Palavras
Na fala dos mudos,
não existem vírgulas nem pausas,
pois o tempo não se divide
quando o silêncio é a única língua.
Há apenas o ponto final —
a síntese de tudo o que não se diz.
Os pontos de exclamação,
de interrogação, de declaração,
são criaturas de um mundo paralelo:
habitam apenas o sonho,
onde até o silêncio
discute consigo mesmo
o sentido de existir.
Eu, porém, caminhante da palavra,
ouço os ecos que se erguem do nada
como murmúrios de um pensamento antigo.
E nesse ruído que não é som,
mas consciência,
aprendo que o cuidado com a fala
é também cuidado com o ser.
Porque mortos de sabedoria
são aqueles que recusam o livro,
que rejeitam a luz que as palavras carregam.
A linguagem germina conceitos,
modela mundos,
ergue ideias —
mas eles, distantes da leitura,
permanecem cegos ao rumo
que o pensamento oferece.
E quando falam,
suas vozes chegam a mim
como sombras de um riso triste,
escorrendo pela pedra fria
da fortaleza da ignorância.
Ali, onde a dúvida não entra,
e o saber não floresce,
o silêncio pesa mais
do que qualquer palavra.
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