Escritas

atrito

yuri petrilli

O quarto escuro
o vento lento
a cama quente
a tarde pluma sem preocupação nenhuma
(nos inscientes
corações perdidos),
senão carinhos,
ternuras bobas
dedos para embrenhar
em cabelos perfumados,
pés nus para brincar,
roçar, arranhar,
fazer gracejos,
lábios para evaporar sorrisos
em bonitos torpores,
olhos para buscar ao outro e não encontrar
e guardar saudades,
dentes para morder
pescoços para albergar os dentes
e mãos peregrinas
por toda a extensão
das polpas carnes queridas
infinitamente
preausentes.

O quarto silêncio
o vento calma
e a cama feita alma
por artifício
de centelha juvenil.

E ao centro do enlace
o punhal da mentira,
já parido e ascendente,
banhado em penumbra,
coberto por beijos
e falsas certezas,
cavando frinchas
lentamente
e ferindo as horas
anestesiadas.

E a mancha do sangue
que aos poucos escorre
da tarde colorida
se imprime no quarto
qual selo do elo
escuro lento eterno
dos que se partem.

Um registo
triste e morto
mas pungente
de um vivíssimo
e dolorosamente breve
atrito humano,
perene ferida,
sempre incerta e diferente
no modo como há
de doer.

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Comentários (1)

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jeiancoski
jeiancoski
2020-07-02

<3