Conversa íntima com a morte

Tu hoje me levas…
E meu corpo jaz, frágil,
Mas meu espírito arde —
Arde pela terra que me viu nascer,
Pelas ilhas cravadas no equador,
Pérolas que brilham no azul do infinito.

Tu hoje me levas
Antes que eu cumprisse minha missão,
Antes que meu amor pelas pessoas se derramasse por completo,
Antes que meus olhos vissem
O nascer de um futuro grandioso,
Um São Tomé e Príncipe renovado, livre, soberano!

Mas se me levas, morte,
Eu não temo o teu frio abraço.
Levo comigo o orgulho da minha terra,
O pulsar da esperança,
A certeza de que os meus lutarão,
Mesmo quando eu não estiver
Para segurar-lhes a mão.

Eles hão de enfrentar batalhas,
Correm léguas em busca da paz,
Trazem progresso às ilhas amadas,
Erguendo-as acima da tempestade,
Como faróis indomáveis em mar revolto.

Tu hoje me levas
Antes que eu pudesse arrancar a hipocrisia,
Antes que eu explicasse, em toda a filosofia possível,
O que é democracia de verdade.

Tu hoje me levas
Antes que eu dissesse ao meu povo:
“Sim, podemos erguer esta nação,
Podemos torná-la imortal em coragem e amor.”

Pois seja feita, Morte,
A tua vontade inexorável.
Mas saibas que mesmo na ausência,
Mesmo no silêncio da terra que me acolhe,
O coração deste povo,
O espírito desta pátria,
Jamais cessará de bater.

E que minha morte não seja fim,
Mas clarim —
Chamando todos à luta,
Chamando todos ao futuro que sonhei.

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