Não te afoites
Não te afoites quando a porta se abrir.
No cemitério, o que vi
não era morte — era apenas mistério.
Por isso, não te afoites!
Quando o sinal da bruxaria
se esconde nos cantos da noite,
a casa torna-se arredia,
sussurro fosco entre sombras.
No cemitério da Trindade,
e na velha ermida do Morro,
contemplei, quiça,
fantasmas de vidas partidas,
enguiços perdidos sem norte…
Mas, para consolo do meu âmago cansado,
desabei em risos de mofa,
trancado no armário
da minha agonia infinda.
Era sexta-feira 13,
e a superstição pesava no ar.
Agonia perpetuada —
que só os vivos, adormecidos na razão,
e habituados a esta jazida da Trindade,
pareciam compreender sem dó.
O terror da minha masturbação mental,
esse labirinto de fantasmas inventados,
saiu enfim do armário agónico,
despido de penúria,
e reencontrei em mim
a vontade de viver
neste mundo de arteirices,
onde o medo se ri
e a noite apenas brinca
com quem ousa sentir demais.
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