Escritas

Lista de Poemas

38. Tu Sabes o Sabor do Sono E a Pausa

38
Tu sabes o sabor do sono e a pausa
do sono sobre as pernas luminosas
e mais a secreta terra não vermelha.

Não ardente a escrita aqui: do campo
aranha inocente
de patas musicais
silenciosa deusa na verdura.

Condensando a cabeça e o tronco branco
decepado sobre o não sentir ou não viver
eis o braço o pedaço ardente e frio.
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59. Consoladora (Como) Considerando Estrelas

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Consoladora (como) considerando estrelas
imprevistas aqui a mão mantendo a mão
como parte inerente a outro corpo escrito
inversão não ou vida, inclusão no viver.

Perante um tu que não se evoca aqui
perante um tu que é desejo de
invocação e terra, negação do sangue,
ou inscrição do sangue na madeira negra.

Tudo o que consome o sabor da terra
será a consumação do culto desta terra
que não é jardim mas cujo espaço é o espaço
e um jardim que se ama: o jardim do espaço.
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68. Descontínuas, Desfechadas Linhas

68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.

Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar

o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
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47. Trata-Se da Escrita E do Objecto, a Coisa

47
Trata-se da escrita e do objecto, a coisa
táctil ansiosa busca no amor da mesa
dom de incandescência a que se chama lâmpada
e contra a exuberância da tirania idêntica.

Ferida amorosa na obscuridade verde
folhagem na parede reflexos na lâmina
donde emerge o sem-sentido da quimera terrestre.

Ó eternidade efémera da palavra terra
mão da sombra e pedra e fogo impuro
bronze do seio istmo dos instantes.
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67. Veria Aqui o Rosto, o Punho Frágil

67
Veria aqui o rosto, o punho frágil
que não seguro, não segurei, retenho
o pouco dos teus pés, a figura da fímbria,
forma do ser ausente.

Perco a medida da medida, seguro a folha
do sangue sobre as pernas,
na negação do corpo encontro o corpo e o sangue
o sangue da negação do sangue ainda o sangue.

Quando a penetração pura, a branca
violência de água do alento
quando a mão recebe a pulsação da folha.
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60. Não Oculto a Visão Da

60
Não oculto a visão da
variável paisagem mínima que
seria do desejo sanguíneo deste dedo
nem a pulsão de uma palavra insecto.

O que oculto não sei, o que desejo é a árvore,
a expulsão do pai, substituto, o verde
crepúsculo de uma escrita pobre
no pré-formal desejo da forma e da não forma.

O mais depressa cai sobre a folha: escreve-se
sem a razão do ritmo, o espaço e ainda um ritmo,
uma pressão ou um quase nada, umas palavras
que não dão vida, que não vivem, aqui são.
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37. Instituição da Árvore No Poema

37
Instituição da árvore no poema
da terra e já sem terra a terra ainda
louvor do pássaro sobre as partes negras
de um inseguro trajecto incendiado.

Aqui, isto é, silêncio, não-poema
do poema aqui silêncio e arco
e isto o fragmento a face negra
destruída pelos insectos do incêndio.

Soberba impura face da figura
retendo a mão no vidro
a cruel ignorância encerrando a palavra
e a boca negra fechando o horizonte.
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19. o Desenlace (Aqui) Petrificado

19
O desenlace (aqui) petrificado
isto de istmo, era de hera
a qualidade em resultado absoluto

aqui reverdecendo — o jorro e a perna
na só imagem que unifica a frase
no extremo sopro da velocidade.

— Verbo de pedra em profecia, sem
a pedra — substância, no não do sopro
que ilumina a terra no interior da terra.
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45. a Mão Não Vai Ao Fundo da Noite

45
A mão não vai ao fundo da noite
nem a noite é musical aranha
nem sopro mais ligeiro nem pedra do desejo
a mão não esquece a árvore nem a língua morre.

A pedra sob a aranha musical
resiste: em seus grânulos negros
em seu estar que é um não estar de pedra
nunca dirás a pedra; granito ou quartzo.

Proporções difíceis, não complexas, são:
não flores de um limbo, mas língua ou linguagem
iluminado livro pela sombra das palavras.
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66. Arma de Folhas E de Folhas

66
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.

O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.

Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).