Escritas

Lista de Poemas

na chuva

Minha alma é um cão enrodilhado no asfalto,
Ferido sob a chuva impiedosa.

Porém, mesmo em derrota, inda sonha alto
Com alguma casinha calorosa.

Ai da minha alma! Que aprende, cão incauto,
O quanto a esperança é dolorosa.

👁️ 50

lembrança

Vem de longe
e de repente.

Pousa
e me canta,
e me ousa,
e me encanta,

feito pássaro turvo
a que julgo belo
e afago
enquanto me devora
a carne
das mãos.

Depois,
enquanto saciado,
vai...

E minhas mãos
sangram
saudades.
👁️ 36

valsa fria

A madrugada feita de chuva
deixa rastros na janela
diante dos meus olhos hirtos.

E em cada gesto
de cada gota
dança uma abstrata figura
talhada em mármore de sonho.

E tanto dança a grácil figura
que parece me invitar
a também chover
para ser dela par
em aquosa valsa.

E tanto rodopia a melancolia
que as telhas das casas tornam-se teclas
e as calhas das casas tornam-se cordas
e a madrugada torna-se sinfonia
quebrando angústias
em quase prantos.

E tanto, tanto dança...
tanto dança que me dói.

Mas afinal, quem é?
Seria ela qualquer coisa como a vida?
Seria ela qualquer coisa como a poesia?
Seria ela a redentora de todas as madrugadas
que trespassadas feito flechas
vararam, de um lado ao outro, o meu coração?
Seria ela uma centelha de ilusão?...

Não choro.
Não vou.
Não chovo.
E não danço...

Aflito, fito, calo e penso,
madrugada afora e adentro,
e tudo dança e morre a sós, no meu peito.
👁️ 34

esqueça-me não

Desaprendidos do ofício de amar,
Abraçam-se, contentes pelo fim.
Resta apenas uma súplica no ar,
E um ao outro diz: “Não se esqueça de mim.”

“Abre-me em teu peito um lugar afável,
Onde o meu carinho lhe permaneça.
Se me despeço é porque é inevitável.
Mas peço, por favor, que não me esqueça.”

E separados, seguem seus caminhos,
Rasgando os elos de seus corações,
Emaranhados, mas não mais viáveis.

Mas, um d’outro jamais quedam sozinhos,
Pois têm os elos das recordações,
Que inda após o fim, são sempre infindáveis.
👁️ 68

atrito

O quarto escuro
o vento lento
a cama quente
a tarde pluma sem preocupação nenhuma
(nos inscientes
corações perdidos),
senão carinhos,
ternuras bobas
dedos para embrenhar
em cabelos perfumados,
pés nus para brincar,
roçar, arranhar,
fazer gracejos,
lábios para evaporar sorrisos
em bonitos torpores,
olhos para buscar ao outro e não encontrar
e guardar saudades,
dentes para morder
pescoços para albergar os dentes
e mãos peregrinas
por toda a extensão
das polpas carnes queridas
infinitamente
preausentes.

O quarto silêncio
o vento calma
e a cama feita alma
por artifício
de centelha juvenil.

E ao centro do enlace
o punhal da mentira,
já parido e ascendente,
banhado em penumbra,
coberto por beijos
e falsas certezas,
cavando frinchas
lentamente
e ferindo as horas
anestesiadas.

E a mancha do sangue
que aos poucos escorre
da tarde colorida
se imprime no quarto
qual selo do elo
escuro lento eterno
dos que se partem.

Um registo
triste e morto
mas pungente
de um vivíssimo
e dolorosamente breve
atrito humano,
perene ferida,
sempre incerta e diferente
no modo como há
de doer.

👁️ 84

soneto inglês I

Contigo partirei por horas leves
No infindo mar de nossos sonhos mortos,
Que singram no intervalo de dois portos:
Prelúdio e epílogo, verdades breves.

Partilhemos da jornada com calma,
E não amemos o mar, mas contemplemos...
Até que enfim cesse o que entre nós temos
E se parta, na chegada, a nossa alma.

Felizes do que nunca possuímos,
Nem tenhamos, na memória, lamentos.
Que o retrato do instante em que partimos,
Seja suave, como ventos lentos...

...E nos reste do que de nós partiu
A centelha de quando o amor nos riu.
👁️ 65

desilusão

Cresci, e traí meus sonhos de menino.
Fiz-me estúpido ao invés de biólogo.
Fiz-me louco ao invés de paleontólogo.
Perdi-me em algum desvio repentino.

Sou hoje a sombra morta do que sonhei
Na antiga idade de meus calmos sonhos,
Agora, em mim, corrompidos, tristonhos...
Ah! Perdoa-me, menino. Falhei.

E fico aqui vendo o retrato antigo
De quem fui. Não se parece comigo:
No rosto um lídimo sorriso existe.

Fiz-me outro. Ele, da foto, gostaria
De mim? Me abraçaria? Zombaria?
Não sei... Mas, vendo-o, sinto-me tão triste...
👁️ 80

canção

Meu destino jaz ao norte,
minha vida jaz ao sul;
e minha alma fita a morte
no espelho deste céu azul.

Se eu parti d'onde fiquei,
em busca do Velocino,
dividido entre o que sei
e o eu suposto – peregrino –,

Sob as estrelas partidas
que, mergulhadas no mar,
lembram sonhos sem guaridas
que parecem se afogar,

Foi por imensa saudade
do que jamais conheci...
E hoje, perdida a metade,
que um dia em mim vivi,

A minha alma fita a morte,
no espelho deste céu azul.
Meu destino jaz ao norte,
minha vida jaz ao sul.

Argonauta do exaspero,
rosa dos ventos confundo...
A estibordo, desespero,
a bombordo, incerto mundo.

Como um náufrago adiado,
em mim meu coração jaz
– tal qual âncora do fado,
presa ao que deixou atrás.

Mas sigo, e meu pranto verte
de uma já antiga canção;
à espera que o mar liberte
meu cansado coração.

Se o destino jaz ao norte,
e a vida jaz ao sul,
se em minha alma jaz a morte
e não neste céu azul,

O que importa é que as estrelas
leste ou oeste, sul ou norte,
inda brilham nas flanelas
das auroras sem recorte.

Nenhuma direção importa,
– o meu navio segue a esmo
nesta maresia morta
do repuxo de mim mesmo.

Mas se morre em maresia
meu perdido coração
sem ter Velocino algum,
morre vivo em poesia
nas rimas desta canção
que parte a lugar nenhum.
👁️ 64

fim de festa

Lentamente,
a música apagava-se nos labirintos da cidade.
Ele caminhava timidamente.

Em seu pensamento, restavam apenas ecos vagos
dos histéricos sorrisos gastos há poucos instantes
no descerebrado carnaval de cores,
sons que agora ressoavam como guizos fantasmagóricos
de algum sonho que se sabe ter sonhado,
embora se não saiba como, exatamente,
ou tampouco a exata substância do que se sonhou...

Mas havia tudo ocorrido, indubitavelmente,
naquela noite,
e há poucos instantes.


             poucos
                                instantes.

E todos os instantes quebravam-se
nos gestos com quais chutava, veredas afora,
a vazia lata restante
de vazios tragos.

Chutava a lata noite afora,
maculando o silêncio.

Tinha ainda, nas rugas da camisa cinzenta
que vestia sobre a oculta ravina de si,
coloridos confetes encharcados
descolorindo em manchas pobres.
E era tudo o que tinha de cor.

Chutava a lata noite afora,
ferindo os próprios tímpanos.
Chutava a lata pela cidade escura.

Que era da sua alegria
de há poucos instantes?
Que havia de tão estupidamente real nas casas
ruas
janelas
postes
pedriscos
e, sobretudo, no seco som da lata que chutava solidão afora,

que esfacelasse tão ironicamente
o artifício de seus sorrisos gastos


             poucos
                               instantes?

Silêncio. Vento gélido.
Erma cidade, galeria de espelhos.

E chutava a lata desespero afora, sem pistas na consciência,
e sentia como se
chutasse
o próprio
coração
refletido,

feito prosopopeia
e metáfora,
na lata;
espólio de uma centelha
de há poucos instantes.

O plenilúnio fazia troças.

E num ímpeto de rendição sem raiva,
deitou-a, num golpe, à sarjeta,
dando-a lá guarida, pobre lata;
e, como tal, rumou também a casa,
logo em seguida.

Finda a festa.
Findo o riso.
Noite infinda.

👁️ 87

soneto de permanência (da esperança)

A vida destruiu-me, a golpes fortes,
Todos os sonhos de dias banais...
E vivo, a cada dia, várias mortes,
A sonhar que de sonhar sou capaz.

E só o que vejo, sob este martelo,
São sombras tristes, futuros inúteis...
Perco-me de mim. E mais nenhum elo
Conecta minha alma às minhas mãos fúteis.

Mas embora perdido, algo em mim não cansa,
E me embala a seguir segundo uma ética
Pessoal e confusa, sem rumo ou brio...

...Seria esta esperança que me alcança
Assim como uma onda eletromagnética
Capaz de propagar-se no vazio?
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Comentários (4)

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sthefany
sthefany
2020-05-22

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi
biancardi
2020-03-20

Belos textos.