Escritas

Lista de Poemas

Uma Figura Errante, Ainda Incerta — E Sempre?

Uma figura errante, ainda incerta — e sempre?
Alguma folha nova caída de algum ramo?
Cai a sóbria noite em teus cabelos negros.
Pela janela vejo os campos divididos.

O cavalo entre nós é a força da paz
que dos teus ombros desce até aos teus joelhos.
Ganhei também meu rosto na sombra dolorosa.
O meu beijo, na música, é um gesto perfeito.

Suavidade intensa, uma estrela entre nós
num chão de suor negro, uma harmonia forte,
neste abraço ganhamos a força e o horizonte.
👁️ 895

As Formas do Teu Ser São Várias,

As formas do teu ser são várias,
mas negam a inércia, arrancam-te
do chão. Tens o poder e a altura precisas
para a vasta geografia dos campos e das casas.

És vertical no peso, na verdade do nome
do princípio ao fim, firme de seres terra
e o cheiro que tens é de um livre universo:
a terra pode esperar, confia em teu galope.

Porque te quero único, por não ser e
para ser, quantas vezes te falho
sem a paciência
da tua impaciência nobre de cavalo.
Mas o teu galope liberta o meu alento
e o meu desejo corre sobre a planície branca,
a teu lado chispando a rubra fúria,
com a garganta ébria
de uma implacável frescura.
👁️ 975

Quem Vive No Silêncio, Quem Vibra No Silêncio,

Quem vive no silêncio, quem vibra no silêncio,
Quem subiu à torre do silêncio.
Quem viu a equivalência espaço e fogo.
Quem construiu a casa no centro do labirinto.

Eu acendo apenas estas poucas palavras
com alguma sombra e a transparência fulva
do ar; animais na clareira,
a fundação do corpo pelo mais forte alento.

Quem domina o ar e permanece em terra,
quem foge de uma sombra para uma sombra menor,
quem procura procura com uma lâmpada branca.
👁️ 879

O Cavalo Que Respira a Manhã E Bebe o Sol.

El muro al sol respira, vibra, ondula
…………………………………
el hombre bebe sol, es agua, es tierra.
OCTAVIO PAZ

O cavalo que respira a manhã e bebe o sol
é água e terra como o homem que o lê
nas letras desta página ou deste muro
onde o sol respira, vibra, ondula.

A leitura é de sangue por um cimo límpido,
por um planeta verde e por um céu vermelho,
por um amor transparente, pela liberdade ardente
de um voo sobre a terra, rente aos muros.

Quem compreende a aliança entre cavalo e homem
compreende a mulher e a solidão da montanha.
Eu adormeço aqui entre céu e amizade
com a cabeça reclinada na visão da margem
em que as longas mãos se dão nuas e quentes
na aliança do cavalo, do homem e a mulher.
👁️ 1 075

Aqui Seria a Mancha Mais Clara

Aqui seria a mancha mais clara
para um cavalo rosado ou cinza suave.
Aqui seria linear e ténue,
a vocação feliz de uma pequena nódoa.

As patas do cavalo vencem a inércia
de um princípio sem fim.
A fúria que eu invento é uma vontade
de dar à terra o seu cavalo fortíssimo.

E eu com ele soçobro ou me levanto.
Aqui seria… e é destino e força
o peso do animal que amo sobre mim.
👁️ 1 011

O Meu Trabalho É Este Sobre a Página Branca

O meu trabalho é este sobre a página branca
com a lâmpada branca desvendar as cores
do dia e do cavalo, o crescimento sóbrio,
dilatação de vasos, circulação de rios.

Ordenar lá do fundo o vigor que me impele
e me converte na força da página vivida
por um sangue de amar e de rasgar as folhas,
unir na casa única a multiplicidade.

Meu amor — agora sim — posso dizer amor
através de insectos e serpentes e fetos
sobre a baba e o ranho do nascimento puro.

Atravessei os pântanos e afundei-me no lodo.
Caminho tropeçando e aos nervos do cavalo
arranco este galope, este vagar de estar.
👁️ 871

Escrevo Pela Paixão de Te Inventar de Um Nada,

Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.

Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!

Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.

És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.
👁️ 1 432

Sinto a Perfeição de Um Corpo

Sinto a perfeição de um corpo
e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.
Serei eu quem tu vês?
Quem me abraçou outro dia não é já quem me abraça?

Sinto o não e o sim — e a inflexão da noite.
Vivo à superfície de um corpo negro e fundo.
O amplexo é real
e o que escrevo é o frémito.

Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.
Tenho os olhos fechados de abertos de ternura.
Tenho um pouco a paz de uma noite vivida.
👁️ 905

Rios E Rios, Palpitação Extrema.

Rios e rios, palpitação extrema
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.

Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.

Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.

A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
👁️ 513

Entre o Desejo E As Flores As Raparigas Altas

Entre o desejo e as flores as raparigas altas
medem a densidade de uma pureza impura,
jogam o jogo intenso da majestade e usura,
raparigas levadas pelas linhas fluentes.

Viver as raparigas no pudor da negrura,
vivê-las altamente e pelas suas virilhas,
tomá-las o mais rápido até ao centro delas,
rodopiando o fogo no ventre de merecê-las.

Ó vivas raparigas da cor do próprio alento,
aprisionai-me a um muro ou entre vós eu caia
no perfume desatado dos vossos corpos límpidos.
👁️ 902

Comentários (10)

Iniciar sessão ToPostComment
ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).