Lista de Poemas
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Carmem Gomes
Vertigem
Carlos Geraldino
espelho
que o sol ausente
ainda chama
Ariana
Alagados
Ao longe vejo as cinzas e a movimentação nas ruas
A cidade não descansa e a garoa perdura
O temporal regressa constantemente
No rarefeito do céu a esperança permanece
Muitos choram, pois a saudade e perda padecem
Como se virar contra ela, a poderosa
A mãe natureza, sagrada e gloriosa?
No peito um rastro de luz se ascende
Em busca de uma nova jornada
Seguem com garra toda essa gente
Que na luta pela sobrevivência vencem.
Em traços, pontos e linhas torcidas
Deus prossegue com sua missão
Costurando destino desta multidão
Que se unem na mesma razão, a vida.
Carlos Geraldino
noite
o menino em mim
vira Batman
Sofia
Mulher em Branco
O braço grande á minha volta, a tua despedida.
Queria ter entendido tudo antes...antes de começar.
Não sabes os diamantes que mereço na vida, não sabem o que sente uma mulher, a mulher que trago vestida de outra mulher.
Hoje sou criança que corre que brinca, amanhã mulher que sofre, que se abriga, que se esconde das pedras apanhadas no ar.
Não tenho vontade de escrever palavras de vontade,
não tenho vontade de ter.
Sento-me na minha cama, junto os meus joelhos ao peito, e sinto a dor causada por punhos cerrados de silêncio.
Doi. Doi mais do que as feridas nos joelhos das crianças, doi muito mais do que o nascer.
Sento-me nesta cadeira e um liquido salgado percorre o meu rosto.
Sentes-te bem agora? Agora que sabes como estou?
Não mereço diamantes, nem sequer os quero. Queria-te a ti, nuvem recente, que outra pesada arrastou.
Apago aqui o meu coração, fecho o livro em branco que guardo de ti.
Talvez um dia queiras desenhá-lo outra vez, talvez antes de eu atirá-lo ao rio.
Riu triste, riu feliz...
"rio revolto que deseja unir-se ao mar.
Quer encontrar a paz e subir ás nuvens, que comovidas choram e trazem-no de volta á vida.
Rio revolto por lhe ser negado a paz eterna, rio que procura mais uma vez o consolo no mar." ( By F.)
Pedro Barreiros
Vista de longe
Um mar negro suspenso no céu
esconde a luz e condena o mundo à vida
tal como ela é.
Obediente e rendido ao que me é entregue
Arrumo a dor num peito apertado,
onde mais saudade e ilusão não cabem
Saudade eterna de ver-te tão longe.
São dois os oceanos que nos separam
o meu, e o teu...
Um rio de diferenças que ponte alguma poderá unir
Ficarei aqui...
a olhar-te, se isso é tudo o que me resta
Carolina Caetano
Prece do poema
nisinha
Sinto-te
Ganho-te, ao te perder
Sinto-te e não te toco
E no pensar demente
Sinto-me vagamente
Num desejo insaciado
morrer....
Vibro, na alucinacão do teu Ser
Presente na ausencia de te querer
Do meu abandono a tudo
Quando nada alimenta a fome
Que tenho em te viver.
Penso-te , sem te pensar,
Vejo-te, sem te olhar,
Sinto-te...
és águia alimentando
Um ninho com pardais
Gritas na minha voz
E da minha Alma sais
E negando-te, eu arrisco
A sentir-te ainda mais.
afonso rocha
SOPRO FINAL
Minhas mãos são roseiras bravas
que colhem lágrimas de sangue
em meu rosto
Meus olhos são penumbras de ti
envoltos em névoa parda
E o meu cérebro recusa-se a pensar
no silêncio das profundezas do oceano
das palavras não escritas
em que navego à deriva...
Minha dor
abafa o meu grito
como golfinho ferido
Intenção vã
de o salvar da tempestade
anunciada
Meu sorriso
já não é o mesmo
ao aproximar-me das falésias
de escarpas famintas
onde cada gaivota espera
o meu sôpro final...
afonso rocha
SONHO
Vejo-te do espaço
no teu espaço
espaço de mim
Defino o teu mapa
Nossa dimensão diminuta
Quero voar
mas o medo
cega-me
desta visão
avassaladoramente
instável...
Vejo-te do espaço
no meu espaço
espaço de ti
Defino o nosso mapa
preciso e claro
Deixo-me ficar
em órbitra
cega
com a visão
de minhas próprias
mãos...
Meu corpo plana
entre meteoritos
e lixo espacial
Ouço murmureos
de extra-terrestres...
No teu espaço
espaço de mim
o teu mapa
No meu espaço
espaço de ti
o nosso mapa
Leide Fuzeto
Impressao
que viram
meus ouvidos pensam
que ouviram
minha pele pensa
que sentiu
a beleza passar
o amor chamar
a paixao tocar
foi só impressao
alguém imprimiu
em meu corpo
esse desejo de pensar
Carolina Caetano
Outro convívio das coisas
o que, sim, essas fagulhas terminam
há de haver outra casa em silêncio
e outra casa vadia, outra em incêndio
o que, sim, essas fagulhas terminam
eriçando o flanar doutros olhos onde,
sim, puderem flanar os teus olhos
haverá outras casas e vilas.
Vê donde percorre de sopros passível
novo tempo das cercanias
estas, sim, de estado perene
que, sim, vem e que vai e se fica
(havia uma pequena vida acontecendo ali):
havia dois meninos de botinas
enlamaçadas, as barranqueiras, as suas vidas
galgadas, e os cavalos se iam, os cavalos se iam.
Havia um menino sem pêlos
seus, e os matos crescentes, os fios
da cerca interessavam-no entretanto
e o tempo se ia, os tempos se iam.
Havia um veleiro, um lençol grande
no mastro, a tarde já tarde enlanguescia
e o vento se ia, o vento se ia.
Havia uma pequena vida acontecendo ali
os teus braços, estica-os elastece-os alcança-os,
namasque, das estâncias últimas, as tuas mãos
cercearem crivas de infinito
as tuas linhas.
Não é um teu estado perene
há de haver gamas, sumas, suores
donde, sim, possam liquefazer teus olhos
os teus olhos, alcança-os,
as tuas linhas.
Paulo Jorge
Nascido
Jamais me esquecerei,
Que me fizeram,
Nascer um Dia,
Simplesmente,
Infindável.
Lx, 18-7-2000
Carla Furtado Ribeiro
CREPÚSCULO
Sombras de luzes que me aquecem
E me desenham nas formas insurrectas
E no chão das sombras eu procuro
Em vão O lugar das coisas certas
Raimundo Candido
TEOREMA DA MEMÓRIA
Quando a cinza
polvilha o estremecer
dos neurônios,
nenhum sorriso
ou contentamento
pode retornar
como impressão
convergente de luz,
ou memoroso humor,
ou lembrança cristalina.
Nada de recordar,
sequer um desejo,
ou sentido constrito
da névoa do passado,
nenhuma contemplação
é ainda o aspecto real
da vertente desilusão
de um poço esgotado
pela fadiga do tempo.
Carlos Ambrosio
Juro
Que minhas palavras uma vez pronunciadas
Entonarão o tom da saudade
O sol poente, a liberdade
Juro pelo amanhecer tão belo
Que de todo meu ser sincero
Minha parte mais verdadeira
Em você está inteira
Juro pelas montanhas de gelo
Que teu rosto em meu coração é um selo
Lacrado por toda eternidade
Em sua mais pura bondade
Juro pelo chão que meus pés tocam
Que em todas as noites meus sonhos te evocam
Para calmo eu poder me sentir
Com tua presença poder sorrir
Juro pela vida a minha volta
Que se te conseguir meu coração nunca mais solta
E se não conseguir
Ficarei satisfeito em vê-la sorrir
Juro pela minha felicidade
Que se for para ficar a vontade
Preciso estar ao teu lado
Com um beijo teu uma vez roubado
Juro pelo meu corpo
Que em tua tristeza me sinto afoito
Em colocá-la encostada a mim
Para que sejamos um enfim
Juro pelo meu coração
Que se isso tudo for ilusão
Por toda vida chorarei
Porque simplesmente não saberei
Se vivi de verdade
Ou se morrerei de saudade
Carla Furtado Ribeiro
JUSTITIA
De segredos te enovelas
De segredos te consomes
E acautelas…
De segredos te ocultas,
Pousando na cidadela
A sombra, apenas,
De mais densa luz
Que não desvelas…
De segredos te encerras, deusa
Nocturna e sedutora,
Esfíngica e bela…
Sapiente sentinela,
Que na Tríade da Pólis
Se constela.
De segredos te encerras, deusa...
De coração pétrido,
E enigmática, austera, selas
Com ordem, sublevação.
(Mas, eis que sepultas, então,
A lágrima que ocultas,
No aluir do teu íntimo perdão…)
Justiça! Justiça!
Quantos desenganos são....
Buscamos teus arcanos, mas em vão…
Pensamo-nos divinos, de humana condição…
Se, ao menos, em nosso palpitar profano,
Infundisses, da justiça divina, a humana cognição!…
Justiça! Justiça!
O teu perdão…
Pois Tu é que és Divina!
Mas nós…não...
Fernando Oliveira Granja
A ENTREVISTA
A ENTREVISTA
I
Não sei se era teu seio ilha encantada ..
Paraíso de canto,
De perfume, d`amor e formosura..
Se um templo à beira-mar... Um templo santo.
De luz e aroma cheio...
Não sei ... Pois sabe alguém sua ventura?
Não dormia embalada no teu seio
Minh'alma sossegada.
II
Um suspiro prece...
Leva-os o vento pela noite escura!
Sonho! Um sonho que esquece!
Mas não se esquece o sonho da ventura!
Que fantasma nos brada avante avante,
Esquecer! Esquecer!
O coração não quer! Não quer ... Não pode!... Luta vacilante!
Onde teve seu ninho e seu amor,
Aí há-de ficar, pairar no céu deserto,
Ave eterna de dor
III
-Nunca mais! Nunca mais!
Que diz a onda à praia? Há um destino
Triste partido, em seu gemer divino,
E um mistério infeliz naqueles ais!
- Nunca mais! Nunca mais!
- E o coração que diz às mortas flores
- Do seu jardim d'amores?
- Como a onda jamais!
VI
Se eu pudesse sonhar ? Ah ! Posso ainda
Sonhar... se for contigo!
Sempre! Sempre a meu lado, imagem linda...
A noite é longa... Vem falar comigo!
Estende os teus cabelos...
O céu da tua Itália, não, não brilha
Como brilham meus sonhos, vagos, belos,
Se me falas à noite em sonhos, filha!
V
Levaram-te! Levou-te a onda dos mares!
A asa da águia! O vento!
Geme cativa- Chora sem alento,
Pomba d`amor, saudosa dos teus lares !
Teu ninho agora , é triste, glacial...
Um leito conjugal!
Antes a terra escura, pobre escrava,
Aonde-sob a abóbada sombria-
Tua alma os voos livres entendia...
E o coração amava!
Angelo Poliziano, Poeta Italiano (1459-1494)
Edgar Allan Poe "The Assignation"
Traduçao de: Antero de Quental
-A Entrevista-
Regina Maria de Souza Moraes
Amor novo
Carla Furtado Ribeiro
HOJE
Só entre palavras
Que teimam em permanecer
Como pedras
Silentes e paradas
No livro branco onde me habito.
Perdi-me das horas que restavam
E o crepúsculo emergiu por mim
Excessivamente adentro,
Em escuridão descompassada.
Em vão, uma chama bruxuleante arde
Como estrela imperturbável
(...pudesse a beleza transformar-me …)
Arde como um incêndio que grassa
Nas montanhas. Mas, ao longe…
Onde não queima, não aquece,
Não se extingue, nem permanece,
Onde é apenas um fulgor a acender
De luz um céu dolente,
E em mim
Um desejo de arder somente
Sem palavras e sem gestos.
Uma certeza: de ser mais
Do que um rosto incógnito
Na noite inalterável.
Talvez uma alma que se consome em outra Alma
Talvez um átomo de luz a clarear a noite
A minha, a tua, a nossa noite
A noite dos desalumbrados.……
Petra Correia
Momento
Incapacidades inexplicáveis surgem à desfilada,
Momentos de pura agonia com um toque de alegria.
Palavras cruzadas sublinham o pensamento
Como um quebra-cabeças sem qualquer fundamento.
Vontade de gritar num histerismo (frenético),
Mas ao mesmo tempo a tal resignação para o que virá, para a verdade…
O futuro que se desconhece.
Músicas pairam num ar carregado de lembranças de momentos relevantes,
Aquele tentar não acreditar ou tentar não lembrar prevalece,
E a paz de um coração é (sempre) em vão.
J L Silva
Luas antigas
Espero o mar silente preencher o escuro da noite das luas mais antigas, ancestrais
Que em silêncios arrasta-me para o porto dos barcos rumo ao infinito, nada mais
Pelos caminhos de fogo e águas, razão e loucura, abismos inatos do meu céu
Onde as aragens sorvem em goles os meus pensamentos como a um fel
Onde as miragens viram teus olhos irem embora rumo ao oceano
Nos caminhos por onde andam as mágoas, anda o engano
Anda o ventre túrgido das saudades, uma velha amiga
Espero, no mar silente, a noite da lua mais antiga
No achar e me perder sem fim, sem nada ter
Na saudade que ficou retinta em meu ser
E que como um manto em mim cingido
Me agasalha como um traje puído
Como uma velha roupa rota
Como uma palavra solta
Que não serve mais
Espero a noite das luas mais antigas, ancestrais
Para que estes sentimentos opacos e banais
Onde caminham o fim dos meus passos
Possam calar os meus cansaços
Debicar os meus momentos
Confranger os ventos
Ver nascer a flor
Nascer o dia
Nascendo
O dia
...
Me
Encontrar
Amor
Carla Furtado Ribeiro
ESTÁTUA DO TEMPO
No desafio da exaustiva caminhada.
Não te deixes erodir pela corrosão do vento,
Pois nem o tempo ilude a eternidade.
( Tu és a tua alma, mas a tua alma é mais )
Procura-te, mas, nunca te encontres totalmente,
E se te pensas encontrar, perde-te novamente,
Pois só na escuridão dos dias a luz da alma faz sentido.
( Tudo sombrio e denso... Ah! Se não fosse o céu da tua alma... )
Pensas-te uma estátua
Que se embriaga de vento e nunca passa.
Não percebes que és somente
Um átomo inserto na estátua do tempo,
E que tu é que passas pelo tempo e não o tempo que passa...
Que és como uma vaga num oceano imóvel
E que, no entanto, também tu és composto da matéria das águas...
Deveras, os dias, sucedem-se e parece,
Que nada sobre nada permanece...
Mas, é a impermanência um atributo da eternidade.
A respiração incessante do mundo:
... Deus-na-sua-interna-felicidade...
Raimundo Candido
FANTASMAS
Examino meus fantasmas:
Mozart, Chopin, Beethoven,
não que entendam de musica,
mas sim; dum temor melodioso.
Eles também me reparam
e diuturnamente medem
palmo a palmo meus anseios
e sobressaltos inconscientes
que correm em minhas veias
como um aluvião inesgotável.
Os fantasmas do meu armário
me encaravam todas as noites,
orquestralmente, sem receios;
e em seguida desaparecem!
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