Escritas

Outro convívio das coisas

Carolina Caetano
Não é um teu estado perene
o que, sim, essas fagulhas terminam
há de haver outra casa em silêncio
e outra casa vadia, outra em incêndio
o que, sim, essas fagulhas terminam
eriçando o flanar doutros olhos onde,
sim, puderem flanar os teus olhos
haverá outras casas e vilas.

Vê donde percorre de sopros passível
novo tempo das cercanias
estas, sim, de estado perene
que, sim, vem e que vai e se fica
(havia uma pequena vida acontecendo ali):
havia dois meninos de botinas
enlamaçadas, as barranqueiras, as suas vidas
galgadas, e os cavalos se iam, os cavalos se iam.
Havia um menino sem pêlos
seus, e os matos crescentes, os fios
da cerca interessavam-no entretanto
e o tempo se ia, os tempos se iam.
Havia um veleiro, um lençol grande
no mastro, a tarde já tarde enlanguescia
e o vento se ia, o vento se ia.

Havia uma pequena vida acontecendo ali
os teus braços, estica-os elastece-os alcança-os,
namasque, das estâncias últimas, as tuas mãos
cercearem crivas de infinito
as tuas linhas.

Não é um teu estado perene
há de haver gamas, sumas, suores
donde, sim, possam liquefazer teus olhos
os teus olhos, alcança-os,
as tuas linhas.