Escritas

A ENTREVISTA

Fernando Oliveira Granja

A ENTREVISTA

I

Não sei se era teu seio ilha encantada ..

Paraíso de canto,

De perfume, d`amor e formosura..

Se um templo à beira-mar... Um templo santo.

De luz e aroma cheio...

Não sei ... Pois sabe alguém sua ventura?

Não dormia embalada no teu seio

Minh'alma sossegada.

II

Um suspiro prece...

Leva-os o vento pela noite escura!

Sonho! Um sonho que esquece!

Mas não se esquece o sonho da ventura!

Que fantasma nos brada avante avante,

Esquecer! Esquecer!

O coração não quer! Não quer ... Não pode!... Luta vacilante!

Onde teve seu ninho e seu amor,

Aí há-de ficar, pairar no céu deserto,

Ave eterna de dor

III

-Nunca mais! Nunca mais!

Que diz a onda à praia? Há um destino

Triste partido, em seu gemer divino,

E um mistério infeliz naqueles ais!

- Nunca mais! Nunca mais!

- E o coração que diz às mortas flores

- Do seu jardim d'amores?

- Como a onda jamais!

VI

Se eu pudesse sonhar ? Ah ! Posso ainda

Sonhar... se for contigo!

Sempre! Sempre a meu lado, imagem linda...

A noite é longa... Vem falar comigo!

Estende os teus cabelos...

O céu da tua Itália, não, não brilha

Como brilham meus sonhos, vagos, belos,

Se me falas à noite em sonhos, filha!

V

Levaram-te! Levou-te a onda dos mares!

A asa da águia! O vento!

Geme cativa- Chora sem alento,

Pomba d`amor, saudosa dos teus lares !

Teu ninho agora , é triste, glacial...

Um leito conjugal!

Antes a terra escura, pobre escrava,

Aonde-sob a abóbada sombria-

Tua alma os voos livres entendia...

E o coração amava!

Angelo Poliziano, Poeta Italiano (1459-1494)

Edgar Allan Poe "The Assignation"

Traduçao de: Antero de Quental

-A Entrevista-