Lista de Poemas
Passeio
Percorri léguas até Amarante,
onde montanhas se inclinam ao céu
e gentes surgem como ecos de histórias antigas.
Fisgas de Ermelo escalei,
tropeçando nos receios da minha alma errante,
enquanto o vento sussurrava segredos de pedra e água.
Do outro lado, avistei Nossa Senhora da Graça,
histórias gravadas nas paredes insólitas,
mistérios escondidos nos cantos das paisagens sedentas.
Tudo isso calcorreei com Ricardo,
passo a passo, riso a riso,
como se o caminho nos pertencesse por direito.
Em Mondim de Basto, subimos o Monte da Senhora da Graça —
Monte Farinha —
setecentos metros de esforço que se transformam em silêncio,
até tocar altitudes que se perdem no céu,
com o santuário no topo, quase a 922 metros,
e a cota máxima de 947 metros respirando história e fé.
Fisgas de Ermelo, cascatas que cantam,
horizontes que respiram liberdade.
Amarante fica, marca-me,
uma memória que não se fecha,
uma viagem que continua mesmo depois do regresso.
E quando os passos se calarem,
ficarão os olhos cheios de montanhas,
o coração cheio de riachos,
e o riso do amigo a ecoar
nas pedras, nos caminhos,
nos horizontes que respiram eternamente.
Palavras
Na fala dos mudos,
não existem vírgulas nem pausas,
pois o tempo não se divide
quando o silêncio é a única língua.
Há apenas o ponto final —
a síntese de tudo o que não se diz.
Os pontos de exclamação,
de interrogação, de declaração,
são criaturas de um mundo paralelo:
habitam apenas o sonho,
onde até o silêncio
discute consigo mesmo
o sentido de existir.
Eu, porém, caminhante da palavra,
ouço os ecos que se erguem do nada
como murmúrios de um pensamento antigo.
E nesse ruído que não é som,
mas consciência,
aprendo que o cuidado com a fala
é também cuidado com o ser.
Porque mortos de sabedoria
são aqueles que recusam o livro,
que rejeitam a luz que as palavras carregam.
A linguagem germina conceitos,
modela mundos,
ergue ideias —
mas eles, distantes da leitura,
permanecem cegos ao rumo
que o pensamento oferece.
E quando falam,
suas vozes chegam a mim
como sombras de um riso triste,
escorrendo pela pedra fria
da fortaleza da ignorância.
Ali, onde a dúvida não entra,
e o saber não floresce,
o silêncio pesa mais
do que qualquer palavra.
À Alda Espírito Santo
A tua sábia obra literária
une-nos na mais esfuziante euforia
e convida-nos a mergulhar firmemente
nesta poética folia.
Os teus versos de sapiência
honra-nos evocá-los;
alimentam a nossa santomensidade
e fazem-nos reviver, sem resistência,
os teus ensinamentos, de tempo em tempo.
Nesta festança
que reúne gentes que te prezam,
Alda, querida,
celebramos-te de coração inteiro,
porque reconhecemos a singularidade da tua pessoa
e as contribuições que, por amor, ofereceste
à juventude, às crianças e às mulheres da nossa terra,
na edificação de uma nação sem desumanidade,
aquela que chamaste:
“É Nosso o Solo Sagrado da Terra.”
E nesta solene efeméride,
em que os nossos corações,
possuídos de viva e intensa euforia,
te saúdam exuberantemente,
mistura-se também certa melancolia.
Nesta hora de colossal exaltação,
queremos expressar, com fervor, o nosso apreço,
pois ao longo de uma demorada jornada de aprendizagens
recebemos de ti, com graça, vastos conhecimentos.
É com reverência e profundo ardor
que te dedicamos este poema sentido,
em nome do fruto do teu anseio,
testemunhando, sem adornos desnecessários,
a nobreza da tua individualidade.
— In Casa da Cultura, 27 de Março de 2010
Saudades da terra
Saudades da terra e da minha infância,
Saudades daquele tempo perdido
Na conjuntura dos tempos e de todos os tempos,
Saudades da minha infância.
Saudades da minha infância
E dos tempos eternizados
Nos remotos silêncios já não vividos,
Lembrados em terras de Camões,
Juntando amigos e corações,
Perdendo-nos nestas canções
Que nos fazem reviver, em emoções,
As nossas raízes… a nossa infância.
Saudades da terra e da minha infância,
Saudades tenho eu
Daqueles tempos em que o tempo ainda era tempo…
Saudades de matu jaca,
Matu safu, trote e gualálá.
Nada escapa,
Nossa alma é quem fala…
Saudades da terra e da minha infância.
Sonhar São Tomé e Príncipe
A história mal contada
de um pretérito ainda presente,
das iras, dos ódios e mágoas
de um conflito que se diz amistoso,
mas que, sem controle, cresce e ganha dimensão estatal.
Remete-nos sempre, com preocupação,
a forjar — mesmo no vácuo da nossa intelectualidade —
uma solução que todos prometeram
e que ninguém trouxe.
Unidade, Disciplina e Trabalho…
Palavras que ficaram na utopia
dos arquitetos da nação,
mas que continuam a ecoar,
como um chamado silencioso
para que sonhemos e construamos
o São Tomé e Príncipe que ainda é possível.
Poema dos Meus Anos
Nunca…
celebrei os meus anos,
porque tenho medo da velhice,
das arteirices
e de tudo que o tempo traz,
de tempo em tempo…
Nunca celebrei os meus anos,
porque o medo sussurra
que cada ruga é um segredo,
cada dia é uma despedida silenciosa,
cada lembrança, um eco distante.
Nunca celebrei os meus anos,
porque pensei que o calendário
marcava apenas o fim,
e não o caminho que percorri
com passos incertos e sonhos valentes.
Nunca celebrei os meus anos,
porque a pressa da vida
parecia roubar a alegria
antes mesmo de eu a perceber.
Mas hoje,
envelhecido pelo tempo,
aprendi a agradecer ao tempo
por tudo que fez:
pelos alentos,
pelas vicissitudes,
pelo tormento que moldou minha coragem
e pelas alegrias que o tempo me permitiu viver.
Hoje celebro não apenas anos,
mas a vida em cada instante,
a sabedoria escondida nas horas,
e o presente de ainda poder sonhar.
Independência de São Tomé e Príncipe
50 anos – Um olhar do passado rasgando o presente de um futuro ignoto
Cinco décadas se passaram,
E o vento ainda sussurra nas palmeiras,
Histórias de luta, de sonho, de sangue e coragem
Que moldaram esta terra entre o mar e o céu.
O passado ecoa em cada pedra da calçada,
Nos olhares que não esqueceram a liberdade conquistada.
Rasgou correntes, dissipou medos,
E deixou-nos a herança da esperança e do medo, lado a lado.
O presente, às vezes hesitante,
Caminha entre conquistas e desafios,
Entre promessas que se perdem no vento
E sorrisos que florescem nas ruas de São Tomé e Príncipe.
E o futuro?
Ainda ignoto, ainda incerto,
Mas nas mãos do povo repousa a força de um destino,
Na coragem de sonhar, de resistir, de acreditar.
Cinquenta anos de independência,
Cinquenta anos de histórias que se entrelaçam
Como as ondas que beijam as nossas ilhas —
Sempre a regressar, sempre a lembrar
Que São Tomé e Príncipe é feito de gente, de memória, de luta e de esperança.
Não te afoites
Não te afoites quando a porta se abrir.
No cemitério, o que vi
não era morte — era apenas mistério.
Por isso, não te afoites!
Quando o sinal da bruxaria
se esconde nos cantos da noite,
a casa torna-se arredia,
sussurro fosco entre sombras.
No cemitério da Trindade,
e na velha ermida do Morro,
contemplei, quiça,
fantasmas de vidas partidas,
enguiços perdidos sem norte…
Mas, para consolo do meu âmago cansado,
desabei em risos de mofa,
trancado no armário
da minha agonia infinda.
Era sexta-feira 13,
e a superstição pesava no ar.
Agonia perpetuada —
que só os vivos, adormecidos na razão,
e habituados a esta jazida da Trindade,
pareciam compreender sem dó.
O terror da minha masturbação mental,
esse labirinto de fantasmas inventados,
saiu enfim do armário agónico,
despido de penúria,
e reencontrei em mim
a vontade de viver
neste mundo de arteirices,
onde o medo se ri
e a noite apenas brinca
com quem ousa sentir demais.
Conversa íntima com a morte
Tu hoje me levas…
E meu corpo jaz, frágil,
Mas meu espírito arde —
Arde pela terra que me viu nascer,
Pelas ilhas cravadas no equador,
Pérolas que brilham no azul do infinito.
Tu hoje me levas
Antes que eu cumprisse minha missão,
Antes que meu amor pelas pessoas se derramasse por completo,
Antes que meus olhos vissem
O nascer de um futuro grandioso,
Um São Tomé e Príncipe renovado, livre, soberano!
Mas se me levas, morte,
Eu não temo o teu frio abraço.
Levo comigo o orgulho da minha terra,
O pulsar da esperança,
A certeza de que os meus lutarão,
Mesmo quando eu não estiver
Para segurar-lhes a mão.
Eles hão de enfrentar batalhas,
Correm léguas em busca da paz,
Trazem progresso às ilhas amadas,
Erguendo-as acima da tempestade,
Como faróis indomáveis em mar revolto.
Tu hoje me levas
Antes que eu pudesse arrancar a hipocrisia,
Antes que eu explicasse, em toda a filosofia possível,
O que é democracia de verdade.
Tu hoje me levas
Antes que eu dissesse ao meu povo:
“Sim, podemos erguer esta nação,
Podemos torná-la imortal em coragem e amor.”
Pois seja feita, Morte,
A tua vontade inexorável.
Mas saibas que mesmo na ausência,
Mesmo no silêncio da terra que me acolhe,
O coração deste povo,
O espírito desta pátria,
Jamais cessará de bater.
E que minha morte não seja fim,
Mas clarim —
Chamando todos à luta,
Chamando todos ao futuro que sonhei.
Quem é ela?
Quem é ela
que sussurra ao meu lado
como se o vento segredasse seu nome?
Quem é ela
cujo andar descobre pernas que se prolongam
como rios de sombra e luz,
desenhando desejo no ar que respiro?
Quem é ela
cujo seio irradia raios,
raios que queimam a selva tropical
de movimentos surdos, felinos, incontroláveis,
como um animal à espreita na noite?
Quem é ela
senão o fogo que me consome em silêncio,
o enigma que se move,
a tentação que não se pode tocar
mas que me atravessa, inteiro,
como se fosse parte de mim e eu dela?
Comentários (1)
Olá, irmão africano!
Wildiley Barroca nasceu em São Tomé, no dia 20 de Março de 1991. Fez os seus estudos primários e liceais em São Tomé, bem como a formação média profissional em Secretariado Internacional e Licenciatura em Direito.
Poeta, Jurista e observador do quotidiano, vem colaborando regularmente em revistas e jornais nacionais e estrangeiros, com trabalhos na Revista Batê Mon e nos jornais digitais do país e do estrangeiro.
Poeta, Jurista e observador do quotidiano, é Autor da Obra Apuros da Minh ‘Alma Errante – primeira obra do autor lançada no Complexo Cultural dos Barris em Salvador – Bahia, Brasil; Autor da obra “João Paulo II ou o Santo da Juventude”; Coautor da obra “Moi Président” lançada em 15 de Março de 2017 na França e Coautor da obra “A Poesia Multicultural”, lançada em Julho de 2019 em Portugal; Coautor da obra “O Ensino do Direito nos Países da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP)” lançada em 27 de Março de 2021 no Brasil; e Coautor da Obra “WE HAVE A DREAM”, lançada em Maio de 2021 no Japão;
Representou São Tomé e Príncipe como jovem Escritor na II Mostra de Jovens Criadores da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) em Luanda - Angola, na VI Bienal dos Jovens Criadores da CPLP em Salvador – Baia - Brasil e participou em Representação de São Tomé e Príncipe como jovem escritor na Bienal dos Jovens Criadores da CPLP na Vila Nova de Cerveira, Portugal.
Foi Presidente da União Literária e Artística Juvenil - ULAJE Clube UNESCO, Coordenador do Clube dos Poetas e Trovadores de São Tomé e Príncipe e Secretário-geral da União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe.
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