Lista de Poemas
Adeus, Man Rica!
Partirei.
Levarei comigo a saudade —
eco de risos que nunca ecoaram,
memórias que escaparam pelos dedos
quando éramos apenas adolescentes
no Liceu dos sonhos por nascer.
Partirei.
Mas a vida gravará nas páginas invisíveis
que nada é impossível enquanto o coração bater,
que somos poeira e título,
que honras se desfazem num instante de luz,
num sopro de eternidade.
Partirei.
E no futuro, que nos observa
com olhos de tempo,
ajustaremos contas,
não em silêncio,
mas em risos, lágrimas e lembranças
que recusam ser esquecidas.
Partirei.
E ainda assim estarei aqui —
nos gestos, nas sombras,
no impossível que insistimos em viver.
Partirei,
Mas não levarei comigo tudo —
deixarei pequenas lembranças
presas às paredes,
às conversas soltas,
às músicas que não acabaram
e ao cheiro de café das manhãs preguiçosas.
Partirei,
Mas saberás, na primeira ausência,
que a vida é feita de encontros e partidas,
que nenhum abraço é eterno,
mas todos deixam marcas
que nem o tempo consegue apagar.
Partirei,
E ao seguir o meu caminho,
levo-te comigo dobrado no peito,
como se fosses um capítulo
que não se fecha,
apenas vira a página.
E se o futuro nos chamar —
e ele sempre chama —
voltaremos ao mesmo riso,
à mesma ironia,
ao mesmo pacto silencioso
de irmãos que o tempo separa,
mas nunca rompe.
Adeus, Man Rica!
Não um adeus de fim,
mas um adeus de quem parte sabendo
que há despedidas que são apenas
o prelúdio dos regressos.
País de nome Santo
Puro, belo e virgem,
assim é este país na sua origem,
país de Marcelo e Tenreiro,
com a imagem de um mundo verdadeiro.
País de nome Santo,
país de gáudio e harmonia,
de povos batalhadores em simpatia,
sob um sistema excêntrico de democracia.
No coro dos céus e das alianças pardais,
pela manhã, o canto das aves
faz sorrir a malta desta gesta,
que vive sempre em festa,
apesar de certa melancolia.
País de um povo que resiste
aos dissabores da vida,
que acredita no impossível
e nos impossíveis,
porque ainda confia
no futuro deste arquipélago amado.
Mais além
Mais além
É ir em frente sem olhar a quem.
Mais além
É resistir a todos e tudo que vem.
Mais além
É persistir sem medo de ninguém.
Mais além
É enfrentar vendavais e tormento,
É resistir a todo sofrimento,
Porque depois deste mal que já não aguento
Virá, enfim, o meu dia de alento.
Mais além
É acreditar que a dor também passa.
Mais além
É renascer das cinzas com força que não se esgarça.
Mais além
É guardar no peito a esperança que abraça
E seguir, passo a passo, rumo ao amanhã.
Mais além
É saber que a estrada não finda,
Que a alma cai, mas sempre ainda
Se ergue, firme, sobre o chão.
E quando o sol enfim romper o véu da madrugada
Hei de colher a luz tão esperada,
Certo de que cada lágrima derramada
Foi semente do meu próprio renascer.
Mais além…
É onde me encontro,
É onde me sonho,
É onde, por fim,
me reencontro a ser.
Somos todos São Tomé e Príncipe
São Tomé e Príncipe é mais do que um país.
Qualquer cálculo bem feito, de raiz,
Leva-nos a compreender a riqueza que possuímos:
Nos valores, nos bens, e na essência de quem realmente somos.
Não somos apenas aquilo que nos pintam;
Podemos, sempre, ser a melhor versão de nós mesmos.
Um povo que resiste com bravura aos desafios da vida,
Que trilha, com calma, os caminhos da dificuldade,
Somando, no palco da vida,
Sentimentos de um futuro sólido,
Mesmo quando a leviandade ameaça desviar-nos.
Mas os nossos políticos…
Por vezes nos traem,
Distantes da verdade,
Governando como vento, sem rumo nem cuidado.
E ainda assim, apesar das guerras,
Das desavenças e querelas sem sentido,
Somos todos São Tomé e Príncipe.
Um povo que sonha,
Que constrói para os filhos, para os netos,
Que acredita na força do seu próprio destino.
Uníssonos, numa só voz,
Clamemos pela Unidade, Disciplina e Trabalho,
Porque só juntos podemos honrar o legado
E escrever, com coragem, o futuro de São Tomé e Príncipe.
Despedida
Partilhamos instantes de impetuosidade,
Momentos densos, carregados
De uma abismada sensação
De resolução crescente.
E, quando a agonia apertava,
Recordei — com lágrimas nos olhos —
Os tempos bons, em que alguém por mim
Tudo fazia…
Era tempo doce, tempo de pura mordomia.
Partimos, sim, mas levamos connosco
As melhores memórias da jornada:
Um encontro que ensina,
Que molda e amadurece,
Que desperta, acima de tudo,
Um compromisso sério com Deus.
E ainda havemos de contar,
Entre risos vestidos de melancolia,
Mas com o sabor leve da euforia,
As nossas histórias, as nossas folias,
Os percursos que o tempo desenhou
Em nós e por nós.
Sim, inda havemos de contar
Os capítulos de um passado mal passado…
Mas vivido — E aprendido.
E quando o tempo nos chamar de volta,
Entre memórias que ainda doem
E outras que já sorriem sozinhas,
Haveremos de entender, enfim,
Que nada foi em vão.
Porque cada passo,
Cada riso, cada queda,
Cada despedida e cada reencontro,
Foram sementes lançadas na alma
Para florescerem no tempo certo.
E assim seguimos,
Com o coração aberto,
Com Deus no centro,
E com a certeza serena
De que as histórias que hoje terminam
Amanhã renascerão —
Mais leves,
Mais nossas,
Mais verdadeiras.
Tempo
Quisera eu ser as ondas do mar,
e, inteligentemente, os obstáculos contornar,
para o meu destino — sem par — enfim alcançar.
Lembranças daquele tempo
em que, ainda jovem e um tanto sedento,
palcos de relevo surgiam ao vento
e ações de juventude davam rebento.
Volta,
oh tempo,
perdido nas conjunturas do teu próprio movimento,
levado sempre ao sabor do vento.
Tempo,
quisera eu poder-te tocar,
segurar-te um pouco,
fazer-te abrandar,
para que nenhum instante
viesse a se apagar.
Mas corres, implacável,
como rio imparável,
levando sonhos, moldando vidas,
deixando marcas incontidas
na memória — doce e vulnerável.
E eu,
navegante desta travessia,
procuro, em cada novo dia,
as pegadas da sabedoria
que o teu sopro deixou no ar.
Oh tempo,
se um dia voltares devagar,
traz contigo o brilho de outrora,
para que eu possa recordar
e, quem sabe, reinventar
o que a vida deixou lá fora.
E assim sigo, atento,
entre o passado e o firmamento,
a aprender — no teu movimento —
que viver é sempre recomeçar.
Histórias
Factos passados,
guardados na memória, trazidos à atualidade
de tempo em tempo…
Ainda havemos de contar
em risos disfarçados de melancolia,
mas com sabor e gosto de euforia,
as nossas histórias, a folia…
e o nosso percurso, de tempo em tempo.
Ainda havemos de contar
histórias de um passado mal passado,
entre lembranças e suspiros,
como quem revive o tempo
sem pressa, mas com intensidade.
E riremos das dores,
das quedas, dos enganos,
das estradas tortuosas
que nos moldaram e ensinaram.
E cantaremos as pequenas vitórias,
os segredos partilhados,
os sonhos que ousamos sonhar
mesmo quando o mundo nos dizia não.
Ainda havemos de contar,
porque cada memória é chama,
cada história é ponte
entre o ontem e o que ainda seremos.
Casa da Cultura
Memórias e recordações,
lembranças que registam a história,
aspirações culturais em ascensão,
em jeito de contribuição
para o progresso deste país em crescimento,
com o arrimo e a força da gente moça.
Nesta data que marca o registo desta casa,
vamos cantar, dançar e festejar
com a malta desta gesta,
numa festa ímpar, oferecida pelo mentor,
celebrando a arte, a tradição e a alegria
que nos une e nos faz sonhar.
Que cada nota, cada passo, cada riso,
ecoem pelas paredes desta casa,
como testemunho vivo de um povo que cria,
que preserva e que avança,
transformando a cultura em luz
para todos os que aqui habitam e virão.
Jovens da Cidade
Jovens da cidade
decidiram vir à Trindade,
vivenciar, na realidade,
o espírito desta irmandade
que só aqui se descobre: a felicidade.
Mas, sem maldade,
e em meio a toda esta tenebrosidade,
deixam-nos ao menos saborear,
nem que seja metade,
o proveito que a nossa cidade tem a nos dar.
Em meio a tanta generosidade,
e a um misto de incerteza e ambiguidade,
descobrimos, enfim, a identidade
dessa gente da cidade
que, na verdade, só vem à Trindade
“vivenciar a irmandade”.
E quando regressam à cidade,
levam consigo a claridade
de um povo que vive a verdade
sem precisar de vaidade.
Porque a Trindade é liberdade,
é aconchego, é ancestralidade,
é o abraço que fica na saudade
de quem soube, por fim, encontrar
na simplicidade
um porto seguro para descansar.
Assim, entre passos, encontros
e algum vislumbre de eternidade,
percebemos que a maior herança
que estes jovens levarão da Trindade
não é a festa,
nem a novidade,
mas a certeza de que é na união
que floresce a nossa humanidade.
CFPIC
Nas pegadas insólitas
de um tempo que já não volta,
das memórias e lembranças
de um passado em revolta,
dos sonhos, das competências,
dos caminhos por percorrer,
o CFPIC abre portas (…).
Construímos com confiança
os vossos sonhos e esperanças.
Para bem longe eliminamos as desesperanças,
convertendo em certezas as vossas querenças.
Afogamos no mar de Fernão Dias as vossas façanhas
e devolvemos, renovados, sonhos e pertenças
de um porvir novo (…).
O CFPIC abre portas,
não só dos calçados
que vos patenteamos no palco da vida,
mas abre portas de um futuro de bonança.
CFPIC abre portas,
nossos sonhos a se realizar.
Para a frente vamos seguir
e São Tomé e Príncipe vamos servir.
Comentários (1)
Olá, irmão africano!
Wildiley Barroca nasceu em São Tomé, no dia 20 de Março de 1991. Fez os seus estudos primários e liceais em São Tomé, bem como a formação média profissional em Secretariado Internacional e Licenciatura em Direito.
Poeta, Jurista e observador do quotidiano, vem colaborando regularmente em revistas e jornais nacionais e estrangeiros, com trabalhos na Revista Batê Mon e nos jornais digitais do país e do estrangeiro.
Poeta, Jurista e observador do quotidiano, é Autor da Obra Apuros da Minh ‘Alma Errante – primeira obra do autor lançada no Complexo Cultural dos Barris em Salvador – Bahia, Brasil; Autor da obra “João Paulo II ou o Santo da Juventude”; Coautor da obra “Moi Président” lançada em 15 de Março de 2017 na França e Coautor da obra “A Poesia Multicultural”, lançada em Julho de 2019 em Portugal; Coautor da obra “O Ensino do Direito nos Países da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP)” lançada em 27 de Março de 2021 no Brasil; e Coautor da Obra “WE HAVE A DREAM”, lançada em Maio de 2021 no Japão;
Representou São Tomé e Príncipe como jovem Escritor na II Mostra de Jovens Criadores da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) em Luanda - Angola, na VI Bienal dos Jovens Criadores da CPLP em Salvador – Baia - Brasil e participou em Representação de São Tomé e Príncipe como jovem escritor na Bienal dos Jovens Criadores da CPLP na Vila Nova de Cerveira, Portugal.
Foi Presidente da União Literária e Artística Juvenil - ULAJE Clube UNESCO, Coordenador do Clube dos Poetas e Trovadores de São Tomé e Príncipe e Secretário-geral da União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe.
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