente.
É quase ausente a terra no silêncio.
Eu jogo esta mão alta devagar
numa varanda ou num átrio.
O luxo simples, uma folha de ar
treme e se desfaz. Nenhuma sombra
me ocupa.
O olhar se anula em luz e vácuo.
Eu nada sei. Um animal respira
talvez aqui. Quero desenhar-lhe o gesto
na distância do ombro.
E o bafo escuro se desvanece
sem a linha tépida. Ou talvez não.
Devo inventá-lo por completo. Ou pegá-lo firme.
Móvel animal. Agora surge. E apenas é o ar
que pulsa, ou minha perda.
E se eu experimentar este limite — qual? —
para não me anular no espaço todo?
Eu sou o silêncio. Eu provoco-o. Eu jogo
no ilimite. Sem semelhante algum,
não levo lâmpada. Esposo o instante
de uma terra luminosa em que me apago.
Que folha jorra aqui que não tremule
de não ser nada, nada?
Que resposta que não seja a pergunta
e a sombra dela?
Eu jogo a luz e a sombra deste dia,
e se me apago eu sei que elas não brilham.
Ou brilham e sou eu que me perdi.
Não É Uma Imagem
O fogo inteiro, chama do ventre.
Não é uma imagem, eu respiro
com todo o peito desta árvore
e me detenho neste nó.
Eu sou mais cego nesta luz
do que a madeira silenciosa.
Não é uma imagem, é o ar
e a luz que inunda o corpo inteiro.
Não é uma imagem, eu respiro
pelo pulso e pelo ouvido,
e a minha língua lambe o surdo
metal seco desta tarde.
Não é uma imagem, é uma crespa
e nua ramagem sobre o rosto.
Sou trespassado e vulnerado
pelo ar da luz, pela luz do ar.
Escrever-Te É Preparar-Me Para Um Novo Dia,
uma luta de abraços e de flores no mar.
Escrever-te é enamorar-me do primeiro nome, a terra,
a casa, o chão; ligá-los músculo a músculo
até ao sabor quente do teu bafo animal.
A ferida, a raiva ferida, arrebatada
pelo teu corpo disparado, no silêncio
de um campo de ervas altas; o silêncio
dos nomes do campo concentrado
num muro branco.
O canto e o encanto das coisas nomeadas,
pedra alta, fria chuva, olhos acesos,
ervas e flores,
a geometria do teu andar desperta
e da dureza da terra faz o lugar voltar
ao seu lugar primeiro, ao teu nome de terra.
Tronco Decepado
as largas gotas
de madeira e paz,
os veios do sono materiais.
As fronteiras redondas: labirinto exibido.
Ó tentação: mais ser
de vegetal viver no já vivido
e por surpresa na seiva que já seca
acorda ao olhar o respirar de ver.
Morta ou calada,
minha cabeça assim se enche vaga,
do ar da árvore decepada:
um cheio de nada, um tronco de ar.
Assim cortada,
redonda face
no chão de liso amor
te calco e te decalco
no vão que eu próprio sou,
rasa garganta em veios duros e macios
de um tronco que não sei nem sou,
por ti respiro.
Para Ser Nos Limites
mãos que formem um corpo — que o desfaçam e o reúnam
— corpo nu,
a primeira palavra, o primeiro tacto.
Nasce a árvore no lugar onde é o espaço
onde tu estás.
Eu amo essa palavra no lugar — a palavra no olhar
a palavra que me faz
ver-te.
Para ser e para estar
quero construir-te árvore
do meu tacto,
árvore do meu olhar,
minha árvore.
A árvore inteira
no hálito de te ver.
Árvore no seu lugar.
Sou eu perante ti — de face
em meu rosto real
e o mesmo ar
da árvore.
A Franja de Terra E o Labirinto
onde cego caminho ou em branco.
A mesa lisa é necessária à linha.
A visão do animal obceca-me, fascina-me.
É como um corpo em fala, castanho,
negro ou branco. Seja qual a cor,
arde de ser todo ele a densidade
de uma dança imóvel na parede.
Escrevê-lo é tentar tenacidade,
persistência de pé, arrojo mudo,
dizer o que diz inteiro o nome.
Entre o Silêncio E o Espaço
uma confusa cor,
corola ou folha.
A casa suspendeu-se:
abrindo o espaço,
aboliu a sombra,
o tremor da mão.
Na harmonia do deserto
o corpo se recorta
num cone luminoso
entre o silêncio e o espaço.
*
Talvez hesite — ou não se abre
ou perpassa entre os sinais ao vento —,
só o risco igual
de um mastro errante
no branco sem estrelas.
Ou elástico, sem a pressão
rígida,
as suas espáduas cedem
sem vertigem
até ao espaço exacto
de uma casa
ou folha aberta: e logo
existe.
*
É já a árvore, a mão
que o diz. Seria
o pulso contra a boca,
o poço.
Ou o soluço.
De súbito fez-se palma
no espaço do silêncio.
E suas veias lêem-se
expandindo
a mão feliz
que a escreve.
Aproxima-Te do Silêncio, da Pedra do Silêncio
e a montanha abrir-se-á. Estás perto dessa casa
onde o silêncio é nenhuma árvore,
um silêncio deslocado como uma lâmpada de água.
Estende-se o silêncio até ao núcleo de um
rio, de cabeleiras de água e de silêncio ainda
de uma boca exasperada pela esperança das letras,
pela loucura dos astros, das palavras, das mãos
e de uma ponte férrea onde o cavalo passa
dizendo o inverno intenso de uma só cor gelada.
Comentários (10)
Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.
Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.
Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.
Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.
Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).
Viagem através duma nebulosa
1960
Voz inicial
1961
Sobre o rosto da terra
1961
Ocupação do espaço
1963
Terrear
1964
Estou vivo e escrevo sol
1966
A construção do corpo
1969
Nos seus olhos de silêncio
1970
A pedra nua
1972
Ciclo do cavalo
1975
Boca incompleta
1977
A nuvem sobre a página
1978
As marcas no deserto
1978
Círculo aberto
1979
Declives
1980
O incêndio dos aspectos
1980
O centro na distância
1981
O incerto exacto
1982
Gravitações
1983
Quando o inexorável
1983
Dinâmica subtil
1984
Ficção
1985
Mediadoras
1985
Clareiras
1986
Vinte poemas para Albano Martins
1986
Volante verde
1986
No calcanhar do vento
1987
Poema de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa_Clip.avi
PARA UM AMIGO TENHO SEMPRE UM RELÓGIO - António Ramos Rosa, Poema do Dia 22.wmv
Celebrado Hoje Equinócio do Outono 2013 com poemas de Antonio Ramos Rosa
António Ramos Rosa, Grande Prémio de Poesia
Tiago Bettencourt - Nós somos do disco Tiago na toca e os Poetas (2011)
António Ramos Rosa lendo Manuel da Fonseca, 2009
Não posso adiar o amor de António Ramos Rosa
Quem Bate a uma Porta de Folhas na Noite
A Maresia do Mundo
Na capital, vivendo intensamente a vitória dos Aliados, trabalhou no comércio, actividade que logo abandonou para se dedicar à poesia.
Nos anos cinquenta, foi um dos directores das revistas Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia. Colaborou ainda com textos de crítica literária na Seara Nova e na Colóquio Letras, entre outras publicações periódicas.
Como poeta, estreou-se na colectânea O Grito Claro (1958). Estava criado o movimento da moderna poesia portuguesa. Ramos Rosa era o poeta do presente absoluto, da «liberdade livre» e sobe todos os degraus da admiração europeia. Em Portugal é comparado com os grandes escritores nacionais. Urbano Tavares Rodrigues considerou-o como o empolgante poeta da coisas primordiais, da luz, da pedra e da água.
Em meados dos anos sessenta, Ramos Rosa radicou-se em Lisboa, onde publicou Viagem Através Duma Nebulosa (1960). Um dos mais fecundos poetas portugueses da contemporaneidade, a sua produção reflecte uma evolução do subjectivismo, em relação à objectividade. Reflectem-se nela variadas tendências, desde certas formas experimentais até a um neobarroquismo. A sua escrita, caracterizada por uma grande originalidade e riqueza de imagens tácteis e visuais, testemunha muitas vezes uma fusão com a natureza, uma busca de unidade universal em que o humano participa e se integra no mundo, estabelecendo uma linha de continuidade entre si e os objectos materiais, numa afirmação de vida e sensualidade. Nos seus textos, está frequentemente presente uma reflexão sobre o próprio acto da escrita e a natureza da criação poética, a questão do dizível e do indizível.
Ramos Rosa, também tradutor, escreveu dezenas de volumes de poesia, entre os quais Voz Inicial (1960), Sobre o Rosto da Terra (1961), Terrear (1964), A Constituição do Corpo (1969), A Pedra Nua (1972), Ciclo do Cavalo (1975), Incêndio dos Aspectos (1980), Volante Verde (1986, Grande Prémio de Poesia Inasset), Acordes (1989, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), Clamores (1992), Dezassete Poemas (1992), Lâmpadas Com Alguns Insectos (1993), O Teu Rosto (1994), O Navio da Matéria (1994), Três (1995), As Armas Imprecisas (1992, Delta, Pela Primeira Vez (1996) e A Mesa do Vento (1997, primeiramente editado em França), Pátria Soberana e Nova Ficção (2000). Entre os seus ensaios, contam-se Poesia, Liberdade Livre (1962), A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), Incisões Oblíquas (1987), A Parede Azul (1991) e As Palavras (2001). Tem recebido numerosos prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1988. É geralmente tido como um dos grandes poetas portugueses contemporâneos. Para Ramos Rosa, escrever é, sempre, a necessidade de respirar as palavras e de às palavras fornecer o frémito do ser, os pulmões do sonho, e, com elas, criar a dádiva do poeta. Em 2001, o poeta lançou Antologia Poética, com prefácio e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes
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Español
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda