Escritas

Lista de Poemas

A Seta Principia Pela Sede. Ou o Desejo

A seta principia pela sede. Ou o desejo
no seu centro negro (húmido, efervescente)
e vai pelo campo em corpo de cavalo
dizer a plenitude do sangue nesta página.

Cavalo de espaço, terra de vigor e paz
para ser a sede, a força
de outra força,
o puro alento da felicidade ignorante.

Ah não saber e ser a sede irradiante
da água de um cavalo e de uma estrela
do mar no desenho do combate
em que o negro se volve claridade brusca.

E eis a lâmina a ferir a lucidez
de uma verdade morta, a pressa de correr
ao mais ardente nome, o do cavalo sempre,
que galopa no branco o seu negro galope.
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Se Entrego Ao Campo a Erva.

Se entrego ao campo a erva
de um sol de cinza,
se apago com meu hálito todo o brilho,
se sou esta apagada lâmpada, esta fúria parada,
se escrevo estas palavras é porque sei que não sei.

Se quero ser, terei de te ouvir no silêncio,
no teu repouso inteiro, na penumbra do quarto.

Se vivo, é só por ti, por ti,
que fazes com que olhe e caminhe em frente,
para esse lugar, o nosso, o de todos, o de alguém.
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Que É Construir Um Corpo Onde Existe Apenas

Que é construir um corpo onde existe apenas
a memória do sol? É quase a terra firme.
Quase o dorso da terra, a água abrindo o olhar.
Mas o cavalo caminha, mas o olhar se abre.

Sou um pouco de mar entre dois montes, sou
a madeira e a seiva da árvore sob escombros,
sou o cavalo partido e pertinaz no cimo
do monte retalhado e de garganta aberta.

Entre giestas e pedras sou um corpo construído
pela paisagem nua, sou quase um alento cúmplice
da simplicidade absoluta
do vasto alento da altitude pura.

Que é construir um corpo na paisagem com
a memória do sol por sob nuvens baixas?
Sou uma força feroz, com um cavalo estacado.
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Dar o Quarto À Mulher. Dar-Lhe o Sossego Intenso

Dar o quarto à mulher. Dar-lhe o sossego intenso
da morada merecida. Ela tece o silêncio
recolhido num cântaro ou num cesto.

Estar a mulher na sala e ouvir o campo dela
entre o canto e o silêncio.
Um aroma, um silêncio.
O esquecimento do espaço e do alento.

Dar a vida ao cavalo rumo à mulher mais forte,
dona do seu sossego e do
seu estar no estar da sua própria casa.
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Entrar. Com o Vagar do Campo. Sem Ferir.

Entrar. Com o vagar do campo. Sem ferir.
As mesas estão dispostas pela mulher ausente.
Onde os convidados? Há flores em toda a casa.
Só uma chama brilha no fogão. A luz é baça.

Num quarto, uma cama e o entrevisto corpo
de uma mulher alta.

Que se passou? A luz era demais.
A mulher não esperava a festa que eu sonhava
e era ela própria que a criava no espelho

com o mar extenso e o ar fresco da praia.
As mãos dela busquei-as, reconheci-as magras
sangrando. Os animais gritaram.
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Que Dizer de Um Abraço Dilacerado Sobre

Que dizer de um abraço dilacerado sobre
a erva? A palavra fere, desvia.
À visão do campo contrapõe-se a escrita.
A nobreza da flora aguarda as suas cores.

O pão melhor recolhe este sabor do tempo
para as perfeitas coxas da mulher mais forte.
Que dizer da palavra quando não é bandeira
e só o branco fere o branco sobre o branco?

Oh melhor do que o vinho e do que o pão da terra
é esse mundo aberto por um braço rasgado
ao abandono puro. Afirmá-lo é abrir
a terra mais escura à esperança, a noite desta sombra
ao branco desta escrita.
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O Peito Entre As Plantas, Vês Os Cristais Nas Árvores,

O peito entre as plantas, vês os cristais nas árvores,
a pedra límpida, os grandes nós da água.
De margem a margem o dia é tão claro
que o cavalo se ilumina da minha sede limpa.

E esse verde aroma do teu corpo que chama
a aridez dos insectos, a voraz oficina
de que se compõe a luta vida a vida,
searas, canaviais, constelações.

Entre o ar dos quartos e a fresca imobilidade
a curva da viagem num planeta novo.
Entre a terra e a lua deixa os seios da água,
limpa-os do pó nocturno, deixa a luz entre as árvores,
que o teu nome de mármore seja o cimo do salto
e a tua cauda arraste uma sombra vazia.
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Que As Palavras Sejam o Fogo Escrito

Que as palavras sejam o fogo escrito
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas

Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar

Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
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Por Um Pouco de Sombra Após a Luz do Muro,

Por um pouco de sombra após a luz do muro,
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.

Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.

É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.

E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
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A Força Unida, o Centro da Pedra, Raiz

esa piedra ya es pan
OCTAVIO PAZ

A força unida, o centro da pedra, raiz
à vista, pedra de pão, fábrica
de vida, razão de progredir, um passo
e outro passo, a pedra já é pão, a terra

já é nossa. Os animais e as árvores
formam um todo claro e uma fractura abre-se,
abrindo o mundo neste momento agudo,
uma agulha assinala o meio-dia de pedra.

Uma cabeça avança, uma sombra, um sinal?
Ataca essa cabeça, ó meu cavalo solto,
derruba este muro, solta o prisioneiro.

A água descoberta dessedenta o barro
desse homem mineral, e uma linha verde
rasga o espaço do branco e acende a nova estrela.
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).