um homem vagueia através da noite
um homem vagueia
através da noite.
vê as estrelas,
e cada uma delas
é a ele uma palavra
por ele jamais dita.
sim. um homem vagueia
através da noite,
e já não pode mais dizer.
o momento está perdido. a voz se foi.
seu tempo é só memória,
e ademais é dor.
vagueia de braços pensos, o corpo fraco,
com as mãos cheias de artifícios
e os olhos fartos
do que nunca viram
– e do que viram,
mas já não podem comunicar.
um homem vagueia entre si e o mundo.
por vezes quase decide parar.
mas segue sempre devagar,
por vezes rindo,
permitindo, depois, que qualquer brisa
lhe tome o riso.
entretanto, não vai vazio:
um enorme estômago
com enorme náusea
e um enorme coração
com enorme espanto
lhe são muito fiéis.
foi criança, teve sonhos,
bem como aspirações da carne
e vontade de gramados silenciosos.
é, afinal, como tantos outros. vagueia através da noite.
e assim, sem vida,
escreve para não morrer.
abóbora
talvez tenham falado sobre orvalhos
de modo tão somente literário.
talvez nunca tenham visto, em verdade,
o vidro aquoso na folha da couve,
a deslizar e a encerrar as belezas
todas, enquanto a manhã se desata.
talvez tenham falado sobre os frutos
(e eu os tenha ouvido sem devido afinco)
falando, apenas – com lindas frases.
mas talvez nunca tenham visto, mesmo,
a abóbora amarela a elaborar-se
vagarosamente, onde as mãos cavaram.
talvez o fado da palavra seja
o encantamento que se dá por erro.
talvez só os olhos leiam com mais clareza,
e a pele colha com mais contrição
os sopros dos ventos que nada falam
– mas dizem, pois tocam o cerne mudo.
talvez não tenham falado o bastante.
talvez me tenha faltado sentir.
talvez nada disso seja importante.
mas é necessário ver, sem mais nada.
mas é necessário transpor a página
e trazer ao sangue as cores dos caules.
o poema
o poema nasce no instante
e o instante o devora, abstrato.
escrevê-lo é escrever sua cartilagem.
escrevê-lo é escrever seus restos de ossos.
é dispor uma coisa viva e pungente
na carniçaria das palavras.
é buscar aludir a jardins e chuvas
tendo as narinas cônscias da putrefação.
todo verso é uma carta saudosa
a um outro verso que ficara preso.
todo poema é um réquiem
à possibilidade de parir o poema do instante.
contradição
e eu, que me apavoro ante a eternidade,
ainda sofro ante a fugacidade
de tudo quanto me proponho amar.
dentre as inconsistências, é a mais bela:
anseia permanências à janela,
e espia despedidas no alto mar.
são duas flores crescendo enroscadas
– estas predileções infortunadas –,
ferindo, uma a outra, em seus espinhos.
e eu, que me apavoro ante ao sangue vasto,
pinto certezas que depois devasto,
e em minhas mãos se quebram os caminhos.
como conter em mim isto que aspira,
se já me cinge o que em mim suspira
pelo repouso e o gozo de cessar?
que céus me darão melhores crepúsculos?
que silêncios me descansarão os músculos?
quanto será o bastante pra bastar?
sou como a erva que escorre do muro
ou como a estrela que morre no escuro,
precário pêndulo entre o nada e o isto.
sou um instante disperso que sinto
reverberar em um seio sucinto:
eis toda a dor e a beleza em que existo.
tríptico sem título
I
meu coração se dissipou no laço.
restou-me o laço, amarrado no peito.
restou-me o peito, vazio descompasso.
restou-me o coração na mão sem jeito,
pois que do peito, onde antes se cumpria,
dissipou-se. enforcou-se na lembrança.
partiu para fora da poesia.
caiu na minha mão, sem esperança.
mas, coração, tem olhos e calor.
olhos que guardam o abismo e o espelho.
o vejo. me vê... (quase uma centelha).
se dissipará na mão o seu fulgor.
depois nada. nada? ...não. - o vermelho
laço restará na morada velha.
II
não tenho flor com que adornar o rude
labirinto de artérias e de músculos
que me compõe a vida. onde pude,
busquei. destrinchei mesmo os mais minúsculos
canteiros pisoteados das praças
da cidade, por onde o coração,
que tive, caminhava, em noites baças,
chutando latas - e recordação.
não tenho flor. não tenho rima ou verso.
tenho palavras. tenho duas mãos,
dentre as quais só uma escreve - impelida
pela falta. pelo pouco. pelo inverso.
nem disso a flor nasce. ah, e são tão vãos
os espólios desta ausência partida!...
III
a serpente se insere no silêncio.
nada é feito. então, vêm as aranhas.
nada é feito, mas visto: um olhar pênsil
(o meu?) o assiste. mas as teias, tamanhas,
estão já armadas para a captura.
serpente e aranhas. nada, nada é feito.
outro olhar vê. e outro. e outro. e da impura
inação surgem moscas. zumbe o peito
(o meu?) que se supõe bem mais sensível,
e indaga, contente, qual a razão
da perpetuação de tal má sorte.
por fora: "ninguém se importa? é possível?"
(mas a esperança dorme em sua mão.)
por dentro: "é. talvez nem eu me importe"
tríptico de outubro
i.
a noite acusa
crimes
diurnos.
ii.
espias pela janela
e sabes:
ninguém te espera.
fitas o fundo da noite
e sentes:
ninguém te ouve.
anônimo e só,
não há estrela visível,
não há esperança por acaso plausível,
e a música que se insinua distante
é apenas um borrão sonoro
indistinguível.
entendes que não virá canto
compensar a treva dispersa,
e mesmo o campo já não te comove
(viste lá também a morte).
sabes, pequeno, das dores,
das flores, dos bichos, das chuvas,
dos instantes se esfarelando...
esqueces e calas.
muito não sabes ainda do que ainda te fará sofrer,
e só o compreendes de longe.
e ainda assim em ti se faz um poema:
um poema se faz
nas suas entranhas.
um poema forjado com palavras indizíveis, dolorosas,
extraídas das turvas formas
e faces
da noite.
um poema que ninguém espera,
um poema que ninguém ouve,
um poema retorcido, heroico, imenso e patético
que ninguém jamais saberá sequer
que um dia
existiu.
mas tu, e só tu só,
à janela de ferro pobre,
carregas a dor
e sabes
que o poema existe.
e persiste
por idades
cruamente.
iii.
a noite destilada
decomposta
pinga
na ferida
exposta
que arde
e se fecha
lentamente.
provisoriamente
são absolvidos
os mutiladores
confessos
de alvoradas.
dormem todos...
– com facas
e sementes
nas mãos
fechadas.
o barquinho
Um par de mares claros
E outro de mãos macias
Instruíam-me ligeiros.
Modelei, às suas luzes,
Em um folhetim qualquer
Seus ensinamentos precisos:
Nascia então o primeiro
De meus barquinhos
– Já à deriva, naqueles olhos.
Hoje, todo o potencial
Que outrora teve de cortar águas
Está naufragado em uma caixa.
E embora tal tragédia
Não comova, inda cismo imaginar
Como teriam sido suas viagens...
(Por pensamentos esparsos,
Meu primeiro amor
Navega).
náufrago
Com quem me busco se a mim me perco?
E a quem busco se de mim não sei?
Que me pesa tanto à consciência
Se inconsciente ao tempo me dei?
De onde vem esta centelha vaga
De uma humanidade que deixei
Deitada ao chão da decadência
Do sonho que busquei e não encontrei?
Como inda poderei sonhar perdido
Sobre as águas frias do meu esmo,
A bordo do meu ser, barco partido?...
Ó, com qual mão me escrevo qual minha alma?...
E a cada verso, palma a palma,
Sigo, e disto mais do vago eu mesmo.
versos noturnos
A noite como flecha me atravessa
O pomo murcho da alma amargurada,
Que, partido, esparrama uma remessa
De sementes poéticas ao nada.
Mas onde medrará, árvore soturna,
Se no vácuo das horas me disperso,
Muito aquém da solidão noturna?
Talvez em vida? Ou na morte? Ou no verso?...
E quando a noite fria se desdobra
Em madrugada, jardim de desgosto,
Que grande lucidez, minha tristeza!
A flecha já varada me faz posto,
E percebo a vil raiz da minha obra
Parir-se no chão da minha incerteza.
esqueça-me não
Desaprendidos do ofício de amar,
Abraçam-se, contentes pelo fim.
Resta apenas uma súplica no ar,
E um ao outro diz: “Não se esqueça de mim.”
“Abre-me em teu peito um lugar afável,
Onde o meu carinho lhe permaneça.
Se me despeço é porque é inevitável.
Mas peço, por favor, que não me esqueça.”
E separados, seguem seus caminhos,
Rasgando os elos de seus corações,
Emaranhados, mas não mais viáveis.
Mas, um d’outro jamais quedam sozinhos,
Pois têm os elos das recordações,
Que inda após o fim, são sempre infindáveis.