Lista de Poemas
O SOBREIRO
E ouvi a sua voz ao vento
Suas folhas e ramos silvavam e resmalhavam
E em conforto me deixei ali ficar
Descaíndo o rabo até me deitar
Fechei os olhos e estiquei os braços
Lá para trás da minha cabeça
Dobrei as pernas e finquei os pés no chão seguro
A terra debaixo deles agradou-me
E movi os pés para a frente e para trás
Brincando assim com a terra da terra mãe
Senti o sotaque alentejano
Nos sons que me chegavam
E nos banhos quentes
Com que as minhas pálpebras cerradas se deleitavam
No chão uma bolota se rebolou
Até chegar junto dos meus dedos
Toquei-a e agarrei nela sem abrir os olhos
E sem me mover
Tomei a resolução de trazê-la comigo
No regresso a casa
Porque o sobreiro sempre foi meu amigo
E a sua semente me acorda a memória
Das coisas boas que passei consigo
Brincando junto de si
Escondendo-me atrás do seu tronco
Que me oferecia abrigo frente a qualquer perigo
Usando a cortiça
Que o sobreiro doou aos homens
Sem qualquer cobiça
Deixa-se despir para doar de si
Sinto o sotaque alentejano
Nas formas do seu tronco, nas rugas
Nos sulcos das texturas
E se houverem sobreiros noutras partes do mundo
Onde quer que estejam, sei que se me sentar junto deles
Também nos vamos entender
Pois nem que seja na China
O sobreiro fala sempre Alentejano !!
Medo da Chuva
Em sílabas
No ar eletrizantes e luminescentes
Palavras
Trovões rugem em fúria
Nas mentes das gentes
Coisas que apenas permitem pensadas
Em dádiva arco-iris de diferentes cores
Desenhando mensagens
De vários sabores
No chão Homens e Mulheres diferentes
Umas abrindo os braços à chuva
Dando vivas à vida que alimenta
Outras fugindo, resguardando-se
Da dádiva maldizentes
Perante o medo das gotas, dos relâmpagos
Do arco-iris
Protegem-se e reclamam inconvenientes
Enquanto outros se banham
Sentem e deixam molhar
Sem se incomodar
Vivem o momento que fica
Certos de que em tempo certo
A água irá secar
Mas já com algo dentro de si
A germinar…
O QUE EU QUERO
Tenho uma imagem de mim
Que se move, que se esconde
E que volta a surgir já diferente
Uma ideia ideal que tem vida própria
Que se aquece no Verão e recolhe no Inverno
Como se recolhe tantas vezes
A minha vontade com o frio e com o curto
Curtíssimo tamanho dos dias
Por vezes a imagem move-se mais devagar
Quando me concentro realmente nela
E consigo vislumbrar o que sou
E o que quero ser
Quando acontece, acontece sem data marcada
Como o seria com a passagem dos meses do ano
Mas em dados momentos e cada vez mais
Isto de me querer ver mais a fundo, ganha vida
E como toda a vida… creSCE
Todos os dias mudo
Sem alcançar a real amplitude das mudanças
E assim como não notamos
A passagem da infância quando somos crianças
De repente, notei que já não era
Como um vento que não vejo
Mas que súbitamente me tira o equilibrio
E me obriga a um gesto de protecção
Só que por mais abrigada que esteja
O vento passa na mesma
Tenho uma imagem de mim
Que mistura nas suas cores
Diferentes tonalidades
Conforme sinto e já senti
Tento firmá-la cá dentro
Numa tentativa sem fim
Para poder manipulá-la
Para transformar o esboço em obra bem feita
Tento,
Pois não pára quieta esta miragem
Que é viva
Sei onde quero chegar
Mas saber o “como” é inutil tentar
Perde-se o tempo e falha-se o momento
Por vezes consigo definir um traço
Uma forma, uma pequena parte
Que dá à musa na tela uma impressão diferente
Mais próxima do que quero
De mim própria
Entretanto vou vivendo
Sendo boa e má, fraca e forte
Corajosa e cobarde
Sendo humana,
Sentindo-me mais humana do que àqueles
A quem não conheço as falhas
Tentanto encontrar os tons certos
E dar-lhes a definição pretendida
E no dia em que morra...
(Óh Deus, já agora…uma morte bem morrida)
Poderei olhar a obra e sentir paz
Se a imagem na tela revelada
Mesmo que imperfeita
Ou inacabada
Me trouxer simplesmente
A realização de que fui fiel
Ao que senti que queria criar
Aquela que é
E que imagino que serei
Mas que seja de qualquer forma
E em qualquer formato
Verdadeiramente EU
VEJO-TE
Paraliticas demais para soltar
Quaisquer movimentos dotados de expontâniedade
Está cravada a forma da mais profunda cicatriz
De rigidez e introversão
Caminhas de cabeça em tombo
Ancorando os olhos ao chão
Os teus braços presos e extendidos
De tanta opressão já doridos
Teus punhos pesados, cerrados
Sem movimentos de oscilação
Apontam-se mudos ao chão,
Teus ombros teimosos se dobram
Seguindo a mesma direcção
Dirigem-se à terra que te cuspiu de um útero
Que teve de te cuspir
Por ti estarias ainda para ser
Afinal tanto te escondes que não és
Nunca foste
Criatura que se permite crescer
Planta que rasga a terra só para ver o que há mais além
Nunca foste
Tens medo de tudo
Pensas que tens medo dos outros. Não tens.
Tens medo de ti. De sair da tua concha. De ir por aí.
Sem uma rota traçada, préviamente estudada.
De preferência por outrém
Para que não te possas perder
Não confias na tua própria visão
Para caminhar e viver
Por mais clara e cristalina que essa visão possa ser
Sentes que o mundo é solidão
Por que não te permites ver
Manténs os olhos no chão
Até quando o vais fazer?
Se sozinho não consegues
Procura ajuda em quem te ame
Não tem de ser amor romântico
Só precisa de ser sincero.
As formas de amar são mais númerosas que as aventuras de Omero
Sim, deixa vir junto de ti a quem
Te deixe seguro e ao mesmo tempo te abane
Quem te toque o corpo e dê conforto
Quem te tire do centro e te escute por dentro
Procura quem te ame e deixa-te ir um pouco
Solta teu punho e dá uma mão
Permite que alguém espreite dentro de ti
E que como um espelho possa reflectir
Todas as coisas que em ti escondes
E que precisam de sair
E depois com jeitinho e dedicação
Te ajude no caminho sem ordenar direcção
Velhice ou Idosice ?
É um conhecido dizer
Mas confesso não perceber
A injustiça feita à palavra
Porque teve de aparecer outra?
A primeira ficou errada?
É velhice ou idosice ?
Ser velho não é bem nem mal
É uma condição natural
E se para nós é coisa ruim
Na verdade é apenas um sintoma
De doença cultural
Tempos houve em que ser velho
Era visto com respeito
Quando se chegava lá
Era tido como um feito
É velhice ou idosice ?
Ruga valia ouro
E em suas formas se via beleza
Agora se paga um tesouro
A fim de poder apagá-las
E quando aparecem no rosto
É sentido com tristeza
Conselho de velho valia
E era muito apreciado
Já agora, hoje em dia
Não vale um tostão furado
É velhice ou idosice ?
Portanto termino dizendo
Que a velha quero chegar
Eu não quero ser idosa
Essa semântica medrosa
É politicamente correcta
Mas pouco serviço faz
Aos que que usam a palavra certa
Negando a realidade encoberta
E não temem dizer a idade
Vendo nela o orgulho de quem
Depois da prova corta a meta.
Sofia Rocha Silva
EM COMBATE
O que ouvir não consigo
Aproximando-me lhe digo
Sou eu, o teu camarada
Dai-me a arma carregada
Vai descansar um bocado
Sobre esse chão enregelado
Aonde a cama é tão fria
Enquanto eu fico de vigia
Ao parapeito encostado
Não tarda que vai rebentar
Sobre o abrigo um morteiro
Aonde o meu companheiro
Ainda agora foi descansar
Vai-se um combate travar
Sem a demora de um instante
Zune a bala sibilante
É horrenda a fuzilaria
Todo este fogo se arrelia
De uma trincheira distante
E o canhão não se cala
Com o horrível bombardear
Vou meu camarada buscar
Debaixo de chuva de bala
Enquanto a granada estala
E deixa o ar embaciado
Pego no pobre mutilado
Com muito jeito o levanto
E já morto o deixo a um canto
Que serve de posto avançado
França, 18 de Abril de 1918
(Retirado do Livro "Um Poeta Nas Trincheiras" de Sofia Rocha Silva)
ANJOS DA GUARDA “DE LÁ E DE CÁ”
Na fonte de luz forjados
Quiseram os homens ser amados
Por outros homens como por vós
Presentes nos bons e maus momentos
Acompanhando, inspirando e acolhendo
Reconfortando e embalando
Ou para a acção exortando
E se por vezes não mais fazendo
Assim o é pois não os deixamos
E a solidão do leme abraçamos
Enquanto navegamos tormentos
Mas a vontade que respeitam é a nossa
A obrigação de a manifestar é nossa também
E quando por fim os acolhemos
Se rejubilam por aqui e muito além
E quando o vazio sentimos,
Não raras as vezes
Não é mais que a permissão
Que damos a nós mesmos
Para ir na corrente da dôr
Ignorando que a nós próprios
Primeiro devemos amor
Fechamos os olhos e não vemos
Que a companhia de quem refletimos no espelho
É de todas a melhor
Que assim o permitamos nós
Ainda que gozando a companhia dos outros
Mas sabendo sempre quem somos
E mais do que apenas acreditando
Na possibilidade da existência da luz
Possamos viver na certeza
Sentido, e apreciando a beleza
A cada dia também nós manifestando
E os “pequenos” milagres observando
Abraçando a realidade de ter
Junto de nós quem não cobra
Não nos julga e bem conhece
Abrindo os sentidos e os corações
Às suas comunicações,
que muitas vezes se traduzem
Em poderosas percepções
Abracemos a realidade de ter
Quem em luz e amor nos envolve
Dando coragem para a acção ou embalo
E trazendo a cada alma o regalo
Que a inteligente energia nos dá
No extâse da comunhão
Fechemos nós a porta à divisão
Da natureza do nosso ser
Entretanto experimentando a dôr terrena
E a sua aceitação
Resilientes contúdo e sem penas
Com o auxílio dos seres naturais
Oriundos da luz e consciência
Para ela guiemos nossa expansão
E em desafio porque não
Tomarmos hoje a decisão
De sermos também nós
Anjos da guarda para alguém
Que mesmo sem saber como ou quem
Em nosso auxílio possa encontrar
Aquilo que ainda não tem
Pode ser “pequena coisa”
Pois numa pequena oscilação
Um gesto retorna ao movimento
A quem já parou o coração
É que mais vale uma acção simples
De pureza enriquecida
Do que uma qualquer oração
Como ditado proferida
E por isso, sem substância
Oca e desguarnecida
Sofia Rocha Silva
Poesia Virulenta
Certo homem bem pragmático
E amante do racional
Homem directo e objectivo
Por certezas passional
Certo dia o certo homem
Tropeçou numa palavra
Virou a esquina e não a viu
POESIA
Sim, lá estava
A bandida no escuro se escondia
E o homem das coisas certo
Por acaso nesse dia
Seguia descalço de pé descoberto
E espetou no pé a poesia
Então um grito conteve no peito
Porque o não queria soltar
Isso não era coisa das coisas dele
E no peito a dor quis guardar
Mas aquilo parecia querer-se espalhar
E assim com o passar o tempo
Uma febre teimou em avançar
Soltava frases que ninguém entendia
Mas cujo sentido em seu peito ele sentia
Que raio era afinal aquilo
Isso ele não sabia
Mas a verdade era só uma
É que era viral aquela tal de poesia...
Sofia Rocha Silva
Dedicado ao meu amado ;)
MISTÉRIOS INSONDÁVEIS
Para quem ama a descoberta das verdades
Não há mistérios insondáveis
Há apenas momentos em que
Dependendo do estado evolutivo do ser
Essas descobertas são afinal, apenas mais ou menos prováveis...
Sofia Rocha Silva
Perfeito Ocasional
Eu sonhei que era perfeita
Em casa rotina Suíça
Desde o levante até à deita
E meu corpo nunca cansava
Nem minha mente se equivocava
Meus dois filhos eu educava
Com preceitos bem precisos
De acordo com as teorias aceites
Nas escolas e nos Juízos
Nunca falhava a refeição
E tinha a casa sempre num brinco
No trabalho nem um erro
Zero Dúvidas e Mil Sorrisos
Com o companheiro só amor
E nenhuma zaragata
E se comigo cruzasse qualquer estupor
Logo me sentiria grata
Que sorte saber perdoar
Qualquer falta do inergume
E assim quando lavava a alma
Nunca saía nenhum negrume
Também nunca sentia raiva
Ou frémito incómodo nas entranhas
Eu entendia toda a gente
Os bons, os maus e os patranhas
Claro que todos gostavam de mim
Que andava sempre contente
Agradava a Gregos e Troianos
A todo o mundo a toda a gente
Acordei cansada e toda suada
Quando me senti perceber
Que perfeita não sou afinal
Mas também não quero ser
Posso acordar mal humorada
Até ao ponto de assustar
Posso atrasar de manhã
Quando quero ir trabalhar
Já se meus filhos cometerem falta
Não sou muito de ralhar
Sou do género paciente
E explico o que tiver de explicar
E verdade até agora
Não deixou de funcionar
E se meu amor me zangar
É certo vou-lhe à jugular
Mas também sou mulher
Para com grande marotice
A seguir ao fazer pazes
Me deixar ir até aonde a fantasia nos levar
Também não gosto de toda a gente
E até posso perdoar
Só não esqueço as faltas sofridas
A fim de que a falta não volte a tornar
Também lamento a quem eu própria falhei
Afinal sou, humana a tempo inteiro
Pelo menos isso eu sei
Perfeita sonhei que era
Mas acho que sou afinal
Perfeita neste jeito de ser
De perfeição ocasional.
Sofia Rocha Silva
Comentários (10)
Oi Sofia, grande sensibilidade nos teus poemas. Parabéns
Muito Obrigada Wilson :) É sempre bom ter feedback.
Olá Sofia Gosto muto do seus versos Parabéns
Octaviano, que bom que gostou! Para além das descobertas que vamos fazendo sobre nós próprios, não há nada melhor que sentirmos que inspiramos alguém. Obrigada. Cumprimentos.
Inspiradora...
Português
English
Español
visitei a sua p[agina e gostei do que li....saudações...
Muito obrigada João! Já está a caminho :) Programado para o final do mês de Julho. Nessa altura actualizarei no perfil.
Parabéns, gosto da sua escrita, seria agradável ve-la impressa num livro.
José, Muito Obrigada! Fico feliz que goste :)
LIndos poemas!