Escritas

Lista de Poemas

o poema

o poema nasce no instante
e o instante o devora, abstrato.

escrevê-lo é escrever sua cartilagem.
escrevê-lo é escrever seus restos de ossos.

é dispor uma coisa viva e pungente
na carniçaria das palavras.

é buscar aludir a jardins e chuvas
tendo as narinas cônscias da putrefação.

todo verso é uma carta saudosa
a um outro verso que ficara preso.

todo poema é um réquiem
à possibilidade de parir o poema do instante.
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abóbora

talvez tenham falado sobre orvalhos
de modo tão somente literário.
talvez nunca tenham visto, em verdade,
o vidro aquoso na folha da couve,
a deslizar e a encerrar as belezas
todas, enquanto a manhã se desata.

talvez tenham falado sobre os frutos
(e eu os tenha ouvido sem devido afinco)
falando, apenas – com lindas frases.
mas talvez nunca tenham visto, mesmo,
a abóbora amarela a elaborar-se
vagarosamente, onde as mãos cavaram.

talvez o fado da palavra seja
o encantamento que se dá por erro.
talvez só os olhos leiam com mais clareza,
e a pele colha com mais contrição
os sopros dos ventos que nada falam
– mas dizem, pois tocam o cerne mudo.

talvez não tenham falado o bastante.
talvez me tenha faltado sentir.
talvez nada disso seja importante.
mas é necessário ver, sem mais nada.
mas é necessário transpor a página
e trazer ao sangue as cores dos caules.
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o homem

o homem constrói faróis no próprio umbigo,
faróis que sugerem lares incertos
e disparam escuridão nas ilhas
que se movem sobre os oceanos.

o homem inventa paisagens verbais
com formas e belezas literárias,
as prende eternamente nas palavras
e sofre pelo mundo não ser página.

o homem morde o relógio como ao pão
sozinho no escuro, à espera, talvez,
de um amigo – embora não saiba amar.

o homem regressa a si mesmo, infinito,
vencido. o homem se come pelas pernas.
seu tempo é sua própria indigestão.
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contradição

e eu, que me apavoro ante a eternidade,
ainda sofro ante a fugacidade
de tudo quanto me proponho amar.

dentre as inconsistências, é a mais bela:
anseia permanências à janela,
e espia despedidas no alto mar.

são duas flores crescendo enroscadas
– estas predileções infortunadas –,
ferindo, uma a outra, em seus espinhos.

e eu, que me apavoro ante ao sangue vasto,
pinto certezas que depois devasto,
e em minhas mãos se quebram os caminhos.

como conter em mim isto que aspira,
se já me cinge o que em mim suspira
pelo repouso e o gozo de cessar?

que céus me darão melhores crepúsculos?
que silêncios me descansarão os músculos?
quanto será o bastante pra bastar?

sou como a erva que escorre do muro
ou como a estrela que morre no escuro,
precário pêndulo entre o nada e o isto.

sou um instante disperso que sinto
reverberar em um seio sucinto:
eis toda a dor e a beleza em que existo.
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tríptico sem título

I

meu coração se dissipou no laço.
restou-me o laço, amarrado no peito.
restou-me o peito, vazio descompasso.
restou-me o coração na mão sem jeito,

pois que do peito, onde antes se cumpria,
dissipou-se. enforcou-se na lembrança.
partiu para fora da poesia.
caiu na minha mão, sem esperança.

mas, coração, tem olhos e calor.
olhos que guardam o abismo e o espelho.
o vejo. me vê... (quase uma centelha).

se dissipará na mão o seu fulgor.
depois nada. nada? ...não. - o vermelho
laço restará na morada velha.

II

não tenho flor com que adornar o rude
labirinto de artérias e de músculos
que me compõe a vida. onde pude,
busquei. destrinchei mesmo os mais minúsculos

canteiros pisoteados das praças
da cidade, por onde o coração,
que tive, caminhava, em noites baças,
chutando latas - e recordação.

não tenho flor. não tenho rima ou verso.
tenho palavras. tenho duas mãos,
dentre as quais só uma escreve - impelida

pela falta. pelo pouco. pelo inverso.
nem disso a flor nasce. ah, e são tão vãos
os espólios desta ausência partida!...

III

a serpente se insere no silêncio.
nada é feito. então, vêm as aranhas.
nada é feito, mas visto: um olhar pênsil
(o meu?) o assiste. mas as teias, tamanhas,

estão já armadas para a captura.
serpente e aranhas. nada, nada é feito.
outro olhar vê. e outro. e outro. e da impura
inação surgem moscas. zumbe o peito

(o meu?) que se supõe bem mais sensível,
e indaga, contente, qual a razão
da perpetuação de tal má sorte.

por fora: "ninguém se importa? é possível?"
(mas a esperança dorme em sua mão.)
por dentro: "é. talvez nem eu me importe"

 

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tríptico de outubro

i.

a noite acusa
  crimes
     diurnos.

ii.

espias pela janela
e sabes:
ninguém te espera.

fitas o fundo da noite
e sentes:
ninguém te ouve.

anônimo e só,
não há estrela visível,
não há esperança por acaso plausível,
e a música que se insinua distante
é apenas um borrão sonoro
indistinguível.

entendes que não virá canto
compensar a treva dispersa,
e mesmo o campo já não te comove
(viste lá também a morte).

sabes, pequeno, das dores,
das flores, dos bichos, das chuvas,
dos instantes se esfarelando...
esqueces e calas.
muito não sabes ainda do que ainda te fará sofrer,
e só o compreendes de longe.

e ainda assim em ti se faz um poema:
um poema se faz
nas suas entranhas.

um poema forjado com palavras indizíveis, dolorosas,
extraídas das  turvas formas
e faces
da noite.

um poema que ninguém espera,
um poema que ninguém ouve,
um poema retorcido, heroico, imenso e patético
que ninguém jamais saberá sequer
que um dia
existiu.

mas tu, e só tu só,
à janela de ferro pobre,
carregas a dor
e sabes
que o poema existe.

e persiste
por idades
                cruamente.

iii.

a noite destilada
   decomposta
 pinga
 na ferida
         exposta
que arde
  e se fecha
    lentamente.

            provisoriamente
são absolvidos
  os mutiladores
   confessos
de alvoradas.

dormem todos...
            – com facas
e sementes
      nas mãos
fechadas.
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o barquinho

Um par de mares claros
E outro de mãos macias
Instruíam-me ligeiros.

Modelei, às suas luzes,
Em um folhetim qualquer
Seus ensinamentos precisos:

Nascia então o primeiro
De meus barquinhos
– Já à deriva, naqueles olhos.

Hoje, todo o potencial
Que outrora teve de cortar águas
Está naufragado em uma caixa.

E embora tal tragédia
Não comova, inda cismo imaginar
Como teriam sido suas viagens...

(Por pensamentos esparsos,
Meu primeiro amor
Navega).
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versos noturnos

A noite como flecha me atravessa
O pomo murcho da alma amargurada,
Que, partido, esparrama uma remessa
De sementes poéticas ao nada.

Mas onde medrará, árvore soturna,
Se no vácuo das horas me disperso,
Muito aquém da solidão noturna?
Talvez em vida? Ou na morte? Ou no verso?...

E quando a noite fria se desdobra
Em madrugada, jardim de desgosto,
Que grande lucidez, minha tristeza!

A flecha já varada me faz posto,
E percebo a vil raiz da minha obra
Parir-se no chão da minha incerteza.
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o poeta

O poeta é uma criatura descontente
que não se conforma com a superfície das coisas.

O poeta
é um marinheiro sem bússola,
sem astrolábio, sem ciência e sem estrela guia,
que, navegando ou naufragando,
parte ao fundo
dos abismos ancestrais
das ilhas de todos os mestres,
na ânsia
de fitar as trevas
por de dentro.

Mas mesmo no fundo do abismo
o poeta desconfia:
não se basta.

O poeta se interroga, se rasga, se desfaz
se penetra, interpenetra, perde a paz,
se perde, e se vive, e se morre,
se esvai, e se irrita, e se escorre.

E só quando enfim traduz-se,
e só quando se reinventa,
ante a névoa,
ainda que debilmente,
é que faz sua poesia, e respira...

Até perceber que cavou mais.
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náufrago

Com quem me busco se a mim me perco?
E a quem busco se de mim não sei?
Que me pesa tanto à consciência
Se inconsciente ao tempo me dei?

De onde vem esta centelha vaga
De uma humanidade que deixei
Deitada ao chão da decadência
Do sonho que busquei e não encontrei?

Como inda poderei sonhar perdido
Sobre as águas frias do meu esmo,
A bordo do meu ser, barco partido?...

Ó, com qual mão me escrevo qual minha alma?...
E a cada verso, palma a palma,
Sigo, e disto mais do vago eu mesmo.
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Comentários (4)

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sthefany
sthefany
2020-05-22

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi
biancardi
2020-03-20

Belos textos.