Lista de Poemas
soneto tardio
Estás sob a terra... Mas, em mim fecundas
As flores que te não pude dar em vida.
E o perfume que neste jardim abunda,
Póstumo, toma a forma de uma ferida...
Não há consolo nesta hora moribunda
À minha alma que, de dor enriquecida,
Relembra as tuas mãos vazias e fundas,
E se vê, de pétalas, empobrecida.
Sinto estas flores com amarga ironia...
Medraram no espaço que deixaste ao ir,
Fixando as raízes na melancolia
Da impossibilidade de ver-te sorrir
Outro instante. Ah, mas, Deus! O que eu não daria
Pra com estas flores tuas mãos florir...
👁️ 44
memória
Estive hoje escutando, no rádio,
Uma canção que há muito não escutava.
E enquanto a melodia rolava pelos ares,
Eu a sentia
E assistia, quase sem perceber,
De dentro da minha cabeça,
Uma algazarra de crianças
Brincando de bola em um pedaço de asfalto
Estranhamente familiar.
Uma algazarra familiarmente estranha.
De repente, compreendi.
Dentre as crianças, estava eu.
Tratava-se não de uma sensação feita vivência na imaginação,
Estas, saudosas, que por vezes sentimos por intermédio do desejo;
Tratava-se, sim,
De uma vivência longínqua feita imaginação na sensação.
E estava de tal forma empoeirada
Que se perdeu no tempo enquanto realidade passada,
Integrando-se à memória
Como nunca houvesse sido qualquer outra coisa.
Depois disso, quis ficar ouvindo rádio o dia inteiro
No anseio de desenterrar outras.
Sempre pasmo com essas coisas
Dos confins de não sei onde em mim,
Que ocasionalmente são resgatadas por músicas
Dos confins de dez anos atrás.
Estas pequeninas manifestações da alma...
Uma canção que há muito não escutava.
E enquanto a melodia rolava pelos ares,
Eu a sentia
E assistia, quase sem perceber,
De dentro da minha cabeça,
Uma algazarra de crianças
Brincando de bola em um pedaço de asfalto
Estranhamente familiar.
Uma algazarra familiarmente estranha.
De repente, compreendi.
Dentre as crianças, estava eu.
Tratava-se não de uma sensação feita vivência na imaginação,
Estas, saudosas, que por vezes sentimos por intermédio do desejo;
Tratava-se, sim,
De uma vivência longínqua feita imaginação na sensação.
E estava de tal forma empoeirada
Que se perdeu no tempo enquanto realidade passada,
Integrando-se à memória
Como nunca houvesse sido qualquer outra coisa.
Depois disso, quis ficar ouvindo rádio o dia inteiro
No anseio de desenterrar outras.
Sempre pasmo com essas coisas
Dos confins de não sei onde em mim,
Que ocasionalmente são resgatadas por músicas
Dos confins de dez anos atrás.
Estas pequeninas manifestações da alma...
👁️ 35
o parquinho revisitado
Salta o garotinho do balanço.
Ele vem até mim,
Me apanha pelo braço,
E me leva a passear ao redor
Dos brinquedos do parquinho.
Vejo as velhas gangorras,
Balanços, gira-giras que rangem,
Escorregadores, casinhas...
E ouço as velhas risadas.
O garotinho também me mostra
A sua nova bola de capotão,
Sua camisa amarela, e suas chuteiras...
Depois ri do próprio sonho futebolístico.
O garotinho
Revive
Diante
Dos meus olhos.
E eu, ao fitar, de súbito, seus cabelos louros,
Seu sorriso banguela,
E suas roupas encardidas,
Entristeço-me
Ao atestar que
Um dia
Já fui feliz.
Ele vem até mim,
Me apanha pelo braço,
E me leva a passear ao redor
Dos brinquedos do parquinho.
Vejo as velhas gangorras,
Balanços, gira-giras que rangem,
Escorregadores, casinhas...
E ouço as velhas risadas.
O garotinho também me mostra
A sua nova bola de capotão,
Sua camisa amarela, e suas chuteiras...
Depois ri do próprio sonho futebolístico.
O garotinho
Revive
Diante
Dos meus olhos.
E eu, ao fitar, de súbito, seus cabelos louros,
Seu sorriso banguela,
E suas roupas encardidas,
Entristeço-me
Ao atestar que
Um dia
Já fui feliz.
👁️ 19
poema inútil
Nada vale o calendário
Quando passado o dia
Outro vem e o repete.
Tampouco vale o relógio
Quando às seis da tarde
Sinto as três da madrugada.
Quando as valias se fecham
No píncaro das tintas opacas,
Que é da suposta realidade?
Que é deste leque fechado
Que, pela moldura da janela,
Me infiltra o pensamento?
Que é de tudo e de todos?
Que é de nada, e de mim?
Que importa o quê? Importará jamais?
De nada valho – eu, figura
Dum vitral que me pintei,
Estacionado e sem gesto.
A fumaça do cigarro sobe...
E, junto a ela, sobem os meus sonhos,
Fitando, do alto, a cidade vazia.
Quando passado o dia
Outro vem e o repete.
Tampouco vale o relógio
Quando às seis da tarde
Sinto as três da madrugada.
Quando as valias se fecham
No píncaro das tintas opacas,
Que é da suposta realidade?
Que é deste leque fechado
Que, pela moldura da janela,
Me infiltra o pensamento?
Que é de tudo e de todos?
Que é de nada, e de mim?
Que importa o quê? Importará jamais?
De nada valho – eu, figura
Dum vitral que me pintei,
Estacionado e sem gesto.
A fumaça do cigarro sobe...
E, junto a ela, sobem os meus sonhos,
Fitando, do alto, a cidade vazia.
👁️ 74
EROS II
Sabíamos mutuamente, amor:
Nenhuma ternura havia em nosso enlace.
Nada, senão a frágil carne sem pudor,
Sob o escuro do quarto, num disfarce.
De antemão, sabíamos do torpor
Que deveria haver em nossas faces.
Não me amaste. Mas... Deste desamor,
Confesso-te: desejei que me amasses.
Foi num instante em que te vi, e sangrei...
Vi-te olhos, alma; e em te buscar, teimei,
Sabendo já que estavas decidida...
E ao meu coração restou o vão açoite,
Pois sei que a tive somente uma noite,
E tu me tens e terás toda a vida...
Nenhuma ternura havia em nosso enlace.
Nada, senão a frágil carne sem pudor,
Sob o escuro do quarto, num disfarce.
De antemão, sabíamos do torpor
Que deveria haver em nossas faces.
Não me amaste. Mas... Deste desamor,
Confesso-te: desejei que me amasses.
Foi num instante em que te vi, e sangrei...
Vi-te olhos, alma; e em te buscar, teimei,
Sabendo já que estavas decidida...
E ao meu coração restou o vão açoite,
Pois sei que a tive somente uma noite,
E tu me tens e terás toda a vida...
👁️ 214
A Interferência do Afeto
Eu julgava muito feias
As prendas que via nas vitrines
Alheias.
Muito estúpidas,
Inúteis,
Patéticas.
Então um dia
Me presentearam
Com uma dessas prendas feias.
Bobinha,
Pouco útil,
Engraçadinha...
E, de repente,
Incompreensivelmente
Amável.
Com laço
Pareceu-me tão diferente.
As prendas que via nas vitrines
Alheias.
Muito estúpidas,
Inúteis,
Patéticas.
Então um dia
Me presentearam
Com uma dessas prendas feias.
Bobinha,
Pouco útil,
Engraçadinha...
E, de repente,
Incompreensivelmente
Amável.
Com laço
Pareceu-me tão diferente.
👁️ 67
À Toa na Noite
Eu passeava pelas noites mortas,
Vendo teu rosto surgir nas janelas
Das velhas casas de paredes tortas
Que descansavam sob a luz d’estrelas...
Eu passeava pelas noites baças,
Ouvindo, ao lado, o som dos teus passos;
E me aquecia nos postes das praças
Do lume gelado dos teus abraços...
Eu imaginava, em meus míseros sonhos,
– Estes algozes às vezes risonhos –
Uma viva cor para a opacidade.
E eu me cansava... E assistia sozinho
Teu perfil de adeus seguindo caminho...
Desaparecendo em meio à cidade...
Vendo teu rosto surgir nas janelas
Das velhas casas de paredes tortas
Que descansavam sob a luz d’estrelas...
Eu passeava pelas noites baças,
Ouvindo, ao lado, o som dos teus passos;
E me aquecia nos postes das praças
Do lume gelado dos teus abraços...
Eu imaginava, em meus míseros sonhos,
– Estes algozes às vezes risonhos –
Uma viva cor para a opacidade.
E eu me cansava... E assistia sozinho
Teu perfil de adeus seguindo caminho...
Desaparecendo em meio à cidade...
👁️ 178
Breves Fragmentos
I
Quando me ardeu o estômago
E faltou-me a poesia,
Abandonei a página.
II
O sentido dessa vida
É forjado por quem vive.
E sem predestinação,
Pra forjá-lo é-se livre.
III
Que belo é poder ser nada!
Grande é não ser definido!
Se porventura eu fosse algo,
Sonhar não teria sentido!
IV
Chora a chuva, à tarde...
Na rua, o Sol gela.
Em mim, a chuva arde...
V
Tenho uma rotatória
– Mas sem sinalização –
Na rua da memória
Do bairro Meu Coração.
VI
Meus poemas são dispersos
No calor da tua calma...
Pudera tu ler-me os versos
Circunscritos à minha alma!
VII
Há sorrisos nas vitrinas
Dessas vidas editadas
E corações nas latrinas
De verdades ocultadas.
VIII
Faz frio nesta primavera
E o Sol dormiu no verão;
Do outono, nem lembro mais...
É inverno no coração.
IX
As luzes da cidade
Cintilam devagar
Como se cada poste
Fosse estrela a chorar...
X
Teus lábios são de cereja
Tua língua, pomo intimista...
Teus gestos são de morango
Teu beijo, salada mista.
XI
Sonhei, e pensei ter vivido.
Vivi, e pensei ter sonhado.
E quando me vi perdido,
Sorri, e pensei ter chorado.
XII
Sinto falta da praça
Sinto falta de casa
Sinto falta de mim?
Qual praça fiquei?
Qual casa parei?
Onde me esqueci?
👁️ 129
Ternura
Criança,
Muitas vezes eu chorei sozinho,
Esperando por alguém incerto
Que me viesse fazer companhia.
Ontem,
Quando vi meu irmão a chorar
Sozinho, logo o abracei. E não sei
Se, ao fazê-lo, abracei a ele, ou a mim...
Ora,
Talvez seja esta a maravilha da ternura...
Um enlace atemporal e duas almas acalentadas.
Em nós viveu a serenidade.
Muitas vezes eu chorei sozinho,
Esperando por alguém incerto
Que me viesse fazer companhia.
Ontem,
Quando vi meu irmão a chorar
Sozinho, logo o abracei. E não sei
Se, ao fazê-lo, abracei a ele, ou a mim...
Ora,
Talvez seja esta a maravilha da ternura...
Um enlace atemporal e duas almas acalentadas.
Em nós viveu a serenidade.
👁️ 69
A Lua Ao Longo do Dia
I
Fazia tempo que eu não via a aurora
Pintar o céu com sua cor de sangue,
Tendo ao centro a Lua, e seu riso exangue,
Como o coração minguante do agora.
Raia o Sol... Mas a Lua não vai embora...
Como se teimasse em permanecer,
Renegando a ideia de adormecer,
E preferindo sorrir fora de hora.
Mas, afinal, da lua, qual o tempo?
Não sei... E de súbito, ponho-me a cismar
Por algum motivo que não sei bem.
Talvez seja por me fazer lembrar
Que já sorri fora de hora, também,
E fiquei só, por agir em contratempo.
II
Pairo distraído em meio à paisagem,
A bruta paisagem de minha rua.
Distraído, olho o céu... E sem miragem,
Em pleno meio-dia, vejo a lua!
E dessa vez, ela é mais que um sorriso:
É uma face pálida e completa
Um vestígio da noite sem aviso,
Um espelho à condição de poeta.
De um lado, a Lua, de outro lado, o Sol.
Mui distantes e desmitificados,
Partilhando do céu por um acaso...
É desde a aurora que formulo um rol
De tantos pensamentos dedicados
Aos espólios de meu próprio caso.
III
Eu vejo a noite escurecer a terra,
E descansa, de repente, a emoção...
Emerge a lua, por detrás da serra,
Absoluta, sem nenhuma comoção.
Não me entristeço e tampouco me alegro,
Há só cansaço no meu coração...
E no silêncio deste manto negro
Reluz a estrela da muda canção.
Mas há algo de belo neste momento
Em que reluz mais forte em meu relento
A Lua que me cede companhia...
Entendo o seu sorriso de mais cedo:
Brilho melancólico e sem segredo
Que se manifesta na poesia.
IV
Afinal, sou eu que anoiteço.
Devagar, se apaga tudo.
Resto, entanto, em sono mudo,
E de nada mais careço.
Tenho da aurora a candura,
Do crepúsculo o fulgor
Da noite o brilho, o frescor...
Num só sonho de brandura.
Sempre presente, está a Lua,
Lua da noite, e do dia...
Dentre as luzes, a mais nua...
Lua triste e fugidia,
Traz a mim a vida crua...
Boa noite, poesia.
Fazia tempo que eu não via a aurora
Pintar o céu com sua cor de sangue,
Tendo ao centro a Lua, e seu riso exangue,
Como o coração minguante do agora.
Raia o Sol... Mas a Lua não vai embora...
Como se teimasse em permanecer,
Renegando a ideia de adormecer,
E preferindo sorrir fora de hora.
Mas, afinal, da lua, qual o tempo?
Não sei... E de súbito, ponho-me a cismar
Por algum motivo que não sei bem.
Talvez seja por me fazer lembrar
Que já sorri fora de hora, também,
E fiquei só, por agir em contratempo.
II
Pairo distraído em meio à paisagem,
A bruta paisagem de minha rua.
Distraído, olho o céu... E sem miragem,
Em pleno meio-dia, vejo a lua!
E dessa vez, ela é mais que um sorriso:
É uma face pálida e completa
Um vestígio da noite sem aviso,
Um espelho à condição de poeta.
De um lado, a Lua, de outro lado, o Sol.
Mui distantes e desmitificados,
Partilhando do céu por um acaso...
É desde a aurora que formulo um rol
De tantos pensamentos dedicados
Aos espólios de meu próprio caso.
III
Eu vejo a noite escurecer a terra,
E descansa, de repente, a emoção...
Emerge a lua, por detrás da serra,
Absoluta, sem nenhuma comoção.
Não me entristeço e tampouco me alegro,
Há só cansaço no meu coração...
E no silêncio deste manto negro
Reluz a estrela da muda canção.
Mas há algo de belo neste momento
Em que reluz mais forte em meu relento
A Lua que me cede companhia...
Entendo o seu sorriso de mais cedo:
Brilho melancólico e sem segredo
Que se manifesta na poesia.
IV
Afinal, sou eu que anoiteço.
Devagar, se apaga tudo.
Resto, entanto, em sono mudo,
E de nada mais careço.
Tenho da aurora a candura,
Do crepúsculo o fulgor
Da noite o brilho, o frescor...
Num só sonho de brandura.
Sempre presente, está a Lua,
Lua da noite, e do dia...
Dentre as luzes, a mais nua...
Lua triste e fugidia,
Traz a mim a vida crua...
Boa noite, poesia.
👁️ 83
Comentários (4)
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sthefany
2020-05-22
seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!
rosalinapoetisa
2020-04-28
Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços
rosalinapoetisa
2020-04-28
Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.
biancardi
2020-03-20
Belos textos.
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