Se Avançar Num Caminho…
Se avançar num caminho na cegueira, com os próprios sinais do opaco no extremo, um quase e um nunca mais, entre o rumor e o silêncio, e a palavra, a incerta testemunha que oscila na aridez da busca, na deserta sede da interrogação.
As Palavras Que Suscitam As Pedras…
As palavras que suscitam as pedras sem a solidez das pedras podem ter a solidez das pedras, podem ser vivas, acres, surpresas do ar, ervas vivas, secretas sombras.
A Boca Desviada,…
A boca desviada, sem o segredo do ar, sem o saber do outro, a boca solitária espera, sem sono e sem sombras, só com a água da sua sede, com o árido desejo da palavra dela e da outra boca que lê.
Imergir No Não Saber,…
Imergir no não saber, no sono de água contornando o bordo de uma pedra leve, lisa, prosseguir na facilidade de quem nada no sono, nada, até tocar a pedra, quase, ilegível, e pronunciá-la obscura, na densidade, nova.
Como Findar No Intervalo…
Como findar no intervalo quando o incessante é o princípio, quando a palavra desliza no indelével bordo do vazio, obscuro sussurro do silêncio, o branco fogo se ateia no silêncio, branco e quase e já cinzento.
Os Primeiros Sinais Diferentes…
Os primeiros sinais diferentes no caminho, as sombras que afloram nas pedras escritas, nomes de nenhuma boca mas que aliciam a boca, a aligeiram até à saliva salva como a água do encontro entre boca e boca, palavra e palavra, pulso e terra.
As Musas
Donde estou vejo-a nua com os joelhos sustentando a lua. O céu como se fosse a sua enorme sombra multiplicada está cheio de estrelas: estrelas na sombra do seu corpo. É como se fosse universal. Há o campo que nos envolve inteiro, ora num abraço raso de planícies, ora num abraço curvo de montanhas. Ergue-se por fim e os seus passos ardentes encaminham-se para as nascentes dos rios gerando ininterruptamente as manhãs. As suas palavras são totais de sílabas translúcidas. Na sua pele dura há a força da conquista e da marcha.
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Ela tem os olhos sangrentos e serenos. São os seus olhos de sangue, de ondas de sangue em movimento. A sua boca cerra-se num silêncio de fogo, num silêncio terrível como se temesse desencadear, abrindo-a, a tempestade dos mundos, a hecatombe redentora. É a própria boca da vontade, do amor que não perdoa. A vingança nela tem outro nome: a justiça. Ela é todo o passado, todo o presente e todo o futuro.
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É a figura de um pequeno grito, de um queixume de uma vida inteira. O seu corpo é como uma sombra de costureirinha. Tem os olhos frescos de luz: a luz neles parece uma lágrima. Olha para o lado da aurora, numa vaga expectativa feliz como se o sol a fosse tornar invisível, confundi-la com o murmúrio do mundo. É como uma flor uma nuvenzinha, mas o seu coração é uma minúscula semente duríssima: e é só por isso que não voa, que não se desfaz e há-de incorporar-se no grande coro da alegria que vai nascer.
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É toda tristeza, indefinida de contornos, serenidade curiosa e plena. Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. Acaricia as flores e come os frutos, na antemanhã do mundo, com a tristeza de quem perdeu universos mas com a serenidade de quem sabe que a manhã que vai nascer criá-los-á aos milhares para a sua abundante tristeza se disseminar nos infinitos limites dos mundos.
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Traz o sol atado aos cabelos e com as mãos distribui as noites e os dias, as estrelas e os planetas. Da sua ampla mão de deusa casta e fecunda cai um rio de sangue sobre a terra. Nas suas pupilas rebrilha todo o mar e todos os campos e todas as aves se cruzam, desenhando os seus voos em precipitadas e dolentes curvas que, entrelaçando-se, formam o oval dos seus olhos um móvel rendilhado em perpétuo e ininterrupto movimento.
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Já não há nela memória presente do passado. É virgem da primeira hora do mundo, nasceu com o estabelecimento da alegria total, por isso os seus olhos rebrilham só de presente e futuro, só da primavera inicial, só das primaveras futuras. As estações, os dias e as horas combinam-se nos seus olhos em serenos cambiantes donde o medo é ausente. A natureza é um plácido domínio que ela conquistou com clara heroicidade. O seu peito infla do fôlego harmónico das cidades, é monumental e humana, poderosa e natural, da estatura de todas as possibilidades abertas.
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É uma criança dividida ainda pela noite e pelo dia. Esta separação é uma chaga interna que lhe percorre o corpo, de alto a baixo, e que sangra. De um olho cego, corre-lhe um fio de sangue como um cordão umbilical que a liga à noite. No outro há o espanto irreflectido de uma possibilidade inacreditável: uma pálpebra isenta, suspensa sobre um olho que se abre à luz demasiado possível, demasiado real, demasiado bela. É este todo o seu horror.
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É um esqueleto. Flores, frutos, searas, um homem com um tractor. Crianças que brincam. É um esqueleto, oculto entre a seara, de um homem de outros tempos, um longínquo homem, eu, tu, nós.
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É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. Divaga entre as searas, pó de oiro, de verde, de poalha de sol, com reflexos na água de um tanque onde caiu uma rosa. As raparigas que vêm do trabalho são fortes, sadias e cantam uma clara canção que um poeta do campo e um músico da cidade compuseram. Ela é preguiça de felicidade, ondulação da poeira, feliz resíduo da alegria que paira impalpável, feliz por pairar, feliz por se depositar em qualquer canto, feliz por viver num sono móvel que um canto de pássaro ou um raio de sol acorda, esquecimento, esquecimento.
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É a negra mulher de cor de pó de carvão e desastre, com um hálito de minas, um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora. É surpreendente este perfil duplo, trágico e voluntarioso, de carvão e de sol, como uma noite-manhã, um parto subterrâneo da vontade, cujos filhos serão os claros dominadores das profundezas da terra.
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É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos. É todo o sol em todo o mar, todo o vento, toda a imensa frescura da terra e do céu e do mar combinados. O seu sexo oculta os palácios submarinos das imaginações ardentes: o leite dos seus seios não é amargo nem doce, tem a frescura dos rios e a sua pureza. A canção que ela canta só os peixes a ouvem, tão subtil é, como se estivesse sempre longe, com a cabeça nas nuvens, os olhos perdidos nos horizontes. É um murmúrio que se distingue tão vago como uma nuvem que se confunde com o céu. O seu sangue é uma tumultuosa cascata que purifica o ar com uma névoa cristalina e serenamente apoteótica. O seu lenço é um crepúsculo e o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu.
Estamos À Sombra de Uma Grande Folha Verde
Estamos à sombra de uma grande folha verde.
Uma grande folha de água.
Sem vertigens, mergulhamos na materna espessura de um paraíso vegetal. Toda a densidade do obscuro mundo animal se resolveu na paciência forte e suave de uma terna e acolhedora superfície arborescente que nos envolve na sensual flexuosidade dos seus ramos robustos, linhas determinadas, completas e compactas na sua generosa amplitude de promessa que em folhas, frutos, flores mantém a integridade da energia única que as compõe e as conduz ao seu termo último.
É a metamorfose de uma flora abolindo a fronteira entre o terrestre e o aquático, é o mar e a floresta, é a amorosa e firme direcção do desejo incandescente que encontra o limite da forma terminal e se manifesta na pujante plenitude do compacto, a energia viva visível em toda a sua extensão, como se todo o impulso criador se configurasse no limite máximo da fixação, da imobilidade.
Uma flora iridiscente mas cálida, paciente e impetuosa.
como o rio do pulso que a rasga
como a seiva das veias harmoniosas
árvore marinha
liberta em volutas e espirais
com ramos densos como lâmpadas,
delicadeza vegetal, aquática,
dança navegada.
A grande folha verde olha-nos liberta das suas profundezas. Que vegetal suavidade há nesse olhar de um mocho liberto da incandescente noite dos seus olhos, liberto da densa noite animal, da negrura cósmica, todo ele restituído à cálida pureza de uma verde claridade diurna arrancada às trevas brilhantes do olhar profundo e vazio. Há nesta doce e tranquila claridade verde a ligeira ondulação de certas superfícies de água cuja imobilidade não anula o ténue fluir da corrente que a conduz. É a densidade mansa da espessura materna, o sol verde coado pelo fundo e vindo à tona como uma larga e lisa folha de água.
A circulante fronteira
entre a terra e a água
entre o verde e a treva
entre a raiz e a flor
entre a noite e a luz
entre as veias e o espaço.
Habitamos a espessura do fundo obscuro da floresta-mar, mas somos ao mesmo tempo reconduzidos a um campo de claridade em que o informulado se metamorfoseou na límpida e fixa pureza de um olhar.
Habitamos a superfície, a verdadeira superfície, a verde pele de um corpo, um seio de terra e água onde a boca dos olhos e o olho da boca se dessedentam desde as raízes da sede, onde todos os poros do olhar se nutrem como pólipos que se distendessem até atingirem a aderência pura à lisa parede de água materna. Formas cumpridas como frutos fixos, compactos, límpidos, nutridos do radioso vigor de todo um percurso de seiva irradiando na amplitude mas cuja nítida generosidade evitou a dissipação mantendo a plenitude concêntrica no aberto movimento da irradiação.
No interior, na perfeita suavidade do interior aberto, visão no limite em que a imobilidade, ou a suspensão, dir-se-ia oferecer-nos a própria matéria do olhar, a libertação da visão em si mesma, essa delicadíssima flutuação de algas, anémonas, estrelas-do-mar, captação viva do movimento de uma subtilíssima percepção a um tempo musical e poética e todavia essencialmente pictórica. Tal percepção mantém a compacidade do objecto, o contorno, a luz e o sabor das suas formas, a sua densidade de coisa. Mas para além da fixidez e da retenção que poderiam congelar a vida das formas, para além dos respeitados limites objectivos que poderiam circunscrever-se à fria perfeição das linhas, existe este vigor verde, este maternal e puro saber da vida que vai encontrando as flexões, os ritmos e o pulsar da verdadeira terra original, de um mundo descoberto na sua pureza radiosa.
Caminho Sem Saída…
Caminho sem saída porque é a incessante saída e a perda, o inesperado intervalo que se abre a outro intervalo que se abre, a sucessiva vida simultânea de uma parede de água, página respirada pela boca na árvore ou na mão da terra.
3. o Pudor Produz o Seio
3
O pudor produz o seio
e toda a celeste curva a flexão azul
a incorrupta brevidade todavia longa.
Sempre a adoração da árvore
e sempre o sangue da taça não e sim
hão-de dar a dádiva e a dúvida
na dívida celeste devida ao seio terrestre.
Quando cessar a torrente quando
soubermos que a torrente do sangue é a torrente
esqueceremos a torre do saber saberemos só.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda