Lista de Poemas
Vizinho ilustre
Nova Era é tão perto,
tão perto de Itabira,
que quase vejo Drummond
na Sêrro Verde
na Sêrro Azul.
Mas como vê-lo
onde ele nunca foi?
👁️ 725
Cara de pau
Hoje tirei o dia para pensar.
Pensar nas coisas que tenho para consertar,
os meus dentes, os dentes dos lá de casa,
os meus calos, aquele sapato furado (único que tenho)
a camisa social onde faltam dois botões,
o meu salário, ou melhor, a falta dele,
o emprego que não tenho,
o pagamento dos impostos em atraso,
as contas de água e de luz,
o cheque sem fundos do supermercado,
as roupas das crianças que já não lhes cabem,
as sandálias surradas da minha esposa,
a comida que não há na mesa...
Tanta coisa para consertar, tanta coisa para comprar,
tanta coisa por fazer, para por em dia,
mas este filho pai-d’égua tem que primeiro
tomar vergonha nesta cara suja!
👁️ 726
O morredouro
Na minha rua há um morredouro, quase como
aquele da Irmã Angélica de Bombaim.
Lá, tudo é miserável e não há enfermeiras,
só moribundos, decadentes, agonizantes,
cujas vidas não podem ser saciadas com
comidas ou remédios terrenos.
As paredes são descarnadas e pequenas valas
serpenteiam entre as enxergas,
um acúmulo de sangue, pus, escarros e lágrimas.
Tudo forma um quadro de pintura abstrata,
involuntária, de chãos e paredes multicores,
vermentos, com predominância do vermelho.
Cães comem pelos cantos e lambem as valas;
não é justo chamá-los de nojentos: não há
nojo em saciar a fome, há satisfação.
Vê-se uma sutil beleza naquela podridão,
naquele concerto de gemidos e lamentos.
Oh! Deus! Quando minhas pernas bambearem
estarei lá, adepto da loucura por algumas
horas, alguns meses ou até a hora extrema,
a critério dos vermes que, quase imperceptivelmente,
já me corroem as entranhas...
👁️ 651
Aborto
Baseado no depoimento de um casal arrependido
Ontem,
um tiquinho de nós se foi
sem querer, mas por querermos
e levou com ele nossa alma,
nossa vergonha, nosso pudor,
nossa fé e coragem.
Ontem,
um tiquinho de nós chorou,
lutou até o fim
e partiu.
Partiu os nossos corações,
venceu a nossa ignorância,
nossa imoral, nossa impiedade.
Ontem,
um tiquinho de nós se foi,
um tiquinho de mim, um tiquinho de ti,
uma promessa de amor e felicidade,
uma paz infinita...
Nós o mandamos embora
sem carinho, sem proteção.
Ontem,
um tiquinho de nós se foi
e levou TUDO de nós.
Hoje, amanhã e depois
e sempre
estaremos sós com nossa maldade.
Ontem,
matamos um tiquinho de nós
e morremos TUDO!
👁️ 835
Desatino
Olho-te e não te vejo.
Não és mais o que antes vi.
Procuro ver o que desejo
e desejo o que houve em ti.
Tudo é mudado, tudo é estranho...
Tudo difere do que vivemos.
A imaginar como fomos nos pomos
e tão alheios de nós nos percebemos...
À hora morta, é morto o riso
e do vento a ladainha nos ouvidos
insiste que o Amor é preciso
mas não adianta: estamos perdidos.
O tempo é escuro... a voz não fala...
No alvorecer dos belos dias
deixamos os sonhos. Nada nos abala.
Só nos resta agora a alma fria...
É mudo o meu ser mas não mudei.
Duas almas opostas no mundo.
Quando tu dormiste, acordei.
Vejo um corredor escuro e sem fundo...
👁️ 692
TAMtos mortos
+ Duas centenas +
De quem é a culpa?
Do homem-máquina?
Da máquina-homem?
Da máquina-máquina?
Ou de todo o maquinário?
E o que diz a caixa,
a caixa queimada,
a caixa “imune” à queda,
a preta caixa-preta?
Será que gritos, choros,
gemidos, ruídos,
frases entrecortadas,
palavras desmembradas
denunciam culpados?
De quem é a culpa?
Da chuva? Da pista?
Da torre?
De quem já morreu?
E a próxima culpa?
De quem há de ser?...
Minha? Tua?...
👁️ 774
Também quero cantar a mulher que amo
Também posso e quero cantar a mulher que amo, a mulher que quero, a mulher que sempre quis, mulher que sei um dia foi minha, a mulher de quem fui, a mais bela entre todas as mulheres. Posso e quero cantá-la como canto a terra, a água, as nuvens e o ar, assim como canto todas as pequeninas partículas de que é composta a natureza, as minúcias de que são feitas todas as coisas. Há para os outros, na mulher que amo, um mistério que só a mim foi concedido desvendar, pois ela, sabedora do meu amor e da minha paixão, com a sua generosidade me permitiu descortinar o finíssimo véu da sua natureza e me encantar com a incomparável beleza do seu sorriso, a apaixonante carícia das suas mãos, o enlouquecedor perfume da sua pele, a doce suavidade da sua voz, o inebriante sabor da sua boca. Esta mulher, na sua infinita bondade, me ofertou tudo isto e por tudo isto sou feliz. Eis as razões mais do que justas pelas quais senti e continuarei sentindo tanto prazer de cantar a cada segundo da minha vida a mulher que amo, a mulher que confessou estar me esperando, a quem eu confessei que sempre estive e continuo a esperar, a mulher que sabe que estou indo, a mulher que está vindo ao meu encontro.
Para nos encontrarmos no meio da estrada, estrada que sem ela tornou-se deserta. Pra nos encontrarmos e em algum recanto só nosso reconstruir a nossa vida. Eis as razões mais do que suficientes para que eu continue a cantar a mulher que amo, até que chegue finalmente o momento do nosso reencontro e o dia amanheça, e a manhã sorria, e os pássaros cantem, e o sol estenda seus raios sobre nós.
E a vida mais uma vez nos receba em sua morada
e nos faça eternamente felizes.
Para nos encontrarmos no meio da estrada, estrada que sem ela tornou-se deserta. Pra nos encontrarmos e em algum recanto só nosso reconstruir a nossa vida. Eis as razões mais do que suficientes para que eu continue a cantar a mulher que amo, até que chegue finalmente o momento do nosso reencontro e o dia amanheça, e a manhã sorria, e os pássaros cantem, e o sol estenda seus raios sobre nós.
E a vida mais uma vez nos receba em sua morada
e nos faça eternamente felizes.
👁️ 114
Sede
Um homem (?) tem sede, muita sede.
Sede quase insuportável. Seus lábios já estão
trincados e embranquecidos, a língua grossa, viscosa
e pastosa, os olhos, baços. É líquida e certa a única
alternativa contra o fim para este homem (?)
gerado, nascido e criado na mais inóspita das
regiões. Uma região labiríntica onde ele, agora,
vê-se completa e irremediavelmente só.
Água! Água! Água... água...
Inconscientemente refletida no embaciado olhar do
homem (?), ao longe uma mínima poça com algumas
gotas do líquido. Ele sabe que em outras regiões existe
água, muita água, água em abundância sendo mal
cuidada, desperdiçada, jogada fora. Mas só lhe basta
naquele momento a pocinha que ele parece ver,
um mental resíduo da água que lhe furtaram durante
a vida inteira. Rastejando, o homem (?)
tenta se aproximar da mínima fonte. Mas à sua frente
surge o vulto de um homem (!), este bem vestido e
com a fome e a sede saciadas. Este homem (!)
lhe promete ajuda para que aquela pocinha d'água
fique ao alcance dos seus lábios.
Mas ele terá que pagar pela ajuda. Sem ter algum
dinheiro, o homem (?) ouve que pode ser uma troca,
uma barganha, uma promessa. Uma promessa de
barganha, um juramento de troca e de entrega.
Naquele momento o homem (?) concordaria com
qualquer oferta, por mais insidiosa que fosse.
Ele já não via e no seu estado nem conseguiria
ver nenhuma outra forma de escapar.
Mas escapar do quê? Ele não percebia, a sede
não lhe permitia perceber qual seria o seu destino
ao "assinar" aquele acordo.
O único destino que a mente do homem (?)
descortinava era aquele caso ela não conseguisse
água. E naquela terrível situação ele não conseguia
mesmo decidir qual destino escolher.
Sede! Sede! Sede! Sede quase insuportável!
Os lábios trincados e embranquecidos, a língua
grossa, viscosa e pastosa, os olhos baços...
e uma minúscula pocinha de água naquela
árida imensidão.
E entre aquele homem (?) e a salvadora visão,
do líquida, um outro homem (!), esperando
pela resposta.
Diante de tal situação, o que vale a alma de um
homem (?) com os lábios trincados e embranquecidos,
a língua grossa, viscosa e pastosa, os olhos baços?
Sua alma valeria mais do que algumas
míseras gotinhas de água?
Sede quase insuportável. Seus lábios já estão
trincados e embranquecidos, a língua grossa, viscosa
e pastosa, os olhos, baços. É líquida e certa a única
alternativa contra o fim para este homem (?)
gerado, nascido e criado na mais inóspita das
regiões. Uma região labiríntica onde ele, agora,
vê-se completa e irremediavelmente só.
Água! Água! Água... água...
Inconscientemente refletida no embaciado olhar do
homem (?), ao longe uma mínima poça com algumas
gotas do líquido. Ele sabe que em outras regiões existe
água, muita água, água em abundância sendo mal
cuidada, desperdiçada, jogada fora. Mas só lhe basta
naquele momento a pocinha que ele parece ver,
um mental resíduo da água que lhe furtaram durante
a vida inteira. Rastejando, o homem (?)
tenta se aproximar da mínima fonte. Mas à sua frente
surge o vulto de um homem (!), este bem vestido e
com a fome e a sede saciadas. Este homem (!)
lhe promete ajuda para que aquela pocinha d'água
fique ao alcance dos seus lábios.
Mas ele terá que pagar pela ajuda. Sem ter algum
dinheiro, o homem (?) ouve que pode ser uma troca,
uma barganha, uma promessa. Uma promessa de
barganha, um juramento de troca e de entrega.
Naquele momento o homem (?) concordaria com
qualquer oferta, por mais insidiosa que fosse.
Ele já não via e no seu estado nem conseguiria
ver nenhuma outra forma de escapar.
Mas escapar do quê? Ele não percebia, a sede
não lhe permitia perceber qual seria o seu destino
ao "assinar" aquele acordo.
O único destino que a mente do homem (?)
descortinava era aquele caso ela não conseguisse
água. E naquela terrível situação ele não conseguia
mesmo decidir qual destino escolher.
Sede! Sede! Sede! Sede quase insuportável!
Os lábios trincados e embranquecidos, a língua
grossa, viscosa e pastosa, os olhos baços...
e uma minúscula pocinha de água naquela
árida imensidão.
E entre aquele homem (?) e a salvadora visão,
do líquida, um outro homem (!), esperando
pela resposta.
Diante de tal situação, o que vale a alma de um
homem (?) com os lábios trincados e embranquecidos,
a língua grossa, viscosa e pastosa, os olhos baços?
Sua alma valeria mais do que algumas
míseras gotinhas de água?
👁️ 140
PEDRA
PEDRA
Eu sempre pensei que fosse louco.
E muitas vezes me disseram que era mesmo,
pois eu tinha o hábito de falar com pedras
(pedras não falam, seu tonto, e blá, blá, blá...)
Mas todos estávamos enganados.
Admirar as pedras, sempre admirei,
principalmente as grandes pedras.
Aquelas paredes rochosas das escarpas,
muralhas protetoras das ribanceiras,
plutônicas e vulcânicas figuras
nos barrancos das estradas,
sisudas e altivas montanhas
branquejantes e acinzentadas
na geografia de Minas.
Atraem-me a sua imponência, a sua altivez,
a sua impassibilidade diante da ignorância
do homem e das agruras do mundo.
Ontem, sentado diante de uma grande pedra,
confessei-lhe da minha inveja
pela sua postura e sua inteligência.
Disse-lhe ainda da minha vontade de ser pedra,
livre do antagonismo humano, objeto imune
e indiferente à tristeza e à alegria.
A pedra me disse que eu estava enganado,
afirmando do alto da sua sabedoria
que ela era o ser mais feliz deste mundo.
Imagem google: Pedra Riscada, localizada em São José do Divino - MG, região que famosa por concentrar os maiores afloramentos de granito do Brasil.
Eu sempre pensei que fosse louco.
E muitas vezes me disseram que era mesmo,
pois eu tinha o hábito de falar com pedras
(pedras não falam, seu tonto, e blá, blá, blá...)
Mas todos estávamos enganados.
Admirar as pedras, sempre admirei,
principalmente as grandes pedras.
Aquelas paredes rochosas das escarpas,
muralhas protetoras das ribanceiras,
plutônicas e vulcânicas figuras
nos barrancos das estradas,
sisudas e altivas montanhas
branquejantes e acinzentadas
na geografia de Minas.
Atraem-me a sua imponência, a sua altivez,
a sua impassibilidade diante da ignorância
do homem e das agruras do mundo.
Ontem, sentado diante de uma grande pedra,
confessei-lhe da minha inveja
pela sua postura e sua inteligência.
Disse-lhe ainda da minha vontade de ser pedra,
livre do antagonismo humano, objeto imune
e indiferente à tristeza e à alegria.
A pedra me disse que eu estava enganado,
afirmando do alto da sua sabedoria
que ela era o ser mais feliz deste mundo.
Imagem google: Pedra Riscada, localizada em São José do Divino - MG, região que famosa por concentrar os maiores afloramentos de granito do Brasil.
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FELIZCIDADE
para Nova Era (MG), minha cidade natal

Quero voltar pro interior,
lá onde alguém me espera.
Levarei o meu amor
para uma Nova Era.
Voltar pra quem abandonei
e que não ficou abandonada,
pois lá ficou gente que a ama
e a deixou tão bem cuidada.
Vou pra pequena Nova Era,
onde ficou meu coração.
Cidade grande é quimera:
só tristeza e solidão.
Retomar minha raiz,
onde a alegria prospera.
Reencontrar gente feliz,
vivendo uma Nova Era.
Em nova planta reviver
naquela terra abençoada.
Ainda posso florescer,
renascer na alvorada.
Ver o verde da minha vida,
o sol no rosto do meu bem.
Aqui minh'alma está perdida:
há tanta gente e ninguém!
Ainda tenho a semente
aprisionada na solidão.
Basta quebrar esta corrente
e libertar o coração,
pra ter o que eu sempre quis,
paz, amor e identidade.
Viver e morrer sendo feliz
no seio da minha cidade.
Deus nunca me abandonou
(Ele sempre nos espera).
Reencontrarei com Ele o amor
lá na minha Nova Era.

Quero voltar pro interior,
lá onde alguém me espera.
Levarei o meu amor
para uma Nova Era.
Voltar pra quem abandonei
e que não ficou abandonada,
pois lá ficou gente que a ama
e a deixou tão bem cuidada.
Vou pra pequena Nova Era,
onde ficou meu coração.
Cidade grande é quimera:
só tristeza e solidão.
Retomar minha raiz,
onde a alegria prospera.
Reencontrar gente feliz,
vivendo uma Nova Era.
Em nova planta reviver
naquela terra abençoada.
Ainda posso florescer,
renascer na alvorada.
Ver o verde da minha vida,
o sol no rosto do meu bem.
Aqui minh'alma está perdida:
há tanta gente e ninguém!
Ainda tenho a semente
aprisionada na solidão.
Basta quebrar esta corrente
e libertar o coração,
pra ter o que eu sempre quis,
paz, amor e identidade.
Viver e morrer sendo feliz
no seio da minha cidade.
Deus nunca me abandonou
(Ele sempre nos espera).
Reencontrarei com Ele o amor
lá na minha Nova Era.
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Nasci em Nova Era, município mineiro vizinho da Itabira de Drummond e sempre imaginei que algum dia iria vê-lo - afinal, morávamos tão próximos... Mas, como ele me havia advertido bem antes, "tinha uma pedra n meio do caminho". Em 1987 o poeta viajou definitivamente, antes que eu pudesse remover a pedra.
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