Escritas

Lista de Poemas

A Palavra

A palavra é a cor que de súbito deslumbra
e cega, brancura da surpresa, surpresa
da brancura. Terra e vento, o espaço sem palavras,
o sopro que se alarga, lâmpada desagregada,
matéria de pálpebras, tremor de ombros.

Destruída, mas erecta, simples e negra,
rosto que se retempera na verdura das árvores
e busca o esquecimento aberto da presença.
Escrevo onde a palavra ainda não se diz
entre o desejo e a água, com a língua do vento.

A palavra volátil, a palavra densa, a palavra vazia
esvai-se. Só o acaso irradia algum suporte.
Chamo a mão vazia, adiro aos fundamentos
onde o ar começa e o solo ilimitado.
Na folha uma figura aparece com uma ferida aberta.
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Escrevo-Te Com o Fogo E a Água

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
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Mediadora do Espaço

Dedos abertos ao sopro,
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos

na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.

Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.

Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.

Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!

Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
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Vejo o Fogo

Vejo o fogo (os dedos e a sombra), vejo os caminhos,
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.

Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.

Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
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Agora Que a Água É Clara E o Vento Livre

Agora que a água é clara e o vento livre
atiro esta cega flecha sobre o teu dorso
Tu dormes entre caminhos e sombras
e bebes as luzes da terra como um cavalo selvagem
Ouço um clamor na escada e há um gesto esquecido
não vejo no mar senão um navio silencioso
Tuas palavras seriam as sombras musicais
enquanto a minha mão se agita como uma chama
Há um massacre de insectos no metal negro do teu sangue
Tu és mais do que a virgem a imperceptível coluna
Distingo ainda teus olhos semicerrados entre as pedras
Suspenso de ti da tua distância desço à tua seiva
Sou um animal moribundo uivando silencioso
A minha morte nasce do teu olhar Morro de te ver
Interrompo os teus olhos Sou uma sombra interminável
Desapareço sempre que te levantas entre as ervas
Afasto-me para dar lugar à sombra de um cavalo
Por vezes o teu silêncio desperta sobre o mar
e vivo nas tuas mãos um sono maternal
Mas agora sou tão escuro como um pedaço de terra
Algum cão ladra às tuas pernas de deusa
Se eu te fizesse gritar acertando em tuas coxas
com estas cegas flechas ó branca sombra da noite!
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O Corpo Isolado, Maciço Provocante: a Ilha Lisa

O corpo isolado, maciço provocante: a ilha lisa
a velocidade do corpo na brancura: a cor do vinho
uma imagem fixa que persiste: a língua negra
forma excessiva do dia vegetação branca: os arames tremem
a insistência de um silêncio insuportável: os olhos líquidos
Agora o punho quase submerso revolve a água: o sol vacila
um campo inerte iluminado: a torre verde

depois
o centro neutro
silencioso de uma escrita flexível e furtiva
reflexos
sobreposições de letras
números
leitura do mais longínquo ao mais próximo
da profundeza indistinta aos incertos jogos
de uma incessante superfície branca e negra
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Mediadora Das Alturas

Clara ligeireza
na mais clara distância.
Silêncio ardente e suave.
Subtil incêndio.

Que tão leve tumulto
nas ligeiras alturas!
Tão íntima e calada
no imponderável.

Nos ares constrói a fábula
de um suavíssimo surgir.
Que cálidas certezas
entre nuvens e ares!

Nascer sempre, nascer
em errantes delícias,
na fácil transparência.
Que grácil equilíbrio!
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Viagem Sem Caminho

De um sim a outro sim, viaja sem caminho.
Com desertos de sombra, irmã viva do mar.
Adormece embalada, desliza adormecida.
De reflexo em reflexo, divaga entre a folhagem.
Escrevo através do calor das suas veias.

Ninguém te cercou de muros nem de abismos.
Danças, quieta, no mais lúcido delírio.
O teu grande mistério são beijos, são palavras?
Saborosa mulher que te espojas nas dunas
e acaricias límpida o sono azul do céu.

É contigo que danço nas varandas do vento,
solitária e transparente, mais viva do que nós.
Abolida e intacta, velada e límpida
circulas de arco em arco em voluptuosa festa.
As palavras que dizes dançam dentro do sono.
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Mediadora Irrevelada

Descalça e fulgurante
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.

Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.

Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
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Mediadora Vazia

Já deslembrada, perdida
na agonia da sede.
Obscura e sem lugar
morta vivendo em luz cega.

Sempre a areia do deserto
e calcinadas as frases
sem lucidez nem repouso,
imagens despedaçadas.

Qual o último país?
Qual o silêncio do mar?
Do seu nulo amor errante
resta o seu halo inquieto.

Era um secreto jardim
de obscura transparência,
era um corpo, era um recinto
de silenciosa alegria.

Ausência, menos que água,
estrangeira e solitária,
busca a esfera azul e limpa,
a nitidez de um lugar.

Amante escura, longínqua,
que pátria no seu desterro,
que presságio de sossego,
que dom impossível tem?

Sua viagem é um exílio
no vazio transparente
onde cristal não cintila
nem um liso mundo gira.

Só no ardor se ultrapassa
e vibra já sem fronteiras,
a derradeira, a primeira,
num sopro que inscreve a vida.
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Comentários (10)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-09

Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-27

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues
Luis Rodrigues
2022-10-26

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-26

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha
2022-10-25

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).